stefanjohansson

O Bandeira Verde pode até tropeçar diante da falta de tempo de seu ditador, mas não capitula. Com as férias, poderei voltar a escrever um pouco. E nada melhor do que gastar impressões digitais, teclado, energia elétrica e tempo falando sobre uma das equipes mais interessantes que já apareceram na Fórmula 1. Interessante é pouco, aliás. Nenhuma equipe de Fórmula 1 me atraiu mais do que a finada Onyx Grand Prix.

Onyx? De modo geral, as pessoas normais sempre buscam torcer pelos melhores em qualquer esporte, incluindo aí essa estupidez conhecida como automobilismo. Fãs da Ferrari abundam em arquibancadas na Itália, no Brasil, no Canadá ou no casto Uganda. De uns anos para cá, o vermelho de Maranello vem paulatinamente perdendo um pouco de espaço para o azul e o amarelo da fabricante de líquido doce igual caramelo. Hoje em dia, os tradicionalistas ferraristas dividem assentos com os fãs neófitos da Red Bull. Há também os caras que torcem por McLaren, Mercedes, Williams, Sauber, enfim, pelos nomes mais tradicionais. Outros preferem ficar em cima do muro e apenas apreciar o espetáculo. Por fim, há as exceções, mas elas são apenas exceções. O pessoal quer mesmo é apoiar o que já está consolidado.

A explicação para isso é óbvia. Para a maioria das pessoas, não faz sentido torcer por alguém se esse alguém não tem chance nenhuma de vitória. Faz sentido. Pense na situação do pobre torcedor da Ponte Preta, aquele time cujo título mais importante é o de campeão da Série A2 do Paulistão de 1969. O pontepretano é tão infeliz e desgraçado que só veio a experimentar alguma felicidade nesse final de 2013, com seu time jogando as finais da Copa Sul-Americana contra o Lanús. Espero sinceramente que a Macaca ganhe, mas isso pouco importa. Torcer por um time que não ganha título algum ou por alguma equipe que não vença uma corrida sequer é mais do que um ato de fé e amor, é um verdadeiro ritual masoquista.

Então por que alguém estaria disposto a apoiar um eterno perdedor ao invés de se juntar à multidão vencedora, que bebe e pula a cada triunfo? Motivos há. Se eu tivesse nascido em Campina Grande, meu avô e meu pai fossem fanáticos pelo Campinense e tal, provavelmente acabaria me tornando mais um torcedor fiel do time. Outra razão é a questão da simpatia. Às vezes, um time pode ser uma verdadeira desgraça, pior que o Náutico, mas ao mesmo tempo muito mais admirável do que um time vencedor, organizado e antipático. Na Fórmula 1, isso ficava muito claro na época em que a Minardi fingia competir. A escuderia de Giancarlo Minardi era pequena, pobre, amadora, ridícula e tal, mas era composta por gente de verdade, italianos rechonchudos que falam alto, comem pasta, fazem o sinal da cruz e torcem pela Lazio. Então, muitos achavam mais interessante torcer pelos esforçados caras lá do fim do grid do que apoiar os arrogantes e burocráticos ferraristas. Carisma, às vezes, é tudo.

Mas por que a Onyx? Mil razões. Em primeiro lugar, o próprio nome Onyx, uma palavra bradada, forte, imperativa, ÔNICKS. Curiosamente, seu significado não é tão austero assim. Vamos à etimologia.

Na Grécia Antiga, a palavra “onux” significava “unha”. Sim, unha, aquela que você tem nos dedos do pé e odeia cortar. Segundo a mitologia grega, a deusa do amor Afrodite teve suas unhas cortadas por seu filho, o deus Eros, equivalente ao Cupido na mitologia romana. Essas unhas tombaram sobre a areia e se transformaram em gemas. A gema ônix, composta por dióxido de silício, costuma ser utilizada para esculturas e joias e é facilmente encontrada em solo brasileiro. Em inglês, seu nome é “onyx”.

Outra razão é a boniteza de seus carros de Fórmula 1, que será incansavelmente mencionada durante toda a série. Não há monoposto mais bonito do que o ORE-1, projetado por Alan Jenkins para a temporada de 1989. O formato “garrafa de Coca-Cola”, as linhas esguias, a combinação de cores, a inscrição da Moneytron, até mesmo os números 36 e 37, tudo isso compõe um dos pacotes estéticos mais interessantes que já surgiram no automobilismo.

A Onyx também era uma equipe que chamava a atenção, apesar dos pesares, pela competência dos homens que ali trabalhavam. Com pilotos como Stefan Johansson e J. J. Lehto, projetistas como Alan Jenkins e chefões como Mike Earle e Greg Field, não dá para dizer que a equipe teve problemas de material humano. Impossível compará-la com equipes verdadeiramente ruins que competiram na época, como a Coloni e a Eurobrun.

Por fim, um diferencial da Onyx em relação às suas concorrentes diretas da época é a total desorganização que marcou a curta história da equipe na Fórmula 1. Constantes trocas de diretoria, brigas, momentos de riqueza e ostentação alternados com dias de total pindaíba, polêmicas, promessas furadas e outros aborrecimentos que acabaram abreviando a existência de uma escuderia que poderia ter tido vida longa na categoria. Como meu negócio é ver o circo pegando fogo, não posso deixar de achar interessante a história de uma equipe dessas.

É por isso que eu gosto da Onyx. E é por isso que será ela, a Onyx, a próxima equipe a ser homenageada por este blog que tropica, mas não cai, nesses próximos dias. Prometo que a série não demorará tanto como a da AGS, que me tomou quase um mês para ser completada.

Então vamos lá, crianças da pátria.

Derek Bell, o primeiro piloto de Mike Earle

Derek Bell, o primeiro piloto de Mike Earle

Sussex, Inglaterra. Durante a Segunda Guerra Mundial, o pacato condado localizado no sudoeste do país se tornou uma das principais bases estratégicas dos militares ingleses na luta contra os inimigos do Eixo. Naqueles malucos tempos bélicos, o automobilismo não era exatamente a maior das prioridades do povão. Ninguém sequer imaginava, e nem se interessaria em imaginar, que a pequena cidade de Littlehampton seria o local de nascimento de um dos grandes chefes de equipe do esporte a motor da Inglaterra no dia 8 de março de 1940.

Mike Earle veio ao mundo numa época particularmente complicada para sua cidade e seu condado. Quatro meses depois de seu nascimento, vários pontos de Sussex foram destruídos por bombardeios na chamada “Batalha da Grã-Bretanha”, que envolveu as forças aéreas da Inglaterra e da Alemanha. Os ingleses venceram e a derrota significou o primeiro revés de Adolf Hitler na guerra. Os Earle sobreviveram ao conflito, permaneceram em Littlehampton e reconstruíram sua vida.

Mike cresceu, não enfrentou mais nenhuma guerra mundial e logo conheceu aquele que seria sua paixão e seu ganha-pão, o automobilismo. Seu pai bem que tentou convencê-lo de que esse negócio não daria certo e até abriu um pub em um hotel em Bognor Regis para que o garoto aprendesse alguma coisa sobre administração. Mas o cara não quis saber. Num primeiro instante, seu sonho era ser piloto de corridas e repetir o sucesso de compatriotas como Stirling Moss e Mike Hawthorn. Lá pelos vinte e tantos anos de idade, Earle passou a frequentar eventos menores de corridas em seu país. O jovem até pilotava com alguma destreza, mas percebeu que não chegaria a lugar algum quando, numa corrida em Goodwood, percebeu que nunca conseguiria acompanhar o desempenho de um garoto esquisito de Middlesex. Seu nome? Derek Bell, futuro astro dos protótipos.

Enquanto Mike Earle tentava se infiltrar nas corridas de alguma forma, seu irmão trabalhava como jornalista do The Bognor Post e, justamente por conta do ofício, sempre ganhava credenciais para cobrir os eventos automobilísticos. O problema é que ele detestava corridas e não fazia a menor questão de frequentá-las sequer para executar seu trabalho jornalístico. Coube então a Mike utilizar as credenciais não só para colher informações para o mano como também para ver até onde sua própria carreira no esporte a motor iria. Nessas de frequentar as corridas, ele acabou se aproximando de Derek Bell e até arranjou um emprego como chefe de sua equipe, a Church Farm Racing.

Numa época em que fundar uma escuderia não era a tarefa mais impossível do planeta, iniciativas familiares costumavam ser razoavelmente comuns. A Church Farm Racing era uma pequena e competentíssima estrutura que foi fundada por Bernard Hender, padrasto de Derek Bell, com o propósito inicial de dar um gás à carreira automobilística do garoto Derek. Ele ganhou um bocado de corridas na Fórmula 2 e atraiu as atenções de ninguém menos que Enzo Ferrari, que o contratou para disputar algumas provas de Fórmula 1 em 1968.

Mesmo após a saída de Derek Bell, a Church Farm Racing continuou existindo e Earle foi mantido como seu chefe de equipe. Em 1969, a equipe trocou a Fórmula 2 pela Fórmula 5000 europeia, um campeonato que, na época, era considerado tão supimpa quanto a própria Fórmula 1. O piloto que entrou no lugar de Bell foi o também britânico Peter Gethin, que até venceria uma corrida de F-1 no futuro.

O brasileiro Lian Duarte, um dos pilotos da BERT em 1972

O brasileiro Lian Duarte, um dos pilotos da BERT em 1972

Foi um ano doido e bem-sucedido, o de 1969. Gethin iniciou a temporada da Fórmula 5000 vencendo as quatro primeiras etapas a bordo de um McLaren-Chevrolet e abriu uma vantagem gigantesca para o segundo colocado. A Church Farm ficou tão animada com o sucesso que decidiu deixar de participar de algumas provas do certame europeu para se inscrever na F-5000 americana. Gethin não teve problemas de adaptação nos States e até ganhou uma prova em Lime Rock, mas logo todos perceberam que disputar campeonatos em dois continentes diferentes simultaneamente era um negócio inviável. Então, a Church Farm decidiu voltar para a Inglaterra para se concentrar apenas na Fórmula 5000 europeia. Por conta das corridas perdidas, Gethin perdeu sua grande vantagem e só assegurou o título na última etapa após um acidente com o rival direto Trevor Taylor e o retardatário Chris Warwick-Drake.

Em 1970, a Church Farm permaneceu na Fórmula 5000 europeia com a mesma estrutura e o mesmo piloto. Dessa vez, sem se atrever a disputar mais de um campeonato ao mesmo tempo, a esquadra permitiu que Peter Gethin vencesse oito corridas e ganhasse seu segundo título consecutivo na categoria. O sucesso era facilmente justificável: a Church Farm reunia um bocado de nomes que se tornariam importantes no automobilismo mundial nas décadas seguintes. Tom Wheatcroft era um dos patrocinadores, Brian Hart cuidava dos motores, George Brown acertava o carro e Mike Earle comandava toda a bagaça. Como a receita poderia dar errado?

Após tantas vitórias como chefe de uma equipe alheia, Earle começou a pensar se não valia a pena ele próprio montar sua escuderia. Então, Mike se juntou ao ex-piloto Rodney Banting e fundou a Banting and Earle Racing Team (BERT), que disputaria a Fórmula 2 com carros Pygmée em 1972. A Pygmée era uma pequena fabricante francesa de chassis que havia sido fundada em meados dos anos 60 pelo empresário Marius Dal Bo com a intenção única de ajudar a desenvolver a carreira esportiva do filho Patrick Dal Bo. Se o padrasto do Derek Bell pode, por que papai Marius não pode?

Por conta do acordo técnico e financeiro entre BERT e Pygmée, Patrick foi confirmado com um dos pilotos da equipe. Seus dois companheiros eram os brasileiros Lian Duarte e um tal de José Carlos Pace, que trazia o patrocínio do extinto Banco Português do Brasil. Apesar das promessas, o ano de 1972 não foi fácil. Os resultados foram escassos e os dois brasileiros chegaram a abandonar a equipe antes mesmo do final da temporada. Dal Bo, de forma milagrosa, conseguiu um ótimo quarto lugar em Thruxton, a única boa corrida da BERT em 1972. Acusações também existiram. Lian Duarte, por exemplo, chegou a insinuar que Earle e Banting eram dois chefes incompetentes que gastavam muito dinheiro com bobagens. Houve também quem dissesse que os recursos prometidos pela família Dal Bo jamais chegaram. Entre rumores e fofocas, o fato é que o primeiro ano de Mike Earle como dono de sua própria equipe não foi tão frutífero assim.

Sem dinheiro, moral e resultados, Earle decidiu fechar a BERT e recomeçar seu sonho do zero. Ele se juntou ao piloto David Purley e fundou em 1973 a Lec Refrigeration Racing, equipe que seria financiada pela empresa de refrigeradores da família Purley. Para cuidar do seu carro, Purley convidou seu amigo Greg Field, que se tornaria parceiro fiel de Earle nos anos seguintes. A Lec se inscreveu para o campeonato inglês de Fórmula Atlantic, em que competiria apenas com o carro de Purley. A ordem era não repetir os mesmos erros da BERT.

A nova formação deu certo. A bordo de um March-Ford, David Purley venceu três das dezessete corridas disputadas e terminou a temporada na terceira posição. Apesar do relativo sucesso, 1973 não foi um ano fácil para Purley, que assistiu de perto à morte do amigo Roger Williamson em um acidente no Grande Prêmio da Holanda de Fórmula 1. Mesmo assim, ele decidiu seguir em frente e continuou no automobilismo em 1974.

Naquele ano, a Lec passou para as mãos do americano Bob Harper, um cara que se mudou para Hong Kong ainda jovem e que ganhou dinheiro vendendo carros da Ford e da Lotus. Com isso, David Purley manteve-se apenas como piloto e Mike Earle foi rebaixado a diretor geral. Com bastante dinheiro, a nova Team Harper até conseguiu inscrever um carro extra para o austríaco Dieter Quester.

David Purley pilotando um Chevron de Fórmula 5000, categoria onde Mike Earle era um dos reis

David Purley pilotando um Chevron de Fórmula 5000, categoria onde Mike Earle era um dos reis

Mas não foi uma temporada tão fácil assim. Durante o ano, a equipe trocou o chassi March pelo Chevron e o motor BMW pelo Ford e depois pelo BMW novamente. Quester bem que tentou, mas não marcou nenhum ponto. Quem salvou a honra da Harper foi o próprio David Purley, que conseguiu terminar em segundo as corridas de Salzburgring e Enna-Pergusa.

Foi dessa forma que, pela segunda vez, Mike Earle quebrou a cara na Fórmula 2. Chega! Em 1975, ele e David Purley decidiram disputar apenas a Fórmula 5000 europeia, que era onde Earle havia conseguido seus melhores resultados nos tempos da Church Farm Racing. Com a saída de Bob Harper, Purley e Earle voltaram a ser os mandachuvas da equipe, que ressuscitou o nome Lec Refrigeration Racing.

Com um chassi Chevron B30, Purley teve uma temporada razoavelmente boa, mas não excepcional. Nas três primeiras corridas, ele conseguiu uma vitória em Brands Hatch e dois pódios. No entanto, a falta de confiabilidade de seu carro e os maus resultados em treinos classificatórios impediram David de obter grandes resultados na metade do ano. No fim da temporada, as coisas melhoraram um pouco com uma vitória em Outlon Park e uma pole-position em Mallory Park. Mesmo assim, não deu para conseguir nada melhor do que o quinto lugar no campeonato.  De qualquer jeito, um enorme avanço em relação aos tempos da Harper e da BERT.

Imagino que você, leitor enfastiado, já esteja cansado de tantas idas e vindas, de tantas mudanças de categoria, de proprietário, de nome e do diabo a quatro. Não abandone esse texto ainda. Em 1976, pela primeira vez, as coisas permaneceriam mais ou menos as mesmas. Mike Earle e David Purley continuaram juntos na Lec, que seguiria utilizando o chassi Chevron B30 na Fórmula 5000 europeia. OK, devo confessar, houve uma mudança: a categoria passou a se chamar Shellsport International Series. O nome ficou mais pomposo, mas o resto se manteve como dantes no quartel d’Abrantes.

A continuidade fez bem a Purley, que venceu seis das treze corridas e se sagrou o campeão da temporada. Para Earle, esse foi seu terceiro título no certame. Dessa forma, ele se tornou um dos mais bem-sucedidos chefes de equipe do automobilismo europeu de base naquela época. Depois do sucesso, o que faltava a ele e a Purley? Construir seu próprio carro de Fórmula 1.

David já tinha corrido na Fórmula 1 com equipe própria em 1973, mas o bólido utilizado havia sido um March-Cosworth. Dessa vez, ele queria ir um pouco além. A Lec era uma equipe minúscula que contava com apenas cinco mecânicos e um ajudante, mas os caras eram malucos e animados o suficiente para tentar construir sua própria máquina.  Naqueles dias, com alumínio e umas boas ideias, qualquer um podia tentar ser o novo Enzo Ferrari.

Mesmo sem tantos recursos como uma Lotus ou Ferrari da vida, David Purley foi à luta. Para projetar o carro, a equipe nomeou o engenheiro Mike Pilbeam, que já havia trabalhado na BRM e que foi o grande responsável pela melhora do chassi Chevron na Shellsport International Series. Em agosto de 1976, quando a Lec ainda estava brigando pelo título dessa categoria com o próprio Purley, Pilbeam se isolou na cidade inglesa de Bourne e começou a rabiscar os esboços iniciais do que seria o primeiro bólido de Fórmula 1 da marca de refrigeradores. Conforme o projeto ganhava vida, o engenheiro mandava instruções de engenharia e montagem aos mecânicos, que estavam localizados na vila de Bognor Regis, a 220 quilômetros de distância. Tudo era feito por telefone e fax.

David Purley e o carro de Fórmula 1 da Lec no GP da Bélgica de 1977

David Purley e o carro de Fórmula 1 da Lec no GP da Bélgica de 1977

Apesar da separação física entre engenheiro e mecânicos, as coisas caminharam muito bem. No início de 1977, a Lec já tinha pronto seu primeiro carro, o CRP1. Batizado com as iniciais do nome de Charles R. Purley, criador da Lec Refrigeration e pai de David Purley, o Lec CRP1 realizou seus primeiros testes em fevereiro nas pistas de Goodwood e Outlon Park, apresentando resultados bem interessantes. Mesmo com a grana curta e a falta de mão-de-obra, a Lec trabalhava direitinho e sabia pensar no futuro. Mesmo após ter aprontado o primeiro carro, Mike Pilbeam trabalhava no desenvolvimento simultâneo de dois novos bicos, um para pistas velozes e outro para as Yas Marinas da vida. No meio disso tudo, onde estava Mike Earle? Gerenciando todo o formigueiro.

A primeira corrida de Fórmula 1 da Lec foi a Corrida dos Campeões de Brands Hatch, uma daquelas provas extracampeonato que costumavam reunir os pilotos de Fórmula 1 que não tinham nada melhor para fazer. David Purley conseguiu o 13º lugar no grid de largada entre 17 carros, um resultado bastante razoável para uma escuderia novata. Na corrida, Purley sentou a bota, ultrapassou alguns rivais e acabou terminando numa excelente sexta posição. Não marcou nenhum ponto porque a corrida não valia porcaria alguma, mas pelo menos deu para sentir que o CRP1, equipado com motor Ford Cosworth, poderia ter algum futuro.

A Lec fez seu début oficial na Fórmula 1 no GP da Espanha, na época realizado naquela desgraça de pista que era Jarama. Pelo visto, a sorte havia ficado lá na Inglaterra: um diferencial quebrado no primeiro treino oficial e um motor estourado no segundo acabaram impedindo David Purley de se classificar para a corrida. Após esse fim de semana frustrado, a humilde turma preferiu não participar da etapa seguinte, o difícil GP de Mônaco, para ter mais tempo para consertar o carrinho quebrado e deixá-los nos trinques.

O CRP1 só reapareceu em Zolder, palco do Grande Prêmio da Bélgica. Dessa vez, David Purley conseguiu classificá-lo para a prova dominical, obtendo o 20º lugar no grid de largada. A corrida foi iniciada com pista encharcada e todos haviam partido com pneus biscoito. Em dez voltas, o sol voltou a raiar e quase todos voltaram para os boxes para calçar pneus de pista seca. Todos, menos David Purley. Que acabou assumindo a liderança por uma volta.

Todo mundo ficou embasbacado com aquele atrevido carro azul-escuro tentando permanecer o máximo de tempo possível numa pista que já não perdoava mais os pneus raiados. Sabendo que não tinha chance alguma em condições normais, Purley decidiu apostar que a tempestade voltaria e que ele seria o único espertão que não precisaria voltar aos pits para recolocar os compostos para chuva. Mas a natureza não colaborou e David foi engolido facilmente pela concorrência. Acabou terminando em 13º.

Nas duas corridas seguintes, David Purley não teve muita sorte. Em Anderstorp, ele largou em 19º e teve de superar um câmbio quebrado e intermináveis vibrações para conseguir terminar em 14º. Em Dijon, saiu da 21ª posição no grid de largada e abandonou a prova ainda na quinta volta após o carro, totalmente sem freios, ter escorregado rumo a um belo canteiro de margaridas.

A etapa seguinte foi o Grande Prêmio da Inglaterra, realizado em Silverstone. Naquele bucólico e agradável fim de semana britânico, as vidas de David Purley e Mike Earle acabariam tomando um novo rumo. No caso de Earle, um rumo que levaria, enfim, ao surgimento da Onyx Grand Prix.

Falo disso amanhã.

Sem tempo ou cabeça para ficar pensando em assuntos novos, o negócio é requentar ideias e resolver algumas pendências aí. Nos últimos tempos, recebi centenas de milhões de intimações de leitores furiosos perguntando “e o Calendário?”, “quando você vai voltar a falar sobre as pistas novamente?” e “é verdade que o senhor desviou 200 milhões de dólares para contas nas Ilhas Cayman?”. Ignorando a última pergunta, respondo aos nobres. O Calendário de 2011 está aí, firme e forte, e não vai acabar em 2013. Hoje, volto a falar de mais uma pista que vocês escolheram. Autódromo mais conhecido da Suécia, o assunto de hoje é o Scandinavian Raceway, vulgo Anderstorp.

Deixo claro que Anderstorp nunca estaria numa lista dos meus circuitos preferidos. Mas a democracia funciona assim, fazer o quê? O que não posso fazer, no entanto, é ignorar a história. O circuito sueco fez parte do calendário da Fórmula 1 entre 1973 e 1978, além de ter sediado o GP da Suécia de Motovelocidade em quase vinte edições. Nos últimos anos, ele recebeu provas do WTCC, da Fórmula Master e da Fórmula Renault. Infelizmente, não tenho conhecimento de nenhuma categoria internacional que esteja correndo por lá atualmente. Pena.

Verdade seja dita, a história de Anderstorp não é extensa, brilhante e nem atravessa guerras ou eras geológicas. Deve, certamente, ter muita coisa interessante, mas a documentação não é muita e quase tudo está em sueco. Um dos meus planos futuros é aprender a língua da SAAB, mas não para agora. Tento contar o que dá, portanto.

Era uma vez um empresário bigodudo de nome Sven Asberg que ganhava bastante dinheiro fabricando plástico. Este empresário havia criado em 1957 uma empresa chamada Industricom AB, sediada na cidade sueca de Linköping. Quatro anos depois, Asberg e seu pequeno império se mudaram para outra cidade, Anderstorp, um trocinho de nada localizado no sul da Suécia.

Duas das grandes paixões de Asberg eram os charutos e as corridas de carro. Nas horas vagas, enquanto não ocupava sua cabeça com assuntos da empresa, ele pegava seu Mustang e participava de algumas corridas amadoras. Numa dessas, ele conheceu Bertil Sanell, outro ricaço que também gostava muito de automobilismo. Os dois disputavam corridas juntos e até criaram uma equipe, a Team Mosarp. Era um esquema bem amadorístico e o carro que eles utilizavam nada mais era do que uma junção de peças de outros modelos. Mas dava pra se divertir.

Endinheirados, Asberg e Sanell começaram a viajar um pouco na maionese. E se a gente construísse uma pista de corridas aqui na Suécia? No verão de 1965, estavam os dois enchendo a cara de aquavit numa cafeteria chamada Bladhs e discutindo sobre a viabilidade da ideia. Mas, puxa vida, um circuito escandinavo de alto nível? Existia demanda para esse tipo de coisa na Suécia?

Ô se existia. Corridas internacionais no país existiam desde os anos 30, quando eram realizados o Grande Prêmio de Verão e o Grande Prêmio de Inverno, este último disputado sobre um lago gelado! Posteriormente, circuitos permanentes como o de Karlskoga foram erguidos, mas a verdade é que faltava um lugar mais adequado, mais moderno e mais ajeitado para realizar provas de alto nível na Suécia. O espírito empreendedor de Asberg e Sanell prometia resolver tudo. Mas será que só isso era o suficiente?

Faltava dinheiro para tanto, é claro. Mas a sorte sorriu para os dois abnegados. Um senhor estava ouvindo a empolgada conversa de Asberg e Sanell e decidiu meter o bedelho. Apresentou-se como Ake Bengtsson e disse que também tinha uma enorme paíxão, a aviação. Em seguida, disse que os sonhos dos três poderiam ser conciliados e propôs a construção de uma pista que pudesse comportar carros de corrida e aviões. O entendimento entre os dois amigos e aquele estranho foi bem rápido.

Mas Asberg era ambicioso o suficiente para assustar seu velho colega de corridas e seu mais novo amigo de cafeteria. Ele sugeriu a construção de uma pista de quatro quilômetros de extensão, o que arrancava risadas céticas de Bengtsson, que sabia que não havia dinheiro para isso. A resposta de Asberg foi ágil e certeira: nós não vamos pagar nada. Quem arcará com as contas serão os empresários.

Então, crentes de que encontrariam investidores para o sonho, os três mosqueteiros nórdicos seguiram em frente. Arranjaram um terreno de 1,2 milhão de m² e detonaram alguns explosivos para abrir a clareira necessária para a construção. Depois, Sven Asberg foi a várias empresas tentar oferecer uma parte da sociedade. Muitos riram de sua loucura, mas uma companhia de Värnamo decidiu dar uma colher de chá ao lunático e colocou algum dinheiro na empreitada. Outros empresários, então, decidiram fazer o mesmo. No fim das contas, Asberg acabou conseguindo os recursos necessários para erguer o circuito de Anderstorp.

Ronnie Peterson no histórico GP de 1973

As obras do futuro autódromo foram iniciadas em 1966. Após dois anos, tudo ficou pronto. No dia 16 de junho de 1968, o Scandinavian Raceway finalmente seria inaugurado. Mas é bom que se diga que a corrida prevista para aquele dia, um evento internacional de carros-esporte, não foi a primeira realizada. Alguns dias antes, de forma até meio secreta, uma prova experimental foi promovida com o intuito de preparar os fiscais de pista e verificar se tudo estava certinho para a tão esperada abertura.

A tal corrida de esporte-protótipos foi um sucesso e logo após sua realização, Sven Asberg deu uma entrevista coletiva afirmando que “em cinco anos, nós traremos a Fórmula 1 para cá”. Os jornalistas ficaram quietos por alguns segundos. Depois, trocaram o silêncio pelas gargalhadas céticas. Quem diria que a história riria deles depois.

Em 1971, Anderstorp recebeu seu primeiro GP de Motovelocidade, cujo vencedor das 350cc e das 500cc foi um tal de Giacomo Agostini. A pista era diferente daquelas que ainda recebiam a maioria dos grandes eventos internacionais. Curta, sinuosa e um pouco mais lenta do que a média, o Scandinavian Raceway era um destes autódromos de última geração que, de certa forma, tiveram alguma influência sobre os circuitos atuais.

O início dos anos 70 foi marcado, no automobilismo internacional, pelo surgimento de uma ótima geração de pilotos suecos. Gente como Reine Wisell, Conny Andersson e Torsten Palm assombrava os rivais nas categorias de base e alcançava a Fórmula 1 sem grandes problemas. Mas é óbvio que não dá para falar em Suécia e corrida de carro sem mencionar Ronnie Peterson, o cara que motivou a criação do GP sueco a partir de 1973, exatamente o ano previsto por Sven Asberg. O sucesso repentino de Peterson garantiu que daria para realizar um evento automobilístico rentável na Suécia.

Uma multidão de pessoas compareceu ao circuito de Anderstorp para assistir a uma vitória de Peterson, na época companheiro de Emerson Fittipaldi na Lotus. Ronnie fez de tudo para não decepcionar a galera: fez a pole-position e liderou até a penúltima volta, quando Denny Hulme aproveitou-se do fato de ter pneus em melhores condições e fez a famigerada ultrapassagem, ganhando uma corrida que acabou brochando todo mundo no final. Mas Anderstorp, apesar da péssima infraestrutura de comunicação para os jornalistas e da falta de locais de hospedagem na região, agradou a todos. Era um lugar bem mais seguro do que as Zandvoort da vida, embora o traçado não fosse dos mais emocionantes.

Anderstorp sediou corridas de Fórmula 1 até 1978. Este último GP entrou para a história da categoria por causa do “Fan Car” que a Brabham utilizou apenas ali. O carro, que dispunha de um enorme ventilador na parte traseira para gerar o máximo de downforce possível, era um foguete e ganhou a corrida sem grandes dificuldades com Niki Lauda a bordo antes de ser banido. Ronnie Peterson terminou em terceiro, para satisfação dos espectadores. Ele faleceria seis corridas mais tarde.

As mortes de Peterson e de Gunnar Nilsson, outro ídolo sueco no automobilismo, fizeram a popularidade das corridas despencarem na Suécia. Havia um GP de Fórmula 1 previsto para a temporada de 1979, mas alguns patrocinadores acabaram desistindo por causa da perda de interesse e os organizadores ficaram sem poder pagar os 500 mil dólares exigidos para a realização da corrida, que aconteceria no dia 16 de junho. E foi assim que Anderstorp desapareceu da categoria.

O autódromo sueco continuou recebendo corridas de carros de turismo e de categorias mais baixas de monopostos, mas as atenções principais passaram a ser voltadas para o motociclismo. A Superbike realizou duas corridas por lá em 1991 e em 1993. Já o Mundial de Motovelocidade compareceu em Anderstorp até 1990 e consagrou gente como Eddie Lawson (vencedor do GP da Suécia das 500cc em quatro ocasiões) e Freddie Spencer (vencedor por duas vezes).

Nos últimos anos, Anderstorp não andou recebendo tantos eventos assim. Ainda realiza corridas do campeonato sueco de turismo e chegou a sediar provas de Fórmula Master, do WTCC e do FIA GT, mas definitivamente está longe dos holofotes do automobilismo internacional. Não sou fã do circuito, mas não dá para não lamentar que ele esteja tão esquecido enquanto Valência, Ordos e porcarias afins são utilizados com tanta frequência.

TRAÇADO E ETC.

Como falei lá no distante primeiro parágrafo, Anderstorp não é aquilo que eu chamaria de “circuito favorito”. Longe disso. O traçado é curto, estreito, pobre e nada criativo. Lembra-me um pouco Barcelona, mas consegue ser pior. Emerson Fittipaldi costumava dizer que todas as curvas podiam ser feitas em terceira marcha, declaração que não empolga ninguém. Enfim, esta pista só aparece aqui no Calendário porque alguns doidos votaram nela há mais de um ano. Que tenham mudado de ideia.

A versão utilizada é a primeira, que existiu entre 1968 e 1974. A bem da verdade, a única grande diferença entre o primeiro traçado e o que é utilizado atualmente é uma pequena e discreta chicane construída na curva Norra em 1974 com o desagradável intuito de diminuir ainda mais a velocidade. Nos dez primeiros anos de existência, Anderstorp teve 4,018 quilômetros de extensão e apenas oito curvas, quase todas em terceira marcha. A única feita em velocidade mais alta era exatamente a Norra, uma perna feita em 90º à direita que finalizava a única grande reta do autódromo.

A média de velocidade era bastante baixa, ainda mais se considerarmos que se tratava de uma pista permanente. Em 1973, Ronnie Peterson marcou a pole-position com uma média de 172,590 km/h, superior apenas àquelas registradas em Buenos Aires e nas pistas de rua de Mônaco e Montjuïch.

As ultrapassagens eram muito difíceis, já que a pista era estreita e havia apenas uma reta grande o suficiente para favorecê-las. Em compensação, acertar o carro não era um grande problema, já que a velocidade não era muito alta e não havia tantas freadas fortes ou retas longas. O negócio era usar bastante asa, relação de marcha curta e suspensão mais dura. E partir para duas horas de puro aborrecimento.

Conheça aí os trechos:

RETA DOS BOXES: Uma reta curtinha, não muito larga e bastante sem graça.

STARTKURVAN: Ninguém precisa ser fluente em sueco para entender o significado do nome deste trecho: é o primeiro que o piloto encontra quando abre uma volta. Trata-se de uma curva embarrigada de 180° e raio médio feita à direita, lembrando um pouco a Tarzan de Zandvoort. Possui leve inclinação. É feita em terceira marcha sem grandes dificuldades.

OPEL: É um negativo da primeira curva. O conceito é o mesmo: curva embarrigada de 180° e raio médio, mas feita à esquerda. Também possui leve inclinação, o que permite que o piloto a complete com uma velocidade um pouco maior. E também é feita em terceira marcha. Se tivesse um nome “Startkurvan 2” ao invés desta porcaria de nome publicitário, seria melhor.

HANSEN: Opa, finalmente um trecho um pouco diferente. Antes do piloto entrar nesta curva de 90° feita à esquerda, ele atravessa uma reta um pouco mais longa do que a reta dos boxes. Na freada, ele esterça o volante à esquerda e engata, para variar um pouco, a terceira marcha. Apesar dos 90°, o formato da curva é circular, o que facilita um pouco a vida do piloto. Não oferece grandes desafios.

KARUSELL: Tenho de ser justo. Enna-Pergusa e Österreichring possuíam trechos parecidíssimos e eu vivo elogiando estas duas pistas. Esta curva é provavelmente a mais interessante do traçado sueco. Ela é bastante embarrigada, tem ângulo de 180° e raio bastante longo. Com leve inclinação, a Karussell é uma parte onde daria para acelerar um pouco mais. No entanto, como o asfalto não é dos mais aderentes, o piloto tem de estancar sua alavanca de câmbio na terceira marcha novamente. Mas bem que eu gostaria de ver um carro de Fórmula 1 contemporâneo passando por lá.

GISLAVED: Não é muito diferente da Hansen. Talvez seja um pouco mais lenta, o que também não muda muito as coisas. É uma curva de 90° um pouco mais fechada do que as demais e feita à esquerda. Por ser um trecho curto, pode ser feita em terceira marcha.

SÖDRA: Mais uma daquelas curvas arredondadas e levemente inclinadas de 180°. De raio médio, o piloto não precisa fazer muito mais do que esterçar à direita e largar o câmbio travado na terceira marcha. “Södra” significa “sul” em sueco.

RETA DO VÔO: Ela Com 800 metros de extensão, trata-se da a única grande reta de Anderstorp. Por ser também uma pista de aterrissagem de aviões, ela tem uma largura razoável. E o nome também acaba dispensando explicações.

NORRA: Praticamente a única curva do circuito que não é feita em terceira marcha. Veloz, ela tem angulação de 90° e é feita à direita. “Norra” significa “norte” em sueco. Infelizmente, ela foi modificada na reforma de 1974 a pedido dos pilotos e perdeu boa parte de sua velocidade.

LÄKTAR: A última curva do circuito também não se destaca muito. Lembra bastante o último trecho de Barcelona. É feita à direita, tem uma inclinação muito sutil e 90° de angulação. Adivinhe em qual marcha é feita.

Onboard com Mario Andretti em 1978.