Que dia, aquele 4 de março de 2001. No sempre verdejante autódromo provisório de Albert Park, alguns dos pilotos que repartiriam vitórias e títulos nos anos seguintes fariam suas tão esperadas estréias. Nos boxes da Williams, o mais badalado dos debutantes. Juan Pablo Montoya, campeão de tudo o que fosse possível até então, ganhou de Sir Frank o direito de pilotar um dos melhores carros daquela temporada. O colombiano, que havia vencido a Indy 500 e a CART havia pouco, era a grande arma nuclear latino-americana que a equipe de Grove havia trazido para aniquilar Michael Schumacher.

Mais adiante, se encontravam os boxes das equipes menos bonitonas. A Sauber velha de guerra era uma delas. Incapaz de inovar em qualquer outra área, a sempre conservadora esquadra de Peter Sauber buscou mudar tudo na dupla de pilotos. Mandou embora os velhos Pedro Paulo Diniz e Mika Salo e os substituiu pelo jovem Nick Heidfeld e pelo mais jovem ainda Kimi Räikkönen. Este branquelo de vinte e poucos anos, antissocial e seco como poucos, havia acabado de sair da Fórmula Renault britânica. Foi talvez a aposta de maior risco da história da Sauber. A melhor aposta.

Andando mais um pouco, alcançamos os boxes humildes e pequenos da Minardi. Esta estava toda renovada: dono novo, pintura nova, pilotos novos. Um deles era Fernando Alonso, um espanhol com apenas 19 anos cujo currículo se resumia a um título na Fórmula Nissan de seu país e uma única vitória na Fórmula 3000 em Spa-Francorchamps. Alonso era visto apenas como mais um piloto pagante e desconhecido que não faria mais do que uma ou duas temporadas na Fórmula 1 antes de descobrir que era melhor ter ido estudar. Todos estavam errados, é claro.

Uma corrida onde estrearam Fernando Alonso, Kimi Räikkönen e Juan Pablo Montoya não poderia deixar de ser chamada de histórica. Mas muita gente se esquece que houve um quarto estreante naquele dia. Tão discreto quanto Räikkönen ou Alonso, ele tinha as mesmas expectativas modestas e os mesmos sonhos distantes. Infelizmente, foi o único que não deu em nada na Fórmula 1.

Enrique Antônio Langue de Silvério e Bernoldi, cujo rocambolesco nome se reduz a Enrique Bernoldi para os mortais, foi certamente um daqueles muitos pilotos brasileiros de enorme talento que simplesmente desapareceram na história da Fórmula 1. Curitibano de safra 1978, Bernoldi chegou, não venceu, sequer marcou pontos e não deixou para trás uma legião de fãs. Mas marcou história em Mônaco, veja só.

Bernoldi estreou na Fórmula 1 em 2001 por intermédio da Red Bull, aquela mesma. Os taurinos ainda não eram tão fodelões a ponto de possuírem duas equipes na categoria, mas já apitavam muita coisa no destino de vários jovens pilotos. Enrique havia assinado com a Red Bull em 1999 para correr em sua equipe de Fórmula 3000. Fez duas temporadas por ela e perdeu muitos resultados bons por quebras de seu carro. Mas deixou uma impressão tão boa que a empresa concluiu que o brasileiro já poderia subir para o certame maior. Mas por qual equipe?

Em tese, ele deveria ter sido contratado pela Sauber, que era a equipe oficial da Red Bull na Fórmula 1. Mas Peter Sauber ficou apaixonado pelos olhos azuis de Räikkönen e largou o brasileiro no escanteio. Então, Bernoldi correu atrás da Prost. Fez alguns testes com o carro azulão e deixou Alain Prost maravilhado, mas o narigudo ficou ainda mais impressionado com os pesos argentinos ainda conversíveis de Gastón Mazzacane.

Havia sobrado apenas uma vaga, a de segundo piloto da Minardi, que vinha sendo disputada a tapa por pilotos tão esdrúxulos quanto Gianni Morbidelli e Tarso Marques. Enrique chegou a ligar lá para a equipe italiana e algumas conversas foram trocadas entre os dois lados. Mas a sorte, que nunca foi lá uma grande parceira, finalmente sorriu para o piloto do Paraná.

A Arrows de Tom Walkinshaw era uma coisa linda, mas não de Deus. Não que a equipe passasse lá tanta vergonha dentro das pistas, embora também não fosse a mais prestigiada das participantes. O problema maior era uma escandalosa tendência de não respeitar contratos sólidos como diamante. Mika Salo foi a primeira vítima deste comportamento sacana: ficou sem lugar para a temporada de 1999 faltando apenas poucas semanas para o início da temporada. O próximo que levou no rabo foi Pedro de la Rosa, primeiro piloto da equipe em 2000.

Graças à grana farta da petrolífera Repsol, De la Rosa foi o grande queridinho da Arrows até janeiro de 2001. Naqueles turbulentos dias, Walkinshaw endoidou e decidiu virar as costas para a Repsol, recusando uma proposta de renovação de contrato. Sobrou para o pobre do piloto espanhol, que viu seu contrato rasgado e transformado em pó.

Quem se deu bem foi justamente Enrique Bernoldi, que não demorou mais do que alguns dias para assinar o contrato de titular por três temporadas. Assinou a papelada e entrou na pista para seus primeiros testes imediatamente depois. Com o apoio da Red Bull, ele seria o quarto estreante da temporada 2001.

Não é do meu intento falar de toda sua passagem pelas Arrows. A única coisa que nos interessa aqui é aquele Grande Prêmio de Mônaco de 2001. Para muitos, apenas mais uma corrida lenta, apertada, burocrática e burlesca. Para Bernoldi, o dia em que ele fez alguns inimigos bem poderosos.

Enrique chegou a Mônaco esperando apenas cruzar a linha de chegada. Seu Arrows-Asiatech fracote e inguiável não agüentou chegar ao fim em cinco das seis primeiras corridas. Nada naquela carroça laranja e preta colaborava. A direção não era hidráulica. O motor Asiatech, que não era nada mais do que um Peugeot recondicionado, não fazia cócegas nos propulsores Ferrari ou BMW. O tanque de combustível era minúsculo. O controle de tração não funcionava direito. E a aerodinâmica era uma piada. Que beleza.

Para não dizer que a Arrows não tinha absolutamente nada de interessante, ela chegou a trazer uma interessante novidade aerodinâmica para o principado. Mas somente Jos Verstappen pôde utilizá-la, pois não havia como implantá-la em dois carros logo de cara. Tratava-se de um aerofólio extra que foi enxertado sobre o bico do carro. Era um trambolho alto e bizarro que os engenheiros juravam melhorar a aderência. Por questões de segurança, a FIA baniu o troço ainda na quinta-feira.

A vida numa equipe pequena é sempre difícil. Nos dois primeiros treinos livres, Bernoldi ficou apenas em 18º. Verstappen foi melhor em ambos, mas não tanto assim. No treino oficial de sábado, o brasileiro pegou tráfego em suas voltas rápidas e não conseguiu nada melhor que um 20º lugar no grid. Até mesmo a Minardi de Fernando Alonso largaria à sua frente. Ao menos, Enrique foi o segundo melhor brasileiro do grid: na última fila, estavam os compatriotas Luciano Burti e Tarso Marques.

Até aí, apenas mais um fim de semana aborrecido e sem perspectivas. Mas o domingo, 27 de maio de 2001, foi talvez um dos dias mais agitados da vida de Enrique Bernoldi.

Logo na volta de apresentação, um evento que, a princípio, pouco influenciava na vida de Bernoldi representou o primeiro ato do grande momento do paranaense na Fórmula 1. O McLaren MP4/16 do pole-position David Coulthard não saiu do lugar. Ficou ali, inerte. Um problema eletrônico no sistema de largada foi o responsável pela tragédia escocesa. Coulthard só conseguiu sair do lugar empurrado. Teria de largar dos pits. Para ele, o GP de Mônaco praticamente acabou ali.

Bernoldi, que não tinha nada a ver com isso, ganhou uma posição ainda na volta de apresentação. Na largada, ele conseguiu deixar o companheiro Jos Verstappen para trás e ainda herdou uma posição de Nick Heidfeld, acidentado na Mirabeau Bas. Ao completar a primeira volta, já era o 17º. Coulthard, o infeliz do dia, era o último.

O Arrows A22 não era lá um carro digno de qualquer coisa. No traiçoeiro traçado monegasco, Bernoldi lutava para manter o carro no traçado correto. Nem dava para sonhar em ser veloz. Somente um companheiro de equipe biruta como Jos Verstappen poderia fazer aquela carroça alaranjada andar. Na oitava volta, o holandês não tomou conhecimento e deixou Enrique para trás. O paranaense caiu para 18º. Para piorar, o tubo da garrafinha de isotônico havia arrebentado ainda na volta de apresentação. O cara teria de se virar sem qualquer fonte de hidratação. A saliva deve ter virado gelatina.

O próximo a ultrapassá-lo seria justamente David Coulthard, que havia recuperado algumas posições no maior sofrimento. A televisão começou a destacar o escocês. Todos tinham certeza que o McLaren ultrapassaria um por um na maior moleza, mesmo em um lugar apertado como sempre foi Mônaco.

Coulthard chegou rapidamente. Era apenas uma questão de pegar o vácuo na reta dos boxes, que não é bem uma reta, e deixar o carro da Arrows para trás. Ou na saída do túnel, do jeito que Nigel Mansell gosta.

David esperou por uma volta e nada. Esperou duas e nada também. Três. Quatro. Seis. Oito. Comentaristas e narradores começaram a destacar o que estava acontecendo. Mesmo pilotando um poderoso MP4/16, Coulthard não conseguia sequer se aproximar o suficiente para tentar ultrapassar o modesto A21 de Bernoldi. Se não se livrasse logo daquele indesejado carro laranja, David estaria condenado ao fim do pelotão até a linha de chegada.

Coulthard começou a se irritar. Tentava frear mais tarde, mas não havia jeito. Se Nelson Piquet disse que andar em Mônaco é como pedalar no corredor de casa, quem é aquele britânico com cabeça de Lego para tentar contrariar os fatos? Enquanto isso, a turma da Arrows fica em polvorosa. Os engenheiros ingleses da equipe, normalmente fleumáticos, berravam como se tivessem nascido em Nápoles. “Vai, Enrique! Vai! Porra!”.

Mesmo com um carro lento e desagradável, Bernoldi conseguia permanecer à frente de Coulthard com bastante destreza. A McLaren estava desesperada, pois via a corrida de seu piloto evaporar por causa de uma merda de Arrows. Mas não havia o que fazer. Reclamar para a organização do quê? Enrique estava apenas fazendo a mesma corrida dos outros 21, tentando obter o melhor resultado possível.

As voltas avançavam às dezenas e nada de David Coulthard conseguir ultrapassar. Somente os muitos abandonos permitiam que ele pudesse subir algumas posições. Mas o sonho de brigar com os dois pilotos da Ferrari já era. Necas. Era corrida para marcar um ou outro pontinho e olhe lá. Se aquela jabiraca alaranjada não saísse da frente logo, não daria para pontuar porcaria nenhuma.

Para aumentar ainda mais a humilhação para Coulthard, os líderes se aproximavam para colocar uma volta nos dois combatentes. Você consegue imaginar o que era para David, que vinha brigando pelo título com Michael Schumacher, tomar uma volta do próprio rival alemão? Pois foi isso que aconteceu na volta 26. O ferrarista se aproximou da McLaren e a ansiosa bandeira azul começou a ser tremulada. Coulthard nem devia saber para que servia aquele pedaço de tecido, mas teve de deixar o inimigo passar. E sequer conseguiu aproveitar a deixa para ultrapassar Bernoldi, que se mantinha à frente de forma exemplar.

Bernoldi e Coulthard se encontraram na volta 8. Sabe quando o escocês conseguiu deixar o brasileiro para trás? Apenas no fim da volta 42! Foram nada menos que 35 voltas de sofrimento para o piloto da McLaren, quase a metade de um GP de Mônaco. Tudo acabou em um pit-stop de Enrique Bernoldi. Como disse lá em cima, o tanque de gasolina era minúsculo. Por mais que quisesse continuar aborrecendo David Coulthard e a McLaren, não dava para seguir em frente. A grande diversão do dia acabou ali. Mas, olha, foi legal demais.

Coulthard estava possesso. Depois que se viu livre de Enrique Bernoldi, sua primeira volta com o vento na cara foi três segundos mais rápida. Pilotou como se não houvesse amanhã e ainda fez muito ao chegar em quinto lugar. Quanto a Bernoldi, sobreviveu aos muitos problemas que alijaram doze pilotos da disputa e terminou em nono. Para quem sempre retornava aos pits de motoneta, um resultado bom demais.

É óbvio que a McLaren não deixou por isso mesmo. Enquanto um esgotado Enrique Bernoldi voltava aos boxes da Arrows, alguns homens vestidos de cinza se aproximavam querendo confusão. No meio deles, um sorumbático e furioso Ron Dennis.

“O que diabos você estava fazendo aqui hoje”, Dennis indagou.

“Estou correndo, oras”, respondeu um Bernoldi sem muito saco para picuinhas.

“Sério? E você acha que segurar um dos líderes do campeonato daquela maneira é correr de maneira esportiva?”, retrucou Dennis, cuspindo fogo.

“Não fiz nada de errado”, insistiu o brasileiro.

“Olha aqui, cara. Se você não se comportar, eu acabo com sua carreira amanhã. Sou fodão o suficiente para isso”, ameaçou Ron Dennis.

Nunca pisem no pé de Ron Dennis, pois ele sabe ser calhorda como poucos. Assustado, Bernoldi correu ao chefe Tom Walkinshaw, outro tubarão, e contou tudo o que havia acabado de acontecer. Walkinshaw ficou doido de raiva e quis resolver à sua maneira com o chefão da McLaren. Os tubarões sabem falar a mesma língua, eles que se entendam.

Para consumo externo, Walkinshaw afirmou que a posição da McLaren era “inaceitável”. E que “não conversaria com Ron Dennis, pois ele não ouve ninguém e pensa que é Deus. Só quero encontrá-lo quando for pegar meu barco aqui no porto. Já que Ron é tão poderoso assim, vou pedir para ele escancarar o mar para eu passar”. É assim que os donos de equipes de Fórmula 1 se relacionam.

A portas fechadas, Tom Walkinshaw chamou Ron Dennis para uma conversinha pouco amistosa. “Ron, no dia em que você pagar os meus pilotos, você poderá dizer a eles o que devem fazer. Enquanto eu pago, mando eu. OK?”, proferiu o dirigente da Arrows. Dennis não reagiu. O recado estava dado.

Ninguém sabe se Ron Dennis realmente sabotou a carreira de Enrique Bernoldi, que realmente não vingou. O brasileiro saiu da Fórmula 1 no ano seguinte e andou disputando o FIA-GT no ano passado. Está aí, feliz e fazendo dinheiro com o que gosta. Quando ficar velho, poderá contar aos netos que já sambou em cima da McLaren. Poucos são aqueles que têm a oportunidade de tripudiar gente graúda.

Nos sessenta anos de Grande Prêmio de Mônaco (tá, é menos que isso, tivemos algumas temporadas nos anos 50 em que o principado não apareceu no calendário), muitos nomes se consagraram nos anais de Montecarlo, seja pelo número de vitórias obtidas, como Graham Hill, seja pela maneira como elas foram obtidas, como Maurice Trintignant, seja por ambos, como Ayrton Senna, ou simplesmente pelo imponderável, como Olivier Panis, sobre quem falei ontem. Sempre que se fala em Mônaco, são pilotos cujas lembranças são colocadas à mesa.

Existem, porém, aqueles caras que não chegaram a vencer e a ser cumprimentados pela noblesse monegasca, mas que mesmo assim, são bastante lembrados pela minoria que não olha apenas pela obviedade do lugar mais alto do pódio. Ou não, como diria Cléber Machado. Enfim, confiram quem são os homenageados pelo Top Cinq de hoje.

5- PIERRE-HENRI RAPHANEL

 

O argelino naturalizado francês com cara de Professor Girafales é o menos lembrado dos cinq desta lista. Mas pudera, o cara só competiu em um ano na Fórmula 1 e por equipes fracas como Coloni e Rial. Sem se destacar em quinze dos dezesseis fins de semana da temporada de 1989, não havia mesmo como ser lembrado. Houve, no entanto, um fim de semana em que ele apareceu bastante. Oui, monsieur, le principauté de Monaco!

Raphanel utilizava um antiquado Coloni FC-188B, uma atualização do precário carro do ano anterior. Como o argelino não havia sequer passado pela pré-classificação nas duas primeiras etapas de 1989, ninguém esperava nada dele. Mas como Mônaco é uma caixa de surpresas, eis que Pierre-Henri obtém uma surpreendente terceira posição na pré-classificação e consegue vaga entre os 30 que brigariam por vaga pelo grid. Até aí, nada de muito anormal. Raphanel era um piloto talentoso castrado pelo péssimo carro que tinha e Mônaco é uma pista que pode contemplar alguém nessa situação.

Mas eis que o milagre aparece no segundo treino de classificação, quando Raphanel fez o milagroso tempo de 1m27s011 e obteve uma improvável 18ª posição no grid. Nomes como Nelson Piquet (!), René Arnoux, Ivan Capelli, Johnny Herbert e seu companheiro Roberto Moreno ficaram atrás dele. Se o carro aguentasse, a corrida prometia.

Pierre-Henri largou e andou o tempo todo no meio do bolo. Os abandonos, como de costume em Mônaco, vinham a granel e ele até ganhou algumas posições, chegando a estar em 15º. Porém, duas voltas depois de subir a esta posição, o frágil câmbio de seu Coloni quebrou e a corrida terminou aí. Triste situação, ainda mais se considerarmos que se ele terminasse, considerando o número de quebras, Raphanel poderia até ter marcado os únicos pontos da história da Coloni.

4- ENRIQUE BERNOLDI

Dos quatro heróis, Enrique Bernoldi é o mais involuntário. Tão involuntário que, em termos, nem poderia ser considerado um herói, já que seu feito não foi tão impressionante como o dos outros quatro dessa lista. Sua aparição aqui é mais simbólica, pelo fato de ter peitado um piloto de equipe grande na edição de 2001, o escocês David Coulthard.

Tudo começou quando Coulthard, pole-position com sua McLaren, teve problemas com o controle eletrônico de largada e não conseguiu sair para a volta de apresentação. Como, porém, ele conseguiu ligar o carro posteriormente, o escocês pôde se posicionar na última posição do grid. No início da corrida, ele conseguiu passar Luciano Burti e Tarso Marques com facilidade. Porém, Enrique Bernoldi e seu Arrows se mantiveram implacáveis na disputa com o McLaren. Por 35 longuíssimas voltas.

Coulthard tentava de todas as maneiras colocar seu carro em posição de ultrapassagem, mas Bernoldi nunca deu uma única abertura sequer para a manobra do McLaren. Coulthard só ganhou sua posição quando o brasileiro foi para os pits.

Bernoldi não chegou a terminar a corrida. Porém, o paddock viu um misto de admiração e ódio pela atitude dele. Tom Walkinshaw, dono da Arrows, foi o primeiro a parabenizá-lo pelo feito. Por outro lado, Ron Dennis, dono da McLaren, ameaçou Bernoldi e até mesmo a continuidade de sua carreira na Fórmula 1. Nem foi necessário: apesar do seu talento, a Arrows foi a única equipe de Enrique na Fórmula 1.

3- MIKA SALO

Salo em 1998

O segundo Mika é um de meus pilotos preferidos. Além de extremamente talentoso, é um cara que não liga para nada. Bebe, fuma, fala bobagens, não liga para os jornalistas e diz que seu ídolo no esporte é James Hunt. Infelizmente, sua falta de compromisso e até mesmo de preparação física comprometeu uma carreira que poderia ter sido vitoriosa. Mônaco foi o palco onde Salo mostrou o quanto valia.

O finlandês marcou pontos por lá em nada menos que quatro ocasiões. Em 1996, nem chegou a terminar a corrida, mas por ter sido um dos últimos a abandonar, acabou sendo classificado como quinto colocado. No ano seguinte, Salo colocou seu nome na história da categoria como o único piloto a conseguir fazer uma corrida inteira sem parar nos pits na era dos pit-stops compulsórios. Tudo bem que choveu em Mônaco e o motor V8 de seu Tyrrell permitia um consumo menor, mas seu quinto lugar não deixa de ser notável.

Em 1998, Salo levou seu belo porém precário Arrows a um milagroso quarto lugar, à frente de Jacques Villeneuve e sua Williams. No ano 2000, andando de Sauber, ele terminou em quinto novamente, segurando Mika Hakkinen e seu McLaren durante boa parte da corrida.

São 9 pontos no total. Marcar pontos com Sauber, Tyrrell e Arrows em fases ruins é para poucos.

2- ROBERTO MORENO

Há quem ache este o maior feito da história de Mônaco. Vejamos.

Em 1992, Moreno só veio a encontrar um emprego na Andrea Moda, um pastiche de equipe composto pelos restos da Coloni e liderado por um magnata dos calçados, Andrea Sassetti. O carro da equipe, desenvolvido pela Simtek, era o S921 equipado com motor Judd. Uma bomba. Em condições normais, ele sempre sobrava na pré-classificação. Em Mônaco, a história foi diferente.

Logo na pré-classificação, ele deixou Andrea Chiesa e Ukyo Katayama para trás. Perry McCarthy, seu companheiro, não conta muito. Com a terceira posição, ele foi pro qualifying pela primeira vez no ano. E o milagre veio no segundo treino de classificação no sábado.

Moreno tinha exatamente quatro voltas para fazer um tempo que o colocasse no grid. Na última delas, ele obteve o temporal de 1m24s945, o que o colocava em uma posição confortável no grid, não me lembro qual. Ao voltar para os pits, todo mundo foi cumprimentá-lo pelo milagre, e os mecânicos da Andrea Moda não sabiam nem como comemorar. Moreno queria voltar para a pista para melhorar o tempo, mas o carro tinha problemas que não puderam permitir seu retorno. Alguns pilotos deixaram Moreno para trás, mas no fim das contas ele conseguiu se salvar na 26ª e última posição do grid. Em 27º, Eric van de Poele e seu Brabham, apenas 36 milésimos de segundo mais lento.

O milgare estava feito e a Andrea Moda participaria de uma corrida. No entanto, todo mundo sabia que o carro não aguentaria fazer a corrida inteira. De fato, o motor Judd do carro quebrou após 11 voltas, quando Moreno estava em 19º. Mesmo assim, uma atuação inesquecível.

1- STEFAN BELLOF

Esse é um dos caras mais celebrados da história do automobilismo, mesmo sem ter obtido uma vitória sequer na Fórmula 1. O motivo está nas suas excepcionais atuações, como esta em Mônaco, no ano de 1984.

Em 1984, Bellof fazia seu primeiro ano na Fórmula 1 pela Tyrrell. Distante das primeiras posições havia já algum tempo, a equipe utilizava um motor Cosworth DFY aspirado em um grid no qual quase todo mundo já usava os turbos. Como tentativa de reverter a situação, a equipe se utilizou de um artifício que levaria à sua desclassificação semanas depois: para correr com o peso abaixo do permitido, a equipe fazia um abastecimento de água e esferas de chumbo durante a corrida para fazer o carro atingir o peso mínimo. Não por acaso, os Tyrrell andavam bem em pistas mais lentas. Mas isso não tira o brilho da corrida de Bellof.

Stefan andou no meio do pelotão durante todo o fim de semana e largou apenas em 20º e último. Logo na largada, os dois Renault de Derek Warwick e Patrick Tambay batem, o que significava duas posições ao alemão. Mas ele também ultrapassou Teo Fabi, Piercarlo Ghinzani, Elio de Angelis, Johnny Cecotto, Riccardo Patrese, Nelson Piquet e François Hesnault em uma única volta! O resultado foi a 11ª posição.

A partir daí, ele só saiu por aí ganhando as posições de todo mundo. Na volta 27, ele já estava em terceiro lugar. Apenas o líder Alain Prost e o igualmente sensacional Ayrton Senna estavam à sua frente. Porém, o Tyrrell de Bellof estava muito mais rápido que o Toleman de Ayrton e a segunda posição parecia ser uma questão de tempo.

Mas a corrida foi interrompida na volta 31 devido à forte chuva, e talvez devido à uma disposição do diretor de prova Jacky Ickx, piloto da Porsche no Mundial de Protótipos, em ajudar a McLaren-Porsche. Bellof obteve aí seu único pódio na categoria e, naquela época, tanto reconhecimento quanto Ayrton Senna.