A verdade é que todos adoram odiar Bernie Ecclestone. O judeu, que tem 80 anos de idade mas aparenta ter uns vinte a mais, é o alvo no qual devemos mirar as pedras quando uma corrida não está legal. É claro que esta é uma verdade absolutamente superestimada, já que a culpa maior é das mudanças costumeiras e estúpidas nos regulamentos feitas pela FIA, até porque Bernie não tanto poder assim para concretizar suas maluquices. Mas é ele quem se expõe na mídia e a fama pegou. Portanto, taca pedra no Berninho, joga bosta no Berninho.

Na pré-temporada, a Fórmula 1 fica tão escassa de assuntos que qualquer coisa se torna pauta, desde uma declaração imbecil até mesmo uma fofoquinha ali e acolá. Ecclestone, nesse sentido, é sempre um dos sujeitos mais visados. Há pouco tempo, foi anunciado o lançamento de uma biografia sua, escrita pelo jornalista Tom Bower, que contará detalhes sobre a vida de um dos homens mais poderosos do esporte mundial. O livro apresentará detalhes sórdidos sobre sua vida privada, como as bolachas físicas e mentais que costumava tomar de sua ex-mulher Slavica, e sobre a vida alheia, como a tentativa de sabotagem de Fernando Alonso sobre Lewis Hamilton em 2007. Imperdível.

Nessa semana, Bernie voltou a proferir suas polêmicas de sempre. Sugeriu a transferência do GP do Bahrein para julho, em pleno verão na já normalmente escaldante monarquia. Disse que a Fórmula 1 não precisa de mais corridas na Europa, mas sim de corridas no Bahrein. Disse que o sistema de medalhas ainda seria adotado. E para completar, ainda sugeriu a criação de um sistema de pista artificialmente molhada para aumentar a emoção. Todos ficaram irritados. Sem razão, diga-se.

De tonto, Bernie não tem nada. Ele mesmo não acredita nessas coisas que diz, talvez com exceção do tal sistema de medalhas, e só o faz para irritar as pessoas e para aumentar um pouco sua audiência. É um gênio da autopromoção, em suma. A verdade é que Ecclestone sabe o que é bom e o que é ruim para o esporte, sempre contrabalanceando com o que é bom e o que é ruim para seu bolso. Se ele tomar uma medida esdrúxula demais, o risco de perder dinheiro e tempo é grande. Na verdade, ele também não gosta das regras atuais da Fórmula 1, impostas pela FIA, esta, sim, uma entidade não muito espertinha. E eu duvido que ele prefira lidar com um monte de sheiks malucos a ficar na sua Europa.

Já que Bernie Ecclestone é um sujeito tão peculiar, uma mistura britânica de Tio Patinhas com Andy Warhol, imaginemos: como seria a vida do sujeito? Fa-lo-ei aqui, devaneando um dia na vida de Bernie Ecclestone. Ainda com Slavica.

O despertador toca às 4h30 da manhã. Como um gato que acabou de ser atingido por uma golfada de água, Bernie abre os olhos rapidamente, acende as luzes e se levanta com a disposição de um atleta. Incomodada pela claridade, Slavica resmunga e coloca o travesseiro sobre a cabeça. A cama é king size, muito mais adequada ao corpanzil balcânico de Slavica do que à diminuta estrutura de Ecclestone. A casa, localizada em uma esquina do centro londrino, não é tão grande como poderia comportar o bolso do 212º homem mais rico do mundo. É bonita, mas 380 metros quadrados não a caracteriza como uma mansão. Foi uma escolha de Slavica, como sempre. Paciência, as mulheres mandam.

Bernie faz alguns poucos movimentos aeróbicos e segue em direção ao banheiro para lavar seu rosto e tornar sua cara um pouco mais aceitável perante todos. Sem apagar a luz do quarto. Slavica, em um inglês fluente mas carregado de sotaque, grita algo como “velho idiota, por que não apaga a porra da luz?”. O casamento vai mal, muito mal. Eles não fazem sexo desde que a Croácia de Slavica ainda fazia parte da Iugoslávia e o único gozo de Ecclestone é financeiro. Slavica é agressiva e impaciente. Bernie é egocêntrico e indiferente. Duas personalidades problemáticas, alguém diria. Mas quem, no íntimo, não é problemático?

Após lavar o rosto, ele vai à cozinha (sem apagar a luz do quarto, é claro; Slavica se levanta, a apaga e mostra o dedo do meio ao marido à distância) e prepara seu café da manhã. Homem apressado, Bernie já porta em suas mãos um smartphone, seu melhor e único verdadeiro amigo. O café é frugal: pão com manteiga, chá preto e algumas cerejas, nada que não demore mais do que cinco minutos para ser engolido. Enquanto devora o pão e beberica o Twinnings aromatizado com frutas vermelhas, Ecclestone acompanha os primeiros indicadores financeiros da manhã: variações das bolsas NYSE, Nasdaq, FWB, TSE e LSE, cotações cambiais, derivativos e análises de um monte de economistas importantes e prolixos… Enquanto você está aí, preocupado com a queda do seu time no campeonato estadual, Bernie se preocupa com a queda da cotação da libra esterlina.

Após fazer tudo isso em dez minutos, Bernie Ecclestone se isola em seu escritório, localizado ao lado do seu quarto. E que escritório! Três computadores de última geração, uma biblioteca com livros de economia, administração, marketing, psicologia, história da Inglaterra – e também alguns poucos sobre automobilismo –, caixas de som Harman Kardon, um telão para vídeoconferências, porta-retratos com fotos com Ayrton Senna e Jochen Rindt, um bico de uma Ferrari F2002 pendurado na parede, uma cafeteira Nespresso e um telefone Bang & Olufsen ornamentam aquele que seria o local de trabalho dos sonhos de muita gente.

Antes de começar o trabalho, lá pelas 4h45 da manhã, ele abre todos os jornais e agências de notícias na internet e os lê um por um: BBC, New York Times, Washington Post, Reuters, Economist, Times e por aí vai. Quando se lembra que há um esporte chamado Fórmula 1, ele dá uma passadinha pelo Autosport. E lê também um blog brasileiro, traduzido pelo Google Translator, cujo nome traduzido é Green Flag. Após saber sobre a situação política e econômica dos mais de 200 países do globo, é hora de começar a trabalhar… não sem, antes, ligar o som.

O Bernie é meio maluco, sabe? Ele não gosta de música, a não ser alguns clássicos. Durante todo o dia, suas Harman Kardon tocam Beethoven e Wagner. Ah, Wagner. As valquírias funcionam para qualquer pessoa de espírito minimamente grandiloquente. Hitler só conseguiu erguer o Reich com sua ajuda. Paulo Francis costumava dizer que Wagner era boa companhia após fumar um pouco de maconha – e seus gatos morriam de medo daqueles acordes iniciais. Sobe o som e é hora de começar a brincar de mandar no automobilismo.

Não tarda muito e as primeiras ligações começam a acontecer. Elas vêm da Ásia. O secretário de esportes do Cazaquistão quer porque quer uma corrida em Astana, capital do país. Bernie, não muito interessado, disse que veria o que faria. Um dos militares que compõem a junta que governa Myanmar também ligou pedindo para sediar a última corrida do campeonato em um circuito novíssimo a ser construído na região norte do país. O autódromo faria parte de uma região turística a ser construída e custaria cerca de um bilhão de dólares. Ecclestone ficou muito feliz em saber que a Fórmula 1 poderia ir para Myanmar e agendou uma reunião para dezembro de 2011.

Conforme amanhecia, as ligações começaram a vir também da Europa e do Oriente Médio. Malta, Iêmen e Lituânia também ligaram pedindo por uma corrida. Secretários espanhóis imploraram pela diminuição das taxas de realização das suas duas corridas. Um funcionário de alto escalão de Mônaco o convidou para seu casamento. Flavio Briatore ligou também. Este liga todo dia. Os dois são amigos até que uma polêmica os separe.

Mas Bernie também faz suas ligações. Ele liga para quase todas as equipes todos os dias. Os ferraristas só reclamam. Dizem que a Ferrari é a mais importante de todas, que ela merece mais dinheiro dos direitos televisivos e mais um monte de lamúrias. Italianos… Os ingleses da McLaren não são de falar muito. As equipes menores só reclamam dos seus problemas. E Frank Williams sempre pede discretamente por uma ajudinha ou um contato com alguma grande empresa. Bernie não dá muita bola para o que as equipes dizem. Se uma sair, outra entra e tudo segue numa boa.

Ecclestone é compenetrado no trabalho. Não abre MSN, não manda correntes para seus contatos, não vê sites de esporte, não vê sites pornô, não abre o Youtube, não joga, não faz nada que não tenha uma mínima utilidade profissional. Após passar a manhã na frente do computador, ele vai almoçar na cozinha. Slavica está lá.

Na geladeira, há uma torta de rim, típica iguaria inglesa, da semana passada. Bernie não reserva muito tempo para comer, algo que ele considera praticamente inútil para alguém de sua idade. Ele esquenta o acepipe no micro-ondas e se senta com Slavica. O diálogo começa com ela:

– Vou ao shopping daqui a pouco com umas amigas minhas.

– É o que você sabe fazer.

– Alguém tem de gastar o dinheiro que você se preocupa tanto em ganhar.

– Ainda bem que eu ganho. Senão, você estaria tomando sopa de batatas lá no seu fim de mundo da Croácia com um marido bêbado e desempregado – sentencia, Bernie, sempre muito calmo.

Slavica olha enfurecida para os olhos do marido, joga seu prato no chão e sai sem dizer uma única palavra. Sem conseguir comer muito, Bernie pega um pão, um pedaço de queijo gruyère, manda tudo para dentro e sai. Dessa vez, ele pega seu casaco. Chega de ficar em casa.

Bernie entra em seu Bentley Continental e segue para seu escritório da FOM, Formula One Management. Por lá, ao menos, há algumas secretarias novinhas e um clima um pouco menos carregado. Mais ligações e e-mails à tarde. Há uma televisão de Fiji querendo adquirir os direitos de transmissão. Um banco com sede nas Ilhas Virgens que quer comprar algumas ações da Slec, empresa que detém os direitos de transmissão. Uma cadeia de fast food americana que quer patrocinar o GP da Coréia. Um empresário eslovaco que quer viabilizar a criação de uma equipe de seu país. Assuntos assim são rotineiros para Bernie Ecclestone. Como 90% deles não são sérios ou são escusos demais, o judeu nem leva estas intenções para frente e nunca ficamos sabendo.

A vida dele segue assim até a parada para jantar, lá pelas 11 da noite. Nesse momento, ele saca uma latinha de feijões em conserva, esquenta no micro-ondas da copa e devora em poucos minutos. Bernie sai da sede da FOM lá pela meia-noite, quando já não há mais sinal de qualquer viv’alma por lá. Chega em casa, está tudo apagado, Slavica já está dormindo há algum tempo. E o que Bernie faz?

Entra no escritório novamente e fica trabalhando. De madrugada, é um bom horário para falar com os australianos e os japoneses. Naquele dia, no entanto, eles não ligam. Então, Ecclestone fica até as duas da manhã se divertindo da maneira que mais gosta: lendo mais notícias da Economist e do New York Times…

Depois, ele chega no quarto, acende a luz (Slavica acorda e o manda tomar no cu, dessa vez em croata) e se veste com o pijama dado de presente por Briatore em seu 78º aniversário. Pijama da Benetton, coisa chique. Satisfeito com sua vida, Ecclestone adormece como uma criança. Ao seu lado, sem conseguir recuperar o sono, Slavica range os dentes e espera pacientemente por um ataque cardíaco fulminante em seu cônjuge.

E era assim quase todo dia.

P.S.: Os personagens podem ser verdadeiros, mas a história é totalmente ficcional e nada tem a ver com a realidade. Portanto, se por acaso você, Bernie, estiver lendo isso aqui no Google Translator, não se sinta ofendido e nem me processe. Não tenho grana e nem tenho algo contra você!

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