Sem grandes vontades de buscar assunto. Sigo minha coluna ficcional. Ou nem tão ficcional assim.

Helsinki, domingo de folga qualquer. O sol batia tímido, como é costume em toda a Escandinávia. Na verdade, fazia um frio de congelar os pés do diabo lá fora. O orvalho congelado havia formado uma fina camada branca e homogênea sobre os carros, as caixas de correio e os toldos. As criancinhas, gorduchas e brancas como um lençol recém-lavado, andavam pelas ruas com gorros avermelhados e jaquetas de lã impermeáveis. O calor, tanto humano quanto físico, é incomum na capital finesa.

Em uma grande casa no subúrbio da cidade, dorme um casal de fama razoável em seu país. Ela é modelo e foi eleita a Miss Escandinávia em 2001. Ele é piloto de corridas, talvez um dos melhores da atualidade. É quase dez da manhã e Jenni Dahlman e Kimi Räikkönen ainda estão completamente adormecidos sob dois ou três cobertores 100% algodão. O despertador toca no celular de Jenni, música besta da Lady Gaga. Acordar no frio é um martírio, mas os finlandeses já estão acostumados. Jenni abre os olhos, se espreguiça e cutuca seu marido. Kimi, acorda!

O ex-piloto da Ferrari ainda dorme, com direito a um ronco grave, constante, sôfrego e desagradável. Sua mulher vai ao banheiro, lava o rosto, desce para a cozinha, prepara cereais com leite, suco de laranja e alguns ovos mexidos. Abre o jornal, dá uma folheada em algumas seções mais inúteis e toma seu café calmamente. Cadê o Räikkönen? Ainda dorme.

Jenni sobe, entra no banheiro e toma um banho demorado. Depois, coloca uma roupa, enfia uma bota de couro nos pés gelados, ajeita o cabelo, passa alguma maquiagem e muito perfume. Praticamente pronta para um desfile. Do horário que acordou até aí, mais de uma hora havia se seguido. Enquanto isso, Räikkönen dorme. Parece dormir até mais profundamente que o normal. Ela se irrita, chega na cama e tira os cobertores. Naquele frio indecente, qualquer um acordaria imediatamente.

Mas não Räikkönen. Então, maldosamente, Jenni pega um copo de água e despeja lentamente sobre o pé do marido. Aí não tem jeito: até mesmo o Chacrinha se levanta da catacumba. Ele desperta bruscamente, como se uma bomba nuclear tivesse estourado no quarto ao lado. Olha para os lados, pega o celular, vê o calendário e faz cara feia. É hoje.

Barbara, a melhor amiga de Jenni, iria viajar para a Sibéria com o marido por alguns anos e decidiu dar um almoço como despedida. Além de Jenni e Kimi, estariam lá mais algumas outras amigas em comum. Não havia outros homens: somente Kimi foi chamado, até porque o marido da Barbara gostava muito dele. Só que o apreço não era recíproco: Räikkönen o odiava. Este cara, Tommi, era um contador que não bebia, não fumava, não falava palavrão, só contava piadas sem-graça que ele escutava na repartição, sorria o tempo todo e ainda tinha uma risada horrível e desagradável. Era um babaca, um mala, um sujeito burocrático de existência dispensável.

Kimi, como não poderia deixar de ser, estava de péssimo humor. Ao entrarem no carro para uma viagem de algumas dezenas de quilômetros, Jenni, que estava dirigindo, deu os avisos indispensáveis ao marido antissocial:

– Kimi, por favor, não me faça passar vergonha lá com as minhas amigas.

– Vai ter bebida?

– Claro que não. A Barbara e o Tommi são cristãos ortodoxos, não bebem.

Paska!

Paska é um palavrão. Mas poderia haver uma salvação. Kimi enfiou a mão no bolso de sua jaqueta e… não achou nada.

– Antes de você acordar, eu tirei seu cantil de vodca de bolso e guardei. Você não vai beber lá em hipótese alguma.

O mau-humor aumentou, é claro.

O casal-celebridade chegou à casa de Barbara. As amigas já estavam lá, e todas estavam interessadíssimas em Räikkönen. Evidente que o motivo não era seus cabelos loiros e seus olhos azuis (atributos que não representam exatamente um grande diferencial na Finlândia), mas sua fama e sua grana. Jenni não se importava, pois sabia que o marido a amava tanto quanto amava uma boa dose de Blue Label. Barbara, loira alta de sorriso marcante, estava lá na porta. Tommi, o marido certinho e enfadonho, também. Só faltavam vocês dois, Jenni!

Kimi entrou, sempre de cara feia. Ninguém estranhou, já que Räikkönen nunca foi conhecido pela extroversão e pela alegria contagiante. Os dois se sentaram em um sofá da sala e vocês podem imaginar o restante. Um monte de mulheres falando sobre assuntos tão interessantes quanto a última coleção da Prada ou o corte de cabelo da presidenta Tarja Halonen enquanto tomam refrigerante diet e comem alguns petiscos de nozes e tomate seco.

Kimi só mexe no celular. Ele manda uma mensagem ao seu único amigo dos tempos de Fórmula 1, Peter, um mecânico que trabalhou com ele na Sauber e que atualmente trabalha nos Estados Unidos. “Peter, morri e vim para o inferno. Reunião de amigas chatas da minha mulher, sem bebida. Anexa uma garrafa de aquavit quando responder!”. Ao perceber, Jenni toma o celular da mão do marido e sussurra em seu ouvido “se continuar assim, vai ficar sem sukupuoli esta noite”. Räikkönen faz muxoxo e fica olhando para baixo. Apelar para o sukupuoli é maldade.

Enquanto isso, o sempre estupidamente sorridente Tommi só olha empolgado para Kimi e tenta puxar papo com seu pretenso amigo famoso.

– Como tá a vida no Mundial de Rali?

– Normal.

– É mais legal correr lá do que de Fórmula 1?

– Sei lá, deve ser.

– Hahahaha, Kimi, você é demais! E os outros pilotos finlandeses?

– Ahn?

– Você é amigo deles?

– Não.

– O que você achava do Schumacher?

– Ahn?

– Do Schumacher.

– Sei lá. Nada.

– Hahahahahaha! Kimi, você pode assinar um autógrafo para o meu sobrinho? Ele torcia muito para v…

– Licença, vou fumar lá fora.

Fumar? Jenni intervém:

– Mas, Kimi, você não f…

– LICENÇA, VOU FUMAR LÁ FORA.

Räikkönen se retira da sala e vai lá para o quintal. Ele não fuma. Isso é, ele não fuma há algum tempo. Antes de estrear na Fórmula 1, dois maços por dia eram religião. Peter Sauber e um médico chato da equipe suíça o encheram tanto o saco que Kimi acabou parando. Após deixar a Fórmula 1, ele até tentou voltar a fumar, mas sua mulher não deixou. Na verdade, o cara só queria ficar lá fora para se livrar daquela mulherada chata e daquele contador maldito e idiota, que vai morrer sendo um carola que nunca fez mais nada na vida além de analisar balanços.

Mas eis que, de repente, surge a salvação.

Enquanto andava pelo quintal, Kimi acaba observando, de soslaio, um moleque jogando videogame. Guitar Hero. O tal garoto é filho de Barbara. Os olhos forçosamente sóbrios de Räikkönen imediatamente brilharam. Guitar Hero é seu jogo favorito. Ele entra pela porta dos fundos, adentra o quarto e:

– Você está jogando Guitar Hero?

Imediatamente, o garoto empalidece:

– K-KIMI RÄIKKÖNEN?!

– Sim. Posso jogar com você?

Maravilhado, o menino empresta um microfone. E o show começa.

I’m on the highway to hell, highway to hell…

Lá na sala, o pessoal estranha a voz mais grossa que canta o clássico do AC/DC lá no quarto. Voz de adulto. Jenni desconfia. Segue para o quarto e dá de cara com seu marido berrando no microfone de brinquedo, enquanto o garoto toca a guitarra. Belo dueto, mas a esposa do piloto não ficou contente. Na verdade, pelo seu semblante, não haveria sukupuoli por uns dois anos.

Jenny conhece o marido e sabe como lidar com ele. Sem despender uma única palavra, olhou de maneira gélida nos olhos do marido, ordenando-o mentalmente a sair daquele maldito quarto e a parar de agir como uma criança mimada e antissocial. Kimi conhece a mulher entendeu a mensagem. Paska!

No carro, sempre conduzido por Jenni, o diálogo:

– Porra, Kimi, não poderia ter se comportado pelo menos hoje?

– Estava tudo chato, eu fui me divertir com o garoto. Qual o problema?

– Qual o problema?! Você não tem sete anos de idade! Você deveria estar lá comigo! As minhas amigas estavam todas estranhando e dando risada da situação!

– Hunf.

– Você sabe, não vai ter sukupuoli por uma semana. E tem mais: eu acho que…

Para sorte de Kimi Räikkönen, o carro passava em frente ao seu boteco preferido. Alguns de seus amigos estavam lá, como sempre acontece nos domingos.

– Para o carro que eu vou descer aqui.

– Mas eu estou fal…

– Para o carro, Jenni.

Jenni conhecia o marido. Não adiantava discutir com ele, pois Kimi estava pouco se lixando. Como o privilégio de ter um marido rico e famoso vale qualquer coisa, ela não esboçou reação e deixou ele ir em paz.

Despreocupado, Kimi desceu do carro e entrou direto no boteco. Agora, sim! Estavam lá todos: Mika, Juhani, Mika, Jari, Junni, Mika, Kai e Mika. A vodca era abundante, assim como as risadas e os palavrões. Räikkönen havia acabado de subir diretamente do inferno para os céus.

A turma bebia garrafa atrás de garrafa. O mais bizarro é que, conforme as garrafas se esvaziavam, Kimi se transformava em um sujeito doidão, extrovertido, risonho e completamente babaca. Após horas de bebedeira, a turminha do barulho saiu para dar umas voltas na cidade. Quebraram algumas vitrines, roubaram placas e Kimi até pichou um “MORRA, LATVALA” em referência ao colega do WRC que ele não gostava por motivos obscuros.

Depois de conduzido a uma delegacia e liberado por ser quem é, Kimi Räikkönen voltou bêbado, sujo de vômito, com a roupa rasgada e a cara vermelha para casa. Jenni já estava na cama, mas não dormia. Queria bater um papo com o marido.

Kimi adentrou o quarto, tirou a roupa e caiu direto na cama. Imediatamente, a mulher tratou de reiniciar a discussão:

– Kimi, nós precisamos conversar. Eu…

– RONC!

P.S.: Os personagens podem ser verdadeiros, mas a história é totalmente ficcional e nada tem a ver com a realidade. Portanto, se por acaso você, Kimi, estiver lendo isso aqui no Google Translator, não se sinta ofendido e nem me processe. Não tenho grana e nem tenho algo contra você!

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