Há algum tempo, fiz um texto imaginando como deveria ser a miserável vida de Bernie Ecclestone, o supremo da Fórmula 1. Até que os leitores gostaram. Então, decidi criar uma série nova. Em dias nos quais não tenho assunto ou vontade para escrever algo mais detalhado, darei asas à minha imaginação e aos meus devaneios mais doentios. Como seria a vida dos personagens mais curiosos do automobilismo?

Tenho várias ideias em mente. Os leitores podem sugerir pilotos, engenheiros, dirigentes ou quaisquer personagens que possam ser tripudiados aqui. Hoje, como forma de aquecimento para a corrida da Indy em São Paulo, inicio a série com a americana Danica Patrick, pilota (sim, uso esse neologismo) da Andretti Autosport na Indy, participante da NASCAR Nationwide Series nas horas vagas e uma das mulheres mais chatas já nascidas no planeta.

Os raios de sol atravessavam impiedosamente a fina cortina de seda daquela bela e enorme janela em estilo gótico. O sol vivo e escaldante cobria o oásis de Phoenix, capital do Arizona, com sua magnitude costumeira. A umidade é inexistente. Só sobrevive a este martírio térmico quem tem dinheiro o suficiente para instalar um potente Carrier em seu recinto. Este é o caso de Danica Sue Patrick, habitante daquela generosa mansão de três andares no subúrbio daquela metrópole árida.

Os raios de sol atingem o belo rosto de Danica, que converte a suavidade dos traços típicos da moça que estava mergulhada no estágio REM do sono em um estupor típico de quem acabou de levar um tapa na cara. Resistindo ao terrível esforço de abrir os olhos, ela resmunga e olha para o relógio. São oito e quinze. Como se tivesse visto um fantasma, Danica pula assustada e corre para o banheiro. Ela está atrasadíssima. Seu dia será extremamente corrido: evento com o patrocinador Go Daddy e teste no circuito de Barber de uma só vez.

Danica está de TPM. Normal. Ela sempre está de TPM. Ela é a personificação da TPM. Seu marido, o fisioterapeuta Paul Edward Hospenthal, já está acostumado. Os dois estão casados desde 2005 e Hospenthal sabe que qualquer coisa irrita sua mulher, ainda mais quando os hormônios estão todos belicosos naquele pequeno corpo. No banheiro, ela se olha no espelho. Desgraça das desgraças: há duas espinhas na bochecha. Danica começa a chorar, dizendo que está inchada, cheia de berebas na cara e que a mídia não irá perdoá-la. Tentando consolá-la, Paul solta as duas frases proibidas:

– Você está bem, amor. É apenas impressão sua.

Danica vira a cabeça e fustiga seu marido com um olhar assustadoramente furioso. As chances de Paul conseguir sexo com sua amada naquela noite se reduziram em uns 95% só naquelas poucas palavras.

Depois de passar alguns bons minutos empapando a cara com pó e qualquer coisa que escondesse aquelas duas montanhas de gordura na pele, Danica desce para o café da manhã. No geral, ela é bem disciplinada e só come cereais com leite desnatado e algumas frutas. Em dias de TPM, no entanto, a pilota chuta o balde e só come tudo aquilo que causa calafrios em um nutricionista. Ansiosa, ela saca algumas barras de chocolate da despensa, frita algumas linguiças e abre um enorme pote de sorvete de creme. E come tudo sozinha. Paul, de ótimas intenções e péssima inteligência, solta outro comentário que reduz a zero suas chances de uma boa noite de sexo com a mulher:

– Toma cuidado, porque você vai engordar comendo tudo isso.

Com a boca suja de sorvete, Danica não diz nada. Apenas olha bem para seu marido por três ou quatro longos segundos. Percebendo a enrascada na qual estava se metendo, Paul apenas abaixa a cabeça e continua tomando seu café enquanto folheia um jornal de maneira amedrontada. O silêncio sepulcral segue por uns trinta minutos, até que Danica termina de devorar o sorvete e sobe para se trocar.

Em um dia de TPM, tudo está um desastre para Danica Patrick. As sandálias são todas horríveis e antiquadas, nenhum vestido entra em seu manequim, as olheiras estão imensas e o cabelo está cheio de pontas duplas. Após dez minutos de tortura, ela finalmente encontra um vestido, calça um escarpin que havia sido dado de presente por uma irmã, empapa a cara com mais maquiagem, alisa o cabelo e segue em frente, emburrada. Entra em seu Lamborghini Gallardo e o conduz em altíssima velocidade até a cidade de Scottsdale, localizada a oeste de Phoenix. A sede da Go Daddy fica lá.

A Go Daddy é uma empresa que presta vários serviços relacionados à internet. Naquele dia, ela estava lançando um novo software que permitia registrar rapidamente novos domínios sem ter de acessar o site. Danica, a principal garota-propaganda da empresa, teria de participar da festa de lançamento do software. Nesse caso, ela é obrigada a engolir o mau-humor, as espinhas e tudo o que torna seu dia o pior de todos e sua vida a mais dura entre todos os seres humanos. Tudo em nome do patrocinador.

Danica sorri, tira fotos com os fãs, dá entrevistas simpáticas para as televisões locais, come alguns quitutes e posa como a mulher mais simpática que já existiu. Mas a verdade não tardava a chegar: tão logo as câmeras se afastavam, ela se transforma em uma chata de galocha. Reclama, faz cara feia, recusa-se a falar com jornalistas e ainda olha para o relógio, louca que estava para ir embora.

Após algumas horas de aborrecimento, Danica entra em seu Gallardo e voa em direção ao aeroporto Sky Harbor. Após estacionar, ela corre para fazer o check-in e embarcar rumo ao Alabama, estado onde se localiza o circuito de Barber. Mas o avião, que vinha de Seattle, estava atrasado e a perspectiva mais otimista apontava para uma demora de até quarenta minutos na decolagem. Danica pirou de vez. “Como assim?! Eu pago para voar nessa porcaria de companhia e vocês não conseguem fazer nada direito?! Ah, se eu perder um único minuto do meu teste em Barber, processo a empresa, o piloto do avião, o co-piloto, você mesma e sua mãe!”, esbravejou para a pobre atendente da companhia aérea.

Na verdade, o avião atrasou em mais de uma hora. Nesse interregno, Danica roeu todas as suas unhas, comeu três pacotes de Ruffles, ligou para sua mãe para reclamar do dia e até entrou no banheiro para chorar um pouco o desastre que era sua vida. Ao embarcar, ela reclamou com o comissário de bordo sobre o atraso e se recusou a ceder sua cadeira a uma velhinha, mesmo estando sentada no assento reservada à idosa. “Eu sou Danica Patrick e posso sentar aonde quiser”. Como era hora do almoço, Danica aproveitou para engolir um hambúrguer, uma Coca-Cola e um pote de Pringles. Enquanto mastigava a batata, chorava.

O avião chegou em Birmingham, maior cidade do Alabama, às duas da tarde. O teste em Barber, localizado no extremo leste da cidade, começaria em trinta minutos. Ansiosa, Danica pega o primeiro táxi disponível. O motorista, sujeito pacato e bonachão que escutava Johnny Cash enquanto dirigia seu Crown Victoria, percebe que a caronista era uma das esportistas mais famosas do país e pede um autógrafo. Simpática como um cadáver de urubu, Danica responde “você está sendo pago pra me levar a Barber, não pra me pedir besteira”.  O motorista fecha seu semblante e segue, calado, até o autódromo. Enquanto isso, a pilota só reclama: “Vamos mais rápido, cara. Mais rápido!”.

Danica Patrick chega ao autódromo faltando apenas dez minutos para o início dos treinamentos. Ela entra nos boxes da Andretti Autosport sem cumprimentar ninguém, como é o costume. Os mecânicos e engenheiros a odeiam, assim como seus três companheiros de equipe. Na verdade, nem o patrão Michael Andretti gosta dela, mas a presença da garota na equipe atrai enorme atenção da mídia e da torcida. Em dias de TPM, os integrantes se entreolham e soltam alguns comentários cínicos. “Coitado do marido dela”. “TPM? Se o carro dela quebrar, vai rolar morte por aqui”.

A pilota entra em seu Dallara verde e preto. Liga o carro, dá algumas voltas e retorna aos pits. Segundo ela, está tudo errado. O motor não tem potência, o carro sai de frente em algumas curvas e de traseira em outras, a relação de marchas não permite extrair o máximo de potência em algumas curvas, o pedal de freio está muito baixo e os pneus não se aquecem devidamente. Irritado, seu engenheiro chama Mike Conway para dar umas voltas no mesmo carro. O britânico entra na pista e faz um tempo quase 1,5seg mais rápido que a melhor volta de Patrick. Volta aos pits e diz que o carro está OK. E todos olham para Danica com cara de escracho.

Calada, Danica volta para a pista e dá mais algumas voltas. Mais precisamente, 23. Ela até consegue melhorar seu tempo em nove décimos, mas ainda não consegue repetir a volta de Conway. Entre os quatro pilotos da Andretti, ela é a que tem a volta mais lenta. Ryan Hunter-Reay, o melhor nas tabelas, havia sido quase dois segundos mais rápido. Até mesmo a besta do Marco Andretti havia feito uma volta meio segundo mais rápida.

Nervosa como um tigre esfomeado, Danica pede algumas mudanças, sendo a principal uma diminuição drástica no ângulo da asa traseira, visando aumentar a velocidade final. “O carro vai ficar inguiável nas curvas”, alerta seu engenheiro. Ela ignora as recomendações, diz que é ela quem dirige o carro e ordena os ajustes aos mecânicos. Alguns minutos depois, Danica retorna a pista. Na primeira volta, o carro realmente se mostra um pouco mais veloz. Na segunda, não há mais carro: após perder o controle em uma curva veloz, Danica Patrick roda e enfia seu Dallara em um guard-rail, o que interrompe os treinamentos.

Mesmo tendo trabalho adicional, os mecânicos da Andretti morrem de rir com o acidente da princesinha. Danica volta aos pits, segue direto para o motorhome da Andretti, pega suas coisas e vai embora sem maiores explicações. Chorando, é claro.

Danica Patrick consegue chegar em casa antes da sete da noite. Seu marido ainda não está lá, o que a deixa ainda mais nervosa e ansiosa. Então, ela vai à geladeira e pega outro pote de sorvete de creme. Joga-se no sofá, liga a TV e vê qualquer coisa. Mas nada a agrada. NHL, David Letterman, Two and a Half Man, clipes na MTV, absolutamente nada parece consolá-la de sua vida de merda, de todas as pessoas medíocres e situações indesejáveis que a rondam. Resta a ela ir para a cama.

Quando Danica já estava dormindo profundamente, Paul acende a luz do quarto. Ele havia acabado de chegar. Como forma de se desculpar pelos hediondos comentários feitos de manhã, ele comprou um buquê e uma caixa de chocolates belgas. Valrhona, sua marca preferida. Na certa, a carinha brava se transformaria em um enorme e lindo sorriso. E os dois teriam um fim de noite daqueles. Mas não:

– Você me acordou, SEU FILHO DA PUTA!

Paul teve de dormir no sofá. E o mau-humor de Danica só chegou ao fim… Não, pensando bem, ele não chegou ao fim ainda.

P.S.: Os personagens podem ser verdadeiros, mas a história é totalmente ficcional e nada tem a ver com a realidade. Portanto, se por acaso você, Danica, estiver lendo isso aqui no Google Translator, não se sinta ofendida e nem me processe. Não tenho grana e nem tenho algo contra você!

Anúncios