outubro 2010


A foto acima é sensacional. Sensacional, aliás, como foi esta corrida. Não me furto a dizer que foi uma das melhores da década. E não digo isso pelo grande número de brigas entre os pilotos, pelos acidentes ou pelo imponderável. Destaco o Grande Prêmio do Japão de 2005 como histórico pela atuação de um único piloto: o finlandês Kimi Raikkonen, da McLaren.

O mais impressionante de tudo é que esta corrida tinha tudo para ser péssima para Raikkonen. No primeiro treino da sexta-feira, o piloto deu apenas oito voltas antes do motor quebrar. Esta era uma cena muito comum em 2005, e Kimi perdeu várias corridas e o título devido à total falta de confiabilidade dos V10 de Stuttgart. O pior é que o regulamento previa que uma troca de motores em um fim de semana faria com que o piloto perdesse 10 posições no grid. Para piorar as coisas, no treino oficial, a chuva apareceu justamente no momento em que Raikkonen saiu para fazer sua volta rápida. Vale lembrar que, em 2005, o treino classificatório era composto por apenas uma volta e se você desse o azar supremo de ter algum contratempo, largaria lá no fim do pelotão. Kimi completou uma volta quase 16 segundos mais lenta que o do pole-position e, fatalmente, sairia em último. Para sua sorte, Juan Pablo Montoya, Jarno Trulli e Tiago Monteiro não marcaram tempo. O 20º lugar do finlandês se transformou em 17º. Como consolação, seus três maiores adversários (Montoya, Fernando Alonso e Michael Schumacher) também estavam largando lá atrás. Ainda assim, tudo seria difícil.

Como o MP4-20 era um carro muito rápido, no entanto, Raikkonen não estava tão aborrecido. O título de 2005 já estava definido em favor de Alonso e, sem muitas pretensões a mais, restava a Raikkonen se divertir e voar o máximo possível em uma pista de seu gosto. E foi o que ele fez. Na primeira volta, ganhou cinco posições, duas delas em conseqüência das saídas de pista de Takuma Sato e Rubens Barrichello na primeira curva e uma devido ao acidente de Montoya. Estando em 12º e faltando ainda mais de 50 voltas, dava pra ganhar mais algumas posições.

Lá na frente, o pole-position Ralf Schumacher mantinha a liderança à frente de Giancarlo Fisichella. No entanto, o alemão da Toyota havia optado por uma estratégia de três pit-stops, o que o alijava da briga pela vitória. Com a sequência de paradas que aconteceu nas voltas seguintes, vários pilotos assumiram a liderança. Mais atrás, Kimi Raikkonen fazia suas ultrapassagens a rodo, mesmo após parar para reabastecer pela primeira vez na volta 27. Uma delas, por fora sobre Michael Schumacher na curva 1, chamou muito a atenção de todos. Com isso, e com as paradas de Jenson Button, Mark Webber e Fisichella, ele chegou a assumir a ponta. Andando de cara para o vento com o melhor carro do grid naquele ano, Kimi conseguiu abrir 14 segundos de vantagem antes de parar pela segunda vez, na volta 46.

Ao voltar dos pits, ele estava cinco atrás de Giancarlo Fisichella. Faltavam sete voltas para o fim da corrida e tudo indicava uma vitória do piloto da Renault, que só precisaria conservar a vantagem. Ninguém contava, porém, com o espírito endemoniado de Kimi Raikkonen. Logo na volta seguinte ao retorno dos pits, o finlandês descontou 1,1s de vantagem.  Na volta 48, mais 1s3 foi descontado. Na 49, 1s2. Abrindo a volta 50, com menos de meio segundo de diferença, Raikkonen tentou fazer uma primeira tentativa de ultrapassagem ao sair mais rápido da chicane que antecede a reta dos boxes. Fisichella se defendeu bem e pôde atravessar esta volta na liderança. Mas as coisas se tornariam cada vez mais difíceis.

No final da volta 50, Fisichella errou a freada da última chicane e Raikkonen pôde se aproximar de vez. O McLaren saiu da traseira do Renault e entrou na linha de fora. Os dois pilotos completaram a volta 50 com dois décimos de diferença. Com um motor mais forte, Raikkonen tentaria a ultrapassagem por fora. Giancarlo tentou dar uma leve fechada à esquerda, mas não foi possível contê-lo. Kimi Raikkonen o ultrapassou como um rojão por fora na curva 1. Saindo da 17ª posição, o finlandês deixou todos para trás, alguns de maneira ridícula, liderou as duas voltas finais e venceu a corrida. Sem a menor cerimônia, digo que foi a melhor atuação de sua carreira.

Teremos Suzuka neste fim de semana. E há quem diga que teremos Kimi Raikkonen em 2011. Apesar de gostar muito de Vitaly Petrov, não acharia ruim ter o Iceman de volta na Fórmula 1 na Renault, exatamente a equipe que tomou a legendária ultrapassagem. Seu ímpeto beirando o irresponsável coberto com a faceta da frieza escandinava faz enorme falta.

Aqueles que, como eu, tiveram o auge de suas infâncias nos anos 80 e 90 reconhecem a referência deste título. Os mais infantes ou anciãos que dêem uma olhada no Google, até porque é muito chato explicar esse tipo de coisa. Antes que pensem que vou falar sobre pilotos com a finesse de um maremoto, o post é sobre um assunto bem menos automobilístico e mais intelectual. Comento sobre cinco pilotos do atual grid que falam fluentemente várias línguas.

Pô, não tinha um assunto melhor para hoje? Não, não tinha. Além do mais, não deixa de ser curioso o fato dos pilotos atuais serem versados em três ou mais idiomas. A Fórmula 1, apesar de passar por lugares tão pouco ortodoxos como a China, o Bahrein e a Hungria, ainda tem como língua geral o inglês. Portanto, se o cabra sabe dizer Hello, Goodbye, I wanna dry tyres! ou Felipe, Fernando is faster than you, já é o suficiente.  Mas sabe como é, falar francês ajuda a negociar com a Renault, falar italiano é um desejável complemento para quem quer ir pra Ferrari e saber espanhol é bom para mandar o Alonso a la mierda. Por isso, quase todos os pilotos do grid atual falam, pelo menos, uns três idiomas. No geral, a exceção é reservada aos ingleses, egocêntricos que acreditam precisar apenas de sua língua e os outros que se virem para entendê-los. Aliás, eu me arrisco a dizer que Jenson Button nem sabe falar inglês direito…

É evidente que os pilotos não são naturalmente ávidos pelo estudo de novas línguas. A necessidade acaba os obrigando a isso e, no geral, ela surge desde cedo, mais precisamente nas categorias de base. Felipe Massa, por exemplo, desembarcou na Europa sem saber falar nada mais do que aquele português de língua presa. A princípio, aprendeu italiano e sobreviveu bem nos tempos de Fórmula Renault e Fórmula 3000 européia. Pouco após ser contratado pela Sauber, o paulista se matriculou em um curso de algumas semanas em Londres para aprender um inglês básico. Hoje, ele se comunica muito bem em inglês, italiano e espanhol. Português, ainda não.

Foi uma lista razoavelmente complicada de fazer e acredito que haja pilotos que falem até mais línguas. De qualquer jeito, confira quem são os cinco da lista de hoje:

5- LUCAS DI GRASSI


Lucas di Grassi é talvez o piloto mais nerd que o Brasil já teve na Fórmula 1. Não chega ao nível de um Sebastien Bourdais, mas ainda assim é um sujeito que se destaca pelo intelecto. Membro do Mensa, organização que visa reunir os 2% mais inteligentes na população mundial, Di Grassi chegou a cursar Economia por algum tempo antes de viajar para a Europa. Não por acaso, é um piloto consciente e mentalmente preparado.

O brasileiro consegue falar cinco línguas, quatro delas com desenvoltura (português, inglês, espanhol e italiano) e um pouco de francês. O português dispensa comentários, o inglês e o italiano são as línguas mais utilizadas no automobilismo e o espanhol lhe foi bastante útil quando ele correu pela Racing Engineering e pela Campos na GP2. O francês  caiu como uma luva nos seus dias na ART Grand Prix.

4- MICHAEL SCHUMACHER


Sim, o velho Schumi, além de bilionário e heptacampeão, é poliglota. Ele fala três línguas fluentemente, os previsíveis alemão, inglês, italiano, e bica também o francês e o norueguês. Norueguês? Sim! Schumacher adora passar férias lá nas montanhas e fiordes do gélido país e acabou aprendendo alguma coisa da língua. Apesar de poder se comunicar em todas estas línguas, seu sotaque é perceptível em todas elas. E, dizem os italianos, seu italiano, apesar de fluente, não é exatamente o melhor possível. Michael teve de aprendê-lo por livre e espontânea obrigação, uma vez que a Ferrari exigia que seus pilotos aprendessem a língua para se comunicar com a mídia e os tifosi.

3- SEBASTIAN VETTEL


Na Fórmula 1 atual, Sebastian não se destaca exatamente pelo número de línguas que fala. Ele fala fluentemente alemão e inglês (ooh!) e fala razoavelmente italiano (resquício dos tempos da Toro Rosso) e francês (provavelmente, resquício da Fórmula 3 européia). Até aí, tudo bem, vários pilotos estão na mesma situação. O mais legal, no entanto, é seu domínio básico do finlandês. Finlandês? Por que uma pessoa como ele precisaria aprender finlandês?

A resposta é ainda mais impressionante. Vettel aprendeu finlandês com um de seus melhores amigos, o soturno e completamente calado Kimi Raikkonen. Ninguém poderia imaginar que Kimi pudesse ensinar uma língua (!) a um amigo da Fórmula 1 (!!). Mas o caso é que ele ensinou e Sebastian sempre arrisca alguma coisa quando é entrevistado pela rede de TV finlandesa MTV3. Nesse vídeo, ele cantarola uma música esquisitinha. Interessante.

2- JARNO TRULLI


Quem vê Jarno Trulli falando em inglês não lhe dá o menor crédito. Seu sotaque italiano, carregadíssimo, faz dele uma das pessoas mais curiosas de se ouvir no paddock da Fórmula 1. É a conseqüência de ter de aprender a língua à força quando já se está na categoria, algo que acontece frequentemente com pilotos italianos. Mas quem acha que o piloto italiano é um demente lingüístico se engana: Jarno fala fluentemente cinco línguas.

Tudo bem que não há nada de impressionante em saber inglês, espanhol, francês, alemão e italiano. O caso é que Trulli, aquele cujo sotaque é medonho, consegue se expressar muitíssimo bem em todos esses idiomas, algo que surpreende a muitos. O inglês e o italiano dispensam comentários. O alemão teve de ser aprendido quando ele competiu na Fórmula 3 alemã, em meados dos anos 90. O francês foi largamente utilizado na Prost e na Renault. E eu não faço a menor idéia sobre o porquê do espanhol. Mas deve ter ajudado um bocado em sua velha e boa amizade com Fernando Alonso.

1- NICO ROSBERG


Digo uma coisa a vocês. Quando se fala em Nico Rosberg, a primeira coisa que me vem à cabeça é sua enorme e impressionante capacidade de aprender uma língua nova. Com um estilo discreto de pilotagem, o que ele tem de mais expressivo é esse seu lado intelectualizado.

Rosberg fala inglês, francês, italiano e alemão fluentemente, fala um ótimo espanhol e também arranha o finlandês. De todos os idiomas vistos até aqui na lista, Nico só não entende o norueguês de Schumacher. O mais incrível é que, com exceção do espanhol e do finlandês, ele já dominava com fluência todas aquelas línguas desde a adolescência, quando ele competia simultaneamente em campeonatos franceses, italianos e alemães de kart. Em 2004, uma curiosidade: após uma corrida na Fórmula 3 européia, um jornalista finlandês apareceu perguntando em sua língua, supondo que Nico a entenda como fazia Keke. Curto e grosso, Rosberg respondeu algo como “desculpe, não falo sua língua”. Em inglês. Hoje em dia, no entanto, ele consegue dominar o básico.

Pelo que já ouvi, o inglês e o italiano dele são impecáveis. Dizem que seu francês é excelente também. O espanhol é a última língua que ele aprendeu. Ainda sem a mesma fluência das outras línguas, Rosberg dá entrevistas na língua de Cervantes perfeitamente bem. Ainda sofre um pouco para entender as palavras, mas nada que um pouco de prática não resolva.

O que faz de Nico um indivíduo tão interessado em suas línguas é sua educação. Oriundo de família endinheirada, ele sempre estudou em excelentes colégios. No sistema de ensino alemão, a partir da equivalente à quarta série brasileira, o aluno deve escolher se quer fazer no futuro um curso técnico ou a faculdade, e o ensino será direcionado ao seu objetivo a partir daí. Rosberg, garoto abastado e inteligente, pôde escolher estudar para tentar a faculdade. Ótimo aluno, conseguiu uma vaga no curso de aerodinâmica do Imperial College of London, uma das mais prestigiadas da Europa. Ainda assim, ele preferiu correr na GP2 em 2005. Decisão acertada.

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