Falar de Indy, para mim, é como um chef de cozinha falando sobre miojo. Não tenho nada contra a história da Indy, aquela que já foi USAC, CART, ChampCar, Indy Racing League e até mesmo Fórmula Mundial para alguns abnegados do SBT e da Record. Na verdade, sou um desses saudosos da antiga CART, que juntava umas quatro marcas de chassis, umas três de motores, quase trinta pilotos e vinte e poucas pistas no final dos anos 90. O problema é que a Indy atual é um enorme miojo de frango. Na calada da noite, se não tiver nada melhor, você engole.

Maldade? Não creio. A Indy atual, que reconheço estar em fase de notável recuperação, não passa de sombra daquela que tínhamos como a categoria que ameaçaria o reinado pedante da Fórmula 1. Não é apenas nostalgia barata, mas sim questão de entretenimento. Todos paravam nos domingos vespertinos para ver a genialidade de nomes como Emerson Fittipaldi, Al Unser Jr. e Rick Mears, as estripulias de jovens como Greg Moore, Paul Tracy e Alex Zanardi e a balbúrdia protagonizada por backmarkers célebres como Hiro Matsushita e Dennis Vitolo. As pistas, por piores que fossem, rendiam horas de pura diversão para pilotos e torcedores. Os carros eram grandes, potentes e bonitos. Era regra: se a Fórmula 1 era enfadonha e burocrática, a Indy salvava o fim de semana e o fã de automobilismo ia dormir feliz.

A Indy atual, embora bastante esforçada, não é assim. A categoria tem prós e contras, e os últimos pesam bem mais que os primeiros. O nível dos pilotos dessa temporada, venezuelanas à parte, é bastante alto. Os grids estão cheios e os calendários estão se diversificando cada vez mais. A situação é bem mais tranquila e próspera do que era em 2004 ou 2006, por exemplo. O campeonato está razoável. Falta apenas ser legal. Apenas?

Ontem, antes de dormir, coloquei no Bandsports para ver a etapa de Mid-Ohio. Diante de verdadeiras lendas asfaltadas americanas como Laguna Seca, Watkins Glen e Elkhart Lake, eu sempre deixei Mid-Ohio meio de lado na minha lista de preferências. É uma prova absoluta da minha ignorância e falta de bom senso. A pista é ótima, cheia de curvas velozes, subidas e descidas. Além do mais, é toda rodeada de árvores, exatamente o estilo de cenário que gosto. Havia 27 carros no grid, muitos deles com pinturas muito mais legais do que as dos carros da amada e idolatrada Fórmula 1. Havia um bocado de pilotos legais para torcer, de Scott Dixon a JR Hildebrand, de Adam Carroll a Simona de Silvestro, de Will Power a Vitor Meira. Mesmo assim, após algumas voltas, dormi no sofá. Não tem jeito. A Indy é chata. O índice Nielsen, equivalente ao IBOPE aqui no Brasil, registra índices de menos de um ponto na audiência nas corridas normais. Tanto no canal pago Versus como no canal aberto ABC. Apenas a Indy 500 conseguiu um pouco de audiência, algo entre três e quatro mirrados pontos. Em se tratando de um campeonato que chamava a atenção pela diversão proporcionada e que atraía um enorme número de telespectadores em outros tempos, é algo preocupante.

Se nem a Indy 500 vem atraindo audiência, o que dizer do resto? É a chatice da atual Indy

Há algumas coisas a serem ditas a respeito. O calendário é uma delas. Ao meu ver, o que falta é um pouco de pretensão. Não adianta aparecer com um sorriso de orelha a orelha dizendo que o circuito citadino de São Paulo rendeu uma corrida ótima ou que Kansas é um oval histórico. A Indy tem de honrar sua história e sua importância no cenário automobilístico e dar-se ao luxo de ter um calendário digno. Entre as 17 corridas, digo que Indianápolis, Long Beach, Barber, Texas, Mid-Ohio e Watkins Glen são indispensáveis. O resto pode até não ser ruim, mas também não se destaca. E o destaque que cada um dos circuitos tinha em um calendário era um dos pontos altos da antiga Indy: cada pista tinha uma razão para estar lá. A escolha delas era tão coesa que a ausência de qualquer uma, por piores que fossem as corridas, era bastante sentida. Toronto fazia sentido no calendário antigo, mas no atual simplesmente não chama a atenção, já que há Edmonton e mais uma série de outras pistas de rua parecidas. Talvez seja devaneio meu, mas não deixo de acreditar nisso.

O fator principal para a chatice da categoria, no entanto, é o carro. Chega a ser constrangedor ver como um bólido como o Dallara gera tamanho downforce, algo que dificulta enormemente as ultrapassagens e as mudanças de traçado. E o excesso de downforce em uma categoria que corre em ovais e em circuitos travados se torna ainda mais visível e mais danoso. Em Mid-Ohio, os carros permaneceram um atrás do outro durante o tempo em que fiquei acordado. É evidente que a pista de Lexington não é a melhor do mundo para ultrapassagens, mas o fato delas ocorrerem em pistas improváveis não era uma das graças maiores da Indy antiga? O Dallara é o fator que mais aproxima a Indy à Fórmula 1 em sua pior característica: a impossibilidade de ultrapassagens em pistas mais travadas.

Vou falar um pouco dos pilotos, sempre tão esquecidos nesse espaço. Não gosto de Dario Franchitti, mas reconheço a superioridade do cara em relação ao resto do grid. Posso até queimar a língua, mas o escocês é o melhor piloto da Indy atualmente. O único que o ameaça, nesse ano, é o australiano Will Power, um mestre em circuitos mistos. Tenho uma leve impressão de que ele é o único homem no qual a antiga equipe de Roger Penske pode confiar de verdade, já que Hélio Castroneves é o cara que ganha uma ou duas corridas por ano e Ryan Briscoe… bem, deixa pra lá. E olha que torço por Castroneves, o ribeirãopretano que se safou de uma boa com o Fisco americano no ano passado.

Scott Dixon, neozelandês para quem torço desde 2001, deu uma boa apagada após a contratação de Franchitti para ser seu companheiro de equipe na Chip Ganassi. Ele vem fazendo uma corrida boa para cada três apagadas, algo que não irá ajudá-lo muito na busca pelo tricampeonato. Além da Penske e da Ganassi, a única equipe a vencer uma corrida nesse ano é a Andretti, equipe que chama a atenção por povoar o grid com seus quatro ou cinco carros a cada prova. O baiano Tony Kanaan obteve a única vitória da equipe no acanhado oval do acanhado estado do Iowa, mas não é ele quem vem brilhando mais, e sim Ryan Hunter-Reay. O americano, que foi contratado por Michael Andretti quase que como um freelancer, vem atuando muito bem e conseguiu um patrocinador para fazer a temporada completa. Espero que siga por lá. Torço por ele também.

Ultrapassagens difíceis, essa é a marca da Indy atual

A KV é minha equipe média favorita. É uma pena que seus três carros sejam ocupados por símios. Tudo bem, estou sendo injusto com Mario Moraes, um piloto sensato e equilibrado para os padrões da equipe. Já os outros dois, Ernesto (me recuso a chamá-lo de EJ) Viso e Takuma Sato, são completamente irresponsáveis ao volante. O japonês, até aqui, bateu em sete das doze corridas! Não satisfeita com o festival de destruições, a equipe ainda colocou Paul Tracy, o Homer Simpson da Indy, para guiar um quarto carro em algumas corridas. Ao menos, o canadense não fez as bobagens costumazes. Ainda bem. A KV tem uns carros muito bonitos, especialmente o Lotus car de Sato. Uma pena que ele raramente termina inteiro.

Como o grid é amplo, há muito o que falar sobre os outros. Eu queria muito ver Tomas Scheckter de volta, mas o cara se estabilizou como um desses supersubs que acham uma vaguinha ali e outra acolá. Reconheço que o sul-africano é um Takuma Sato com estirpe, mas não é legal vê-lo de fora. Justin Wilson é um que deveria estar em equipe de ponta, assim como Graham Rahal, que passou por nada menos que quatro equipes (Sarah Fisher, Rahal-Letterman, Dreyer and Reinbold e Newman-Haas) até aqui! Torço também por Dan Wheldon, Vitor Meira, Alex Lloyd e os surpreendentes Alex Tagliani e Simona de Silvestro.

Há também aquele pessoal que dispensa grandes comentários. E há Milka Duno, a bela venezuelana que costuma alegrar as corridas com seus erros e suas voltas seis ou sete segundos mais lentas do que as dos outros. A Indy a colocou de observação até o fim do ano. Se ela não melhorar, está fora. Para quem acha que é blefe, os caras fizeram exatamente isso com Marty Roth dois anos atrás. Milka está em sua quarta temporada na Indy e não deu qualquer sinal de evolução até aqui. O que a segura na categoria é o farto dinheiro da PDVSA, a petrolífera venezuelana que consegue bancar até mesmo o carro do companheiro Lloyd na pequena Dale Coyne. Se ela deixar o campeonato, fará falta pela sua beleza e pela sua simpatia.

Quem lê a descrição até tende a achar que a Indy é legalzinha. De fato, ela não é ruim. Falta apenas ser legal, mas o que é um esporte se ele não consegue ser legal? Miojo não é ruim, mas ninguém pede em restaurante.

Este é Takuma Sato, 25 anos, atual campeão da Fórmula 3 Inglesa e segundo piloto da Jordan.

Alguns de seus feitos em 2002: acidente nos treinos do GP da Austrália, batida em Giancarlo Fisichella no GP da Malásia, rodada no GP da Espanha, acidente no túnel do GP de Mônaco, acidente com Nick Heidfeld no GP da Áustria, acidente com Kimi Raikkonen nos treinos do GP da Itália.

E este é Takuma Sato, 33 anos, veterano do automobilismo e piloto da KV na Indy.

Crédito: PandiniGP

Alguns de seus feitos em 2010: acidente na largada da São Paulo 300, acidente em St. Petesburg, acidente no Kansas. 

Alguns desses acidentes não são culpa sua. No entanto, cabe ao piloto ficar longe das confusões. De qualquer jeito, é um interessante ponto de contato entre as temporadas de estréia dele. Tem gente que não muda.

Nem falei muito da Indy em São Paulo. É muita coisa pra falar. Vou tentar ser breve. Mas como eu me conheço bem, sei que não vou conseguir. E como me conheço bem, vou reclamar pra caralho.

– O circuito é de uma primariedade que dá até dó. Tudo bem, alega o defensor, a pista foi construída em apenas quatro meses, a região é crítica, pistas de rua sempre trazem problema, blablabla. Oras! Como disse Tony Kanaan, só mesmo aqui para alguém ter a brilhante idéia de fazer um circuito em um tempo tão curto. Se não desse pra fazer, não deu, fica pra próxima.

A região é uma merda, de fato. Marginal Tietê sentido Zona Leste, região do Santana, é uma das partes mais feias da cidade. É tudo muito mal-cheiroso e cinzento. Aquele Holiday Inn parece mais um cortiço gigante. Não poderia haver lugar pior para a São Paulo Conventions & Visitors Bureau fazer publicidade de sua querida cidade.

– Falemos agora do traçado. Ele tinha uma reta quilométrica e algumas curvas de baixa velocidade. Me lembrou Long Beach, Phoenix e Pau. Até aí, tudo bem, a Indy não tem lá muita frescura com essa coisa de traçado. Mas devo destacar a reta do sambódromo.

– Que coisa linda, aquela reta branca. Os pilotos mal podiam usar 30% do acelerador. A Bia Figueiredo perdeu o controle do carro em 4ª marcha! Nunca vi nada igual no automobilismo. Pelo menos, arrumaram a tempo. Mas é uma situação muito feia. Que pode sempre ser piorada, quando temos um Luciano do Valle enaltecendo essa monstruosidade.

– Evento 100% financiado com dinheiro público. Ridículo isso. O orçamento destinado para a corrida era de 12 milhões de reais. Gastou mais, é claro. Vamos ver se os 100 milhões de reais de retorno virão, de fato. Desculpem, acho essa corrida um tremendo golpe eleitoreiro. A Dilma vai com o PAC, o Serra vem com a Indy.

– Mas chega de reclamar. A corrida foi boa, afinal. Muito melhor que a da Fórmula 1. Isso porque eu só vi os treinos e a parte final da prova. Acidentes, ultrapassagens, vários líderes, tudo o que esperávamos ver na Fórmula 1 pôde ser visto na Indy.

– Will Power venceu usando o terceiro carro da Penske. É um excelente piloto. Aliás, os três primeiros são. Ryan Hunter-Reay (singelamente chamado de “Hunter” por LDV) e Vitor Meira mereciam equipes melhores, principalmente o Meira. 

– Ryan Briscoe tinha a vitória nas mãos, mas perdeu em um acidente besta. O cara já vinha arriscando havia algumas voltas. É um vaca brava. Se não tomar juízo, a Penske adota o Power como segundo piloto.

– Pancada feia do Andretti com o Moraes na largada. Sorte do Marco. Esse tipo de acidente deveria receber mais atenção por parte das organizações.

– Sobre os outros brasileiros, Bia Figueiredo fez uma ótima corrida e conseguiu terminar. Raphael Matos terminou em um ótimo quarto lugar, mesmo andando em um carro não tão bom. Mario Romancini bateu muito, mas não comprometeu. Tony Kanaan atingido pateticamente por Dan Wheldon. Nem prestei muita atenção ao Hélio, sorry.

– Torci muito pelo Tagliani, segundo no grid com a FAZZT. Mas bateram nele também. Bah.

– As pinturas da Indy são sensacionais. E os patrocinadores também.

– Enfim, deu tudo certo. A Indy passou de ano, não com louvor, mas passou. Que seja melhor nas próximas edições.

Aprendam inglês e leiam a notícia aqui, no Autosport.

Sabe o que isso me lembra? Scott Goodyear na Indy 500 em 1995!

Se tivesse USF1, será que a CNN estaria com ela?

Se a inspiração foi aquela que estamos pensando, não sei. Mas ficou sensacional. James Rossiter testando pela KV em Barber.

Aliás, só complementando: a Lotus estaria bem interessada em investir na Indy. E sabe quem eles estavam cogitando para liderar a empreitada? O próprio Rossiter! É pra juntar os pontos?

Em condições normais, eu não falaria da Indy hoje. Tudo bem, temos uma corrida aqui em Sampa daqui a três semanas e os testes estão ocorrendo a pleno no circuito de Barber, no Alabama. Mas não falaria. Essa Indy é chata pra caralho: carros feios, circuitos travados, equipes falidas e paydrivers que vem de todos os países, menos dos Estados Unidos. Não serve pra lamber as botas da antiga CART. Quiçá, sequer as da IRL de 10 anos atrás.

Ontem, 24 de Fevereiro, a Penske, equipe mais tradicional dos monopostos americanos, mostrou ao mundo o novo layout de seu carro. Hélio Castroneves, Ryan Briscoe e Will Power utilizarão um carro branco com laterais e asas pretas patrocinado por Mobil 1 e Verizon Wireless. Um pouco genérico, mas bonito. Está sentindo falta de alguma coisa? Exatamente.

A nova Penske

A Indy não terá o layout Marlboro em 2010. Aliás, é a primeira vez desde há quase 40 anos que a Marlboro não terá predominância no layout em carro de corrida nenhum do mundo. Nesse momento, apenas a Ferrari segue sendo patrocinada pelos cigarros, e ainda assim manifesta esse apoio apenas pelos tais “códigos de barra” na lateral superior do carro. Aos poucos, a história da Marlboro no automobilismo vai chegando ao fim.

A empresa que produz o cigarro, a Philip Morris Company, surgiu em 1847, quando Philip Morris criou uma loja de tabagismo em Londres. Sete anos depois, Morris passou a criar seus próprios cigarros, que foram um sucesso. Com a morte de Philip em 1873, sua mulher e seu irmão assumiram o controle da empresa e mantiveram seu crescimento. No final do século XIX, ambos venderam a empresa para William Thomson, que decidiu expandir as operações para os EUA. E os cigarros da Philip Morris, especialmente o Marlboro, se popularizaram muito não só na América como ao redor do mundo. O segredo do sucesso do Marlboro estava calcado em duas atitudes: vender barato e fazer marketing agressivo.

O primeiro Marlboro car

A Philip Morris decidiu investir em automobilismo em 1972, quando viu o sucesso da Imperial Tobacco e do seu patrocínio à Lotus por meios dos cigarros Gold Leaf e John Player Special. Para isso, começou patrocinando a BRM na Fórmula 1. Dois anos depois, a Marlboro saiu da BRM e foi para os McLaren, e a equipe foi campeã naquele ano. Começava aí a trajetória de sucesso da Marlboro no automobilismo.

A partir daí, a Marlboro começou a patrocinar absolutamente tudo: F1, Indy, Grupo C, F2, F3000, F3, Mundial de Motovelocidade, Mundial de Rali, Paris-Dakar, além de dezenas de pilotos. No caso da Fórmula 1, a McLaren foi contemplada com o patrocínio principal entre 1974 e 1996. Depois disso, a Ferrari ganhou a primazia. Mas muitas equipes também receberam apoio: Alfa Romeo, Dallara, Rial, Arrows, Onyx e por aí vai. Na Indy, o patrocínio começou com a Patrick em 1987. A Penske só passou a ser patrocinada pelos cigarros três anos depois.

Talvez o piloto mais conhecido do cigarro

O layout Marlboro, aquele que ficou consagrado por Ayrton Senna, começou a ser utilizado no
começo dos anos 80 na Fórmula 1 (McLaren e Alfa Romeo) e na Fórmula 2 e passou a ser o predominante em todas as categorias de automobilismo, até mesmo na Stock Car brasileira com Wilsinho Fittipaldi em meados dos anos 90.

A decadência da Marlboro no automobilismo começou a se dar no final dos anos 90, quando a legislação comercial vinha restringindo paulatinamente o marketing tabagista. Nos EUA, uma empresa de cigarros só pode patrocinar um único esporte. Em alguns países, como a França e a Inglaterra, a propaganda de cigarros já havia sido abolida há muito. A pá de cimento final foi o início da vigência, em Agosto de 2005, da lei que proibia toda e qualquer propaganda tabagista dentro da União Européia. O único foco de resistência era o carro da Penske na Indy.

O último carro com o layout

Que muda de cor agora. Por pior que seja o tabagismo, a Marlboro deixará saudades.