Felipe Massa, um dos infelizes de 2010

Mas a Fórmula 1, felizmente, não é só feita dos quatro primeiros. Houve coadjuvantes para todos os gostos. Comecemos pelos outros dois, Felipe Massa e Jenson Button. Ah, Felipe. O que aconteceu?

Felipe Massa retornou à Fórmula 1 após passar alguns meses vestindo roupa de hospital e tomando sopinha de cenoura, consequências de uma mola que acertou sua cabeça durante os treinamentos do GP da Hungria do ano passado. Todos, muito felizes com seu retorno, esperavam ver aquele garoto atrevido e extremamente rápido mostrando a Alonso quem é que mandava em território ferrarista. Mas qual?

Felipe simplesmente não disse a que veio em 2010. Andou lá na frente no Bahrein, segurou um bocado de gente em Melbourne, fez um corridão em Hockenheim e subiu ao pódio em outras etapas. E só. Enquanto seu companheiro se desdobrava tentando levar seu limitado F10 à briga direta pelo título, Massa parecia perdido com atuações no mínimo conservadoras no meio do pelotão. No final do ano, estava claramente irritado e desmotivado. O golpe maior em sua felicidade, é claro, foi dado na Alemanha.

O GP da Alemanha de 2010 ocorreu no dia do aniversário de um ano do acidente húngaro. Massa, que largava em terceiro, conseguiu pular para a ponta logo no começo e se manteve por lá durante a maior parte do tempo. Merecia vencer, portanto. Mas a Ferrari pensou com a tabela de campeonato nas mãos. Felipe estava a longínquos 31 pontos de Fernando. O que importava era o título. Por mais que o brasileiro fosse querido e amado por todos em Maranello, em um momento decisivo, ele era apenas mais uma engrenagem da equipe. E a ordem veio. Felipe Massa deixou Fernando Alonso ir embora e sua única vitória no ano se esvaiu ali. E o brasileiro passou de herói a vilão no Brasil.

Que Felipe Massa, que passou a sofrer as mesmas críticas de Rubens Barrichello, consiga se recuperar em 2010. Que volte a ser o sujeito auspicioso e atrevido de outrora. E que ignore as críticas vindas do Brasil. Brasileiro, no geral, não sabe o que diz.

Mercedes de Schumacher. Ano razoável e só.

E Jenson? O filho de John Button decidiu assinar com a McLaren por um projeto pessoal, o de mostrar a todos que ele não era apenas “mais um campeão do mundo que deu a sorte de contar com um foguete”. Na equipe de Martin Whitmarsh, Jenson Button teria a fortíssima concorrência de Lewis Hamilton e buscaria provar a todos que, sim, ele também sabe fazer direito em um ambiente que não era exatamente favorável a ele.

Button ganhou duas corridas, em Melbourne e em Shanghai. Após a corrida chinesa, ele chegou a liderar o campeonato com dez pontos de vantagem sobre o segundo colocado. Em Hockenheim, ainda era o vice-líder. Depois, com a queda de desempenho de seu McLaren, Jenson desapareceu. Ainda assim, um ano de razoável para bom. O que mais despertou a atenção de todos foi o uso extensivo de estratégias diferenciadas, com mudanças arriscadas no número ou na hora das paradas. E foi assim que o inglês ganhou as duas corridas e apareceu em outras.

No segundo escalão, temos a Mercedes e a Renault. A marca cinzenta de três pontas iniciou o ano esperando brigar com Ferrari, McLaren e Red Bull. Só que seu carro, o MGP W01, era conservador demais para dar alguma vantagem à equipe ou ao menos para permitir atualizações mais eficientes. O que vimos, além disso, foi uma surra de Nico Rosberg contra seu companheiro, o lendário Michael Schumacher: 142 contra 72.

Nico Rosberg fez seu primeiro ano em uma equipe de ponta. Muitos otimistas diziam que Schumacher e sua fralda geriátrica levariam a disputa interna com um pé nas costas, e restaria ao jovem alemão apenas ficar na sua, alisando seu cabelo de Barbie. Mas Nico foi humilde, discreto e altamente eficiente. Não foi espetacular, mas compensou garantindo pontos e resultados com a regularidade de um relógio suíço. Conseguiu três terceiros lugares e terminou o ano como um dos destaques. Faltou agressividade? Fica pro ano que vem.

E o Schumacher? Cheio da marra que lhe é característica, o homem está de volta. Muitos esperavam vê-lo botando pra quebrar, vencendo a molecada e mostrando que ainda tinha muita lenha pra queimar. Mas não foi bem assim. Na verdade, o que vimos na maior parte do ano foi uma corruptela de Michael Schumacher.

É evidente que ele teve lá seus momentos, como as ultrapassagens sobre Rubens Barrichello em Suzuka e, principalmente, aquela passada malandrona sobre Fernando Alonso na última curva do GP de Mônaco. Mas foram poucos. Michael passou a maior parte do ano desfilando com um carro meia-boca no meio do pelotão. Nem chegar perto do Rosberg ele conseguia direito. Em alguns momentos, como na China, Schumi esteve próximo do descalabro. Diz o cara que está se divertindo. Não sei como andar em 10º ou 11º pode ser divertido para um heptacampeão. Seria a vontade de pilotar sem holofotes?

Renault de Kubica. O renascimento

A Renault foi uma das equipes mais legais do ano. Ela terminou 2009 completamente desmoralizada, sem Alonso, sem Briatore, sem patrocinadores e com o carro mais feio do ano. Tendo 75% de suas ações compradas pelo obscuro grupo Genii Capital, a equipe renasceu das cinzas. Mudou a pintura, exibindo um psicodélico e nostálgico amarelo misturado com preto e alguns detalhes em vermelho. Mudou a gestão, colocando o discreto porém eficiente Eric Boullier na chefia. Mudou a dupla de pilotos, trazendo da BMW o espetacular Robert Kubica e fazendo estrear o vice-campeão da GP2 Vitaly Petrov, montado na grana russa. E fez um carrinho simples, simpático e veloz, o R30.

E o sapo virou príncipe. Com uma aparência rejuvenescida e bem mais simpática, a Renault foi uma das surpresas do ano. E o grande responsável foi o narigudo Robert Kubica, o melhor piloto do ano para mim. Kubica levou o quinto melhor carro do grid (não, não acho que o Mercedes tenha sido pior) às cabeças, pegou um segundo lugar em Melbourne, dois terceiros e terminou o ano a apenas seis pontos de Nico Rosberg. Alguns azares, como o problema nos pits em Spa e a roda estourada em Suzuka, tiraram a chance do polonês terminar o ano em quinto. Mas tudo bem. Kubica mostrou, em 2010, que ele é um sujeito que só precisa do carro para ser campeão do mundo.

A dupla do Leste Europeu foi completada por Vitaly Petrov, um dos pilotos mais insólitos que a Fórmula 1 já viu. Russo nascido em uma cidade que chegou a pertencer à Finlândia, assessorado pela mãe, patrocinado por uma apresentadora de TV, tímido pra caralho, desconhecia Michael Schumacher até alguns anos atrás e iniciou sua carreira em um Lada. Sujeito legal, portanto. Uma pena que seu ano não tenha sido lá dos melhores. É verdade que Vitaly chamou a atenção com suas superlargadas e com sua combatividade ao defender suas posições. Mas faltou regularidade e um pouco de calma.

Petrov marcou pontos em cinco ocasiões, tendo como melhor resultado um quinto lugar na Hungria. Fez corridas memoráveis, como em Shanghai, em Istambul, em Hungaroring e em Abu Dhabi. Mas bateu demais. E teve muitas dificuldades nos treinos de classificação. Merece uma segunda chance? Sim, porque é um piloto de ótimo potencial. Mas não pode seguir como uma vaca-brava soviética. Um pouco de maracujá não faz mal.

Williams de Barrichello. Pindaíba danada

Abaixo da Mercedes e da Renault, temos a Williams e a Force India. A Williams, tadinha, tá curtinha de grana. E o resultado foi um carro que só conseguiu render mais a partir da segunda metade do campeonato. O maior problema era o motor Cosworth, beberrão e de torque risível. E o FW32, convenhamos, também não é a maravilha absoluta da engenharia. Dito isso, Rubens Barrichello e Nico Hülkenberg fizeram trabalho digno.

Rubinho, que prometeu um título pela incansavelésima vez, fez um trabalho legal e deixou todo mundo boquiaberto na Williams, satisfeitíssima com seu conhecimento técnico, sua capacidade de liderança e, acima de tudo, sua motivação. Terminar o ano em décimo, com 47 pontos, não foi lá uma maravilha, mas o ano de Barrichello foi marcado por pequenas vitórias pessoais. A ultrapassagem sobre Schumacher na Hungria, embora nem tenha sido tão espetacular, representou uma boa lavada na alma. Ela pode nem ter sido assim tão significativa, até porque Schumacher continua sendo muito melhor do que ele, mas se o cara ficou feliz, que assim seja. E é de felicidade que Barrichello, um homem rico e que já fez bastante na Fórmula 1, precisa nesse momento.  

Nico Hülkenberg, campeão de qualquer coisa que você possa pensar, fez um ano legal. Longe de ter mostrado genialidade, Hülk mostrou que pode ao menos sonhar em fazer na Fórmula 1 o que fez nos outros campeonatos. Seu ponto alto, indiscutivelmente, foi a surpreendente pole-position em Interlagos, feita em um momento de inteligência e assustadora sorte. Nas demais corridas, alguns pontos, algumas boas atuações e outras bem medíocres. Para um estreante que não tem direito a muitos testes e que corre em uma Williams mambembe, nada mal. É chato contar com a possibilidade de não tê-lo em 2011.

Force India de Liuzzi. Melhor dentro do que fora das pistas

A Force India teve um 2010 bastante razoável. O VJM03, equipado com motor Mercedes, era um carro competente mas que não conseguiu se desenvolver muito. A equipe brilhou mais na primeira metade do campeonato, quando Adrian Sutil marcou 35 pontos e Vitantonio Liuzzi fez 12. Fora das pistas, o dono Vijay Mallya estava devendo as calças para meio mundo e até mesmo um problema relativo a atraso de declaração de bens na Inglaterra rendeu dores de cabeça ao flamboyant indiano.

Adrian Sutil deu uma boa evoluída em 2010. Parou de bater e de errar tanto e se tornou um respeitável piloto do meio do pelotão. E ainda pode crescer mais se conseguir um lugar em uma equipe de ponta.  Pontuou em nove ocasiões e foi figurinha fácil nos Q3 da vida. O que faltou? Manter a mesma forma no final da temporada. Mas o carro tem boa parcela de culpa aí. E errar um pouco menos também ajudaria. Sua aparição na Coréia foi uma das mais patéticas que já vi na vida.

Vitantonio Liuzzi, pelo visto, só seguirá conhecido pela aparência desleixada, pela surra no Schumacher no kart e pelo recorde de vitórias na Fórmula 3000. Discreto desde 2005, Tonio não conseguiu mudar sua imagem. Aliás, só fez piorar com um 2010 absolutamente fraco. O italiano voou em Sakhir, em Melbourne e em Yeongam, e só. No restante do ano, acidentes e performances fraquíssimas nos treinos. Como ele também não leva dinheiro, sua presença na Force India é basicamente inútil. Paul di Resta e Nico Hülkenberg competem por sua vaga.

Amanhã, a última parte.

 

Nico Hülkenberg, ameaçado após pedir aumento

 

Andei lendo uma notícia que me deixou um tanto quanto aborrecido. A Williams, equipe inglesa que conquistou nove títulos de construtores e 113 vitórias, pode ser obrigada a se desfazer do alemão Nico Hülkenberg. O motivo é aquele cantarolado por Pink Floyd: dinheiro. Nico recebe quase um milhão de dólares anuais, mas seu empresário, o polêmico Willi Weber, acha que seu pupilo merece mais. Deu uma passada pelo RH da Williams, sentou-se à mesa e exigiu na maior cara-de-pau um aumento de nada menos que 250%, o que significa um salário anual de 3,5 milhões de dólares.

O pessoal da Williams, equipe conhecida pelo seu pão-durismo de causar vergonha a Tio Patinhas, ponderou, pensou bastante e concluiu que Hülkenberg não vale tanto assim. Até agora, ele marcou apenas 17 pontos e está em uma distante 14ª posição. Nem mesmo o melhor estreante do ano ele é: Vitaly Petrov, o soviético da Renault, tem dois pontos a mais. Logo, o pedido de aumento é absurdo e insensato. Se o jovem alemão está insatisfeito com seu salário, que vá mendigar um emprego de piloto de testes ou de ajudante de cozinha na Ferrari ou na McLaren. Diante disso, a Williams já teria iniciado conversas com outros pilotos. Um que teria dado uma passada para um chazinho em Grove é o venezuelano Pastor Maldonado, campeão da GP2 neste ano e criado do presidente bolivariano Hugo Chavez.

Mas não creiam que a possibilidade de Maldonado adentrar a Williams se dá unicamente porque Frank Williams cria aranhas no bolso na hora de pagar seus pilotos e prefere pegar a fila do SUS a pagar um health insurance. A situação financeira da equipe inglesa, na verdade, é bastante desconfortável, para dizer o mínimo. Quatro patrocinadores de alguma relevância já anunciaram que abandonarão o barco após o final da temporada. O primeiro a pedir arrego foi o banco escocês RBS, que quase faliu na crise ocorrida entre 2008 e 2009. Salvo pelo governo britânico, o banco teve perdas de cerca de 28 milhões de libras em 2008 (o maior prejuízo já registrado por uma empresa britânica) e foi obrigado a demitir mais de 20.000 funcionários no fim de 2009, além de ter de cortar custos em várias áreas, sendo que uma delas é exatamente o patrocínio dado à Williams. No entanto, como havia uma questão contratual, o banco foi obrigado a continuar com a parceria, só que fornecendo apenas metade do dinheiro previsto, o que significou um rombo de 11 milhões de dólares para a Williams. No fim do ano, o RBS cai fora da parceria, para a felicidade de muitos contribuintes britânicos, obrigados a arcar com o buraco causado pelo banco.

Outra empresa que abandona o barco é a Air Asia, a companhia aérea malaia de Tony Fernandes. Neste caso, a saída não se dá por problemas financeiros. Fernandes é o diretor geral da Lotus, uma das equipes novatas da temporada, e não faz sentido manter o patrocínio para uma concorrente. Nesta temporada, tanto Williams quanto Lotus carregam os emblemas da empresa nos aerofólios traseiros. Em 2011, apenas os carros esverdeados receberão a primazia. Azar de Frank Williams.

Recentemente, foi noticiado que a holandesa Philips, talvez o segundo patrocinador mais importante da Williams, não renovará seu acordo de patrocínio com a equipe, que acaba no final deste ano. Diz a lenda que a empresa está procurando uma equipe melhorzinha para o ano que vem. Além dela, uma patrocinadora menor, a McGregor, também não seguirá com a Williams no ano que vem. São quatro empresas a menos, portanto. Entre os patrocinadores maiores, apenas a AT&T anunciou que seguirá em 2011. Não deixa de ser algo excelente, uma vez que a empresa americana do ramo telecomunicações é o melhor parceiro da equipe, fazendo parte até do nome oficial, AT&T Williams F1. Os outros patrocinadores que seguirão, ou que ao menos ainda não anunciaram sua retirada, não são lá muito relevantes na contribuição com o orçamento: Reuters, Oris, Green Flag e Hell Energy Drink, entre os que eu consigo identificar à primeira vista.

 

Pastor Maldonado, o cara da grana

 

É uma situação chata pra caralho, mas não é, infelizmente, uma novidade para a Williams dos tempos atuais. Nos últimos cinco anos, vários patrocinadores, aborrecidos com a decadência quase eterna da outrora campeã mundial, foram embora sem dó. A lista não é pequena: Allianz, HP, FedEx, Petrobras, Budweiser e Lenovo estão entre as desertoras. Isso porque sequer citei a Baugur, grupo islandês que até propôs comprar a maior parte das ações da equipe e que sucumbiu à gravíssima crise de seu país em 2008. Como se percebe, além de tudo, a equipe de Frank Williams não dá sorte às suas parceiras.

Atualmente, o orçamento gira em torno dos 130 milhões de dólares. Apenas a Force India, a Sauber e as três novatas são mais pobres. Sem quatro patrocinadores, e com a Sauber recebendo um caminhão de dinheiro da Telmex, não duvido que a Williams se torne a equipe mais pobre entre as mais antigas em 2011. Tristeza para uma equipe que já estampou polpudos emblemas de grandes empresas como a Canon, a Camel, a Saudia Airlines e a Rothmans.

Se você perguntar pra qualquer um da equipe, ele irá dizer que tudo está sob controle e que o orçamento para 2011 está muito próximo de ser fechado. Não dá pra acreditar muito nisso. Após o pedido de aumento por parte de Willi Weber, Frank Williams sugeriu a ele trazer um bom patrocinador da Alemanha para, depois, poder conversar sobre o assunto. O outro piloto da equipe, Rubens Barrichello, teria até aceitado reduzir seu salário anual, que gira em torno dos 7,7 milhões de dólares. E não duvido que os cerca de 500 funcionários sejam consideravelmente reduzidos para o ano que vem. Outras medidas tomadas pela equipe são a busca incessante pela parceria como uma grande montadora, como a Volkswagen, e o uso momentâneo do motor Cosworth, beberrão, fraco e barato.

Diante disso, dá pra entender porque o nome de Pastor Maldonado é mencionado. Ele carrega consigo uma série de patrocinadores estatais venezuelanos (PDVSA, CanTV, o próprio governo venezuelano), o que pode significar algumas dezenas de milhares de dólares. Neste momento, qualquer ajuda serve. Aceitam-se todos os cartões.

Na atual temporada de Fórmula 1, temos cinco pilotos que fizeram sua primeira corrida neste ano: Nico Hülkenberg, Vitaly Petrov, Lucas di Grassi, Bruno Senna e Karun Chandhok. Somem-se a eles Kamui Kobayashi e Jaime Alguersuari, que estrearam no decorrer do ano passado, e temos sete pilotos que estão fazendo sua primeira temporada completa na categoria. Se você perguntar a qualquer um o que ele acha do nível médio dos atuais estreantes, a resposta tem tudo para ser negativa. Como argumento, ele dirá que os caras não fizeram nada que chame atenção até aqui. É o que eu chamo de “efeito Hamilton”.

Em 2007, a McLaren contratou um moleque de 22 anos para ser companheiro de equipe do bicampeão Fernando Alonso. O moleque em questão já havia levado para casa os títulos da Fórmula Renault inglesa, da Fórmula 3 européia e da GP2. Um fenômeno. Além do mais, uma ótima ferramenta de marketing, era o primeiro piloto negro a conseguir chegar à Fórmula 1. A princípio, isso era o que deveria chamar mais a atenção. Surpreendentemente, Lewis Carl Hamilton colocou seu capacete amarelo, igualou-se aos seus oponentes (quem vê capacete não vê cor de pele, oras) e começou a obter uma série bons resultados. Fez nove pódios consecutivos nas suas primeiras nove corridas, venceu quatro e perdeu o título por apenas um único ponto devido a problemas de inexperiência e insensatez. Vice-campeão, foi considerado pela mídia e pelos torcedores o melhor estreante de todos os tempos. Apenas Jacques Villeneuve havia conseguido resultado igual em seu primeiro ano, e mesmo assim sem tanto furor. Lewis Hamilton era um fenômeno, um candidato a gênio. E também uma bela exceção.

O problema é que nem todo mundo pensa assim. A estréia de Hamilton estabeleceu um novo padrão na Fórmula 1, o do estreante genial que aparece fazendo grandes corridas logo no começo. Equipes, torcedores e midiáticos passaram a esperar o mesmo dos outros. Não importa se o cara não faz o estilo arrojado. Não importa se o cara está na Hispania. Não importa se a curva de aprendizado é diferente para todos. O que todos queriam ver era estreantes destruindo seus companheiros experientes, fazendo ultrapassagens impressionantes e maravilhando a todos. O que digo? Digo que todos enlouqueceram.

Como falei lá em cima, Hamilton foi uma agradabilíssima exceção. Vamos a uma pequena aula de semântica. Segundo o Aurélio, EXCEÇÃO é um substantivo feminino que indica “uma pessoa cujo modo de pensar ou proceder não é comum”. Logo, Lewis Hamilton é uma pessoa cujo modo de proceder não é comum. Aprendam isso, infantes! Nenhum estreante é obrigado a fazer corridas excepcionais logo no primeiro ano. Talvez, nem no segundo ou no terceiro. Lembremos que Nigel Mansell, aquele que é amado por muitos, demorou cinco anos pra aprender a fazer direito as coisas. Outros, como Jody Scheckter e Nelson Piquet, também demoraram um pouco para aparecer. É verdade que pilotos como Ayrton Senna e Michael Schumacher começaram a brilhar desde cedo. Mas ninguém tem a obrigação de ser Senna ou Schumacher. E nem de ser Hamilton.

Nico Hülkenberg. Ganhou tudo até aqui, mas vem tendo dificuldades nesse ano de estréia na F1. Que são normais e aceitáveis, oras bolas!

Na atual temporada, o estreante que tem brilhado mais é um pseudoestreante. Kamui Kobayashi, da Sauber, marcou 15 pontos até o GP da Inglaterra e está em 12º. Eu me arriscaria a dizer que o japonês só tem brilhado mais porque fez dois corridões em Valência e em Silverstone. O restante do ano, em termos de resultados, foi absolutamente dispensável. Ele teve muito azar, mas também andou atrás de Pedro de la Rosa, seu discreto companheiro de equipe, por algumas vezes. Longe de ser um mau piloto ou um completo picareta de olhos puxados, a verdade é que Kobayashi agiu, acima de tudo, com extremo oportunismo nas últimas corridas. E é isso mesmo que um estreante de uma equipe média deve fazer: agir com oportunismo e mandar à merda quem encher o saco.

O motivo desse texto, no entanto, está nos estreantes que estão nas melhores equipes, a dupla dinâmica Hülkenberg e Petrov. O alemão, que já deve ter ganho até campeonato de cuspe antes de chegar à F1, faz um ano bastante complicado e marcou até aqui apenas dois pontos. Seu companheiro Rubens Barrichello, a título de comparação, marcou 29. Nico vem andando razoavelmente bem nos treinos, mas se perde nas corridas com erros e uma crônica falta de ritmo. Em dias muito negros, já chegou a terminar atrás de um Lotus. É verdade que seu Williams não é aquela Brastemp com degelo automático, mas os esforços bem-sucedidos de Barrichello acabam por ofuscar por completo o jovem alemão. E aqueles que não tem tanto contato com o automobilismo além do mundo cego, surdo e mudo da Fórmula 1 terminam achando que o tal Hülkenberg é mais um moleque medíocre e sem futuro. Esses nem se dão ao trabalho de pronunciar corretamente o nome do cidadão. Hulk não existe. É Hilk. Trema!

E o coitado do russo? Se desconsiderarmos o japonês surgido na safra 2009, Vitaly Petrov é o estreante com mais pontos até aqui. São seis, marcados em um chuvoso GP da China no qual ele andou muito bem. Ele também teve atuações bastante razoáveis em Sepang, em Istambul e em Silverstone. No entanto, andou muito mal em outras corridas também, como em Montreal e em Barcelona. Ao contrário de Hülkenberg, Petrov tem sérios problemas nos treinos, nos quais consegue uma posição média de 14,1. Nas corridas, ele até se recupera com largadas razoáveis e, dependendo da posição dos astros, consegue andar bem. No entanto, nem sempre isso acontece. E o azar sempre dá as caras, como aconteceu em Istambul. Seu companheiro Robert Kubica, inspiradíssimo, já tem 83 pontos e tem uma posição média nos grids de 6,8.

Em tese, Hülkenberg e Petrov merecem um desconto por serem companheiros de Rubens Barrichello e Robert Kubica, dois pilotos de ponta. Por maior que seja a derrota, perder pra Rubens e Robert não deveria ser considerado um demérito quase criminoso. Os estreantes precisam passar por um período de aprendizado para se tornarem pilotos de ponta um dia, e nada mais adequado do que ter um bom companheiro como professor. Se Hamilton conseguiu vencer um bicampeão no seu primeiro ano, parabéns para ele. Hülkenberg e Petrov não estão conseguindo, o que não quer dizer picas.

Vitaly Petrov. Seu vice-campeonato na GP2 em 2009 mostra que ele é bom. Mas a Renault tem pressa, e quem tem pressa come cru.

O velho Frank Williams até entende a situação. O tiozão já teve em seus carros estreantes como Jenson Button e Nico Rosberg, e estes penaram em seu primeiro ano na categoria. Frank teve a paciência necessária para não mandá-los embora na primeira oportunidade e o resultado é que ambos são pilotos consolidados na categoria. E exatamente por isso que ele dará toda a assistência possível a Hülkenberg. “Vocês vão ter de me engolir”, diria Nico se ele conhecesse o Velho Lobo. No entanto, Petrov não deverá ter a mesma sorte.

Nesta semana, Eric Boullier, dirigente da Renault, andou dizendo que estava conversando com alguns pilotos para o ano que vem. A mídia alemã emplacou até mesmo um número para estes “alguns”, sete. E todos esses sete eram nomes de quilate: Kimi Raikkonen, Nick Heidfeld, Timo Glock, Kamui Kobayashi, Heikki Kovalainen, Jarno Trulli e Christian Klien. Hoje, o dirigente disse que estava satisfeito com o russo, mas que só conversaria sobre seu futuro mais tarde. É visível que se for pra ter qualquer nome da lista acima, ele mandaria Petrov às favas, mesmo que este carregue consigo uma bolada em sua carteira. Nem acho que o russo fique de fora da Fórmula 1, já que tem dinheiro pra comprar a vaga que quiser. No entanto, é um piloto em visível evolução. E a Renault segue destruindo carreiras promissoras com sua impaciência, suas cobranças e os excessivos privilégios ao primeiro piloto. Nelsinho Piquet e Romain Grosjean que o digam.

Nessa segunda metade do campeonato, o que Nico Hülkenberg e Vitaly Petrov podem fazer é seguir seu trabalho com discrição e eficiência. Eles devem tentar se manter o mais próximo possível de Rubens e Kubica, mesmo que não consigam superá-los. Além do mais, o melhor é se afastar de torcedores e jornalistas. Na verdade, qualquer um relacionado ao esporte faz bem ao se afastar deles. O efeito Hamilton faz mal à cabeça.

AT&T WILLIAMS


Moda na atual Fórmula 1 é elogiar a Williams. É quase cult fazer isso. Todos adoram louvar os grandes (e eles são impressionantes, de fato) feitos da intrépida dupla Frank Williams e Patrick Head, mesmo sabendo que o último título da equipe foi obtido apenas em 1997. Mas já que é assim, que seja. Desde o fim da parceria com a BMW, a Williams vem sofrendo com a falta de um motor forte de fábrica e de dinheiro. Porém, consegue sempre alguns pontinhos que fazem regozijar-se os fãs mais tradicionais. A esperança que ela volte a ser grande sempre existe.

Sediada em Grove, UK
9 títulos de construtores
534 corridas
113 vitórias
125 poles-positions
2600 pontos

9- RUBENS BARRICHELLO

Essa é a imagem de Barrichello para boa parte dos brasileiros. Uma parte da culpa por isso é dele, claro

Assim como Schumacher, é outra figurinha polêmica. Desprezado pelo grande público e até mesmo por parte da mídia, Barrichello é aquele indivíduo que chega na sua 17ª temporada acreditando que, nesse ano, dá! Suas declarações transparecem uma falta de maturidade combinada com uma baixíssima auto-estima e uma pitada de falta de inteligência. Uma imagem criada por ele que soa quase como maldade própria, ao meu ver. Rubens é um exímio piloto, especialista em corridas chuvosas e excelente acertador de carros. Depois de quase ser defenestrado da F1 e de renascer na Brawn, tentará levará sua experiência, sua velocidade e sua choradeira para a Williams.

Brasileiro, de São Paulo, nascido em 23 de Maio de 1972
Vice-campeão de F1 em 2002 e 2004
284 GPs disputados
11 vitórias
14 poles-positions
607 pontos
Campeão da F3 inglesa em 1991 e da F-Opel européia em 1990

10- NICO HÜLKENBERG

A vida dele, até ontem, foi assim. E a partir de hoje?

Ele é branquelo, alemão, seu nome é Nico, possui um título na GP2 e tem sua temporada de estréia pela Williams. E não estamos falando do Rosberg! Nico Hülkenberg (aprendam comigo: RIUQUENBERG, e não RULQUENBERG) é o estreante com melhor currículo da F1 nos últimos anos: títulos na F3 Européia, A1, F-BMW e, ufa, GP2. Empresariado por Willy Weber, tem tudo para chegar às cabeças. Não há muito o que se falar dele ainda. Os jornalistas dizem se tratar de uma figura pernóstica. É uma aposta pessoal desse blog para o futuro.

Alemão, de Emmerich, nascido em 19 de Agosto de 1987
Estreante
Campeão da GP2 em 2009, da F3 européia em 2008, da A1 GP em 2007 e da F-BMW ADAC em 2005