Roberto Moreno e seu Reynard sem patrocinadores: até Silverstone, era assim que o seu carro estava

Monza, quinta etapa da temporada, 26 de junho.

Pouco antes da corrida, para angariar alguns fundos, Roberto Moreno decidiu tomar uma atitude pra lá de esperta. Ele foi atrás de Guido Forti, que era o dono da Forti-Corse. A futura equipe de Pedro Paulo Diniz era, naquele ano, uma das piores do grid graças à lerdeza do antiquado Dallara 3087. Mas ela tinha vários patrocinadores, utópicos para a Bromley Motorsport de Moreno. O principal patrocinador da Forti-Corse era a Assitalia, uma seguradora de Roma.

Moreno perguntou a Guido Forti quanto é que sua equipe recebia pelos patrocínios. Uns dez, quinze mil dólares, a resposta do dirigente. Então, Roberto propôs o seguinte: você me dá uns dois mil dólares e eu coloco o logotipo da Assitalia no meu carro. O que acha? Forti achou a idéia razoável e aceitou. Pela primeira vez na temporada, o imaculado veículo amarelo teria um adesivo. Não conto, é claro, os dos patrocinadores técnicos, que só contribuem não cobrando por porcas e rebimbocas.

Na classificação, por três estúpidos centésimos, Roberto Moreno manteve-se à frente de Marco Apicella e acabou ponteando o treino dos pilotos pares. Como o mais rápido dos ímpares foi ainda mais lento, Moreno acabou sendo o pole-position geral. Era um resultado esperado, já que ele havia batido o recorde do circuito italiano nos testes coletivos de duas semanas antes. Detalhe: o dinheiro destes testes foi coberto por empréstimo.

Mas a bonança quase foi arruinada no warm-up. O motor que Moreno havia utilizado para fazer a pole-position estava fazendo um barulho muito estranho. Para evitar maiores riscos, foi decidido trocá-lo por uma unidade de reserva, que já havia completado cerca de 2.500 quilômetros sem revisão. Era uma aposta temerária, mas um motor velho ainda era mais seguro do que um motor com barulho suspeito.

Mas se ele não estava tranquilo, o que dizer dos demais? Na primeira largada, Moreno pulou muito bem e simplesmente desapareceu na liderança. O brasileiro seguiu confortavelmente até a volta 13, quando um pavoroso acidente acabou interrompendo a corrida. Na Lesmo, o francês Fabien Giroix e o italiano Massimo Monti se tocaram e cada um foi para um lado. Giroix bateu de frente com tanta força no guard-rail que seu carro catapultou e caiu no meio das árvores que rodeiam o autódromo. Saldo: duas pernas quebradas e o fim de sua carreira nos monopostos. Monti também bateu com força e chegou a danificar uma placa publicitária, mas sofreu apenas ferimentos leves.

Bandeira vermelha e tensão no paddock. Após o resgate e a certeza de que tanto Giroix quanto Monti haviam sobrevivido, os pilotos partiram para uma nova relargada. Que também não deixou de ser confusa: o holandês Cor Euser perdeu o controle de seu carro lá no meio do pelotão e rodopiou até atingir, na primeira chicane, os pobres Olivier Grouillard e Pierluigi Martini no melhor estilo Vitantonio Liuzzi em 2011. Mesmo assim, a corrida seguiu em frente.

Fabien Giroix, um talento francês que não foi para a frente porque quebrou as duas pernas. Um Olivier Panis dos anos 80

Naquela época, o resultado da primeira parte era contabilizado na segunda. Ou seja, se o primeiro colocado tivesse aberto uma grande distância para o segundo, ele não perderia esta distância no caso da corrida ser interrompida com bandeira vermelha. Se houvesse uma relargada, a vantagem previamente obtida seria contabilizada e ele poderia até mesmo perder a primeira posição na pista sem perder a liderança de fato. Com isso, Moreno manteve a liderança na relargada e nunca sofreu qualquer pressão, embora Apicella tenha ficado bem próximo nas primeiras voltas. O cronômetro jogava a seu favor.

Moreno venceu pela terceira vez consecutiva. Acumulou 30 pontos, o dobro do vice-líder Gregor Foitek. Faltavam ainda seis etapas para o fim da temporada, mas poucos acreditavam que o título poderia escapar das suas mãos. Mesmo assim, o drama da falta de dinheiro permanecia. Mesmo liderando o campeonato, Pupo e a Bromley não tinham qualquer certeza de que poderiam continuar correndo até o final da temporada. Na semana seguinte à vitória de Monza, a Autosport publicou uma capa “Forza Moreno”, demonstrando solidariedade com aquela heroica e parca estrutura que vinha assustando as grandes equipes da Fórmula 3000.

Mas as coisas melhoraram. Drasticamente.

Moreno subiu ao pódio de Monza ao lado de Apicella e Johnny Herbert, que havia relargado em último e terminado na terceira posição, o que também deixou muita gente maravilhada. Somente o franzino brasileiro tinha uma garrafa de champanhe nas mãos: naquela época, em determinadas corridas, apenas o primeiro colocado dispunha do direito de bebericar o espumante. Ele pegou a garrafa e foi aos boxes comemorar com o amigo Pedro Leopoldo, que trabalhava com Nelson Piquet e fazia parte da turma dos tempos de Brasília. Enquanto esguichava champanhe na cabeça do Pedrão, surgiu meio que do nada um elegante sujeito, encaixado em sofisticada indumentária e acompanhado de sua namorada. O sujeito deu um tapinha nas costas de Moreno, que virou para trás e cessou a guerra de champanhe.

“Queria que você ligasse para o meu chefe. Ele quer falar com você”, disse o misterioso homem, entregando um cartão ao piloto. Moreno agradeceu, colocou o cartão no bolso sem sequer olhar para ele e continuou na farra. Aquela era hora para se divertir e celebrar o ótimo momento. O cartão seguiu esquecido por algum tempo.

Ao voltar para sua casa, localizada na cidadezinha inglesa de Kings Bromley, Moreno entregou o macacão para a esposa Célia dar uma lavada. Ao enfiar a mão nos bolsos, Célia encontrou o tal cartão. “Ô Beto, eu achei este cartão aqui, você vai querer?”, perguntou a esposa.

Roberto deu uma olhada no cartão e viu que havia um nome, Marco Piccinini, e um telefone na Itália. Ué, quem seria esse carcamano? Para sanar a dolorosa dúvida, ele decidiu ligar para um amigo que tinha bom trânsito no meio. “Você conhece esse tal de Marco Piccinini?”, perguntou Moreno. O amigo respondeu que não. Enquanto conversavam, Roberto olhou com mais atenção para o cartão e identificou um logotipo em alto-relevo. Um cavalo.

O mais novo emprego de Moreno: piloto de testes da Ferrari

“Liga lá para ver se não é a Ferrari”, sugeriu o amigo, meio incrédulo.

Moreno ligou. Scuderia Ferrari, boa tarde? O tal Marco Piccinini era ninguém menos que o diretor esportivo da Ferrari na Fórmula 1, um verdadeiro braço direito do comendador Enzo Ferrari na categoria. Piccinini afirmou que a equipe estava interessada em contratá-lo para desenvolver o câmbio semiautomático que seria utilizado no carro de 1989. A sugestão havia partido do projetista John Barnard, que tinha ouvido falar das capacidades técnicas de Moreno e praticamente exigiu que a Ferrari o contratasse.

É isso aí: um convite para ser piloto de testes da Ferrari. Que quase desapareceu dentro de uma máquina de lavar. Veja só como são as coisas.

Moreno teve de viajar até Mônaco para conversar com Marco Piccinini. Para comprar as passagens, ele precisou fazer um novo empréstimo. Gentil, o cara que emprestou a grana disse que Pupo só precisaria pagar se voltasse com o contrato assinado. Se não voltasse, ele poderia pagar numa outra data. Se não houvesse outra data, então ficava por isso mesmo.

Reunião em Mônaco. Piccinini apresentou a proposta. Surpreendentemente realista e condescendente, ele sabia que Moreno precisava terminar a temporada de Fórmula 3000 para poder dar continuidade à carreira. Então, o diretor pediu à Marlboro para que fornecesse uma ajuda financeira a Roberto para que ele pudesse finalizar sua campanha. Até aqui, tudo extremamente fácil e bonito.

O negócio pegou quando os dois lados discutiram o formato do contrato de Roberto Pupo Moreno com a Ferrari. A Ferrari propôs que o brasileiro fizesse testes para a equipe até março de 1989. Para Moreno, não valia a pena, pois seria impossível para ele arranjar uma equipe na Fórmula 1 logo depois. E viver unicamente de testes era algo que ele não queria mais para sua vida. No início dos anos 80, ele praticamente destruiu sua carreira ao assinar com a Lotus unicamente para amaciar motores e testar pequenas peças. Não, nunca mais.

Moreno agradeceu o convite e se levantou para ir embora. Estava nervoso, pois aquela que aparentava ser sua grande chance simplesmente não valia a pena para o andamento de sua carreira. Intrigado, Piccinini pediu para ele se sentar e explicar o que estava acontecendo. Roberto contou sua má experiência como piloto de testes da Lotus e disse que não queria que aquilo se repetisse. Marco acalmou o brasileiro, disse que aquela situação não se repetiria e se retirou da reunião para fazer alguns telefonemas. Até Enzo Ferrari foi consultado.

Piccinini retornou à sala de reunião e ofereceu nova proposta, um contrato de três anos. Ele passaria a valer a partir do segundo semestre de 1988 e incluiria o dinheiro necessário para terminar o campeonato de Fórmula 3000 e algumas sessões de testes nos dias em que não houvesse atividades na categoria júnior, considerando que ela era a prioridade do brasileiro naquele ano. Até aí, beleza.

Olivier Grouillard, da GBDA. Compare os patrocínios de seu carro com os de Moreno

O segundo e o terceiro ano ainda foram discutidos com mais profundidade na reunião. Em 1989, logo após o programa de desenvolvimento do câmbio semiautomático da Ferrari, a equipe se comprometeria a arranjar uma vaga para Moreno em uma equipe pequena de Fórmula 1. “Qual equipe?”, perguntou o brasileiro. Piccinini disse não saber, pois isso era algo que precisava ser discutido com o restante da cúpula ferrarista. O fato é que a Ferrari não descartava a ideia de comandar uma espécie de equipe-irmã para funcionar como celeiro de recursos humanos. Não seria estapafúrdio, portanto, injetar dinheiro em uma Dallara ou Minardi da vida para que ela pudesse receber pilotos indicados pela Ferrari.

Satisfeito com o que foi definido para 1988 e 1989, Moreno fez apenas uma exigência: queria ser piloto titular da Ferrari em 1990. Um pedido bastante otimista, mas Marco Piccinini concedeu. Estava tudo resolvido.

Faltava apenas a assinatura final. A Ferrari entregou uma minuta de contrato a Roberto Moreno, que a cedeu para um advogado especializado em direito internacional dar uma olhada. Sem grandes pepinos para resolver, a minuta foi aprovada e Moreno pôde, enfim, registrar sua assinatura. No dia 12 de julho, a Ferrari fez o anúncio oficial: Roberto Pupo Moreno era o mais novo piloto de testes da equipe italiana. Vale notar o seguinte: ele foi o último piloto contratado pela Ferrari antes da morte do comendador, em agosto.

A minuta de contrato era um tanto complexa. Eram quinze páginas lotadas de cláusulas e exigências cabeludas para a época. A integridade física, por exemplo, era um assunto de primeira importância. Moreno estava proibido de esquiar na neve e na água, além de não poder sequer dirigir tratores, imagine só. Além disso, todo o trabalho que ele realizasse para a Ferrari seria mantido no mais absoluto sigilo. Tudo isso soa absolutamente banal para a intrincada Fórmula 1 de hoje, mas tratava-se de um árduo regime contratual para a época.

A partir daí, a vida de Roberto Pupo Moreno mudou. Para melhor. Ele deixou sua casinha na Inglaterra para se mudar para a Itália visando ficar próximo da fábrica da Ferrari. O salário que ele recebia da equipe e o apoio da Marlboro o deixaram em uma situação financeira bastante confortável. Os dias de sofrimento haviam chegado ao fim naquele ano.

Mas a coisa ainda pegaria fogo na pista. A próxima corrida seria realizada no espetacular circuito de Enna-Pergusa, o melhor do mundo, no dia 17 de julho.

Gregor Foitek e os demais pilotos querendo o máximo de distância em Vallelunga

Vallelunga, segunda etapa, 8 de maio.

Utilizando a mesma asa dianteira dos demais Reynard, os problemas de desempenho encontrados no treino de Jerez não se repetiram e Moreno conseguiu marcar o terceiro tempo na sessão dos pilotos de numeração par. Como o pole-position, Gregor Foitek, também utilizava um número par, Moreno acabou tendo a primazia de largar na quinta posição.

Apesar disso, ele estava puto da vida por causa do erro do engenheiro Gary Anderson. Faltavam cinco minutos para o fim do último treino e o brasileiro era o pole-position provisório. Ele retornou aos pits, trocou os pneus e colocou mais gasolina. O imprudente Anderson se esqueceu de fechar uma tampinha na qual ficava presa uma delgada vareta que media o combustível no tanque. Com a tampinha aberta, não havia pressão para o vapor da gasolina pressionar a gasolina em direção ao motor. Com isso, o carro perdeu potência e Moreno acabou perdendo algumas posições.

Além do mais, saindo da quinta posição, era meio difícil falar em vitória. Vallelunga era uma pista veloz, mas também estreita, sinuosa e absurdamente perigosa. No ano anterior, Yannick Dalmas estampou seu March em um guard-rail pelado a mais de 200km/h. Não morreu por pouco.

Corrida. Foitek manteve a liderança após a largada, mas acabou sendo ultrapassado pelo francês Michel Trollé na volta 38. A partir daí, o suíço começou a sofrer enorme pressão de Johnny Herbert. As coisas mantiveram-se desta maneira até a volta 46, quando Herbert saiu melhor da curva oito e colocou seu carro de lado para ultrapassar Foitek. Este, por sua vez, fechou a porta abruptamente e forçou o inglês a embicar para a esquerda. Herbert acabou perdendo o controle e deu o supremo azar de bater com a lateral do cockpit em uma quina de guard-rail. Saldo: traumatismo craniano. Foi a primeira de muitas idiotices do senhor Gregor Foitek naquele 1988.

O pior é que ele acabou vencendo a corrida de Vallelunga. O líder Trollé acabou tendo de fazer uma parada nos boxes na volta 55 para trocar um pneu defeituoso e caiu para a sexta posição. O pódio acabou sendo formado por Foitek, Bertrand Gachot e Olivier Grouillard. E Moreno?

O brasileiro perdeu uma posição para Bertrand Gachot na largada, mas nunca perdeu de vista o belga e o francês Olivier Grouillard. Os três correram juntos durante todo o tempo e como não havia grandes possibilidades de ultrapassagem, Moreno acabou terminando na quarta posição graças aos problemas de Herbert e Trollé. Os três pontos foram seus primeiros em uma temporada que só melhoraria. Mesmo assim, Vallelunga é uma corrida que ele considera que poderia ter vencido se tivesse largado mais à frente.

Foi a primeira vez que Roberto Moreno pôde sorrir naquele ano, mas ele passou por um belo susto quatro dias depois. Monza, 12 de maio de 1988.

Moreno estava entre os doze pilotos da Fórmula 3000 que participavam de um treino coletivo no tradicional circuito italiano. Convinha às equipes testar em Monza, pois o autódromo ficava no caminho de volta para a Inglaterra e esta sessão não ficaria muito cara. Com um carro muito bem acertado, ele marcou 1m37s5 e acabou ponteando a tabela de tempos, mesmo tendo utilizado um jogo de pneus velhos enquanto seus adversários desfrutavam da mais fresca e pura borracha Goodyear. O tempo foi tão bom que o segundo colocado, Johnny Herbert, só conseguiu 1m38s3. Mas o dia terminou mal.

Quando faltavam poucos minutos para o fim da sessão, Roberto decidiu voltar à pista para tentar melhorar seu tempo. Foi quando, na Prima di Lesmo, a asa traseira do seu Reynard se descolou sem razão aparente, o que fez o bólido rodopiar várias vezes e bater com alguma violência no guard-rail. Os mecânicos da Bromley correram em direção ao carro e encontraram Moreno desacordado. Tiraram-no e do cockpit e o transportaram até um hospital nas cercanias. Ele só acordou quando já estava na ambulância.

Prima di Lesmo, a curva de Monza onde Roberto Moreno sofreu um perigoso acidente em testes

Felizmente, não houve nada de grave. Após três horas em observação, Pupo acabou saindo do hospital por conta própria e seguiu viagem para Mônaco, onde acompanharia o Grande Prêmio de Fórmula 1 no próximo fim de semana. Estava todo dolorido, zonzo e com a cabeça latejando, mas a única grande consequência foi a destruição de seu carro.

Um acidente era basicamente tudo aquilo o que Moreno não precisava em 1988. A Bromley tinha de se virar como podia e apenas o apoio da Reynard via Rick Gorne permitia que a equipe continuasse existindo mesmo após uma desgraça dessas. Ao mesmo tempo, Roberto também fazia das tripas coração para sobreviver e sustentar uma família. Ele recebia um dinheirinho de Ron Salt, que dava para pagar algumas contas, comprar comida e só. Além disso, ele teve de escavar a poupança construída nos seus dias na Indy, entre 1985 e 1986. Não havia patrocínio, nem nada.

Dias depois, Moreno e a Bromley apareceram no acanhado e minúsculo circuito de Pembrey, no País de Gales. A equipe foi até lá para resolver o que fazer com a suspensão do Reynard. Os carros da marca utilizavam ajuste de pré-molas de oito voltas, o que conferia às molas um ponto de rigidez tamanho que elas só se moviam nas freadas. Isso obviamente compromete a estabilidade do carro, especialmente em pistas onduladas, como era o caso de Pau.

Moreno passou um dia inteiro em Pembrey testando um ajuste de molas mais macio para o Reynard. Ele e a equipe só ficaram satisfeitos quando os tempos do carro com suspensão macia ficaram parecidos com os tempos feitos com suspensão dura. Após isso, Roberto ainda fez mais algumas voltas apenas por efeito de comparação e concluiu que, sim, a Bromley havia conseguido um acerto que não demandava muita carga nas pré-molas. Próxima parada: Pau. Não seja maldoso, seu bastardo de mente suja.

Mesmo com todo este esforço, Roberto Moreno sabia que sua temporada estava chegando ao fim. O Grande Prêmio de Pau, corrida análoga à de Mônaco em charme e história, seria a última que seu minúsculo orçamento do início do ano permitiria. A partir dali, ele só conseguiria prosseguir se encontrasse petróleo em casa. Ou se vencesse a corrida, que seria realizada no dia 23 de maio.

E o cara não poderia começar melhor o fim de semana: pole-position absoluta, com o tempo de 1m10s86. Na verdade, o resultado nem era tão inesperado, já que Pau era um dos circuitos favoritos de Roberto Moreno. Além do mais, seu retrospecto por lá era bom: no ano anterior, ele só não ganhou a corrida por causa de uma estúpida pane seca. Em 1988, as coisas seriam diferentes. Mas nem mesmo esta excelente performance foi tão tranqüila, muito pelo contrário.

Pelo que se lembra Moreno, ele diz que não conseguiu andar muito nos treinos livres. O fato é que o carro não estava bom e havia o risco dele ficar de fora da corrida. Roberto deu uma, duas voltas e voltou para os pits. Reclamou com Gary Anderson sobre o fato do carro estar saindo de frente na curva do Parque, um enorme trecho feito à direita em alta velocidade. Anderson não gostou, pois achava que Moreno tinha de aquecer os pneus e um par de voltas não era o suficiente para dizer se o carro estava bom ou não. Volta lá e faz seu trabalho!

Roberto Moreno retornou à pista. Deu uma única volta e retornou aos pits. Não, não dá mesmo. Gary ficou irritadíssimo. E se irritou ainda mais quando Moreno pediu para que ele voltasse a deixar a suspensão dura, do jeito que estava antes de Pembrey. O engenheiro não admitia que um dia inteiro de trabalho em Gales poderia ser jogado fora após um feedback negativo obtido em apenas três voltas. Os dois discutiram um bocado e Moreno ameaçou ir embora se o carro não ficasse do jeito que ele queria. Depois do litígio, os dois entraram em um acordo: Anderson só faria metade do acerto que Moreno queria.

Roberto Moreno

O piloto voltou à pista, deu uma volta e retornou aos pits. Ao chegar lá, Anderson foi agressivo: o que foi agora, porra? Roberto reportou que o carro melhorou, mas precisava de mais sobrecarga nas molas. Gary ficou ainda mais nervoso e os dois brigaram, mas o teimoso engenheiro inglês enfim concedeu. Moreno prometeu que não andaria no traçado do meio, que é onde a pista era mais alta e raspava no assoalho do carro. Ele só utilizaria as linhas da direita ou da esquerda.

Roberto voltou à pista, deu mais uma volta e retornou aos boxes. Quase se descabelando, Anderson perguntou qual era o problema. Pupo apenas comentou que o carro finalmente ficou bom e que só precisava de pneus novos para fazer um tempo bom. Com nova borracha, o piloto brasileiro voltou à pista, fez uma volta sensacional e arrancou o tal 1m10s86 do cronômetro. Era sua última volta antes da bandeirada. Gary Anderson ficou de queixo caído. A partir daí, o inglês passou a confiar cegamente nas opiniões de Roberto Moreno.

Vamos à corrida. Moreno largou bem e simplesmente desapareceu na liderança. Chegou a abrir um segundo por volta em determinados momentos e completou as 72 voltas com uma vantagem de 22 segundos para o segundo colocado, Jean Alesi. A diferença só não foi maior porque ele quase se envolveu em um acidente com o retardatário Pierre Chauvet, que havia batido logo à sua frente. O contratempo suprimiu nove segundos de sua vantagem, mas não acabou com sua corrida. Todo mundo ficou boquiaberto. O ex-piloto James Hunt, que estava cobrindo a corrida para uma televisão inglesa, comentou que havia se impressionado com a precisão com a qual Moreno completava as curvas. Um elogio vindo de um campeão de Fórmula 1 nunca é ruim, não é?

A vitória rendeu cinco mil dólares a Roberto Moreno. A Bromley Motorsport ficou extasiada. Além de seu piloto estar ocupando a liderança isolada do campeonato, o dinheirinho ganho poderia até mesmo financiar mais uma corrida. Sabe como é, a sede da Bromley não ficava tão distante do circuito e uma corrida a mais ou a menos não faria muita diferença. Com isso, o mais batalhador dos pilotos brasileiros conseguiu garantir sua participação no International Trophy, a ser realizado em Silverstone no dia 5 de junho.

Silverstone, como você sabe, costuma ter muito contato com água. Muita água. O pior é que a chuva aparece de modo irregular, podendo surgir do nada em alguns minutos e desaparecer pouco depois. Os pilotos de numeração ímpar, que entravam antes na pista, puderam treinar em pista seca e Bertrand Gachot fez uma pole-position na casa de 1m19s6. Quando os pilotos de numeração par vieram à pista, a chuva desabou com força. Roberto Moreno foi o mais rápido, mas só conseguiu andar na casa de 1m26s4, dois segundos mais lento do que o último da turma ímpar. O brasileiro acabou largando da segunda posição.

No warm-up (sim, as corridas de Fórmula 3000 das antigas tinham sessões de warm-up!), Moreno quis tentar uma tática diferente. O senso comum diz que o ideal em Silverstone é utilizar o mínimo de asa traseira possível, pois o circuito é basicamente uma sucessão de retas. Pois Roberto preferiu colocar bastante asa para ser mais rápido nas curvas de alta, o que até compensaria uma possível perda de velocidade na reta. Gary Anderson não parecia muito confiante, mas acatou e fez os ajustes. O carro ficou muito rápido e a tática funcionou.

Moreno não demorou mais do que três voltas para ultrapassar o pole-position Gachot. A partir daí, ele começou a bater o recorde da pista a cada volta completada. Após 42 passagens, Roberto obteve sua segunda vitória consecutiva na temporada, com uma vantagem de quase 22 segundos para Gachot. Sua pilotagem havia sido magistral e cirúrgica a ponto dele ter obtido a melhor volta da corrida na bandeirada! E ela foi seis décimos mais rápida do que a segunda volta mais rápida. Mais cinco mil dólares para a conta do brasileiro.

Já ouviu falar da Autosport? Ela é tipo tudo aquilo que eu gostaria que este blog fosse. Logo após a vitória de Silverstone, a capa da revista, simplesmente a mais importante do planeta desde 1900 e Jack Brabham, estampou uma enorme foto daquele Reynard vergonhosamente despido de patrocínio e a manchete “Moreno’s Double”. Sim, era ridículo o fato do cara que liderava o segundo campeonato mais caro e difícil da Europa com nove pontos de vantagem para o vice-líder ainda não ter apoio algum.

Embalado pela seqüência de vitórias e pelo apoio da mídia inglesa, Ron Salt decidiu financiar mais uma corrida para Roberto Moreno. Ela seria realizada no absurdamente veloz autódromo de Monza no dia 26 de junho.

Roberto Moreno e seu Reynard-Cosworth sem patrocinadores

No ano passado, durante a pré-temporada, falei sobre o título de Christian Fittipaldi na Fórmula 3000 Internacional em 1991. Você pode ver os dois artigos aqui e aqui. Nestes dias encharcados de chuva e áridos de assunto, resta a este diletante escrever sobre o passado. Você conhecerá alguns detalhes sobre o título do calvo, simpático e sofredor Roberto Pupo Moreno na mesma Fórmula 3000 Internacional em 1988, o ano em que Henfil, Seu Madruga e Enzo Ferrari deram lugar neste vasto mundo a mim.

Muitos de vocês sabem que Roberto Moreno, trabalhando atualmente como empresário de jovens pilotos, foi campeão da categoria há vinte e quatro anos. Muitos de vocês sabem que ele ralou muito para chegar lá. Muitos de vocês sabem que ele não tinha patrocinador, sorte e cabelo. Pois eu mergulho de cabeça nos detalhes mais sórdidos e interessantes de uma das melhores temporadas que um piloto brasileiro já fez na Europa.

Fevereiro de 1988. Prestes a completar 29 anos, Roberto Pupo Moreno estava no Brasil exercitando seu franzino físico para a temporada de Fórmula 1 que começaria em abril. Moreno estava feliz e tranquilo. Após quase uma década de trabalho duro, idas e vindas, ele parecia ter finalmente conseguido uma sólida vaga de titular na Fórmula 1. É claro que a literalmente garageira AGS não era a melhor escuderia do planeta, talvez nem mesmo a melhor da vila de Gonfaron, mas tratava-se de um enorme privilégio para um piloto que não tinha dinheiro nem para a condução de volta.

Verdade seja dita, Roberto Moreno só se garantiu porque empreendeu alguns pequenos milagres na AGS. O suado ponto no Grande Prêmio da Austrália de 1987 foi apenas um deles. O outro foi acertar o carro que vinha sendo pilotado burocraticamente pelo francês Pascal Fabre até então. Graças aos seus conselhos, o tenebroso JH22 ganhou cerca de quatro segundos em apenas alguns quilômetros de testes.

O currículo de Moreno também chamava a atenção. Em 1987, ele terminou a temporada de Fórmula 3000 em terceiro, mas isso só aconteceu porque seu carro teve problemas em várias ocasiões enquanto ele liderava. Ganhou uma em Enna-Pergusa em alto estilo, saindo da oitava posição até a primeira ultrapassando todos os seus concorrentes sem dó. Fora isso, ele já havia sido vice-campeão de Fórmula 2 e teve também uma passagem bastante razoável na Indy. O que mais faltava para ele correr na Fórmula 1?

Dinheiro. Moreno só disputou a Fórmula 3000 em 1987 porque sua equipe, a Ralt Racing, tinha o apoio oficial da Honda e dispunha de verba o suficiente para poder empregar pilotos sem ter de mendigar patrocinadores. Na AGS, o carioca garantiu a vaga por meio do apoio da grife El Charro, que financiava toda a estrutura e ainda enfeava o bólido com uma nauseabunda pintura vermelha e branca. A casa começou a cair quando a El Charro decidiu pular fora da canoa furada da AGS.

Durante o mês de janeiro de 1988, Moreno esteve em sua casa no Brasil e estranhou o fato de ninguém da AGS ter ligado para falar qualquer coisa. As coisas permaneceram iguais em fevereiro e ele decidiu ligar para Henri Julien, o dono da equipe. Soturno, Julien disse que Roberto deveria voar para a França urgentemente para conversar. Até mesmo a passagem aérea o chefe custearia. Preocupado, Moreno viajou para a Europa apenas para receber a péssima notícia.

Moreno deveria ter corrido pela AGS em 1988...

Seu contrato com a AGS para 1988 teve de ser cancelado. A equipe passava por sérias dificuldades financeiras, não tinha um grande patrocinador e precisava de alguém que trouxesse dinheiro para a estrutura, que só contaria com oito pessoas. No dia 17 de fevereiro, o francês Philippe Streiff foi anunciado como seu substituto. Streiff, que já havia competido pela equipe nos tempos da Fórmula 2 e da Fórmula 3000, retornava com os francos da Elf, da água mineral Tennen e da construtora Bouygues. Fora isso, ele já tinha razoável experiência na Fórmula 1 e era um filho da França.

Moreno acabou voltando à estaca zero. Faltava pouco mais de um mês e meio para o início do campeonato e as vagas estavam quase todas fechadas. Havia ainda uma na Tyrrell, disputada por um batalhão de gente. No fim, quem pegou esta última vaga foi uma zebra, o inglês Julian Bailey, que vendeu boa parte do seu patrimônio pessoal apenas para comprar o lugar. O anúncio da contratação de Bailey foi feito no dia 3 de março. Isso significava que Roberto Moreno, salvo algum milagre ou desastre alheio ocorresse, estava fora da temporada de 1988 da Fórmula 1. A filhinha Andressa não poderia ter nascido em uma época mais difícil, não?

O que fazer agora? Março de 1988 foi um dos meses mais alucinados da carreira de Roberto Pupo Moreno. Em uma antiga entrevista para o Grande Prêmio, ele detalhou bem como foi esta fase. Portanto, faço um resumo aqui. Moreno não deixou o sonho da Fórmula 1 de lado. Aos 29 anos recém-completados, ele ainda acreditava que poderia fazer mais um ano na base. Portanto, que venha mais uma temporada na Fórmula 3000 Internacional!

Roberto seguiu para a Inglaterra e foi atrás das equipes da categoria, que se concentravam por lá. Ele já havia feito dezesseis provas nos últimos três anos e os donos de equipe gostavam muito de seu trabalho. O problema é que, naquela altura, boa parte das melhores vagas já estava fechada. A Fórmula 3000 teria quase quarenta carros inscritos em 1988, mas a grande maioria deles já tinha dono. O heroico brasileiro teria de correr se quisesse se garantir.

Havia três equipes que pareciam interessadas. Juro que sabia o nome de uma, mas meu cérebro estúpido não colabora e eu fico devendo. Pupo foi à primeira: perda de tempo, talvez por exigir valores insensatos. Depois, foi à segunda: quase deu certo. A terceira era a Bromley Motorsport.

Bromley? Pelo que eu entendi, a Bromley Motorsport era o braço esportivo da Bromley Meats, um frigorífico inglês. Não tenho informações maiores sobre isso, então permaneço com esta versão. Sediada na cidade britânica de Litchfield, a Bromley foi criada por gente da antiga Fórmula 5000. Ela disputava a Fórmula 3000 desde 1986 e nunca havia conseguido resultados muito relevantes. Em compensação, poderia se orgulhar de ter empregado nomes como Volker Weidler e Eliseo Salazar, se é que dá para se orgulhar disso.

O relacionamento entre Moreno e a Bromley havia começado em 1986. Naquele ano, o brasileiro estava disputando sua segunda temporada na Indy pela Galles, mas ainda pensava na Fórmula 1. Ao mesmo tempo, a Bromley estava insatisfeita com Volker Weidler, que não estava andando bem e ainda não pagava o suficiente. Pouco antes da etapa de Birmingham, Moreno e o dono da Bromley, Ron Salt, conversaram e fizeram um acordo no qual o brasileiro disputaria apenas aquela corrida, que seria a primeira realizada em uma pista de rua na história da Inglaterra. Afinal de contas, o carequinha precisava terminar a temporada da Indy.

... mas o carro acabou ficando com Philippe Streiff

Moreno deu as caras, bateu forte de traseira em um dos treinos, lesionou as costas, conseguiu classificar-se para a largada, passeou com seu Ralt nas ruas encharcadas de Birmingham e terminou em décimo. O melhor, no entanto, foi ter batido um papo com seu ex-chefe de equipe Ron Tauranac, que era dono da Ralt. Surpreso com o retorno do brasileiro à Europa, Tauranac decidiu dar-lhe uma oportunidade para voltar a correr na Fórmula 3000 em 1987. Mesmo assim, o bom relacionamento com a Bromley foi mantido.

Voltando a 1988, Roberto Moreno apostava em dois trunfos nas negociações com a Bromley. O primeiro, óbvio, era o seu relacionamento prévio com a equipe. O segundo era Gary Anderson, diretor técnico da equipe. Vocês conhecem este nome, que chegou a ser um dos astros da Stewart na temporada de 1999 na Fórmula 1. Anderson havia trabalhado com Roberto Moreno na Indy e os dois foram juntos àquela corrida de Birmingham. Só que ao contrário do brasileiro, o engenheiro acabou permanecendo por lá, pois não estava disposto a continuar longe do seu Reino Unido para conviver com os obesos ianques.

A Bromley estava interessadíssima em contar com Moreno, que também não achava ruim correr para eles novamente. O que pegava era o dinheiro, como sempre. A equipe inglesa era minúscula: havia o chefe Ron Salt, o engenheiro Gary Anderson, dois mecânicos, um caminhão e o motorista do caminhão. Só. A título de comparação, uma equipe de ponta chegava a contar com vinte funcionários. A verdade é que a estrutura não passava de uma coisa entre amigos.

Anderson era o elemento mais interessado em Moreno na equipe. Ele convenceu Ron Salt de que o brasileiro era a melhor opção para a equipe naquele momento. Só que Salt não podia se dar ao luxo de gastar dinheiro com um cara que já tinha currículo para exibir e família para alimentar. Então, o chefão propôs o seguinte: o piloto brasileiro não precisaria arcar com nada, algo notável em se tratando de uma categoria que costumava pedir cerca de um milhão de dólares por uma vaga em uma equipe boa. No entanto, ele também não receberia salário. Além disso, o acordo valeria apenas para as três primeiras corridas do campeonato, Jerez, Vallelunga e Pau. Por fim, mas não menos pior, Roberto Moreno seria encarregado de arranjar um carro e um motor.

É sério isso? Sim, era. Mas como Moreno arranjaria um carro completo tão rapidamente se ele não tinha dinheiro nem para o almoço? Sei lá. Gary Anderson confiava nos contatos e na inteligência de Roberto Moreno e achava que ele não teria dificuldades. Sem grandes escolhas, Pupo acabou aceitando todas as condições e correu atrás do que haviam lhe pedido.

Moreno bateu à porta da Ralt, uma das construtoras de chassis da Fórmula 3000 naquela época. Como ele havia corrido para a equipe oficial dela em 1987, achava que não teria grandes problemas para conseguir um carro. Mas a Ralt negou, pois a Bromley já havia feito uma encomenda poucos dias antes e como ela não tinha dinheiro sequer para esta encomenda, a manufatureira preferiu não arriscar a entregar um carro ao ainda mais pobre Moreno, que tentava conseguir o carro sem ter de pagar nada nos primeiros momentos.

Depois, Roberto foi a uma outra fabricante de chassis, mas eu não consegui descobrir qual. Ela até aceitou as condições bizarras do brasileiro e disse que poderia fornecer o chassi, mas só teria um disponível a partir da quinta etapa. Perder um terço do campeonato não valia a pena, então Roberto desistiu da conversa. Em seguida, foi à Reynard.

Primeira vez que Moreno correu com a Bromley: Birmingham, 1986

Em 1988, a Reynard estava debutando na Fórmula 3000 Internacional como fabricante de chassis. Naqueles belos e empoeirados tempos, as categorias de base permitiam a concorrência livre de chassis e motores. As então dominantes March, Lola e Ralt teriam na manufatureira de Adrian Reynard, que havia dominado todos os campeonatos menores até então, uma perigosíssima concorrente. Seu primeiro carro para a Fórmula 3000, o 88D, tinha um desenho bem mais moderno do que os bólidos dos concorrentes, que pareciam carregar tendências do passado. Ele foi desenvolvido por Adrian Reynard e Malcolm Oastler sobre a base do seu consagrado carro de Fórmula 3. Devido ao bom projeto e aos custos relativamente baixos, o 88D foi bem requisitado por várias equipes.

Moreno entrou na fábrica da Reynard e deu de cara com um 88D novinho em folha. Ele já tinha destino marcado: a Eddie Jordan Racing, que viria com uma estrutura de ponta para a temporada de 1988. Ele chegou e pediu um carro novo diretamente ao dono, Adrian Reynard. O britânico, obviamente, negou. Não compensava à fábrica produzir mais um carro, o que representaria mais gastos e provavelmente não mudaria muita coisa em termos de resultados, ainda mais em se tratando de uma equipe pobre como a Bromley. Não e ponto final.

Pupo saiu da fábrica desconsolado. Chorou um bocado, entrou no carro, parou em uma cabine telefônica, ligou para a Bromley e disse que havia fracassado. A equipe, que também estava correndo sérios riscos, disse para ele dar um jeito e tentar outra solução. Moreno, então, decidiu voltar à Reynard. Comprou um casaco, passou a noite dentro de um carro e retornou à fábrica de Adrian Reynard no dia seguinte. Desta vez, ele teria um plano diferente.

Roberto queria falar com o representante de vendas, Rick Gorne. Ele foi bem recebido, chegou batendo a mão na mesa e fez a proposta sem delongas: quero comprar um carro. Animado, Gorne iniciou uma longa conversa e as negociações fluíram sem dificuldades. No final da reunião, o funcionário perguntou como seria feito o pagamento. “Não tenho dinheiro”, respondeu um constrangido Roberto Moreno.

Como é? Então você me fez perder toda a tarde negociando para dizer que não tinha um puto? Và à merda, brasileiro caloteiro! Pouco tempo antes, o então presidente José Sarney havia decretado moratória e a imagem do país não era lá das melhores. Moreno voltou à sala de espera, pensou um pouco e retornou à sala de negócios. “Tenho uma saída”.

Ligou para um certo amigo no Brasil que havia acabado de ser tricampeão do mundo e explicou a ele toda a situação: a perda de um lugar certo na Fórmula 1, o retorno à Fórmula 3000, a necessidade dele mesmo arranjar um carro e um motor para sua equipe e a total pindaíba. O tal amigo pediu para falar com Rick Gorne, os dois trocaram algumas palavras e o inglês turrão desligou o telefone minutos depois. OK, por 50 mil dólares, você pode levar o carro. Ufa! O que Gorne não sabia é que Moreno pretendia disputar apenas três corridas.

PS: As intervenções em negrito foram feitas por Moreno. Ele fez outras também, mas elas ficarão para a entrevista.