Nostalgia


Bertrand Gachot na Jordan em 1991

Tô sem assunto. Não quero mais falar sobre Campos, USF1 e chatices afins. Prefiro continuar falando sobre Schumacher e 1991. Mas não exatamente sobre Schumacher, mas sim sobre o cara que permitiu que ele aparecesse na Fórmula 1. Sim, o cosmopolita Bertrand Gachot!

Cosmpolita? Cosmopolita. Bertrand Gachot deve ser o único piloto da história da Fórmula 1 com três nacionalidades. Nascido na pequenina Luxemburgo, Bertrand era filho de um comissário francês e por isso já detinha a nacionalidade dupla. Porém, ele quis adotar para si a cidadania belga. E assim, Gachot se fazia o típico cidadão da União Européia, algo que ficava visível pela bandeira da união em seu capacete.

Não vou entrar em detalhes sobre sua carreira. Bertrand teve uma boa passagem pela F-Ford, F3 e F3000 até chegar à F1 em 1989 pela Onyx. Fez algumas corridas até envolver-se em uma briga com seu patrão, Jean-Pierre Van Rossem, e ser demitido. Em 1990, foi obrigado a pagar todos os seus pecados no carro amarelo da Coloni. Porém, o destino foi bastante feliz com ele e Bertrand Gachot acabou sendo chamado para correr na novata Jordan em 1991. No automobilismo, o belga estava em ótima fase.

Porém, sua vida pessoal passaria por uma reviravolta das boas no dia 10 de Dezembro de 1990, uma segunda-feira.

Foi aqui

Londres. Um taxista chamado Eric Court conduzia seu carro preto em direção à Hyde Park Corner, no centro londrino. Atravessando o tráfego, ele acabou se envolvendo em um pequeno acidente com um gaiato qualquer. Extremamente nervoso, Bertrand Gachot desce do carro e os dois começam a discutir. Court, com a típica elegância inglesa, acertou um soco na cara de Bertrand. Em resposta, Gachot voltou ao carro e sacou uma latinha de spray de pimenta, disparando-a na cara do taxista, que perdeu momentaneamente a visão. Court ainda gritou algo como “vai ter troco!”. E teve. O taxista processou Gachot.

A justiça inglesa, infinitamente mais rápida que a brasileira, chegou a um surpreendente veredito em Agosto de 1991: Bertrand Gachot foi condenado a 6 meses de prisão por posse ilegal de armas e a 12 meses de prisão por uso dessa arma. No Reino Unido, o spray de pimenta é ilegal para uso civil. A prisão de Gachot se deu dias antes do GP belga, em Spa-Francorchamps. Eddie Jordan perdeu seu piloto e teria de pensar rapidamente em um substituto. Pensou em Stefan Johansson, pensou em Keke Rosberg, mas acabou se decidindo pelo desconhecido Michael Schumacher, graças aos 300.000 dólares da Mercedes.

A comunidade da Fórmula 1 entrou em polvorosa. Revoltados, pilotos (liderados por Thierry Boutsen e Eric van de Poele), torcedores, jornalistas, mecânicos e fiscais de pista vestiam camisetas como “Free Gachot”, “Why Gachot?” ou “God bless England, and also Gachot”. A FISA até disponibilizou advogados para Bertrand Gachot. Até mesmo na Fórmula 3000 houve barulho: o piloto local Pascal Witmeur colocou em seu carro um enorme emblema “free Gachot”. Alguns torcedores, irritados, pintaram o asfalto entre a Rivage e a Pouhon com uma enorme mensagem em francês dizendo “Gachot, a Bélgica está com você. Você não é um hooligan!”. Era uma referência maldosa ao massacre de Heysel, no qual torcedores ingleses foram à Bélgica e assassinaram 30 torcedores locais na final da Copa dos Campeões em 1985.

"Gachot, la Belgique est avec toi! Tu n'es pas un hooligan." LAUGHING OUT LOUD

Gachot foi inicialmente mandado, acredite, à prisão de segurança máxima de Brixton. As condições eram as piores possíveis: ele dividia uma cela com os piores bandidos da Inglaterra, e só tinha direito a uma hora de banho de sol. Não havia banheiro próprio, televisão, jornal nem sequer um lugar para comer sentado. Ele só tinha direito a receber visitas de cinco minutos de sua namorada a cada 15 dias. Pateticamente, Gachot mandou uma carta à Jordan e à imprensa relatando toda essa situação. A situação estava tão difícil que até mesmo o próprio Court retirou o processo…

Algumas semanas depois, Bertrand Gachot foi transferido para uma cadeia mais digna. Lá, ele conseguia ao menos preparar-se fisicamente e psicologicamente para o retorno à F1. Enquanto isso, seus advogados entravam com recursos. E a vitória veio no dia 15 de Outubro de 1991, quando após três recursos, o juíz Lane considerou a pena muito dura e Bertrand foi liberado. Festa geral, celebrada na embaixada da França em Londres. Após dois meses preso, Gachot voltava a ser um homem livre.

Só que esse episódio prejudicou a carreira dele para sempre. A Jordan não quis saber de colocá-lo de volta. Gachot foi obrigado a se encontrar, posteriormente, na Larrousse e na Pacific. E sumiu da F1 no final de 1995, aos 33 anos.

Quem se deu bem com isso foi o tal do alemão que o substituiu e que motivou esse post. Uma estúpida briga entre um piloto de segundo escalão e um taxista esquentadinho foi o início da construção de um mito.

Schumacher há um bocado de tempo

Esse é o tempo que separa a estréia da reestréia.

Estou falando, é claro, de Michael Schumacher. O alemão, sete vezes campeão mundial, é uma linha de contato entre o passado e o presente. Chega a ser surreal que haja um piloto que teria participado do GP da Bélgica de 1991 e do GP do Bahrein de 2010. Dezoito anos é tempo demais, mais precisamente a distância que separa o nascimento da idade adulta. Esse post não vai falar tanto sobre a Fórmula 1, mas sim levantar um raciocínio nostálgico irrelevante: o que separa 1991 de 2010?

A estréia de Schumacher se deu no dia 25 de Agosto de 1991, no lendário, comprido e chuvoso circuito de Spa-Francorchamps. O queixudo de 22 anos, na época o piloto mais novo do grid, utilizaria o Jordan 191 número 32, um belíssimo carro verde patrocinado pela 7UP que vinha chamando a atenção de todo mundo não só pela beleza mas também pela sua surpreendente performance, chegando a se aproximar das grandes. Seu companheiro era o já experiente Andrea de Cesaris.

O grid era sensacional. Lotado e colorido, tinha 18 equipes e 34 pilotos, sendo que 26 largavam, 4 ficavam no sábado e 4 sobravam já na sexta-feira, na malfadada pré-classificação. Não havia preocupações como “nossa, quanto carro, onde vai haver espaço pra McLaren colocar seus 5 carros reserva?”. Havia espaço para todas, e também para a turma da Fórmula 3000, que fazia a corrida preliminar. As equipes de ponta eram McLaren, Ferrari, Williams e Benetton. Dessas, só a colorida desapareceu, virando Renault. Tinha também Tyrrell, Larrousse, Minardi, Lotus, Lambo e AGS. Os pilotos de ponta eram Senna, Prost, Mansell, Piquet, Berger, Alesi, Patrese. Da turma do meio, havia Modena, Capelli, Gugelmin, Martini, Lehto, Boutsen. No final do grid, nomes como Olivier Grouillard e Eric van de Poele. De todos os 34, só sobrou o alemão. Os últimos a correrem foram Mika Hakkinen e Jean Alesi em 2001.

Mas o mundo não se restringe ao automobilismo, é claro. Até que aconteceu bastante coisa em 1991. E até que o mundo mudou um bocado até hoje.

Isso era 1991

Schumacher estreou em um ano particularmente conturbado politicamente falando. Meses antes, havia ocorrido a Guerra do Golfo, uma disputa entre Bush (o pai) e Hussein. Invasão no Kuwait por parte do Iraque, esse era o motivo do litígio. Enquanto isso, a União Soviética perecia. Com a perestroika e a glasnost gorbachevianas, o colosso abandonava o comunismo. Ninguém mais queria saber do sonho e do posterior fracasso marxista. Surgiam novos países, como o Tadjiquistão e a Macedônia.

O Brasil tinha o nefasto Collor, o daquilo roxo, sempre financiado pelo igualmente nefasto PC Farias. A economia do país, sufocada pelo confisco, pela hiperinflação e pelos pirotécnicos (e horrendos) planos heterodoxos, ia de mal a pior. Pelo menos, o caçador de marajás fez algo legal: abriu os portos para importações. O brasileiro, mesmo sem dinheiro, podia comprar um Subaru, batatas Pringles e tênis Timberland. Lula não passava de um barbudo lunático. Não que tenha mudado muito, mas…

O futebol ia mal, mas o rock não: o grunge era a moda. Mas como eu ignoro qualquer coisa que venha de Seattle, ainda mais em se tratando de híbridos de punks com hippies, dou loas a outras revelações interessantes da época, como o Blur, o Massive Attack e o EMF. Música no Brasil era igual a sertanejo. Pense em mim, chore por mim…

Na TV, tinha TV Pirata, tinha Trapalhões e tinha Xou da Xuxa. Todo mundo reclama da TV atual, mas as coisas não eram tão diferentes. Não tinha TV a cabo. O máximo que existia era a MTV, mas só quem tinha antena UHF podia ver. Quem não tinha, usava o truque do arame.

Com as importações ainda engatinhando, carro era VW, Chevrolet, Fiat e Ford. Para o povo, Chevette e Gol. Os boys andavam de XR3 e Kadett, enquanto seus pais desfilavam de Monza, Santana ou Opala. Os carros não tinham vidro elétrico ou sequer retrovisor no lado direito, mas a mecânica era mais duradoura. Havia também o Gurgel, corajosa iniciativa de produzir um carro 100% nacional. Infelizmente, um carro caro demais.

Não tinha internet, Twitter, orkut ou frescuras afins. Notícias, só por mídia impressa e TV. Para falar com seu amigo, telefone estatal ou carta. Os jornalistas usavam máquina de escrever e telex. Galvão Bueno transmitia as corridas por telefone e satélite Embratel. Computador, naquela época, era o 386 com monitor SVGA, 4MB de RAM e HD de 50MB. Videogame era Super Nintendo e seu indefectível Super Mario World. Mas a Sega rebateu com Sonic, rivalidade que durou muito tempo.

De lá pra cá, tivemos novos objetos, culturas, comportamentos: DVD, internet, orkut, Facebook, Bin Laden, Youtube, Obama, Britney, Big Brother, Lost, Dilma, Playstation, aquecimento global. O mundo passou a ser um lugar mais dinâmico e globalizado, mas também mais amedrontado e mais ansioso.

E lá está sempre o alemão, acelerando com vontade ao redor do mundo.

Schumacher há alguns dias

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