setembro 2010


Automobilismo é, definitivamente, um negócio cruel. O cara investe sua vida, seu tempo, o dinheiro e a paciência dos pais para realizar o sonho de ser um piloto de Fórmula 1. Se ele dá errado logo no kart, tudo bem, o sonho acaba, a realidade volta à tona e resta fazer uma faculdade ou cuidar da quitanda da mãe. O problema é quando a carreira engrena e o jovem piloto começa a perceber que possui talento o suficiente para brilhar no topo. Ele chega à World Series ou à GP2, anda muito bem e descobre que… a Fórmula 1 continua tão inacessível como sempre. Este é o caso do português Álvaro Parente.

Álvaro Parente é um dos melhores pilotos do mundo fora da Fórmula 1. Exagero meu? Deve ser, sou apegado a hipérboles. Mas o caso é que o cara tem um currículo muito melhor do que o de muito piloto da Fórmula 1 e da Indy. Álvaro já foi campeão da Fórmula 3 inglesa em 2005 e da World Series by Renault em 2007. Além disso, contabiliza vitórias na Fórmula 3 espanhola, na Superleague e na GP2. Na pista, é veloz e muito raramente comete erros. Pela lógica, deveria estar na Fórmula 1 e, no mínimo, em uma equipe média. Mas quem disse que há lógica na Fórmula 1?

Parente é um dos casos mais lamentáveis de pilotos talentosos sem dinheiro. Em seu país, as empresas demonstram pouco interesse em patrocinar seus pilotos. Nem sempre foi assim. No início dos anos 90, empresas como a petroleira Galp patrocinavam maciçamente pilotos como Pedro Chaves, Diogo Castro Santos, Pedro Lamy, Manuel Gião e Pedro Couceiro.  Lamy fez a Fórmula 3000 em 1993 com um batalhão de patrocinadores que incluía até mesmo a gigante japonesa dos videogames Nintendo. Com o passar do tempo , o Grande Prêmio de Portugal saiu do calendário, as categorias portuguesas se enfraqueceram e sobraram apenas iniciativas individuais de gente como o próprio Parente e Antônio Félix da Costa, da Fórmula 3 européia.

Em várias ocasiões, a carreira de Parente quase foi interrompida por falta de fundos. No fim de 2007, mesmo com o título da World Series, ele cogitou abandonar tudo. Sua carreira foi salva pela Unicer, uma grande empresa lusitana que produz vários tipos de bebida. Dizem que a recomendação de Parente saiu do astro do futebol Cristiano Ronaldo, um dos patrocinados pela empresa. Com o apoio, Álvaro encontrou uma vaga na razoável Supernova para correr na GP2 em 2008. E assim ele levou o emblema da Soccerade, um dos produtos da Unicer, em seu carro.

Nesse ano, tudo indicava que a sorte dele mudaria. A Virgin o chamou para ser um dos dois pilotos reserva da equipe, ao lado do baiano Luiz Razia. Por pior que a Virgin fosse e por menos testes que houvesse, a oportunidade de se vincular a uma equipe de Fórmula 1 era um sonho para Álvaro Parente.  Logo, porém, o sonho desmoronou e se transformou em uma desagradável situação. Seu principal patrocinador na empreitada, o Instituto de Turismo de Portugal, o deixou na mão faltando apenas alguns dias para a apresentação oficial da equipe. E olha que foi o Instituto que o obrigou a assinar com a Virgin em detrimento de outras duas equipes. Enfim, Álvaro deu o azar de se envolver com gente que não valia a pena.

Neste último fim de semana, a Coloni o chamou às pressas para correr na etapa de Spa-Francorchamps da GP2 no lugar do dispensável Alberto Valério. Parente entrou no carro vestindo apenas um macacão branco sem qualquer sinal de patrocínio. É visível que Paolo Coloni o convidou apenas por camaradagem e por uma questão de emergência. Mesmo assim, Álvaro fez uma grande apresentação. Apesar de ter feito apenas o 16º tempo na classificação, ele ganhou cinco posições na primeira volta e tentou uma muitíssimo bem sucedida estratégia de permanecer na pista pelo maior tempo possível. No final da corrida, o português se encontrava na liderança com mais de 23 segundos de vantagem sobre o segundo colocado. Fez a parada e voltou com tudo, quase tomando a vitória de Pastor Maldonado. Terminou em segundo. No dia seguinte, Álvaro também fez uma corrida agressiva e se envolveu em uma das melhores manobras de ultrapassagem dos últimos anos, mostrava no vídeo aí embaixo. Terminou em terceiro.

Como um cara desses está fora da Fórmula 1?

O Calendário do Verde segue zanzando por aquele que é o mais rico, mais importante, mais poderoso e mais odiado país do mundo, os Estados Unidos da América. Depois de ficar por alguns dias lá no norte, a caravana desce em direção ao quente e animado estado da Flórida para aproveitar o sol, a praia e a desagradável visão de americanos obesos e branquelos tomando sol. O local escolhido é Daytona Beach, cidade de 167 mil habitantes cujos mais conhecidos atributos estão marcados no nome: a praia e o circuito de Daytona, assunto de hoje.

Deixo bem claro que a versão a ser tratada é o trioval de quatro quilômetros de extensão. Ponderei muito a respeito de colocar o circuito misto, largamente utilizado para as corridas de protótipos, mas preferi utilizar apenas o oval. Ao contrário de muitos, eu gosto de ovais. Como acredito que o fator preponderante de uma corrida deve ser a velocidade, não há um local mais adequado para isso do que um circuito composto apenas por curvões de raio grande feitos à direita e retas. Da mesma maneira, poderia ter escolhido outro oval. Gosto muito de Indianápolis, Michigan, Pocono, Phoenix e o antigo oval de Ontario é o meu preferido pela extensão gigantesca. Mas Daytona é especial. E sua história é bem antiga.

A cidade de Daytona Beach sediava regularmente corridas de rua desde 1936. O circuito utilizado era uma espécie de oval de rua no qual os pilotos percorriam três quilômetros da rodovia A1A, pegavam uma curva de 180°, retornavam pela mesma A1A e faziam outra curva de 180°, retornando à primeira reta. Um dos pilotos era um sujeito chamado William H. G. France, um mecânico, pintor e dono de posto de gasolina que havia saído do distante estado de Washington D.C. para fazer carreira como piloto nas ruas de Daytona. Experiente em administração e ambicioso, France acabou assumindo o controle da organização das corridas de rua para criar algo maior. Um campeonato com carros stock.

No fim de 1947, William Francis, mecânicos, pilotos e alguns empresários da cidade se reuniram no hotel Streamline para discutir a criação do tal campeonato. Em fevereiro de 1948, foi anunciada a criação da National Association for Stock Car Auto Racing, ou simplesmente NASCAR. Esta associação criaria o primeiro campeonato nacional com stock cars, o NASCAR Strickly Stock. Este campeonato teria vários nomes e existe até hoje, sendo conhecido como NASCAR Sprint Cup.

As corridas da NASCAR continuaram sendo realizadas no circuito de rua de Daytona Beach até 1958. No entanto, ficava claro para todos que um campeonato emergente como aquele não poderia realizar uma corrida quase amadora na orla de uma praia. Daytona Beach merecia um circuito permanente. Em 1953, Francis propôs a construção de um superspeedway com curvas de 31°, algo assustador na época. A título de comparação, o Indianapolis Motor Speedway, construído algumas décadas antes, tem curvas de 9° de inclinação e já era considerado um circuito deveras perigoso. Apesar do receio, France seguiu em frente. Em agosto de 1954, ele assinou um contrato com a prefeitura para erguer o tal circuito, que teria o nome de Daytona International Speedway. O terreno começou a receber as primeiras obras em 1957. E no dia 22 de fevereiro de 1959, a pista estava prontinha.

Com capacidade para 41 mil pessoas, a primeira corrida foi um sucesso. O circuito tinha uma vista bacana para o lago Lloyd, que ficava exatamente no meio do terreno. Uma curiosidade: na primeira corrida de stock car do circuito, o piloto Tom Pistone levou em seu carro um tanque de oxigênio e um equipamento para mergulho. O motivo? Medo de sofrer um acidente e cair dentro do tal lago Lloyd… A corrida foi vencida por Lee Petty, patriarca do famoso clã que formaria nomes como Richard e Kyle Petty.

Mas que corrida foi essa? Ela é simplesmente a Daytona 500, conhecida como “A Grande Corrida Americana”, uma vez que ela é considerada a prova mais prestigiosa e importante do calendário da NASCAR e só perde, em importância geral nos EUA, para as 500 Milhas de Indianápolis. A corrida é realizada até hoje e consagrou nomes como Bill Elliott (vencedor da Daytona 500 em duas ocasiões e recordista da pista com a assustadora velocidade média de 338,532 km/h), o próprio Richard Petty (recordista de vitórias, com sete), Carl Yarborough, Bobby Allisson, Dale Jarrett, Jeff Gordon e Sterling Marlin. No calendário atual da NASCAR Sprint Cup, se desconsiderarmos a Budweiser Shootout e a Gatorade Duels, a Daytona 500 é a corrida que abre o longuíssimo calendário de quase quarenta corridas. A cada ano, mais de 50 pilotos buscam obter uma das 43 vagas de uma das corridas mais aguardadas do mundo.

TRAÇADO E ETC.


Como vocês perceberão, esta será a menor descrição entre todas as pistas. E o motivo é bastante óbvio: são apenas quatro curvões inclinados em 31° e uma curva de 18° que une as duas retas menores. É um oval, oras.

Ainda assim, o trioval de Daytona tem algumas particularidades. Uma delas é o asfalto de má qualidade, algo que representa um perigo para os pilotos e um charme especial para mim. Quem acompanha as corridas em Daytona percebe, de longe, os carros pulando absurdamente pelas imperfeições da pista. O caso mais gritante é o da curva 4, no qual há uma lombada de tamanho considerável para uma curva de oval que faz com que o piloto tenha de trabalhar a direção e até tirar o pé para não beijar o muro. Por outro lado, o autódromo pôde se gabar de ter sido considerado, por muito tempo, o recinto esportivo mais bem iluminado do mundo, de tantos postes de luz e de tamanha iluminação provida por cada um deles. Para efeito de curiosidade, quem tirou esse título de Daytona foi outro autódromo, o de Losail.

No mais, em comparação com outros ovais, Daytona não prevê maiores dificuldades. Com quatro quilômetros de extensão e cinco curvas, o piloto só deve tomar cuidado para não perder o controle nas ondulações. Devido à inclinação do traçado, o piloto não terá maiores dificuldades para completar uma volta em um dos dois traçados possíveis. O maior problema é ultrapassar, já que a pista, com seus 12 metros de largura média, é relativamente estreita. Não por acaso, os famosos Big Ones (aqueles engavetamentos que envolvem um comboio inteiro) geralmente ocorrem em manobras de ultrapassagem.

Por fim, falemos da velocidade. A graça maior de Daytona é exatamente essa, propiciar ao piloto chegar a velocidades finais absurdas. Nos dias atuais, a NASCAR obriga que os pilotos usem um chip que limita a velocidade dos carros, artefato utilizado também em Talladega. A medida, apesar de chata, é necessária. Em 1980, Buddy Baker venceu a Daytona 500 com a velocidade média de 285,823 km/h. Nesse ano, Jamie McMurray venceu a mesma prova com a média de 220,937 km/h, quase 65 km/h mais lento que Baker. Ainda assim, Daytona segue como um dos ovais mais velozes do mundo. Um templo do automobilismo americano, sinônimo de NASCAR.

Onboard com Tony Stewart em 2008.

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