Romain Grosjean, o campeão da temporada 2011 da GP2. Este é o sétimo título de sua carreira. Piloto ruim, não?

Há quase dois anos, vinte caras desembarcaram em São Paulo para disputar a penúltima etapa da temporada de 2009 da Fórmula 1, o Grande Prêmio do Brasil. Três (Jenson Button, Rubens Barrichello e Sebastian Vettel) estavam caçando o desejado título mundial, outros (Jarno Trulli, Nick Heidfeld, Giancarlo Fisichella) estavam correndo atrás de alguma vaga digna de seus currículos para o ano seguinte, um (Kamui Kobayashi) estava descobrindo um mundo novo e tantos outros (Kimi Räikkönen, Sébastien Buemi, Robert Kubica) só estavam esperando o ano acabar. Havia um, no entanto, que estava afundado em um inferno astral que parecia irremediável.

Magrelo, alto e dono da cabeleira mais estranha dos últimos tempos, Romain Grosjean estava na pior situação possível para um jovem talento. Aos 23 anos, ele ocupava o pior emprego de toda a Fórmula 1, o de segundo piloto da Renault. Quando seu carro é um dos piores do grid, seu companheiro é Fernando Alonso, seu ex-chefe é Flavio Briatore e sua equipe é aquela que foi acusada de obrigar um piloto bater para favorecer o outro, não dá para sair por aí agradecendo a Deus pela oportunidade.

Grosjean fez sete corridas naquele horrendo carro branco e amarelo de número 8. Não marcou pontos em nenhuma delas. Bateu em várias ocasiões. Em Cingapura, conseguiu a proeza de repetir o acidente de Nelsinho Piquet, que foi quem deu lugar ao suíço, durante os treinos de sexta-feira. Em Interlagos, quase capotou após rodar na saída da Subida do Lago. Enquanto esteve dentro da pista, o que nem sempre acontecia, cometia erros básicos de traçado e não conseguia reproduzir a agressividade de seus tempos de GP2. Seu melhor resultado em treinos oficiais foi um 12º em Monza. Em corrida, foi um 13º em Interlagos. Uma lástima de participação.

Como vocês sabem, o povo não tem paciência alguma. Romain, que era considerado um dos pilotos mais promissores do automobilismo mundial antes de estrear na Fórmula 1, se transformou em um piloto completamente incompetente e digno de F1 Rejects. Sua imagem ficou tão negativa em tão pouco tempo que a Renault, que também não estava com a melhor fama do planeta, não fez o mínimo esforço para mantê-lo em seu plantel de pilotos em 2010. Preferiu trazer Vitaly Petrov, que não era exatamente melhor que Grosjean. No Brasil, o locutor global Galvão Bueno não se furtava em fazer comentários jocosos sobre o suíço. Nem mesmo o seu nome era pronunciado corretamente. “Grôjean” não existe. É “Romã Grrosjã”.

Dois anos depois, o mesmíssimo “Grôjean” se sagrou campeão da GP2 Series sem nenhuma dificuldade. Mais maduro, experiente e humilde, o suíço obteve cinco vitórias, uma pole-position e quatro pódios. Deixou para trás uma concorrência de peso: Giedo van der Garde, Charles Pic, Jules Bianchi, Sam Bird, Luca Filippi, Davide Valsecchi, Christian Vietoris, Marcus Ericsson e outros (por favor, que ninguém tente me convencer que o grid da GP2 é uma merda. Todo ano, ouço a mesma ladainha). Mostrou velocidade, constância e confiabilidade. Errou muito pouco. Fez boas corridas de recuperação. Comprovou que sabe pilotar um carro de 600cv e aerodinâmica muito próxima à de um Fórmula 1 com muita destreza. O que mais lhe falta?

Grosjean e os piores dias de sua carreira: aqueles na Fórmula 1 no fim de 2009

Uma vaga na Fórmula 1. Nesse momento, ele está conversando seriamente com duas equipes. Uma, logicamente, é a mesma Renault que quase encerrou prematuramente sua carreira. Na verdade, pouco daquela equipe de 2009 ainda resta: o carro é razoável, a pintura é preta e dourada, o chefe é o Eric Boullier, o financiador da brincadeira é um grupo de investimentos de Luxemburgo, o companheiro de equipe é o soviético Vitaly Petrov e o patrocínio é da Lotus paraguaia. Daquela Renault de Fernando Alonso, Flavio Briatore e Pat Symonds, só sobrou o nome. Ou nem isso, já que muita gente chama a equipe de Lotus.

Como expliquei em um texto na semana passada, Grosjean enfrenta a dura concorrência de Bruno Senna e o retorno cada vez mais provável de Robert Kubica. O polonês tem vaga cativa na equipe e, se sua recuperação seguir positiva, terá sinal verde para pilotar o carro negro. Senna, por outro lado, traz dinheiro da OGX e da Procter & Gamble. O que pode ajudar o suíço é o fato dele ser apoiado pela Gravity Sport Management, que é comandada pelo mesmo Eric Boullier que manda na Renault. Mas não dá para dizer que isso é o suficiente.

Portanto, se não der para correr na Renault, Romain ainda pode encontrar emprego na Williams, que utilizará motores da marca francesa no ano que vem e que está considerando a possibilidade de mandar Rubens Barrichello para o chuveiro. Nesse caso, Grosjean disputaria a vaga com um bocado de gente: Adrian Sutil, Nico Hülkenberg, Jerôme D’Ambrosio, Giedo van der Garde, Jules Bianchi, Sam Bird, Stefano Coletti e Valtteri Bottas. Páreo duro. O franco-suíço tem como vantagens maiores o título da GP2 (que Hülkenberg também tem), o apoio da Gravity (que D’Ambrosio também tem) e o lobby da Renault. Dá para supor que ele não é o maior favorito e também não é a maior zebra.

Se tudo der errado, ainda há outras possibilidades. Franz Tost, chefão da Toro Rosso, andou elogiando muito Grosjean e não descartou trazê-lo para sua equipe no ano seguinte. Vale lembrar que Sébastien Buemi e Jaime Alguersuari ainda não estão garantidos e pelo menos um deles cairá fora. O que pesa contra Romain é a concorrência de Daniel Ricciardo e Jean-Eric Vergne, que são pilotos da Red Bull e que estão à frente de qualquer outro ser humano na escala de preferência dos taurinos. Há ainda a Lotus do Tony Fernandes, que também recebe motores Renault e que está tendo problemas contratuais com Heikki Kovalainen. Consta que o finlandês teria pedido um aumento indecente de cinco milhões de dólares. O malaio gorducho não gostou muito disso e pode substituí-lo por Luiz Razia, D’Ambrosio ou Grosjean.

Mesmo que ainda não haja nenhuma possibilidade concreta, é legal ver Romain Grosjean sendo lembrado por tantas equipes. Por mais que muita gente precipitada (e, em alguns casos, mal-intencionada ou simplesmente burra) o veja com maus olhos, o pessoal do paddock sabe que se trata de um piloto com enorme potencial. E é também um bom exemplo de como um tempinho no inferno pode tornar uma pessoa melhor.

Em sua primeira passagem pela GP2, Romain era tão rápido quanto escroto

Antes de pagar alguns pecados lá na Renault do Briatore, Romain Grosjean era apenas um moleque muito rápido, muito agressivo e muito idiota. Chamou a atenção pela primeira vez em 2005, quando destruiu a concorrência na Fórmula Renault francesa. No ano seguinte, já integrado ao programa de desenvolvimento de pilotos da Renault, estreou na Fórmula 3 Euroseries pela Signature. No mesmo ano, decidiu participar da rodada dupla da Fórmula 3 Britânica em Spa-Francorchamps. Em duas corridas, obteve duas poles, duas voltas mais rápidas e duas vitórias. Incrível. Foi naquele momento que ouvi falar nele pela primeira vez.

Em 2007, Grosjean assinou com a poderosa ASM, filial da ART Grand Prix nas categorias menores, para tentar ganhar o título da Fórmula 3 Euroseries. Teve um pouco de trabalho com Sébastien Buemi no início do campeonato, mas reagiu e, com seis vitórias, obteve mais um título para o seu currículo. No final do mesmo ano, foi efetivado pela ART Grand Prix para disputar o então inédito campeonato da GP2 Asia. Mesmo sem experiência em um carro tão potente, o suíço ganhou quatro corridas e levou o título com enorme facilidade. O vice-campeão foi o mesmo da Fórmula 3, Sébastien Buemi. Diante disso, todo mundo acreditava que o título no campeonato principal da GP2 viria tranquilamente.

Na verdade, não veio. No pior ano da história da GP2 Series, Grosjean até conseguiu se destacar com boas ultrapassagens e muita velocidade, mas não teve a constância para brigar pelo título com Giorgio Pantano e Bruno Senna. No fim, terminou a temporada em quarto, com duas vitórias e uma pole-position. Decepcionado, Romain decidiu seguir na GP2 em 2009. Trocou a ART Grand Prix pela Addax, que vinha em um momento melhor e que passaria a ter o apoio oficial da Renault.

Tinha tudo para ser o título mais certo da história da GP2, mas ele não veio. Grosjean até venceu as corridas de sábado de Barcelona e Mônaco, mas não conseguiu nada além disso. Na segunda corrida monegasca, acabou se envolvendo em um perigoso acidente com o igualmente perigoso Andreas Zuber. Depois, fez apenas um pódio em Silverstone. Após completar a rodada dupla de Hungaroring, já estava doze pontos atrás do líder Nico Hülkenberg. Seu companheiro, o esquecido Vitaly Petrov, estava apenas quatro pontos atrás.

Para piorar, um episódio na Hungria deixou muita gente revoltada com ele. No treino classificatório, Grosjean acertou o carro de Franck Perera e os dois foram parar na caixa de brita. Revoltado, Perera procurou Grosjean para tirar satisfação. Esnobe, Romain simplesmente perguntou “quem é você?” e lhe deu de costas. Como se isso não bastasse, a organização de prova decidiu absolver Romain e culpar Perera! Mesmo que o suíço tenha se dado bem, a imagem de garoto arrogante, mimado e protegido ficou estampada na testa.

Na AutoGP, sua carreira nos monopostos renasceu

Estes seus tempos difíceis na sua primeira passagem na GP2 e na Fórmula 1 lhe fizeram bem. Após ficar sem vaga na Renault, Grosjean se viu praticamente aposentado do automobilismo, obrigado a seguir trabalhando apenas no banco Faisal. No fim de março, ele decidiu assinar com a Matech Competition para pilotar um Ford GT no FIA GT1. Romain acreditava que sua passagem pelos monopostos havia acabado e, agora, era hora de mudar os rumos de sua vida.

Para surpresa geral, Grosjean venceu as etapas de Abu Dhabi e Brno em parceria com Thomas Mutsch. No fim de junho, enquanto ainda corria no FIA GT1, ele recebeu um convite da DAMS para disputar o AutoGP, um novo campeonato que utilizaria os antigos carros da A1GP e que distribuiria prêmios milionários por etapa. O suíço disputou oito corridas, quatro a menos que o total, venceu três e conseguiu a façanha de se sagrar campeão com 16 pontos de vantagem para o vice-campeão Edoardo Piscopo. Além de disputar a AutoGP, Grosjean ainda fez algumas corridas pela mesma DAMS na GP2. Sem grandes ambições, ele ainda conseguiu dois pódios com uma equipe que não vinha conseguindo muita coisa com Jerôme D’Ambrosio e Ho-Pin Tung.

Após um excelente 2010, Romain Grosjean decidiu voltar a sonhar com a Fórmula 1. Para começar, optou disputar novamente a GP2 Asia para tentar levar o bicampeonato. E conseguiu, tendo vencido uma corrida e obtido um pódio nas quatro provas realizadas. Por fim, a temporada européia só serviu para provar que, sim, ele ainda era um dos pilotos mais promissores da Europa. Hoje, o suíço contabiliza nada menos que sete títulos na carreira (o primeiro foi um não muito relevante na Fórmula Renault suíça em 2003). Você, que enche a boca para dizer que Grosjean é ruim, me responda: em qual dimensão um piloto que possui sete títulos tendo apenas 25 anos de idade é ruim?

E aí que entram alguns pequenos comentários. A segunda chance que Timo Glock e Bruno Senna tiveram também é um direito de Romain Grosjean, assim como deveria ter sido um direito de Giorgio Pantano em 2009. O automobilismo não deveria ser um ambiente tão imediatista. Todo mundo tem o direito de errar uma, duas, três ou cinco vezes, ainda mais em um lugar como a Renault em 2009. Desde que acerte em algum momento, o perdão é sempre válido.

Além disso, quem acompanhou a temporada 2011 da GP2 não sucumbirá ao argumento fácil e falho de que o nível dos pilotos era baixo. Embora os erros tenham acontecido (e eles devem mais é acontecer nesta fase mesmo – é melhor errar lá do que na Fórmula 1), as boas atuações de vários pilotos representaram boa compensação. E a verdade é que Grosjean mostrou aquilo que todo bom piloto de Fórmula 1 deve mostrar: segurança, amadurecimento e constância. Ele foi o melhor dos melhores, por assim dizer.

A GP2 tem um novo campeão. E a Fórmula 1 tem a chance de ter um ótimo piloto com cacife para representar a França, a Suíça e o Paraguai em alto nível.

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