Pedro de la Rosa, 40, segue na Fórmula 1 no ano que vem. Ele foi titular pela primeira vez na Arrows há doze anos.

Consolado pela filhinha do Stoichkov, Dani Clos estava de queixo caído. Ainda em Macau, Javier Villa pôs a mão na testa e respirou fundo. Em período de TPM, Maria de Villota ficou revoltada e ligou para o amante Bernie Ecclestone lamuriando. Anteontem, a HRT definiu seu primeiro, e talvez único, piloto espanhol para a próxima temporada. Contrariando toda a lógica política e científica das apostas, o escolhido foi ninguém menos que Pedro de la Rosa.

De La Rosa outra vez? Exatamente. Aos 40 anos, o catalão retornará à Fórmula 1 em 2012 como piloto titular da equipe mais fraquinha do campeonato. Como ele faz aniversário em fevereiro, terá 41 anos em sua primeira corrida pela equipe de Colin Kolles. O mais assustador é que o contrato entre Pedro e HRT será válido por duas temporadas. Assustador porque ninguém é doido de assinar um contrato de duração tão longa com uma equipe dessas. Assustador porque ele terá quase 43 anos quando fizer sua última corrida pela equipe, no final de 2013. Assustador porque, caramba, é o De La Rosa.

Não ficou muito clara qual é a real intenção da HRT, que terá algumas boas novidades para a próxima temporada, como a transferência de sua sede da Alemanha para a Espanha. Li em algum lugar nem um pouco confiável que Pedro de la Rosa receberá algo em torno de um milhão de dólares pelo contrato. Espero que seja uma informação falsa. No Twitter, o piloto francês Tom Dillmann, que é a cara do James Wilson do seriado House, repassou um comentário de um amigo seu que reclamava pelo fato de De La Rosa ser pago para voltar a correr enquanto vários pilotos jovens se matam para encontrar um patrocinador para prosseguir com suas carreiras. Concordo plenamente. É absurdo mesmo.

Mas como eu não acredito que a HRT tenha dinheiro para o vale-refeição de seus mecânicos, quanto mais para um salário astronômico de um quarentão mediano, penso que haja alguns bons raciocínios monetários aí. Pedro é tão espanhol quanto Oriol Servià ou Salvador Dalí – um catalão que é forçado a dizer que é espanhol e que serve ao Rei Juan Carlos para não abalar os fundamentos de um país dividido. Para os potenciais patrocinadores espanhóis, é melhor ter alguém de Barcelona do que um alien de Perth ou Locorotondo.

Ao mesmo tempo, o veterano deve estar levando algum patrocinador particular para a HRT. Não existe almoço grátis na Fórmula 1 de hoje e até mesmo um Fernando Alonso leva dinheiro para a equipe, não há nenhum crime capital aí. Gostaria apenas de saber qual empresa poderia ser. No ano passado, De La Rosa disputou os dois grandes prêmios espanhóis pela Sauber estampando o colorido logotipo do Burger King, que concedeu alguns euros e Whoppers à equipe suíça por meio da filial hispânica.

De La Rosa no Canadá neste ano

Certamente, a multinacional dos hambúrgueres deve estar em situação financeira muito melhor que qualquer outra empresa espanhola. Como os bem-informados leitores devem saber, a Espanha está falidaça da Silva, com desemprego rondando a casa dos 20% e a economia estagnada. Nesta semana, ao mesmo tempo em que o opositor de direita Mariano Rajoy derrotou o candidato da combalida situação e assumiu a presidência do governo espanhol, o Banco de Valência se viu insolvente e necessitou de socorro do governo. Em um ambiente assim, como é que Pedro de la Rosa conseguirá algum bom patrocinador para a próxima temporada?

Vendo esta contratação de outro prisma, é possível perceber que a Fórmula 1 está ganhando uma roupagem mais hermética e razoavelmente irritante para esta próxima temporada. Pilotos de ponta à parte, a temporada 2012 será marcada por dois tipos de piloto: os pagantes de verdade, aqueles que só conseguem um carro porque a equipe só enxerga cifras, e os veteranos de verdade, aqueles que rondam a casa dos 40 anos. No texto de hoje, embora De La Rosa aparente estar nos dois grupos, falo majoritariamente dos tiozões, é claro.

De La Rosa será o segundo quarentão do grid em 2012. O primeiro é Michael Schumacher, que tem 42 e fará 43 em janeiro. Poderemos ter ainda um terceiro: Rubens Barrichello, que completará sua quarta década em maio do ano que vem, batalha para seguir na Fórmula 1. Poderá continuar na Williams, que não sabe o que fazer da vida, ou encontrar uma vaga na nova Lotus, que não terá Robert Kubica no ano que vem e não sabe se continua com o insurgente Vitaly Petrov. Na hipótese mais bizarra, a Fórmula 1 teria três pilotos com quarenta anos ou mais no grid de 24 carros. Um em cada oito.

Sabe quando foi a última vez que a Fórmula 1 teve três pilotos desta faixa etária em uma única temporada? Nem eu sei. Vou procurar e já volto. Voltei. Pelo que pude ver, isso aconteceu em 1980, quando Mario Andretti (40), Clay Regazzoni (41) e Vittorio Brambilla (43) apareceram em ao menos uma corrida, mas não simultaneamente – Rega participou das quatro primeiras e Brambilla apareceu nas duas últimas. Se considerarmos uma corrida com três quarentões, a última foi o longínquo GP da África do Sul de 1971, no qual tomaram parte Graham Hill (42), Jo Bonnier (41) e John Love (46).

As estatísticas ficam menos remotas quando falamos em apenas dois quarentões. A última corrida que contou com este número foi o GP do Canadá deste ano, com Schumacher e o próprio De La Rosa substituindo o injuriado Sergio Pérez no Canadá. Fora isso, a última temporada que teve dois pilotos com mais de 40 anos de idade foi 1994, com Philippe Alliot (40) e Nigel Mansell (41), mas os dois não chegaram a correr juntos. Quer dizer, este negócio de povoar o grid com velharia não é uma coisa exatamente comum nesta Fórmula 1 contemporânea.

Graham Hill, um dos poucos que correram com mais de 40 anos de idade

Assim que Rubens Barrichello deu passagem a Michael Schumacher em uma corrida austríaca qualquer e o alemão obteve uma de suas onze vitórias em uma única temporada, todo mundo começou a repensar a então má situação esportiva da Fórmula 1. Concluíram brilhantemente que uma saída para melhorar o certame era diminuir os testes. De 2003 para cá, a categoria promoveu uma redução gradual nas sessões coletivas e privadas. Desde 2009, os pilotos não testam em mais do que dez dias em um ano. Como os testes também ficaram limitados a um único carro por dia, as equipes não podiam se dar ao luxo de testar quem elas queriam. Pilotos de testes e jovens talentos mal conseguem se aproximar dos desejados bólidos. Eles só devem se contentar com aquela sessão mixuruca em Abu Dhabi.

Como estava difícil para estes novatos completarem até mesmo os 300 quilômetros mínimos para a obtenção da superlicença, as equipes se viram sem grandes opções para preencher seus carros. Ninguém estava disposto a arriscar uma vaga para um pivete que mal conseguiu se acomodar direito no cockpit do carro. Ademais, a conservadora Fórmula 1 desta nova década exige que os pilotos não saiam por aí batendo ou estourando motores a esmo. O que fazer, então? Contratar gente experiente. Bem experiente.

No GP do Canadá deste ano, surgiu uma pequena polêmica no seio da Sauber. O jovem Esteban Gutierrez, um dos pilotos de testes da equipe, reclamou que deveria ter sido ele, e não De La Rosa, o substituto de Sergio Pérez. A equipe alegou que entendia o incômodo do mexicano, mas precisava de alguém experiente para pilotar o carro. Embora dono de uma superlicença, Gutiérrez ainda não tinha cancha para dirigir o C30. A lógica da Sauber é correta. Pode até soar exagerada, mas não deixa de ser realista.

Logo, se uma equipe quer evitar problemas e obter os melhores resultados possíveis a curto prazo, o negócio é apostar na velhíssima guarda. Rubens Barrichello, Michael Schumacher, Sílvio Caldas, Nick Heidfeld, Pedro de Lara, Pedro de la Rosa e Jarno Trulli: todos são sujeitos que já tiveram suas grandes fases, mas que ainda pertencem à Fórmula 1 por terem o ativo mais valioso entre todos. OK, Heidfeld ainda está fora, mas espere só até a Red Bull contratá-lo para substituir Mark Webber, que também vai entrar neste grupo aí, logo, logo.

Rubens está em sua décima nona temporada. Schumacher faz parte da Fórmula 1 desde 1991. Jarno Trulli conta quinze temporadas em seu currículo. Pedro de la Rosa, o motivo deste post, é da safra de 1999. Heidfeld é o mais novo, datado de 2000. Vale notar que Jenson Button também estreou em 2000, mas ele ainda é jovem (31 anos) e está no auge da carreira. Em comum, a abundante experiência no circo.

A falta de testes privilegia os pilotos experientes em detrimento de jovens que precisam apenas de uma pré-temporada completa, como Tora Takagi teve em 1998

Em outros tempos, as coisas não eram bem assim. Em 1998, por exemplo, os dois pilotos mais experientes eram a dupla da Sauber, Jean Alesi e Johnny Herbert, que não tinham sequer completado dez anos de Fórmula 1. Naquele mesmo ano, Michael Schumacher era nada menos que o quarto piloto mais experiente do grid. Rubens Barrichello era o sexto. Há treze anos, eles já eram considerados veteranos. Hoje em dia, são quase Abraão e Maomé.

Eram tempos em que os testes eram numerosos. Caras como Luca Badoer, o eterno piloto de testes da Ferrari, completavam dezenas de milhares de quilômetros a cada ano – metragem que, nos dias atuais, equipes médias sequer sonham em fazer. Então, um piloto novato conseguia obter boa experiência antes de estrear em corridas. Tomando 1998 como exemplo, analiso o caso de Toranosuke Takagi, da Tyrrell. O japonês foi contratado como piloto de testes ainda em 1997, pilotou bastante, se acostumou com o carro e com a equipe e pôde estrear como titular em 1998 com toda a preparação necessária. Resultado: ele bateu com folga seu companheiro Ricardo Rosset, que era mais experiente, mas tinha feito pouquíssima quilometragem na pré-temporada.

Hoje em dia, não há tempo, dinheiro ou sessões de testes disponíveis para um Takagi se desenvolver. Como as equipes não podem ficar para trás, elas preferem apostar nos Trullis e De La Rosas da vida. No caso de Trulli, Heidfeld e Schumacher, estes seriam alguns dos poucos pilotos que são regiamente remunerados pelo trabalho. De La Rosa, em contrapartida, não vale tanto. Na certa, tem grana aí no meio.

Mas se a HRT quer grana, por que não empregou logo de uma vez a Maria de Villota, o Dani Clos ou o Eike Baptista? Porque vivência ainda conta muito, e é isso que Pedro de Lara tem. Como dizia o próprio, tem gente que é tão pobre que só tem dinheiro.

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