Serei bem honesto. As pistas que eu mais gosto de descrever no Calendário do Verde são exatamente essas que estão longe de serem unanimidade. Não sei explicar bem o porquê. Talvez seja pelo desafio de encontrar argumentos que possam convencer alguns detratores a mudarem de idéia, ou pelo fato de buscar dizer algo que pouca gente diz. O caso é que é mais divertido fazer loas a Valência do que a medalhões como Le Mans e Nordschleife.

Comunidade autônoma da Espanha, Valência é um conhecido entreposto do automobilismo ibérico. Em 1999, a cidade de Cheste, localizada a apenas 30km da cidade de Valência, assistiu ao surgimento do circuito Ricardo Tormo, autódromo de padrão internacional que recebe testes da Fórmula 1 e corridas do Mundial de Motovelocidade.

A Espanha já realiza corridas de Fórmula 1 ininterruptamente desde 1986, quando sediou o primeiro Grande Prêmio em Jerez. Em 1991, a corrida foi transferida para o novíssimo, moderníssimo e chatíssimo circuito de Montmeló e, desde então, os pilotos aparecem por lá uma vez por ano para fazer corridas das mais entediantes possíveis. Até 2002, os espanhóis não ligavam muito para o que acontecia por lá e a corrida local era um dos patinhos feios do calendário da Fórmula 1. 

A situação mudou em 2003, com a rápida ascensão de Fernando Alonso a uma equipe de ponta. Daquele momento em diante, a Espanha não deixaria mais de estar em voga na Fórmula 1. As arquibancadas, que costumavam ter grandes “clarões”, passaram a ser disputadas a tapa pelos hispânicos. O interesse espanhol pelo automobilismo se refletiu no grande número de pilotos que surgiram após o início do fenômeno. Bernie Ecclestone, sempre muito inteligente, percebeu que a Espanha possuia um interessantíssimo potencial e propôs, em 2007, a realização de uma segunda corrida no país.

A princípio, foi sugerido a ele o autódromo Ricardo Tormo. Bernie rechaçou, alegando que as instalações do autódromo não eram lá aquelas coisas (para se ter uma idéia, o sistema de acendimento de luzes em Ricardo Tormo ainda funciona apenas à moda antiga, com as cinco luzes vermelhas se acendendo ao mesmo tempo antes das luzes verdes!) e o circuito era estreito demais para a Fórmula 1. Ele teve uma idéia diferente: construir um circuito semipermanente que utilizasse as ruas da cidade de Valência, terceira maior da Espanha. E em maio de 2007, Ecclestone anunciou que, a partir do ano seguinte, o Grande Prêmio da Europa seria realizado nas ruas de Valência.

O circuito é localizado a apenas alguns quilômetros do centro histórico de Valência, mais precisamente na zona do Grao, aonde se localiza o famoso porto da cidade. Ele transcorre esta região portuária e atravessa uma ponte que passa por cima do leito do rio Turia. É um visual que tinha tudo para ser deslumbrante, mas que acabou resultando em algo insípido e até mesmo desagradável. Dizem que a região do porto não é a parte mais bonita da cidade e, além disso, os altíssimos muros que cerceam o circuito não permitem visualizar muitas coisas. A ponte, por exemplo, só pode ser identificada pelos triângulos localizados às margens do asfalto.

TRAÇADO E ETC.

Dias antes do Grande Prêmio inaugural, Bernie Ecclestone disse que “este é o melhor circuito do mundo”. O engraçado é que esta frase só é utilizada em circuitos minimamente polêmicos, como é o caso deste. Passados quase dois anos, tivemos duas corridas das mais chatas da história da Fórmula 1. A GP2, por outro lado, tem corridas muito boas e este é o argumento que utilizo para esperar ad eternum uma boa corrida.

À primeira vista, Valência lembra muito Long Beach, especialmente pelo fato da largada ser realizada em uma curva extensa à direita. Com 5,473 quilômetros de extensão, 11 curvas à esquerda e 14 curvas à direita, Valência pode ser caracterizada como um circuito citadino de alta velocidade. Os carros de Fórmula 1 completam uma volta a uma média de 195 km/h, velocidade bastante elevada para esse tipo de pista. Ao se aproximar à curva 12, os carros podem chegar a 317 km/h. A graça maior de Valência não está nas corridas proporcionadas ao público ou em curvas difíceis, mas no desafio de acertar voltas rápidas em um circuito com curvas estreitas, velozes e com muros ao lado. Se Mônaco é como andar de bicicleta no corredor, Valência é como andar em um cavalo enlouquecido.

Como em todo circuito de rua, o carro deverá ter suspensões reforçadas para o caso de raspadas no muro e asas dianteira e traseira gerando bastante downforce para o carro completar as curvas rápidas. O motor deverá apresentar excelente torque, já que a reaceleração brusca é uma constante no circuito. Por fim, a durabilidade dos freios é importantíssima. Valência é aquele típico circuito aonde se acelera muito antes de se completar uma curva fechada para reacelerar tudo de novo, com o adicional de obrigar o piloto a evitar os muros em volta em altíssima velocidade. Conheça os principais trechos:

1: É a primeira curva, que se segue logo após a pequena reta dos boxes. Tem raio longo e é bastante larga, sendo um dos pontos mais velozes do circuito. Tem uma grande área de escape ao lado.

4 e 5: Uma espécie de chicane feita em média velocidade. O carro entra na curva 4 pegando a zebra à esquerda e, para não perder tempo, passa por cima da zebra à direita na curva 5 já em reaceleração. Um erro nesta zebra pode mandar o bólido ao muro ali do lado.

8: Curva lenta feita à direita. O carro atravessa um trecho de alta velocidade antes de se aproximar desta curva. Os freios devem estar balanceados e um carro que tende a sair de traseira perderá um bom tempo.

18, 19 e 20: Uma sequência bastante interessante feita em alta velocidade. O piloto sai da curva 17 reacelerando, passa pela zebra 18, feita à esquerda, e faz um rápido movimento de volante à esquerda a partir da curva de 19, sempre mantendo o pé no acelerador. Um carro que sai de frente tem dificuldades aqui.

24 e 25: Última sequência do circuito. Após a curva 20, o piloto vem em uma espécie de zigue-zague em alta velocidade que culmina na curva 24, feita à direita. Porém, o piloto já entrará nesta curva desacelerando para entrar na 25, curva lenta feita à esquerda, com velocidade adequada para reacelerar na reta dos boxes.

Pole de Felipe Massa em 2008.

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