Guilherme Silva, o campeão da Fórmula Futuro e um dos poucos pilotos dessa nova fase desinteressada do automobilismo

Neste último final de semana, foram definidos os campeões das duas grandes categorias de monopostos no Brasil. A Fórmula Futuro, “aquela do Felipe Massa”, consagrou o mineiro Gulherme Silva, patrocinado pela Rede Elemídia e pela Info2, como o segundo campeão de sua história. Já a Fórmula 3 sul-americana, de longa trajetória, teve no paulista Fabiano Machado, patrocinado pelo Grupo Schahin, seu 22º campeão.

Silva e Machado são dois pilotos que merecem atenção para o futuro. O primeiro chegou a liderar simultaneamente os dois campeonatos citados, mas preferiu concentrar as atenções na Fórmula Futuro e acabou retomando a liderança da tabela na última rodada. Fora isso, ele ganhou vários campeonatos de kart mineiros e nacionais e foi um dos classificados para a Seletiva Petrobras de 2010. Já Fabiano Machado, mais velho, foi um dos poucos pilotos que disputaram regularmente a Fórmula 3 e ganhou nada menos que dezesseis corridas só neste ano. Somando com as quatro que ele venceu no ano passado, chegamos ao impressionante número de vinte trunfos – somente o insistente Gabriel Furlan, que disputou trocentas temporadas na categoria, venceu mais do que ele.

Você pode até não ficar muito impressionado. Afinal, tanto a Fórmula 3 quanto a Fórmula Futuro não andam conseguindo reunir mais do que sete ou oito pilotos a cada etapa. Eu mesmo já consegui organizar uma corrida de kart com dez pessoas. Vencer seis adversários não parece ser a tarefa mais difícil do mundo. Quero ver é quando chegar lá na Europa e encontrar grids com mais de vinte carros, diria o leitor. Vamos com calma. Se Silva não fosse bom, não lideraria dois campeonatos ao mesmo tempo. Se Machado não fosse bom, não ganharia dezesseis corridas em uma única temporada com tanta facilidade.

Mas o leitor não está totalmente errado ao apontar que nenhuma das duas categorias, a Fórmula 3 e a Fórmula Futuro, parecem ser as mais adequadas para um piloto brasileiro que sonha com a Fórmula 1. Se o garoto tem um orçamento de meio milhão de reais, faria melhor investindo tudo em uma boa equipe em alguma Fórmula Renault ou Fórmula Abarth, por exemplo. Vários pilotos competentes deixaram o Brasil como vencedores de corridas para se tornarem discretos participantes do fim do pelotão em campeonatos como a GP3. Curiosamente, dois dos nomes de maior sucesso do Brasil lá fora, Felipe Nasr e César Ramos, ignoraram solenemente o automobilismo nacional. Preferiram concentrar esforços lá fora. Deu certo. Quem poderia condená-los?

Mas outra pergunta pode ser feita. Será que a Fórmula 3 sul-americana e a Fórmula Futuro são inadequadas por serem ruins por natureza ou simplesmente por não conseguirem reunir pilotos o suficiente para manter um nível mínimo de disputas? Esta é a minha maior dúvida.

Assunto recorrente nas rodinhas de cerveja no boteco (mentira, nunca me vi discutindo automobilismo de base em um bar) é a tal da situação precária do automobilismo nacional. O raciocínio é simples. É simplista. Emerson Fittipaldi, Nelson Piquet e Ayrton Senna se tornaram campeões na época de ouro do automobilismo tupiniquim. Mauricio Gugelmin, Rubens Barrichello, Christian Fittipaldi, Helio Castroneves, Felipe Massa, Cristiano da Matta e Ricardo Zonta só alavancaram suas carreiras graças às corridas aqui. Hoje em dia, a fonte secou e pouquíssimos pilotos brasileiros estão surgindo no cenário mundial. Logo, o automobilismo brasileiro morreu.

Fabiano Machado, campeão da Fórmula 3 sul-americana

Como se vê, é fácil criar um sofisma que relaciona a quantidade de pilotos brasileiros obtendo sucesso lá fora e a qualidade das corridas por aqui. Difícil é pensar até quando isso daí está certo. Mais difícil ainda é aceitar que a situação não é muito diferente da de outros tempos. Na verdade, por mais absurdo que pareça, o automobilismo brasileiro já viveu momentos muito piores. E em tempos bem frutíferos dos pilotos daqui lá fora. Como assim? Cito algumas críticas recorrentes.

O automobilismo de monopostos no Brasil é fraco, pois temos apenas as raquíticas Fórmula Futuro e Fórmula 3 sulamericana. Muita gente repete esta frase como um mantra. A verdade é que ele nunca foi muito melhor que isso. Outra verdade é que a grande maioria dos países por aí tem um automobilismo interno muito mais fraco. O fato é que deveríamos aproveitar melhor as duas categorias de âmbito nacional que ainda sobrevivem aqui.

Nos anos 70, o Brasil contava basicamente com a Fórmula Vee, aquela que lançou Nelson Piquet para o mundo, e com a Fórmula Ford. No início dos anos 80, tínhamos a Fórmula Fiat, que durou muito pouco, e a Fórmula 2 Codasur, que era mais argentina que brasileira. No fim dos anos 80, a Fórmula 2 deu lugar à Fórmula 3 sul-americana, que é a que existe até hoje. Em 1992, a GM lançou a Fórmula Chevrolet. Em 2002, o ex-piloto Pedro Paulo Diniz trouxe a Fórmula Renault para cá. Em 2010, Felipe Massa importou a Fórmula Abarth italiana e lhe deu o pomposo nome de Formula Future, aportuguesado posteriormente para Fórmula Futuro. Falei aqui apenas das categorias principais.

Parece bastante, mas o fato é que nunca tivemos mais do que três categorias relevantes de monopostos convivendo pacificamente. Via de regra, o país sempre contou com uma categoria maior e com uma menor patrocinada por uma montadora – exatamente como hoje. A diferença estava na quantidade de moscas e bolas de feno. Se campeonatos como a Fórmula Chevrolet e a Fórmula Ford duraram tanto tempo, é porque havia equipes, pilotos e patrocinadores interessados. Havia gente para assistir ao vivo e na televisão. Hoje em dia, não há mais nada disso. O grande algoz do automobilismo nacional não é a politicagem ou a pobreza, mas sim o desinteresse.

O melhor exemplo, para mim, é a Fórmula Renault do Pedro Paulo Diniz. Ela foi inaugurada em 2002 com forte apelo midiático, muitos patrocinadores importantes, grids lotados, transmissão ao vivo em canal aberto e corridas excelentes. No primeiro ano, o povo compareceu em massa às provas, os camarotes se abarrotavam com gente oportunista e emergente e todo mundo estava feliz e bem-nutrido. Ou seja, a Fórmula Renault tinha absolutamente tudo para ter dado certo em termos comerciais e esportivos e ter representado uma revolução no automobilismo nacional.

A Fórmula Renault tinha tudo para ser a categoria de monopostos mais legal da história do país, mas morreu por falta de interesse geral

Mas o oba-oba durou apenas duas temporadas. Em 2004, os grids já haviam diminuído em 30%, boa parte dos patrocinadores havia ido embora e os fãs de automobilismo já não davam mais tanta importância. As coisas não melhoraram e a Renault decidiu acabar com a festa no fim de 2006, pegando todo mundo de surpresa. Ou não. Você pode acusar a Fórmula Renault de qualquer coisa, menos de incompetência. A categoria era excelente, não era muito cara, nunca ficou sem transmissão televisiva e ensinava muito ao piloto. Ela só não despertava interesse em mais ninguém.

Por mais estranho que pareça, a Fórmula Futuro e a Fórmula 3 sul-americana são duas ótimas categorias. A primeira teve até aqui um padrinho de peso, patrocinadores fortes (Santander e Shell, que infelizmente abandonarão o barco na próxima temporada), espaço cativo em um canal a cabo relevante e um carro moderno e barato. Quer dizer, não falta nada para ela ser boa, só audiência. A Fórmula 3 sul-americana tem o motor mais potente do planeta na categoria, um carro relativamente moderno, transmissão em canal aberto e uma organização que, gostemos ou não, está se esforçando para retomar seu crescimento. Falta só a mesma coisa da Fórmula Futuro, a audiência.

Quantos países podem contar com duas categorias deste quilate? Poucos. A França não tem nada mais forte do que uma discreta Fórmula Renault. A tradicionalíssima Itália tem exatamente as mesmas categorias que o Brasil. Os EUA têm muitas, mas todas voltadas para a NASCAR ou a Indy. Os países emergentes no automobilismo, localizados na América Latina, no Oriente Médio e no Sudeste Asiático, não costumam ter nada relevante em âmbito nacional. No máximo, uma ou outra categoria disputada em um bloco regional com grids não muito mais extensos que os da Fórmula Futuro. Com exceção do Reino Unido, da Alemanha e talvez do Japão, nenhum automobilismo nacional de base está em situação muito melhor que o brasileiro.

Falam muito da falta de dinheiro no automobilismo. Acho engraçado esse tipo de raciocínio. Em tempos de moeda razoavelmente estável e economia sólida, nunca se falou tanto em prosperidade e bonança. As grandes empresas nacionais estão muito felizes. As companhias estrangeiras estão vindo para cá às caravanas. Portanto, não falta dinheiro. Falta, sim, disposição para investir no esporte. E não falo apenas do automobilismo, mas de quase todos os esportes. Somente os grandes times de futebol estão recebendo enormes afluxos de dinheiro. Se eu sou o Eike Baptista e posso patrocinar o Flamengo, por que diabos eu iria despender algo da minha modesta conta-corrente em um moleque da Fórmula Futuro?

Para o automobilismo nacional e os pilotos brasileiros, seus melhores momentos coincidiram justamente com os piores da economia. Nos anos 70, o Brasil sofreu com dois Choques do Petróleo e com o início da inflação. Nos anos 80, a inflação virou hiperinflação. Nos anos 90, a moeda se estabilizou, mas o câmbio desmoronou com o fim da paridade em 1999. Mesmo assim, nestas três décadas, vimos um sem-número de pilotos tentando a sorte na Europa, de Rubens Barrichello a Djalma Fogaça, de Álvaro Buzaid a Aluísio Coelho, de Maurizio Sandro Sala a Tony Kanaan. É isso aí. Em tempos de vacas magras, uma legião de brasileiros invadindo o automobilismo internacional. Em tempos mais róseos, pouquíssimos pilotos lá fora. Como pode? Só as mudanças de interesse explicam o fenômeno.

Fórmula 1.6, um campeonato que atrai interesse do pessoal do Sul. Não por acaso, é o mais movimentado e divertido do Brasil

Falam muito também da CBA e da politicagem. A CBA é boa? Não, é uma porcaria. Na verdade, sempre foi. Não pretendo entrar em maiores detalhes, mas a confederação nunca teve uma fase notavelmente decente. As categorias nacionais sempre estiveram chafurdadas em problemas políticos. O que as salvavam eram exatamente as boas corridas, as disputas e os pilotos que eram revelados, sendo que as obscuridades políticas ficavam em segundo plano. Findadas todas essas coisas, sobraram apenas os desmandos.

Se eu pudesse, acabaria com a CBA. Ou, ao menos, reduziria seus poderes. A verdade é que são as iniciativas privadas, como a de Pedro Paulo Diniz ou a de Felipe Massa, que alavancam o automobilismo. Um exemplo que eu gosto bastante é o da Fórmula 1.6, uma categoria realizada lá no Sul que reaproveita os antigos carros da Fórmula Ford. Ela conta com grids de vinte carros, transmissão em duas emissoras, patrocinadores e um bom público. O povo lá de baixo gosta e comparece. Por ser regional, a CBA não fica enchendo o saco diretamente. Por ser regional, no entanto, a Fórmula 1.6 padece com uma grande desvantagem: o pessoal das outras regiões a ignora solenemente. Quer dizer, a questão do interesse retorna com força novamente.

Interesse, interesse, interesse. A diferença entre um período bom e um ruim no automobilismo nacional é majoritariamente isso. Quando há interesse, o candidato a Ayrton Senna dá um jeito e se vira. Sem interesse, poderiam haver dez categorias de monopostos no país, mas nenhuma delas teria mais que dez carros. Mas também mal haveria uma ou duas categorias. É o interesse que cria certames, funda equipes, desenvolve pilotos e patrocina as atividades. Pois ele morreu de vez nos últimos anos. Ficar sem pilotos campeões não nos fez bem. Rubens Barrichello e Felipe Massa são os últimos grandes nomes dessa última onda de interesse. As coisas só mudarão para os brasileiros se houver uma enorme mudança na vontade geral de participar ou desenvolver as corridas, o que não parece ser o caso.

Quanto ao resto, as coisas estão como sempre foram. Sempre vão haver muitos pilotos que não precisaram das categorias nacionais (Senna, Nasr, Kanaan, Bernoldi), outros que ficaram por aqui por pouco tempo (Barrichello, Massa, Nelsinho) e outros que andaram bastante (Emerson, Piquet, Castroneves, Zonta). Sempre vão haver uma, duas ou três categorias de monopostos. Sempre vai haver politicagem barata, corrupção e absurdos extrapista. Sempre vai haver gente elogiando e reclamando.

O Brasil só voltará a ter um monte de pilotos bons no exterior quando voltar a ter um monte de pilotos. E isso só vai acontecer se a criançada voltar a invadir o esvaziado kartismo e os patrocinadores aceitarem investir nessas novas gerações. E tudo isso só vai acontecer se todo mundo tiver interesse. Os garotos que não querem mais saber de kart, as empresas que não querem investir em jovens talentos do esporte, os espectadores que não perdem seu precioso tempo acompanhando as corridas e os jornalistas que não se preocupam em cobri-las são tão culpados quanto os dirigentes, as categorias e todos aqueles a quem direcionamos a culpa.

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