Over.

Dario Franchitti, tetracampeão da Indy, estacionou seu carro avermelhado nos boxes de sua equipe, abriu a viseira do capacete e extravasou emoção. Não, não era de felicidade. Dario colocou as mãos nos olhos e começou a chorar copiosamente.

Tony Kanaan, antigo campeão da Indy Racing League e líder da IZOD Indy Car World Championship, estacionou seu carro esverdeado nos boxes de sua equipe, desceu do cockpit e abraçou um amigo. Não, não o fez por felicidade. O colega o abraçou com força. O baiano, sempre feliz, sempre pronto para uma piada, não conseguia parar de chorar.

Alguns milhares de quilômetros de Las Vegas, aqui no interior de São Paulo, eu acompanhava o VT da corrida pela Bandeirantes. Havia acabado de chegar em casa e sequer tinha ligado o computador ou algo que o valha – não queria estragar a expectativa pelo resultado final. Vi as primeiras voltas nervoso, ciente de que um acidente violento era inevitável naquele oval de absurda inclinação de 20°. Em poucos minutos, ele aconteceu. Peças voando. Fogo. Tensão. Um piloto não está bem. Vamos aos comerciais. Retornamos. Dan Wheldon está morto. Perplexo, saio da sala. Vou ao quarto. Não costumo chorar por mortes, sou meio frio com essas coisas e, estupidamente, costumo pensar que chorar por um desconhecido é patético. Mas mandei a filosofia barata à merda. Chorei um pouco ali no canto. Só um pouco.

Wheldon, sujeito bacana. Pelo menos, transparecia isso. Na Indy, o pessoal costuma transparecer coisas mais amenas – um Franchitti não precisa ser um Alonso para ser bom piloto. Pois Dan era boa praça e dirigia bem. Os pilotos gostavam dele. Só me lembro de Danica Patrick tentando dar uns cascudos no cara, mas esta daria cascudos até na avó. Os torcedores gostavam muito dele. Só riram quando Wheldon decidiu clarear os dentes há alguns anos. Ficou com cara de ator de comercial de pasta de dentes. Ele não estava nem aí. Exibia seu sorriso fosforescente para quem queria ver.

Dan queria a Fórmula 1, mas o destino e a falta de boas oportunidades na Europa o fizeram voar em direção às pradarias dos Estados Unidos da América. Disputou quase todas as categorias de base na terra do Sam e ganhou corridas, mas não se sagrou campeão. Em 2002, a Panther decidiu colocar um segundo carro para disputar as duas últimas etapas da temporada da Indy Racing League. Bom lugar para Wheldon, então com apenas 24 anos, estrear. Fez suas corridas e deixou boa impressão, mas virou o ano de mãos abanando.

A sorte do inglês, que parecia não ter muito o que fazer na IRL, mudou drasticamente após a segunda etapa da temporada de 2003, quando o lendário Michael Andretti decidiu se aposentar da pilotagem para se concentrar apenas na gestão de sua equipe. Contratado como substituto de Andretti, Wheldon começou meio barbeiro, assustando a todos com uma cambalhota nas 500 Milhas de Indianápolis e se envolvendo em um acidente que quebrou alguns ossos do brasileiro Felipe Giaffone em Kansas. Depois disso, acalmou um pouco e até conseguiu um pódio no Texas.

De 2004 para frente, Dan Wheldon decidiu largar a vida de piloto desastrado do pelotão intermediário e se transformou em um dos pilotos mais completos e velozes da categoria. Ganhou dezesseis corridas e levou o título da temporada de 2005 com um pé nas costas e as 500 Milhas de Indianápolis de brinde. Em 2006, perdeu o título para Sam Hornish Jr. por nenhum ponto de diferença. Isso mesmo: os dois terminaram o ano rigorosamente empatados em 475 pontos. Hornish Jr. levou porque tinha duas vitórias a mais.

Duas temporadas menos eficientes com a Chip Ganassi acabaram o deixando um pouco de lado e no fim de 2008, Wheldon foi obrigado a voltar à equipe que lhe abriu as portas para a Indy Racing League, a Panther. Não ganhou corridas, mas bateu na trave nas duas 500 Milhas de Indianápolis que disputou com a equipe de John Barnes. Em fevereiro de 2009, obteve sua primeira grande vitória na vida: o nascimento do filho Sebastian.

No fim do ano passado, a Panther decidiu contratar o jovem e pouco custoso J. R. Hildebrand e não tinha planos de manter Dan em um segundo carro. Mesmo batalhando para encontrar outra equipe, ninguém tinha dinheiro para custear seu salário e Wheldon acabou ficando de fora de quase toda a temporada 2011 da Indy. Quase.

O que dizer de Daniel Clive Wheldon em 2011?

Indianápolis. Em março, a Bryan Herta Autosport anunciou que disputaria as 500 Milhas com um rotundo patrocínio da grife William Rast e Dan Wheldon como piloto. Era um esquema pequeno, que reaproveitava os mecânicos utilizados pela equipe na Indy Lights. Contra quase quarenta adversários, não havia muito o que esperar. Dan queria vencer a famosa prova pela segunda vez, mas era difícil falar em vitória quando havia equipes abastadas como a Chip Ganassi e a Penske no páreo.

Wheldon deu as caras, trabalhou silenciosamente e garantiu uma milagrosa sexta posição no grid de largada. Para Bryan Herta e amigos, já estava bom demais. Na corrida, o inglês esteve quase sempre entre os dez primeiros e conseguiu evitar os inúmeros problemas que costumam prejudicar os competidores. Nas últimas voltas, todo mundo começou a ter problemas com o consumo de combustível. J. R. Hildebrand, o moleque que o desempregou, liderava rumo à vitória. Na última curva da corrida, se perdeu com um retardatário e se arrebentou no muro. Wheldon passou elegantemente por ali e ganhou a corrida. Os mecânicos da pequenina Bryan Herta Autosport não acreditavam. Naquele dia, contrariando as tradições republicanas do país, Dan Wheldon se sagrou o rei dos Estados Unidos. A vitória o colocou de volta ao grupo dos melhores e mais importantes pilotos da Indy.

Newton. Dan Wheldon e a Bryan Herta Autosport obtiveram o privilégio de realizar os primeiros testes com o novo carro que será utilizado a partir de 2012. O inglês completou dois dias de atividades no acanhado oval do Iowa. Adorou o carro. Disse que, em termos de segurança, é um carro muito empolgante. Disse também que estava animadíssimo para a próxima temporada.

Las Vegas. No início do ano, a organização da Indy havia anunciado que daria um prêmio de cinco milhões de dólares a um dos cinco pilotos convidados que vencessem a última corrida, realizada no oval da famosa cidade do estado de Nevada. Muita gente ficou interessada, mas as equipes de ponta não abriram vagas para a corrida e os organizadores decidiram que apenas Dan Wheldon, que participaria da corrida pela Sam Schmidt, teria direito ao prêmio. Que seria reduzido pela metade, já que a outra metade seria sorteada a um fã. O esforçado Randy Bernard queria apenas uma corrida festiva e milionária.

Sparta. Como forma de se preparar para a IZOD IndyCar World Championship em Las Vegas, Dan Wheldon decidiu disputar a etapa anterior, realizada no oval de Kentucky. Ele homenagearia duas pessoas falecidas recentemente: Chris Griffis, diretor geral da Sam Schmidt, e Michael Wanker, um garotinho de apenas seis anos que tinha um tipo bastante agressivo de câncer. Wheldon foi à pista, teve dificuldades para acertar o carro, largou em 28º e terminou em 14º. Mesmo assim, estava muito empolgado para a corrida de Las Vegas.

“Eu já havia feito algumas coisas legais na minha carreira, mas nunca tinha feito alguém milionário antes”, afirmou Wheldon dois dias antes da corrida sobre a possibilidade de deixar um espectador com 2,5 milhões de dólares na carteira. “Mas, honestamente, eu acho que tenho grandes chances de vencer a prova”.

Las Vegas. Um dos boatos mais barulhentos a respeito da próxima temporada era o retorno de Dan Wheldon à Andretti, a equipe que o fez campeão em 2005. Como Danica Patrick estava migrando de mala e cuia para a NASCAR Nationwide Series, Michael Andretti precisava de um piloto de ponta para manter sua equipe no centro das atenções. Dan estava disponível. Muitos diziam que, logo após a corrida, os dois lados, Andretti Autosport e Dan Wheldon, anunciariam o ressurgimento da parceria a partir de 2012.

Mas as corridas são inúteis.  Vamos aos fatos que interessam.

Emberton, Inglaterra. A mãe de Dan Wheldon, Sue, tem um quadro de piora progressiva em seu mal de Alzheimer, diagnosticado em 2009. Bastante debilitada, Sue não poderia viajar para Indianápolis para ver o filho correr. Como forma de homenageá-la, Wheldon estampou no macacão o logotipo da Associação do Alzheimer. Após a vitória na Indy 500, perguntado sobre a situação da mãe, Wheldon engoliu seco. “Você imagina o choque que foi para nós receber o diagnóstico da doença. Carrego o logotipo comigo porque esta é uma causa muito importante para mim e eu espero que, unindo forças com a Associação do Alzheimer, possamos chamar atenção sobre o quanto esta doença devasta as pessoas e suas famílias e o quão importante é o diagnóstico precoce”. Depois, chorou.

St. Petersburg. Papai Dan e mamãe Susan estão no hospital All Children’s. Wheldon estava prestes a ter sua segunda grande vitória na vida, Oliver. Garoto sapeca. Decidiu dar as caras neste mundo louco às 2h32 da madrugada do dia 19 de março. Orgulhoso, Dan não demorou muito e postou sua conquista no Twitter: “Oliver Wheldon nasceu hoje às 2h32. Papai e mamãe estão muito bem. Papai não vê a hora de levar os dois filhos para uma pista de kart“.

Mais palavras são desnecessárias. Fiquem com esta imagem. A do Dan Wheldon sorridente e vencedor.

Anúncios