Em junho do ano passado, o ex-piloto finlandês Jyrki Juhani Järvilehto, ou simplesmente JJ Lehto, se envolveu em um violentíssimo acidente de barco no canal Jomalvik, localizado no sul da Finlândia, que culminou na morte de um amigo seu. A justiça local iniciou uma série de investigações que pudessem concluir se Lehto, que se safou com algumas escoriações, deveria ser considerado culpado.

Ao contrário do que acontece no Brasil, o processo durou apenas alguns meses. Ao contrário do que acontece no Brasil, o cara rico e famoso acabou se dando mal. JJ foi indiciado por homicídio culposo, uma vez que os peritos conseguiram provar que era ele quem pilotava o barco a 80km/h, velocidade 16 vezes superior àquela permitida no estreito canal! Não sinto a menor pena. Acelerar um barco em um arroio é uma tremenda de uma burrice. Darwin quase fez seu trabalho.

Se tudo correr dentro dos trâmites, Lehto passará um tempinho em uma penitenciária finlandesa. O irônico é que este ponto baixíssimo de sua vida se passa quase vinte anos depois do seu auge como piloto. Refiro-me ao seu melhor momento na Fórmula 1, o milagroso pódio no encharcado Grande Prêmio de San Marino de 1991.

Naquele ano, JJ Lehto era o segundo piloto da modesta Scuderia Italia, equipe italiana comandada pelo industrial Beppe Lucchini que utilizava carros produzidos pela Dallara. Na pista, os carrinhos avermelhados até se assemelhavam um pouco aos da cugina ricca Ferrari, mas só com relação à aparência. Em 1990, a Scuderia Italia terminou o ano sem pontos e era necessário reverter esse panorama para 1991.

Um dos problemas da equipe era o motor Cosworth, que quebrou muito em 1990. Lucchini foi atrás da Ferrari, mas os rampantes preferiram fornecer motores à Minardi. A Lamborghini também foi procurada, mas esta já estava comprometida com sua própria equipe e com a Ligier. Restou usar um Judd V10, que tinha como trunfo maior ser barato. Ninguém estava muito confiante, mas o propulsor surpreendeu a todos. Apesar de pesado, era razoavelmente potente e poderia fazer seu trabalho direitinho. Os pneus ainda eram os Pirelli, muito bons em determinadas circunstâncias.

O chassi, totalmente novo, foi desenvolvido novamente pela Dallara com apoio do inglês Nigel Cowperthwaite. Apesar de estar longe de ser o mais bonito da temporada de 1991, era razoavelmente eficiente e fácil de pilotar. A Scuderia Italia teria de disputar, naquele primeiro semestre de 1991, a tenebrosa pré-classificação. Com o pacote que tinha, no entanto, não seria tão difícil bater Lambo, Coloni e Fondmetal. A novata Jordan daria trabalho, mas como os quatro melhores carros passariam para os treinos oficiais, as duas equipes poderiam coexistir numa boa.

Após duas razoáveis apresentações nas duas primeiras corridas, a Scuderia Italia vinha com boas expectativas para a corrida de Imola, primeira etapa europeia do campeonato de 1991. JJ Lehto e seu companheiro, o italiano Emanuele Pirro, esperavam poder brigar pelos primeiros pontos daquela temporada. Um fator que aumentava as esperanças da equipe era a chuva, que caía torrencialmente na Itália naquele mês de abril.

Mas as coisas não correram 100% como o esperado, já que Pirro fez apenas o 5º tempo na pré-classificação, realizada em pista seca, e acabou ficando de fora dos treinos oficiais. Lehto conseguiu fazer o segundo melhor tempo, atrás apenas do Jordan de Andrea de Cesaris, e seguiu em frente. No primeiro treino livre, o finlandês fez o nono tempo. No segundo treino livre, o oitavo. Os prognósticos pareciam bons para o único BMS-191 na pista.

O problema maior foi quando as coisas valeram de verdade. Lehto deu azar no primeiro treino oficial, fazendo apenas o 16º tempo. No segundo, choveu forte e ninguém conseguiu melhorar o tempo. E restou a JJ sair lá no meio do pelotão da merda, entre o Leyton House de Mauricio Gugelmin e o Larrousse de Eric Bernard.  

O tempo estava coisa de louco em Imola. Não choveu no warm-up, mas os pilotos da Fórmula Opel pegaram um toró em sua corrida preliminar, vencida pelo brasileiro Djalma Fogaça. Poucos minutos antes da largada da prova de Fórmula 1, uma tempestade lavou a pista. Análoga às tempestades de verão brasileiras, durou alguns instantes e sumiu, dando espaço a um tímido sol que começava a surgir no horizonte. A largada, portanto, seria normal. Ou não.

A pista ainda estava molhada em alguns trechos, como a descida da Rivazza, e muita gente sofreu com isso ainda na volta de apresentação. Para desespero dos torcedores italianos, quem mais se deu mal foi o ferrarista Alain Prost, que rodou pateticamente em direção à grama da Rivazza e ficou por lá, não conseguindo sequer largar. Gerhard Berger também escapou no mesmo ponto, mas conseguiu voltar. O pau ia comer em Imola.

A largada ocorreu sem sobressaltos, apesar da visibilidade nula, e os pilotos sobreviveram às primeiras curvas. O Dallara de Lehto estava lá no meião, brigando com os surpreendentemente lentos Benetton de Nelson Piquet e Roberto Moreno. Ainda na primeira volta, o Williams de Nigel Mansell se envolvia em uma colisão com o Jordan de Bertrand Gachot e saía da prova. Logo antes do fim da primeira volta, dois favoritos haviam dado adeus à disputa.

O GP de San Marino foi uma verdadeira corrida de sobrevivência. Os pilotos que andavam mais à frente caíam como mosquinhas mortas. Jean Alesi abandonava miseravelmente na terceira volta, quando escapou da pista na Tosa após tentar uma estúpida ultrapassagem por fora sobre o Tyrrell de Stefano Modena. Nelson Piquet, da Benetton, rodopiava na mesma curva. O Williams de Riccardo Patrese abandonava com problemas no motor. Os dois Tyrrell saíam com o câmbio quebrado. Ivan Capelli rodopiava na Acqua Minerale. Os dois Jordan também abandonavam a disputa. Só os McLaren de Ayrton Senna e Berger corriam como se nada estivesse acontecendo.

E quem sobraria para terminar nas demais posições pontuáveis? A turma do fundão. Lehto, que chegou a ter de se envolver em brigas encardidas com o lamentável Lotus de Julian Bailey e com o Lambo de Eric van de Poele, ganhava posições a granel e, na 22ª volta, já era o sexto colocado. A rodada de Capelli na 25ª volta o projetou à quinta posição. E por lá ele ficou durante muito tempo.

Na 42ª volta, após passar pela Acqua Minerale, o Tyrrell de Modena estaciona no meio da pista com a transmissão em frangalhos e JJ Lehto pula para a quarta posição. Já estava bom demais, mas eis que o motor Ford HB do Benetton de Roberto Moreno começa a falhar e o brasileiro é obrigado a diminuir drasticamente o ritmo. Na 52ª volta, o Dallara de Lehto se aproxima rapidamente e passa o Benetton por fora na Tamburello sem maiores problemas. E lá está o jovem finlandês, que fazia sua segunda temporada completa na categoria, na terceira posição.  

Lehto completa a corrida uma volta atrás dos McLaren de Senna e Berger. Seu carro realmente não permitiria uma aproximação maior, mas quem liga? Incrédulo com o resultado, o finlandês sobe em uma caminhonete junto de seus dois colegas ilustres e segue em direção ao pódio. Os poucos torcedores remanescentes, aqueles que sobraram após a deplorável saída dos dois carros da Ferrari nas três primeiras voltas, aplaudiam o jovem branquelo. Afinal, apesar dos pesares, havia ainda um piloto de um carro italiano avermelhado no pódio.

No pódio, JJ continua meio sem saber o que fazer. Recebe um prato e um gigantesco troféu, muito mais bonitos do que qualquer prêmio dado hoje em dia, e segue feliz para casa. Era seu primeiro pódio, e o segundo de sua equipe. Os quatro pontos deixam em uma improvável sexta posição no campeonato de pilotos, mesma posição em que se encontra sua equipe. Mas o melhor era a certeza de que a Scuderia Italia estaria livre da pré-classificação na segunda metade do ano.

Este foi o dia mais feliz de JJ Lehto na Fórmula 1, quiçá em toda a sua carreira. Em alguns meses, ele poderia estar celebrando os vinte anos de sua conquista. Ao invés disso, poderá passar o tempo vestido de preto e branco, enxergando o sol quadrado e tomando sopa de batatas com pão velho.

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