Querido Papai Noel é o cacete! Não tenho mais idade para chamá-lo desse jeito, para início de conversa. Queria bater um papo com você.

É evidente que “bater um papo” é um eufemismo para “leia minha lista de pedidos”. Mas você, velhinho bondoso, sabe disso. No aconchego da sua casa avermelhada devidamente instalada na periferia de Rovaniemi, tomando um cappuccino e comendo umas cerejas, o senhor deve ficar lendo cartas e mais cartas por aí. E se você se dispõe a ler verdadeiras súplicas vindas de purgatórios como Mali ou Turcomenistão, creio eu que não vai se importar em ler isso daqui.

Não vou pedir nada pra mim, até porque se fosse assim, eu não publicaria aqui. Vou pedir umas bobagens sobre automobilismo, que é o que me compete neste sítio.

Fórmula 1.

Eu não sei se você gosta desse negócio. Se gostar, provavelmente deve ser torcedor da Ferrari, vestido de vermelho do jeito que está. Mas como eu não estou nem aí com a italianada, peço mais um ano daqueles bem bagunçados, típicos de um almoço de domingo na Sicília. Quero ver Fernando Alonso dando seus trocentos pitis, Felipe Massa detonando seus empregadores na mídia brasileira, Stefano Domenicali perdendo o ponto da macarronada e de sua equipe e os tifosi aparecendo em Monza com aquelas velhas faixas “Ferrari vermelha… de vergonha!”.

E que o F11 seja um pangaré. E daqueles bem doentinhos. Sim, amigo, não gosto da Ferrari.

Você também pode dar uma sabotada na Red Bull. Seria legal ver Mark Webber dizendo que o carro é ruim, a equipe é injusta, a vida não presta, Christian Horner é careca e Sebastian Vettel tem cara de retardado. O australiano é aquela faísca que pode detonar a bomba rubrotaurina. E como eu gosto de ver o pau comer, que a torta desande! E eu queria ver a equipe metida em algum escândalo. Só pelo prazer de rir e dizer algo como “viu? A Red Bull é igual às outras. Não existe gente descolada e bem-intencionada nessa porra”. Não gostaria de ser tão niilista, mas…

A McLaren virou minha equipe favorita. Nunca pensei que isso iria acontecer. Deve ser porque Lewis Hamilton e Jenson Button são legais, como os hóspedes do hotel Hilton provaram em pesquisa recente. Button é um cara que aprendi a gostar não muito tempo atrás, e Hamilton tem minha torcida desde 2005, lá na Fórmula 3. E a equipe ficou tão deslocada, tão fora do noticiário e das polêmicas que até conseguiu despertar a minha simpatia. Não ligo que ela já tenha surrupiado projetos alheios, ou que seja a pioneira em ordens de equipe escandalosas. A reserva moral da Fórmula 1 está em Woking e ponto final. Portanto, Papai Noel, que os ventos sejam bons para a inglesada. E falando em ingleses, que Badly Drawn Boy lance um novo álbum.

A Mercedes voltou, mas voltou muito chatinha e burocrática. O carro nem era tão feio, mas aquela mancha de pasta de dente Oral-B na lateral era muito bizarra. Já que eu vou ter de engolir a presença do Nico Rosberg na equipe, que você consiga transformá-lo em um piloto minimamente mais empolgante. E que o velho Schumacher volte à forma. Mas esse pedido não é só meu. Garanto que tem uma patota enorme querendo que o tiozão arrebente a criançada e ensine com quantos paus se faz uma canoa. Em se tratando de um tiozão, nada melhor do que uma expressão de tiozão.

E o resto? Pra começar, Papai Noel, é bom você improvisar um milagre pra ter duas Lotus no grid. Em verdade, eu sou contra as duas, mas muito me agrada a ideia de ter um carro verde e outro preto e dourado. E vamos ser justos com o Fernandes, né? Foi ele o dono do projeto inicial e os usurpadores da Renault e da Lotus Cars são só… usurpadores. E vê se mantenha o Petrov aí no segundo carro da “outra Lotus”. Vai colocar quem no lugar dele? Só se for o Heidfeld, mas esse eu já percebi que nem o senhor dá um jeito.

E a Williams, hein? Pobrezinha de marré. Então, eu peço que você descole uma grana pro Frank e pro Patrick. Como? E eu lá sei? Você é que manja dos meios. Patrocinadores, sócios, Mega Sena, Tele Sena, caixinha de fim de ano, caixa 2, sei lá. O caso é que o pessoal tá se desdobrando pra fazer a caranga azul e branca andar. O Rubinho, que você deve conhecer de muitos verões, merece coisa melhor. E o Maldonado… bom, esse não precisa de você. Quem tem as costas quentes de Hugo Chavez por trás não precisa de outro barbudo avermelhado.

E o resto? A Force India é muito chata. E tá sempre no vermelho. Vê se você arranja outro dono para a equipe, de preferência de um país mais insólito ainda. Muito me agrada uma Force Malta ou Force Antígua e Barbuda. A Toro Rosso é pior ainda. Pode sumir com ela. A Sauber, não. Essa é simpática, equipe brother da galera. O Koba e o Perez vão arrepiar em 2011. Então, seja legal com eles.

As duas últimas novatas merecem atenção especial. Pra começar, Papai Noel, tire logo aquele Richard Branson da Fórmula 1. Faça-o tentar alguma outra coisa, como salto de paraquedas sobre jacarés… A Marussia não deve ser grandes coisas também, empresa de ex-comunistas mafiosos. Não peço nada para o Glock, talvez só um pouco mais de brilho próprio. E o D’Ambrosio não precisa de mais nada. Nunca achei que o veria na Fórmula 1. Bom trabalho, velho! Conseguiu fazer um belga feliz.

Pra Hispania, eu vou pedir basicamente tudo. Dois carros, uma fábrica, alguns patrocinadores, um dono menos enrolado e dois pilotos minimamente razoáveis. Não ria! A Hispania não é a Andrea Moda ou a Life, cara. Acredite em mim. E pense também nos pilotos desse ano: Senna, Chandhok, Klien e Yamamoto. Imagine que você precisa entregar seus presentes, mas o seu trenó está todo arregaçado e Rudolf está doente. É o perrengue pelo qual a Hispania e seus pupilos estão passando.

Peço também mais equipes no grid. 13. 15. 20. Quantas você quiser. E que as corridas sejam um pouco mais interessantes. Muitos concordam comigo. E quem não concorda, boa gente não é.

Peço também um bom 2011 na GP2, na Indy e nas demais categorias de monopostos. E que o automobilismo brasileiro tenha melhores dias. Você não foi muito generoso conosco. A Fórmula Future foi bacana, mas faltou mais gente competindo. E não precisamos de Hybernons Cysnes e politicagens nas diversas categorias.

Pedi muito? Nem olhe assim para mim. Se tem gente que pede a paz, o fim da pobreza, da fome e das guerras, qual é o problema de pedir algumas coisas bestas em um esporte besta como o automobilismo?

Sem mais.

Verde.

PS: Talvez este tenha sido o último texto do ano. Saio de férias. Provavelmente, volto no dia 17 de janeiro. Tentarei, no entanto, publicar alguma coisa nesse período. Mas não esperem por nada. Bom Natal (ou Hanukkah, ou Ramadã) a todos. E um feliz 2011.

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