Correndo contra o cronograma, contra a descrença da mídia e até mesmo contra a lógica, os coreanos responsáveis pelo circuito de Yeongam, que receberá a Fórmula 1 pela primeira vez na semana que vem, trabalham dia e noite sem sequer parar para a marmitinha. Na terça-feira, a FIA confirmou que, apesar dos pesares, ainda teremos corrida na Coréia capitalista. Em nome de um calendário que não pode ser modificado da noite para o dia, a federação deixou a realidade de lado e deu sinal verde ao circuito e à corrida.

Realidade esta que não é lá auspiciosa. Faltando pouco mais de uma semana para a corrida, o circuito, que soava bastante portentoso no projeto, ainda não passa de um amontoado de gente e máquinas trabalhando. Até alguns dias atrás, ainda havia trechos do próprio traçado que precisavam ser asfaltados. As arquibancadas, os camarotes e os boxes ainda estão incompletos. Ao invés de vivaz grama verde ou de reluzente asfalto poroso, várias áreas de escape ainda são pura terra batida. Para piorar, alguns contratempos atrasaram ainda mais a construção. Dias atrás, o jornal alemão Bild divulgou uma imagem inacreditável de um guindaste que sofreu um acidente na reta dos boxes e tombou a parte traseira, com a dianteira ficando suspensa no ar. Ontem, o jornalista Adam Cooper informou, pelo Twitter, que um operário de 25 anos sofreu ferimentos graves ao cair de uma arquibancada. Vão mal, as coisas por lá.

É óbvio que, por mais ridículo que isso soe para uma categoria extremamente profissionalizada e endinheirada, os problemas com circuitos novos não representam novidade na história do automobilismo. Hoje, falo de cinco circuitos desenvolvidos às pressas ou de maneira amadora que protagonizaram fracassos retumbantes e inesquecíveis. Todos são de rua, algo que pode ser explicado pela dificuldade logística e organizacional em criar um circuito utilizando uma parte da cidade.

5-  BIRMINGHAM


Segunda maior cidade da Inglaterra, Birmingham surgiu no panorama automobilístico nos anos 80, quando realizaram por lá a primeira corrida de rua da história do país. A categoria escolhida para isso era a Fórmula 3000 Internacional, que receberia uma etapa por lá no segundo semestre de 1986. Se tudo desse certo, a pista poderia pleitear uma corrida de Fórmula 1, por que não?

Se dependesse das promessas dos políticos locais, o circuito de Birmingham seria melhor, mais fofinho e mais legal até mesmo do que Mônaco. Mas sabemos que políticos só sabem fazer isso: falar uma barbaridade. O projeto inicial de uma corrida de rua por lá surgiu em, acredite, 1966. Demoraram vinte anos para colocá-lo em execução! Para piorar as coisas, o trabalho não foi feito direito e o cronograma simplesmente foi ignorado. E olha que o pessoal teve mais de um ano para desenvolver algo parecido com um circuito.

Para começar, a prefeitura teve de agradar aos insatisfeitos moradores das cercanias do futuro autódromo com tickets gratuitos para a corrida. Vários políticos eram contra a corrida, e muitas deliberações e reuniões tiveram de ser feitas para resolver os perrengues. Para a mídia e para os incautos, no entanto, tudo corria bem, todos estavam felizes e 15.000 ingressos haviam sido vendidos com antecedência, mais até do que em algumas corridas de Fórmula 1!

Durante quase um ano, cerca de 40 operários trabalharam para recapear o asfalto e para instalar as arquibancadas e os guard-rails. No entanto, faltando apenas uma hora para o primeiro treino da Fórmula 3000, havia ainda gente trabalhando na fixação dos guard-rails! A organização alegou que alguns vândalos fizeram graça e estragaram as coisas, mas a verdade é que algumas das faixas metálicas haviam sido instaladas ao contrário! Dava pra perceber que o trabalho foi mal-feito em algumas placas publicitárias, que também não haviam sido instaladas. O caso é que tiveram de atrasar o primeiro treino em algumas horas e a FISA multou a organização em 10 mil libras esterlinas.

Os treinos correram bem, mas a corrida foi completamente prejudicada pelo furacão Charley, que fez bons estragos na Inglaterra. Amedrontados, os pilotos tiveram de enfrentar uma pista completamente encharcada pela tempestade. Em se tratando de um circuito de rua, o perigo é redobrado. Para piorar, não havia lugar para colocar os carros destruídos em acidentes! Após o acidente de Andrew Gilbert Scott, que bateu no carro estacionado de Alain Ferté, restou à organização dar bandeira vermelha e acabar com a bagunça.

4- CAESARS PALACE


Para quem acha altamente brega correr em Abu Dhabi, saibam que a Fórmula 1 já realizou corrida em um lugar muito pior, mais precisamente no estacionamento do espalhafatoso hotel Caesars Palace, localizado na farsesca Las Vegas. O Grande Prêmio de Caesars Palace nada mais era do que uma junção de interesses puramente econômicos. Bernie Ecclestone, ele, queria uma pista que chamasse de qualquer jeito a atenção dos americanos. Ao mesmo tempo, os donos do Caesars Palace queriam utilizar a corrida como instrumento de marketing para atrair alguns doidos que quisessem perder algum no suntuoso cassino do hotel.

O pior é que a pista, em si, não era tão ordinária. O asfalto era exemplar e, para surpresa de todos, havia pontos de ultrapassagem. Com 3,65 quilômetros de extensão, ela era composta por 14 curvas de largura considerável para um circuito que não era permanente. Mas os elogios param por aí. O traçado era repetitivo e sacal, beirando a estupidez. Para piorar as coisas, havia uma impressão séria de que os organizadores que desenvolveram a pista não entendiam nada de Fórmula 1. Contrariando a tendência européia, o traçado era no sentido anti-horário. Os pilotos, cujos pescoços não eram acostumados com circuitos desse tipo, sofriam com dores e dificuldade de movimentos. Some-se a isso o violento calor do deserto do estado de Nevada e pense no sofrimento deles.

Mas os carros também não deixavam de sofrer. As freadas fortes destruíam os freios e os sistemas de transmissão. Os motores turbo também não eram elásticos o suficiente para as bruscas retomadas de velocidade e o resultado era um número indecente de quebras. Por fim, os mecânicos reclamavam uma barbaridade do espaço mirrado dos pits, que não comportavam direito os 30 carros inscritos. Como se vê, não dá certo realizar uma corrida apenas com um bocado de marketing, cassinos e gente bonita.

3- CURAÇAO


A partir da terceira posição, o buraco é mais embaixo. Esta pista recebeu o pouco honroso título de “pior pista do mundo” pela sempre maldosa mídia inglesa. Mas dá pra dizer que fez por merecer.

Curaçao era um sonho pessoal de Bernie Ecclestone (quem mais poderia ser?), que queria fazer uma corrida de rua na ensolarada cidade de origem holandesa. Assim como em Birmingham, Bernie queria realizar uma corrida de Fórmula 3000 em 1985 como um teste. Se o negócio desse certo, a Fórmula 1 desembarcaria por lá em um futuro não tão distante. Os habitantes da cidade ficaram muito contentes com a corrida. Afinal de contas, Curaçao nunca havia recebido um evento esportivo de porte internacional.

O chato da história é que o circuito era uma merda diabólica. A impressão que dá é que o criador do traçado deve ter pegado um mapa e desenhado um traçado aleatório que começava e terminava no mesmo ponto. Com 3,55 quilômetros de extensão, o circuito era extremamente travado e estreito, com a maioria das curvas precisando ser completadas em primeira marcha. As ultrapassagens eram basicamente impossíveis em condições normais.

Mas não era só isso. O asfalto era ruim de dar dó e, para piorar as coisas, um carro de uma categoria menor que havia competido antes despejou um monte de óleo na pista. A falta de aderência era tamanha que os pilotos foram obrigados a utilizar pneus de chuva nos treinos, mesmo com o clima completamente ensolarado!

Os acidentes ocorreram a granel em todas as sessões e ,com isso, outro aspecto negativo se tornou bastante visível em Curaçao: a completa insegurança e a falta de preparo dos bandeirinhas. Não havia áreas de escape na pista e os carros batidos eram simplesmente abandonados ao lado do muro! Para piorar, os bandeirinhas não sabiam sinalizar com bandeira amarela os locais dos acidentes. Dessa maneira, Gabriele Tarquini não percebeu que havia ocorrido um acidente à sua frente e atingiu com tudo o carro acidentado. Em outro momento, Aldo Bertuzzi e Fulvio Ballabio se enroscaram e os fiscais não conseguiam sequer desenganchar os bólidos, o que interrompeu o caminho por um tempo. Uma balbúrdia completa. Felizmente, Curaçao nunca mais recebeu uma corrida do que quer que fosse.

2- BEIJING STREET CIRCUIT


A extinta A1 Grand Prix receberia, na temporada 2006/2007, duas corridas na China. Com o sucesso do circuito de Shanghai na temporada anterior, os organizadores estavam muito empolgados com a criação de uma corrida de rua na capital Pequim, ou Beijing para o restante do mundo. Nunca entendi direito o motivo de nós utilizarmos “Pequim”, mas tudo bem…

Em um primeiro instante, todo mundo achou a pista esquisitíssima, especialmente naquele estreitíssimo grampo de 180°, separado por dois retões. Mas essa esquisitice foi perdoada. Afinal, Long Beach tinha um grampo parecido e todo mundo achava o máximo. Além do mais, um circuito de rua dispõe de licença poética e tem o direito de fazer o que quer.

Mas deveriam ter feito direito. No primeiro treino, o primeiro carro a ir pra pista foi o de Nico Hülkenberg, da equipe alemã. O atual piloto da Williams completou o traçado normalmente até chegar ao maldito grampo. Em um rápido insight instintivo, ele percebeu que não conseguiria completar a curva e simplesmente parou o carro. Os outros pilotos que vinham atrás foram obrigados a fazer o mesmo. E o maldito cotovelo virou um estacionamento! É uma situação inédita no automobilismo mundial de ponta: os pilotos simplesmente param o carro porque era impossível completar a curva!

O treino foi interrompido e os organizadores simplesmente disseram que tudo não passava de frescura no rabo. Desse modo, o treino foi reiniciado e os pilotos tiveram de voltar à pista. E não é que todos eles novamente pararam naquela curva? Não dava pra completá-la e pronto. Treino interrompido, carros recolhidos, organizadores teimosos e treino reiniciado. E a mesma merda acontece! Pela terceira vez! É o bastante. Finalmente, os chineses concluem que há algo de errado e modificam o trecho da noite para o dia, reduzindo os dois retões e instalando o grampo em outro lugar, menos estreito.

Mas os problemas não pararam por aí. Após 25 minutos do treino livre de sábado, algumas tampas de bueiro simplesmente começaram a se soltar. Imagine se alguém passa por uma tampa em alta velocidade. Pois é… O treino foi interrompido para que a organização resolvesse o problema, mas ela não conseguiu e todos os demais treinamentos foram cancelados.  E o grid foi definido com os tempos obtidos nos mirrados 25 minutos de treinos livres.

Nem mesmo as duas corridas se safaram dos problemas. Na primeira, o carro da África do Sul rodou e interrompeu a pista. Enquanto o safety-car entrava na pista, um enorme caminhão de resgate se posicionava no local para retirar o bólido. O problema é que ele só atrapalhou ainda mais o percurso dos carros e prolongou ainda mais o safety-car. Na segunda corrida, algumas placas publicitárias caíram no meio da pista, mas nada foi feito. No fim, a A1 nunca mais quis saber de Beijing. E a cidade é realmente zicada com relação ao automobilismo. Recentemente, ela foi reprovada na avaliação da FIA e só pôde realizar uma corrida extra-campeonato da Superleague.

1- PUERTO IGUAZU


Pouquíssimos se lembram deste inferno, e os que se lembram preferem ignorar sua existência. Não conheço nenhuma pista que seja pior do que essa. Poucos sabem, mas a cidade argentina de Puerto Iguazu, localizada na fronteira com o Paraguai e o estado brasileiro do Paraná, sediou de maneira absolutamente precária uma corrida da antiga Fórmula 2 sul-americana no dia 6 de julho de 1986.

Tudo, absolutamente tudo, estava errado. Para começar, quando a trupe da Fórmula 2 chegou ao local para o primeiro treino, a pista ainda estava sendo construída. Quando eu digo que estava sendo construída, eu quero dizer que havia enormes buracos e gigantescos trechos sem qualquer sinal de asfalto. Os boxes foram instalados em um centro esportivo abandonado e os carros e os motorhomes foram colocados em um campinho de futebol vagabundo próximo à “pista”. A situação já era terrível fora da pista, mas o negócio era ainda pior para quem pilotava…

Com pouco mais de dois quilômetros de extensão, o circuito não era só horrível como simplesmente atropelava qualquer padrão mínimo de segurança ou qualidade de estrutura.  Em alguns trechos, a largura da pista chegava a risíveis sete metros (o mínimo, por regulamento internacional, é de nove metros). A reta principal era uma avenida de duas pistas, e ela era cortada por uma chicane que atravessava um canteiro desta avenida. Com relação à segurança, havia apenas alguns guard-rails de uma mísera lâmina em poucos trechos e alguns montes de pneus velhos que separavam a pista dos postes. Postes?! Sim, havia nada menos do que 49 postes e 26 árvores, sendo que vários destes obstáculos estavam completamente desprotegidos, assim como os espaços nos quais ficavam os espectadores. O asfalto era tão ruim que, em apenas poucas voltas, os carros abriam verdadeiras crateras na pista. Depois dos treinos, o pessoal jogava um pouco de cimento de secagem rápida por cima e rezava pra dar certo.

E os boxes? Tanto a entrada quanto a saída ficavam posicionados em uma chicane difícil, o que tornava até mesmo o ato de entrar para reabastecer algo perigoso. Nem comento sobre o espaço minúsculo. Depois de tantas reclamações, transferiram os boxes para um outro trecho da pista. Eram tantas coisas que precisavam ser reparadas que os treinos e a corrida foram adiados várias vezes, e a situação chegou às raias do absurdo quando tiveram de realizar a prova apenas meia hora após o último treino! É evidente que a mãe do diretor da prova estava sendo xingada por todos, mas havia um pequeno detalhe: não havia diretor de prova. Ele foi nomeado, às pressas, no dia da corrida.

No fim das contas, a corrida foi realizada, ninguém morreu e o argentino Guillermo Maldonado foi o sobrevivente mais rápido.

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