Neste humilde espaço, o inglês Nigel Mansell foi ridicularizado, tripudiado, bombardeado e devidamente criticado por este maldoso escriba em várias ocasiões. Meu problema com o Leão não é exatamente técnico, mas sim pessoal. Não que eu deixe de achar o cara um australopiteco britânico que acelerava mais do que o motor permitia, freava além do que o freio permitia e se mostrava incapaz de poupar pneus e gasolina. O problema é sua postura. Sabe aquela música que diz que malandro é malandro e mané e mané? Mansell é um completo mané. E só um mané para fazer uma corrida como o GP da Hungria de 1988.

Coitado do Mansell, dirão alguns. Afinal, as circunstâncias que o acompanharam nesta corrida escaparam de seu controle. Vítima de uma prosaica catapora contraída de um dos filhos, o inglês apareceu no autódromo magiar febril e todo cheio de bolotas vermelhas no corpo. Se um Mansell com 36,5ºC já era perigoso, imagine um com 39ºC. Na sexta-feira, choveu e ele foi o mais rápido nos treinos livres. Tudo bem que seu Williams-Judd aspirado tinha um bom rendimento em circuitos de baixa velocidade, mas o inglês teve um pequeno devaneio ao dizer à mídia que havia sido quatro segundos mais rápido que o resto! Na verdade, sua diferença para Alessandro Nannini havia sido de apenas 0,297s. Mas tudo bem.

Mesmo com todo o problema de tráfego, algo comum por lá, Mansell fez um bom segundo tempo e se garantiu na primeira fila, atrás apenas de Ayrton Senna. Largou bem e manteve-se em segundo nas primeiras voltas. Seu carro era mais rápido que o de Senna, mas praticamente não tinha downforce algum e sofria com graves problemas de saída de traseira. Na volta 12, o inglês colou na traseira de Senna na atual curva 4. Sem muito espaço, acabou passando por sobre a zebra, o que fez o carro se descontrolar e rodopiar espetacularmente. Como Mansell era especialista em se recuperar de rodopios, ele pôde voltar à pista em quarto.

Uma corrida na Hungria no mês de agosto é mortificante. O calor é insuportável e os pilotos são obrigados a conduzir verdadeiros microondas ambulantes por quase duas horas. Completamente frágil, Mansell vinha tendo cada vez mais dificuldades de controlar um carro difícil de guiar em uma pista complicada como a húngara. Na volta 37, ele foi para os pits trocar os pneus. Para sua infelicidade, o carro passou a se comportar de maneira ainda pior.

Febril, esgotado de cansaço e tendo de dar um jeito de controlar um bólido inguiável, Mansell começa a extrapolar sua condição física. Mantém-se por algum tempo em quinto até começar a tirar o pé de vez a partir da volta 59. Antes de completar a volta 60, Mansell estava a poucos metros de tomar uma volta de Ayrton Senna quando algum outro retardatário escapa na entrada da reta dos boxes, deixando uma nuvem de poeira naquele trecho. Mansell e Senna acabaram escapando naquela curva, e o brasileiro conseguiu continuar.

O Leão, por outro lado, aproveitou a deixa e parou o carro ali, no meio do poeirão, alguns metros antes da linha de chegada. Saiu do carro cambaleante, em péssimo estado. Diz a lenda que chegou a desmaiar lá nos boxes. Em se tratando de Mansell, não duvido.

Como convalescença, Nigel Mansell ganhou duas corridas de folga. Voltou em Jerez, ainda sentido os efeitos da doença, e fez uma de suas melhores corridas no ano. Este é Mansell. Os vírus podem até ganhar uma batalha, mas não a guerra contra o “brutânico” do Red Five.

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