Sempre que temos uma corrida mequetrefe no meio do nada, como foi o caso da última corrida barenita, o nome de infeliz engenheiro civil nascido na pequena cidade alemã de Olpe vem à tona. Hermann Tilke é o cara a quem devemos apedrejar a cada corrida ruim que nós temos. Os 10 primeiros do grid terminaram nas mesmas posições em Valência? Taca pedra no Tilkão. Não teve ultrapassagens em Marina Bay? Taca bosta no Tilkão. Afinal de contas, ele é feito pra apanhar, ele é bom de se cuspir. Maldito Tilke!
As coisas não são bem assim, é claro. As pistas desenvolvidas por Hermann Tilke carregam uma culpa que, no mínimo, não deveria ser creditada apenas a elas.
Hermann Tilke, CEO da Tilke Engineering, é virtualmente o único arquiteto considerado pela FIA e por Bernie Ecclestone para o desenvolvimento de novas pistas para categorias de alto nível, como a F1, o WTCC e a GP2. Desde 1997, a maioria esmagadora de novas pistas que adentraram o calendário da Fórmula 1 tem a sua assinatura. É meio difícil falar em um padrão, até porque eu não consigo ver semelhanças conceituais entre A1-Ring, Istambul, Sakhir e Abu Dhabi. Mas o esquema médio costuma ser descrito como um circuito de 5km localizado no meio do nada composto por duas ou três retas muito grandes separadas por uma sequência de chicanes e grampos feitos em primeira ou segunda marcha.
Faço agora o trabalho de advogado do diabo. Pra começar, antes que vocês achem que Tilke é como se fosse um freelancer que fica em casa coçando os bagos enquanto espera o Bernie Ecclestone pedir uma pista nova no meio da Armênia, devo lembrar que a Tilke Engineering é uma empresa composta por 350 pessoas e comandada por Tilke e por Peter Wahl. Só de diretores de projetos, a empresa dispõe de sete. Quer dizer, Tilke obviamente não trabalha sozinho. E eu me arriscaria a dizer que vários dos seus projetos não são exatamente seus, mas sim de toda uma equipe. Ele só assina e fica com as glórias (ou as críticas), no melhor estilo Steve Jobs.
Temos também a FIA. Há um excelente artigo publicado no GPTotal que mostra todas as exigências feitas pela entidade. Você pode lê-las aqui. Sendo breve, a FIA evita curvas de alta velocidade, mudanças bruscas de relevo, sequências de curvas velozes e retas dos boxes curvas ou estreitas. Lendo isso, jogaríamos fora Suzuka, Spa, Monza, Osterreichring, Kyalami, Hermanos Rodriguez e por aí vai. De fato, muitas dessas pistas saíram. A FIA considera a presença de Spa e Suzuka quase que como concessões. Como o povo pede e somos bonzinhos, vamos permitir, mas só dessa vez, hein? Isso porque eu nem vou entrar na questão dos monopostos atuais, especialmente os da F1 e da World Series by Renault, completamente proibitivos com relação a ultrapassagens e a competitividade.
Tem também o preconceito, praticado inclusive por mim. Nós não gostamos de ver corridas nos Emirados Árabes, no Bahrein ou na Malásia. Automobilismo é história, é tradição, é contexto. Qual é o contexto pra haver corridas em um emirado cheio de petropirados e mulheres de burca? Nossa visão distorce até a análise das pistas. E cometemos algumas injustiças.
Sepang é ótima. É larga, permite ultrapassagens a rodo e tem o maior número de curvas cegas que eu já vi em um circuito. Fora o fator pluviométrico que sempre anima as corridas. Sakhir tem pontos de ultrapassagem e uma boa variedade de curvas, permitindo excelentes corridas nas categorias de base. Valência é um raro caso de circuito de rua de alta velocidade, lembra bastante Long Beach. Istambul é excepcional. Até mesmo Abu Dhabi realizou ótimas etapas da GP2 asiática. Todas só dão errado no caso da F1. Fora os trabalhos honestíssimos realizados com A1-Ring e Hockenheim. Já pensou a responsabilidade que o cara tem nas mãos ao ter de mutilar Österreichring e o antigo Hockenheim? Qualquer um seria considerado carrasco nessa situação. Eu não gosto de Marina Bay e Shanghai, mas elas são inequivocadamente melhores do que muitas pistas.
Muitas pistas. E eu cito um monte, que já não rendiam boas corridas antigamente ou em outras categorias, e que seriam impraticáveis para a F1. Começo com as do calendário atual, Silverstone, Barcelona, Hungaroring e até mesmo Mônaco. O povo só gosta de Mônaco porque é tradicional. E a lista segue: Kyalami novo, Aida, Jerez, Donington, Valência permanente, Estoril, Dijon, Anderstorp, Zolder, Jarama, Jacarepaguá, Magnycours, Imola novo… nenhuma delas desenvolvida por Tilke. Eu até gosto de algumas delas, mas são no mínimo tão passíveis de crítica quanto as do alemão. Me arrisco a dizer que a pior safra de pistas novas da F1 ocorreu no final dos anos 80 e início dos anos 90. Será que o calendário de 1992 ou 1994 era melhor que o atual?
Eu defendo Tilke. Se você está com gasolina e isqueiro e quer atear fogo na Tilke Engineering, favor mudar a rota e dar um pulo na FIA antes.


18 de março de 2010 at 20:20
Concordo em absoluto com a sua analise. O Tilke é muitas vezes criticado sem razão.
Se queres culpar alguém das corridas chatas, culpem o Newey, o Brawn, o Gascoyne, etc. Por causa desses é que ninguém consegue ultrapassar ninguém
24 de março de 2010 at 0:54
A voz da razão!
Bicho, você falou tudo. Nunca entendi o porquê da implicância com Istambul e Sepang. A da China é bem decente. Ponha carros com pneus largos e com pouco arrasto pra ver se essas pistas não possibilitam litros de ultrapassagens.
Só não vou com a cara da do Bahrein e de Abu Dhabi. Tirando a lamentável mutilada em Hockenheim, o circuito novo propicia ultrapassagens. Valência, pra mim, não cheira nem fede. Ou seja, dadas as restrições da FIA, o Tilke até que faz um trabalho competente.
E outra: história é uma coisa construída. Pra mim, o autódromo de Sepang já se tornou um semi-clássico da F1. Faz 10, 11 anos que tem corrida em Sepang, não é? Já teve boas corridas por lá nesse meio tempo e já deu pra todo mundo da turma do sofá decorar o traçado.
Enquanto isso todo mundo tem que aturar Hungaroring (e Cingapura).
3 de abril de 2010 at 14:34
Concordo que a culpa é mais do Bernie, e que Monaco é chata e o pessoal só gosta pq é tradicional. Mas dizer que Silverstone é chata, fala sério! E Hockenheimring morreu. Essa história de reta longa com hairpin no final já deu no saco.
9 de outubro de 2010 at 2:23
O ideal é tacar pedra na FIA. O que faz um circuito ser bom é ter variedade de curvas, com aclives e declives, com curvas de alta, média e baixa velocidade, para que os carros diferentes se comportem diferentemente em partes diferentes do traçado e da corrida. O que faz que em Interlagos quem é rápido na primeira parcial seja lento na última, e isso causa disputas de posição.
4 de dezembro de 2010 at 21:22
Isso é uma verdadeira Penteadeira de Puta (Abu Dhabi)
6 de janeiro de 2011 at 14:22
Vocês já notaram a quantidade de ultrapassagens que faz o Kobayashi???
Será que o baixo número de ultrapassagens na F1 não se deve um pouco aos pilotinhos de hoje em dia?
11 de março de 2011 at 21:04
Bingo!!! Exatamente o que eu acho. Pra mim a culpa não é das pistas, e sim dos pilotinhos bunda-mole que temos hoje em dia, que se criaram aprendendo a fazer ultrapassagens via pit-stop com Mestre Schumacher…
Sem falar que o sistema de pontuação atual, que dá pontos a rodo, desestimula qualquer briga por uma posição melhor, francamente… Daqui a pouco até o último colocado vai ganhar pontos.
12 de outubro de 2011 at 14:35
Bom artigo, mas ainda acho os traçados desenhado por ele um pouco injusto…
Digo isso porque piloto que erra deveria ser “punido”, o cara “escapa” e não vai pra
brita e nem para a grama, vai para uma continuação do asfalto (se isso é um pedido da FIA o Tike q me perdoe).
Também não acho que o piloto que comete um erro deveria ir direto para barreira de pneus, pelo menos deveria
existir uma área mais suja, algo que faça ele perder pelo menos um pouco de tempo.
Sem contar essas curvas cegas, é o mais chato nos circuitos desse alemão, e isso não deve ser coisa da FIA.
Para que tanta curva cega? É chato de assistir, ninguém passa ninguém, carro bom leva mais vantagem ainda e pra jogar
no vídeo game é uma tristeza. É claro, uma ou outra curva cega é legal, um bom traçado tem que ter uma mistura de tudo.
O que vejo é que os traçados dos circuitos de hoje não tem uma identidade como a de Interlagos, SPA etc. Aliás, tem sim,
salvo raras exceções, quem viu um circuito de Tike já sabe identificar outro de circuito de Tike. Uma categoria que briga tanto
para que haja ultrapassagens está indo na contramão com esses circuitos, aposto que o esse do Senna oferece mais emoção
do que um circuito inteiro do Tike, e não vem me dizer que ele não pode fazer isso uma curva com essa inclinação porque na
Malasia tem uma curva em subida muito elevada e bem lenta (muito boa a curva, diga-se).
Grande abraço
17 de fevereiro de 2013 at 12:23
A culpa não está nos circuitos e muito menos nos pilotos. A culpa é da tecnologia. Sim, ela possibilitou inúmeras inovações de segurança, mas também diminuiu o poder do piloto sobre o carro. Isso começou a acontecer no início dos anos 90, quando o controle de tração e a suspensão ativa eram as grandes invenções. Verde, você citou acima muitas pistas travadas e consideravelmente chatas. Mas em muitas delas ocorreram corridas fantásticas, recheadas de ultrapassagens. O GP da Espanha de 1987, disputado em Jerez, foi sensacional. E como esquecer da ultrapassagem do Piquet em cima do Senna, em Hungaroring em 1986? Além da excelente corrida realizada por lá em 1990, cheia de ultrapassagens e trocas na liderança? Portanto, não estou defendendo nem atacando Tilke. Algumas de suas pistas são boas, outras nem tanto. Estou criticando a tecnologia, pois uma corrida de automóvel não pode depender apenas do traçado da pista para ser boa ou ruim. Basta ir a qualquer pistinha de kart indoor para comprovar…