CHINA: Era uma vez uma enorme civilização incrustada à borda do Extremo Oriente. Os primeiros registros desta magnífica civilização, de pequeno e sonoro nome China, datam de 2100 a.C., o que a confere uma idade ligeiramente avançada. Esta tal de China foi governada por dezenas de dinastias boas (Tang) e desastrosas (Yuan), teve seu território drasticamente alterado várias vezes e, acima de tudo, entregou à humanidade inúmeras inovações e filosofias válidas até hoje. De repente, tudo mudou. Após um século XX desastroso que culminou com absurdos como a Revolução Cultural e o Grande Salto para a Frente, a China deixou para trás o dinamismo que sempre acompanhou sua história. Virou um país hermético, cinzento, antipático, truculento, estranho. Sua pujança econômica veio às custas de moeda artificialmente desvalorizada, desrespeito a patentes e, acima de tudo, um regime trabalhista de semi-escravidão. Seu povo não tem acesso à informação livre, desconhece conceitos como “democracia” e embriaga-se comprando apartamentos de gesso em cidades-fantasma e roupas de grifes europeias que terceirizam tudo em fábricas poeirentas próximas a Xangai. Em suma, um lugar diferente de tudo que existe. Que sediará o próximo GP. Desculpem pelo simplismo da descrição, até porque é impossível descrever a China em duas dezenas de linhas. Só gostaria de compartilhar o que penso do único país que realmente me arrepia a espinha. Pelo lado negativo.

GP DA CHINA: Em 2010, 155 mil pessoas foram ao autódromo de Shanghai ver ao menos um dos três dias do GP da China, pouco mais de 55% do número registrado em 2005. As arquibancadas comportam um total de 200 mil pessoas simultaneamente. Para este ano, a arquibancada mais barata está custando algo em torno dos 314 reais, preço que já representa grande redução se comparado com as cifras de três anos atrás. Considere, por fim, que o PIB per capita anual chinês é de 8,4 mil dólares e a distribuição de renda no país ainda é bisonha. Estes números servem bem para ilustrar o porquê da China não conseguir grande audiência em seu lustroso grande prêmio. Mas podemos apontar outras razões. O traçado, um negócio de 5,4 quilômetros no formato do caractere chinês “shang”, é meio chato, mas muita gente ocidental gosta por causa daquela curva em formato de caracol, que é realmente divertida. Além disso, a Fórmula 1 ainda é uma coisa meio assombrosa para os chineses, que achavam que a Ferrari era vermelha para dar sorte até pouco tempo atrás. Enfim, se chover, será uma das melhores provas do ano. Se ficar seco, será uma a mais ou a menos.

ALIENAÇÃO: Problema moral? Imagine, nenhum, veja minha cara de preocupação. Foi mais ou menos assim a reação dos cinco pilotos escolhidos a dedo para a entrevista coletiva m Shanghai quando o jornalista Steve Dawson lhes perguntou se havia algum problema moral em correr no Bahrein na semana que vem. Silêncio. Fernando Alonso estava postando no Twitter, Sergio Pérez estava no celular falando amenidades com alguém da cúpula ferrarista, Vitaly Petrov estava bêbado de vodka, Bruno Senna estava fazendo a barba e Narain Karthikeyan é bobo mesmo. Lá fora da salinha de imprensa, as reações não eram muito diferentes. O bicampeão Sebastian Vettel se irritou com as perguntas de alguns jornalistas sobre o assunto e deixou a gentileza lá na Malásia: “Mais perguntas sobre o Bahrein… Há várias pessoas no paddock, pergunte a elas!”. Na verdade, não havia tantas pessoas assim, pois todos são incapazes de se preocupar com problemas que não lhes dizem respeito. O único que deu alguma opinião mais contundente sobre o assunto foi Kimi Räikkönen. Brincadeira! Sempre bastante articulado, Mark Webber afirmou basicamente que os pilotos são humanos, possuem moral e pensam como as demais pessoas. Para ele, as pessoas deveriam viver de forma justa e correta. Porém, não dava para tomar nenhuma atitude porque ele era piloto contratado de uma equipe que tem a obrigação de disputar a corrida. Ponto para Webber, que ao menos tem culhões para confirmar que os contratos da Fórmula 1 são mais importantes que qualquer outra coisa.

HAMILTON: Mas chega de falar de política, geopolítica e geografia. Existe um GP neste fim de semana, afinal. Com ou sem liberdade para pesquisar no Google sobre a história do Massacre da Praça da Paz Celestial, a corrida será realizada normalmente porque é assim que são as coisas. O fim de semana, que ainda nem começou, será de enorme labor para Lewis Carl Davidson Hamilton, autor de duas inúteis poles-positions. Inúteis porque nenhuma delas foi convertida em troféu de vitória e 25 pontos, o que é bem chato para alguém que pilota o melhor carro deste princípio de temporada. Para dificultar um pouquinho mais as coisas, Lewis perderá automaticamente cinco posições no grid de largada desta etapa chinesa. A McLaren andou detectando algum problema grave de câmbio, que pode ser desde uma arruela quebrada até o sumiço da manopla de caranguejo. Vai precisar trocar tudo, em suma, e isso é punido com perda de cinco posições no grid e castigo sem TV no quarto. Coitado do Hamilton, que parece ser incapaz de ter dois dias bons consecutivos.

SUSIE: Ah, o amor é lindo. Era uma vez uma mocinha inglesa bonita, simpática e sorridente. Ela achava que levava jeito para correr de carro e tentou engrenar uma carreira no automobilismo. Fez um pódio aqui e acolá na Fórmula Renault e, sabe-se lá como, conseguiu arranjar um Mercedes Classe C para disputar a mesma DTM de Bernd Schneider, Tom Kristensen e Paul di Resta. Em 61 corridas, marcou pontos em apenas duas. Mesmo assim, conquistou o coração de seu príncipe encantado, o investidor austríaco Toto Wolff, um dos sócios da Williams. Os dois se casaram e a mocinha acabou adotando o sobrenome do marido, Wolff. Nesta semana, por incrível coincidência do destino, a própria Williams anunciou que a princesinha seria contratada para fazer trabalhos de desenvolvimento em simuladores e em testes aerodinâmicos. Foi assim que a limitadinha Susie Wolff, antigamente conhecida como Susie Stoddart, conseguiu achar um lugar na Fórmula 1. O amor é lindo. E também opera milagres.

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