Galvão Bueno: a aposentadoria se aproxima, o MMA o fascina e a Fórmula 1 se distancia

Neste último fim de semana, no qual estive absolutamente longe de qualquer coisa que se conecta à Internet, surgiram alguns rumores sobre o gradual afastamento de Galvão Bueno, voz oficial da Fórmula 1 na Globo há trinta anos, das transmissões a partir do ano que vem.

Acalmem-se, fãs. Contenham os fogos de artifício, detratores. Galvão continuará narrando corridas na próxima temporada, mas não tantas como ele vem fazendo de uns quatro anos para cá. Há várias e boas razões para isso. Em primeiro lugar, o implacável peso da idade. O narrador, que se jacta de ter mais de trinta anos de Fórmula 1 há pelo menos uns cinquenta, ultrapassou a barreira dos sessenta anos de idade no ano passado e já deve estar de saco cheio da rotina de viagens intermináveis, fonoaudiólogos, gravações e esbarrões de ombro com Tiago Leifert e Tadeu Schmidt. Vendo por este prisma, sua milionária e divertida vida realmente se torna um saco.

Por já estar velho e por ser a mais valiosa das pratas da casa global, Galvão Bueno pode se dar ao luxo de fazer o que quiser. Neste domingo, para surpresa de muitos, ele não quis saber de narrar algum jogo da última rodada do Campeonato Brasileiro. Foi para Florianópolis e narrou, de bermudão, óculos escuros e chinelão, o Desafio Internacional das Estrelas, uma brincadeira de alguns dos pilotos mais gabaritados daqui e lá de fora.

Parece piada. A última rodada do Campeonato Brasileiro de 2011 entrou para história com a disputa entre Corinthians, que dependia apenas de si mesmo e jogava contra o Palmeiras, e o Vasco da Gama, que dependia da derrota dos paulistas e enfrentava o Flamengo no Engenhão. Prato cheio para os futebolistas, como é o pai de Cacá e Popó. Mas ele não quis saber e largou o labor sujo para os narradores secundários globais, que vêm ganhando crescente importância e presença nos últimos anos. Em São Paulo, Cléber Machado foi o narrador do título do melhor time do país.

É difícil dizer com propriedade, mas me parece claro que Galvão Bueno só não narrou algum destes jogos simplesmente porque não quis. Notório flamenguista, não interessava a ele cobrir um jogo que não só não valia nada para seu time como também poderia consagrar o Vasco como campeão. E o Corinthians é coisa de paulista, oras. Como se vê, são novos tempos. É curioso pensar, por exemplo, que ele chegou a narrar um Coritiba x Bangu em 1985. Tudo bem, era final do Campeonato Brasileiro daquele ano, mas alguém imaginaria o cara se dando ao trabalho de trabalhar neste jogo hoje em dia? Se bem que não dá para imaginar sequer a Globo de hoje transmitindo esta partida.

Nos últimos anos, Bueno concentrou-se nas corridas de Fórmula 1, em jogos da Seleção Brasileira e em eventos realmente especiais, como uma final do Mundial Interclubes ou uma competição das Olimpíadas. Recentemente, ele fez sua primeira transmissão de MMA. Ao lado de Vitor Belfort, cobriu a luta entre Junior Cigano e Cain Velásquez no UFC. Se divertiu bastante. Criou novos bordões. Esquerda, esquerda, esquerda, direita, direita, direita. Acabou!

A nova paixão de todos, inclusive do Galvão

É engraçado, mas se você quiser analisar a situação do esporte do Brasil, basta olhar para Galvão Bueno e suas transmissões. A razão é óbvia. A Rede Globo nunca irá escalar outro narrador para cobrir seus eventos mais importantes, aqueles que viram conversa de cobrador de ônibus. Por isso, se um determinado esporte passa a ter o vocal do “bem, amigos”, não é necessário ser extraordinariamente genial para concluir que ele caiu no gosto da emissora. Foi o que aconteceu com o MMA, que deverá se estabelecer de vez como o segundo esporte global – e do país, portanto.

Resumindo: além de velho, Galvão também está cansado da sua rotina de narrar futebol e Fórmula 1, que não parecem estar em um grande momento. O MMA passa a ser uma coisa interessante para ele porque não tem momentos entediantes (não há 0x0 ou corrida em Abu Dhabi dentro de um ringue), é ágil, enérgico, curto e os eventos que interessam aos brasileiros não cumprem um calendário de regularidade suíça e tabelamento por pontos como os dois esportes tradicionais. Ou seja, dá para acompanhar apenas ocasionalmente, o que é bem cômodo para um cara da meia-idade.

Enquanto isso, a Fórmula 1 perde espaço. Neste ano, os índices de audiência foram miseravelmente baixos. O GP do Brasil, que costuma ter pontuação polpuda no IBOPE, não passou dos 14 pontos. O restante da temporada foi ainda pior: 10,7 pontos de média. A título de comparação, em 2008, a média no ano foi de 17 pontos. O GP do Brasil daquele ano, o da derrota do Felipe Massa nos últimos metros, registrou 32,7 pontos.

Achou pouco? Nos dias de Ayrton Senna, a categoria chegava a alcançar picos de 40 pontos no IBOPE. Hoje em dia, se a metade disso for mantida, já será um resultado excepcional. A tendência, no entanto, é que as coisas fiquem ainda piores. Não por acaso, a Globo não pôde sequer aumentar os preços das cotas de publicidade para a categoria. Para o ano que vem, as seis empresas que quiserem anunciar durante as corridas pagarão os mesmos 62 milhões de reais deste ano.

São números que devem, sim, preocupar o fã do automobilismo. Antes que você me apareça com alguma manifestação imbecil de egoísmo do tipo “se parar de passar na Globo, OK, que vá logo para a TV por assinatura e está tudo bem”, saiba que qualquer forma de se despopularizar o esporte no país só apressará ainda mais sua morte. O raciocínio é simples e intuitivo. Sem audiência, não há patrocinador. Não há transmissão na TV aberta. Menos gente continuará vendo as corridas. Menos crianças se interessarão pelo automobilismo. Menos pilotos serão revelados. A chance de surgir algum grande nome no futuro tenderá a zero. A Fórmula 1 continuará sem um piloto brasileiro nas cabeças. A audiência diminuirá. Forma-se um moto contínuo que resultará no fim da Fórmula 1 para nós.

Naquela época, o IBOPE chegava a registrar 40 pontos nas corridas. Bons tempos...

Hora de viajar um pouco. Como eu não costumo encontrar uma única razão, contexto ou consequência para as coisas, falo um pouco sobre tudo o que ronda a situação. Se você parar para ver as notícias sobre a audiência das emissoras, perceberá que a Rede Globo vem apresentando queda em basicamente todos os programas. O futebol já não anima como antigamente, as novelas vêm batendo recordes negativos de audiência em todos os horários, o jornalismo está ficando para trás e, portanto, as pessoas estão vendo menos Globo. Do mesmo jeito que também estão vendo menos SBT, Record, Bandeirantes, Gazeta e TV Shoptime. Ainda bem.

Até uns dez anos atrás, muita gente só tinha a TV aberta para passar o tempo. Hoje em dia, você tem a internet e a TV por assinatura para abocanhar grande parte da atenção. Então, nada mais natural que toda a programação, incluindo aí a tal da Fórmula 1, perca espaço para o Facebook, o Bandeira Verde e os programas que ensinam como fazer bonequinhos de biscuit no Bem Simples.

Mas não dá para ficar sentado achando que a queda da audiência da Fórmula 1 só pode ser creditada à decadência da TV aberta. O fato é que os mortais não têm mais para quem torcer. Não importa se as corridas são as mais legais do universo, os pilotos são melhores que Ayrton Senna e as pistas são todas iguais a Spa-Francorchamps ou Enna-Pergusa. Se não há um representante brasileiro para torcer, não há audiência, simples assim. Nenhum esporte escapa disso, nem mesmo o futebol. Gostaria muito de ver o que aconteceria se uma Copa do Mundo não tivesse o Brasil participando.

Até Emerson Fittipaldi, pouca gente ligava para as corridas de carro. A Quatro Rodas e a Auto Esporte reportavam detalhadamente as corridas que aconteciam aqui e lá fora, mas a cobertura não passava disso. Com a ascensão do Rato, a Fórmula 1 virou a nova febre do país e chegamos a um ponto em que duas emissoras concorrentes transmitiam a mesma corrida ao vivo! O sonho da Copersucar só aumentou ainda mais este ôba-ôba, mas as coisas rapidamente mudaram de figura quando o governo brasileiro proibiu as corridas em decorrência dos problemas na oferta de combustíveis, a equipe dos irmãos Fittipaldi não correspondeu nas pistas e Emerson virou apenas um participante do meio do pelotão. Em 1979, a Globo largou a mão da Fórmula 1 e a Bandeirantes decidiu transmiti-la sem grandes ambições. Foi aí que Galvão Bueno, então funcionário da emissora paulista, surgiu ao mundo.

Mas o fim de Emerson na Fórmula 1 coincidiu com o início de Nelson Piquet. Não muito depois, surgiu um nome ainda mais forte, carismático e arrebatador de corações, Ayrton Senna. Ao mesmo tempo, o futebol estava em baixa e amargava uma crônica desorganização no panorama nacional e uma sequência de resultados decepcionantes nas copas. O automobilismo ganhou a força que MMA nenhum sonhará em ter.

Senna morreu em 1994 e o Brasil ficou um bom tempo sem um representante lá nas primeiras posições, mas podíamos ao menos contar com uma imensa, bem-nutrida e talentosa geração de jovens pilotos que cresceu vendo os dois tricampeões brilharem e decidiu mergulhar no automobilismo sonhando em repetir seus passos. Tudo bem, Rubens Barrichello pagava seus pecados no meio do grid e não dava para esperar muito de Rosset, Diniz e Marques, que nunca pilotaram um carro de ponta. Pelo menos, havia sempre um Zonta, um Bernoldi, um Haberfeld ou um Pizzonia para respirarmos fundo e sentenciarmos que o Tema da Vitória será tocado novamente.

Hoje em dia, este é o maior chamariz da Globo. Que coisa...

A década atual foi marcada pela presença constante de um piloto brasileiro na equipe Ferrari, a mais desejada e icônica de todas. Rubinho ficou por lá entre 2000 e 2005. No seu lugar, entrou Felipe Massa, que permanece lá até hoje. Oba, finalmente um piloto brasileiro em uma equipe de ponta, pensamos todos. É verdade. Oba, finalmente um piloto brasileiro que poderá disputar o título, pensamos todos. Não, não foi verdade. Felipe quase ganhou o título de 2008 e Rubens teve um ano dos mais tenros sonhos em 2009, mas nenhum deles chegou lá. Para o público brasileiro, que não costuma tolerar outros resultados além da vitória, os vice-campeonatos não foram lá muito aceitos.

Para piorar, episódios como o da Áustria em 2002 e o da Alemanha em 2010 desanimaram uma multidão de gentes que acreditavam que o brasileiro nunca abaixaria a cabeça aos europeus ao menos na Fórmula 1. Porque Ayrton Senna nunca faria isso, Nelson Piquet mandaria geral tomar naquele lugar e ninguém teria qualquer razão para pedir que Emerson Fittipaldi cedesse alguma posição a Ronnie Peterson, Jochen Mass ou Dave Walker. Rubens Barrichello e Felipe Massa são dois vendidos, traidores da pátria, bundões, picaretas e enumere aqui os xingamentos que você quiser.

Neste ano, a participação brasileira foi a mais discreta desde 1998. Felipe Massa não conseguiu um podiozinho sequer. Pior: não conseguiu sequer um quarto lugar. Pior ainda: teve dificuldades até para obter seus poucos quintos lugares. Rubens Barrichello marcou apenas quatro pontos e teve talvez o ano mais difícil de sua vida. Bruno Senna fez alguma coisa ali e acolá, mas o pacote final não foi suficiente. Diante disso, quem é que vai querer acordar para acompanhar a Fórmula 1, “que ficou chata depois do Senna”? Diante disso, quem é que vai querer narrar um troço desses?

Galvão Bueno, sempre otimista e tal, percebeu que a canoa furou. Ele sabe que não vai voltar a berrar efusivamente enquanto um piloto brasileiro domina a Fórmula 1 tão cedo. Hoje em dia, Galvão só cobre a categoria porque gosta de viajar, tem muitos amigos no paddock e residência em Mônaco. Pacheco como só ele, não há nenhuma outra motivação para isso. Rubens Barrichello e Felipe Massa estão na espiral decadente. E apostar em qualquer um outro, neste momento, é arriscado. Até mesmo o ultrapromissor Felipe Nasr é mais incógnita do que qualquer coisa.

Os inimigos de Galvão Bueno ficarão felizes se não houver mais Fórmula 1 no Brasil com ele narrando. Pois eles poderão ficar mais contentes ainda. Com este primeiro sinal, pode ser que nem haja mais Fórmula 1 no Brasil.

Anúncios