Nesses dias, a FIA divulgou uma lista com trinta pilotos que disputarão as dezoito vagas da sua Academia de Pilotos no ano que vem. Confesso não saber muito bem a serventia desta academia, que foi criada no ano passado e que se orgulha de ter como grande nome o americano Alexander Rossi, que militou na World Series by Renault neste ano. Mas se a FIA a criou, é porque deve ter algum motivo bom aí, embora nunca dê para garantir a idoneidade das suas atitudes.

O que importa é que a geopolítica destes trinta pilotos é bastante interessante. Antes que você pergunte, não há nenhum brasileiro entre eles, assim como não há nenhum na trupe dos escolhidos deste ano. O Brasil está na moda na economia, na política e talvez na exportação de prostitutas para o Mediterrâneo, mas simplesmente desapareceu no automobilismo. Os bons tempos da água que, segundo Jackie Stewart, criou três campeões mundiais acabou. Os novos tempos são da Itaipava, e piloto nenhum se desenvolve tomando esta coisa.

Se não tem brasileiro, então tem o quê? Tem norueguês? Sim! Tem emiratense? Tem, sim senhor! Tem indiano? Mas é claro! Tem eslovaco? Certamente! Tem costarriquenho? Elementar, caro Watson! Tem alemão, italiano, inglês e francês? Óbvio! Ao contrário da lista de escolhidos deste ano, a de candidatos do ano que vem até possui gente da América do Sul, como o colombiano Gabby Chaves e o venezuelano Samin Gomez. No total, são 26 nacionalidades. Não tem brasileiro, mas não tem tchecoslovaco também. Só que a Tchecoslováquia não existe mais. E tem eslovaco.

Estamos sem pilotos e escreverei um texto para apresentar os motivos na semana que vem. Por ora, vamos fazer um pouco de troça com a situação. Comento sobre cinco países que têm algum futuro no automobilismo, talvez até mais que o Brasil. Três deles estão na lista da FIA e os outros dois são mencionados por terem me impressionado. Interessante é pensar que, há vinte anos, enquanto o Brasil era uma fábrica de campeões do mundo, estes países abaixo fabricavam, no máximo, terroristas ou problemas.

5- ISRAEL (Alon Day)

Dos cinco países da lista, Israel é o mais normal e mais desenvolvido com certa folga. E é também o único que já contou com um representante na Fórmula 1. Mais ou menos, pra dizer a verdade. Chanoch Nissany, executivo que se aproveitou de seu sangue judeu para ganhar muito dinheiro, fez um treino livre do Grande Prêmio da Hungria de 2005 com a Minardi. Antes de rodar, andou por alguns quilômetros e não foi rápido em nenhum deles. Para sorte dos israelenses, Nissany poderá ser esquecido logo. O país da estrela de Davi tem gente andando bem lá embaixo.

Alon Day é o mais relevante de seus representantes. Prestes a completar 20 anos, Day está disputando sua segunda temporada na Fórmula 3 alemã neste ano. O desempenho é bom, mas não é espetacular: ele fez dois pódios, duas voltas mais rápidas e obteve uma pole-position em Sachsenring. Na Fórmula 3 austríaca, ao menos, ele venceu as duas etapas que disputou. Quer dizer, seu desempenho não é nada genial, mas também não é pior do que muita gente por aí.

O grande feito de Alon Day foi ter vencido o campeonato asiático de Fórmula Renault em 2009. Foram quatro vitórias e quatro poles batendo um monte de chineses, taiwaneses e gentílicos de Hong Kong que eu honestamente desconheço. Enfim, não é nada de espetacular, mas não me assustaria se Day desse certo no automobilismo por algumas razões: ele é judeu e, portanto, muito rico, ele é o principal piloto de seu país e ainda é muito jovem. O governo de Israel deposita tantas esperanças nele que até o dispensou do serviço militar, obrigatório para todo mundo no país. A única coisa que não soa legal é esse nome aí, que não impõe respeito. Bons os tempos de David Ben-Gurion…

4- LITUÂNIA (Jonas Gelzinis)

Para se ter uma ideia da situação da coisa, a Lituânia é o último país desta lista a ser mais ou menos normal para as corridas. O país, que tem uma mania bizarra de enfiar a letra S em todos os nomes e sobrenomes, foi o primeiro das nações da CEI a se desligar da União Soviética no início dos anos 90. Hoje, após algumas reformas modernizantes, ele até está em uma boa situação econômica. E no automobilismo?

Um dos meus grandes orgulhos de bosta é saber escrever o nome de Kazim Vasiliauskas sem pesquisar no Google. Devo dizer que foi uma grande conquista na minha vida, fruto de um grande esforço e de horas de aprendizado. Vasiliauskas se tornou alguém minimamente relevante no automobilismo internacional quando disputou duas temporadas da Fórmula 2, as de 2009 e 2010, tendo vencido uma corrida em cada. Kazim foi o maior nome das corridas da Lituânia até então. O mais legal é que ele não é o único, ao que parece.

Um dos pilotos que concorrem a uma vaga na Academia de Pilotos da FIA é Jonas Gelzinis, de 23 anos. Este cara parece ser até mais fodão do que o Vasiliauskas, e certamente tem um nome mais fácil de se escrever também. No kartismo, Gelzinis ganhou tudo o que podia em seu país báltico. Em 2006, ele começou a disputar corridas de verdade. No ano passado, ele se sagrou vice-campeão da categoria A1 da Porsche Supercup inglesa – bastante para um lituano, convenhamos.

Neste ano, as coisas melhoraram drasticamente. Gelzinis ganhou doze corridas da categoria Pro-AM1 da Porsche Supercup inglesa e se sagrou campeão. No campeonato principal da Porsche Supercup, ele terminou em sexto na tabela geral e contabiliza uma pole-position. Está bom. Na Fórmula 1, tem gente que nunca foi campeão nem mesmo de campeonato de cuspe.

3- LÍBANO (Joe Ghanem)

O Líbano é o país dos antepassados da minha namorada e eu gosto dele só por isso. É um bicho meio perdido lá no Oriente Médio: cristão, com forte influência francesa e razoavelmente pacífico. O que estraga o país é a presença daqueles terroristas do Hezbollah, mas não dá para pedir muito, até porque meu país tem o PCC e o KLB e não há muita moral para falar do pessoal de fora. Falemos de corridas, pois.

Não dá para dizer que o Líbano seja um país neófito no automobilismo. Até equipe de A1GP os libaneses já tiveram, com os gloriosos Khalil Beschir e Basil Shaaban como pilotos nativos. Houve, é claro, momentos em que o país se viu sem pilotos e a solução foi importar gente de sobrenome estranho, como o brasiliano Allam Khodair e o ianque Graham Rahal. Mas os dias de penúria podem chegar ao fim. É o que se espera, ao menos, com a possibilidade de Joe Ghanem ser escolhido para adentrar a Academia da FIA.

Ghanem, de 21 anos, disputa atualmente a Fórmula Gulf 1000. Como é? Fórmula Gulf 1000 é uma categoria de monopostos recém-criada que realiza corridas em Abu Dhabi e Dubai a um custo camarada, menos de 100 mil dólares anuais. O vencedor do campeonato ganha uma vaga zero quilômetro na Fórmula Renault britânica. Nesse momento, nosso querido libanês contabiliza uma vitórias nas duas etapas realizadas. Já é um começo, não?

Mas não se preocupe, pois ele já disputou algumas competições mais relevantes antes, como a classe National da Fórmula 3 britânica e a Fórmula Renault europeia. Nunca ganhou nada, é claro, mas já conseguiu um trunfo em uma corrida de GT nos Emirados Árabes Unidos. Ou seja, ele só ganha na sua região. Quem sabe ele não se torna um Ingo Hoffmann árabe?

Claro que não.

2- CHIPRE (Tio Ellinas)

Este é um caso absurdo, quase inaceitável para os meus padrões. O Chipre é uma ilha localizada no Mar Mediterrâneo cujas população e cultura possuem fortes influências gregas, turcas e inglesas. A capital é Nicósia, a população é de 803 mil e o presidente é o egrégio Dimitris Christofias. Deve ser um lugar ótimo para se passar as férias ou o resto da vida. Mas piloto nenhum deveria surgir num lugar desses. Só que a natureza erra de vez em quando (os pernilongos e a jaca são exemplos óbvios disso) e Efthios Ellinas decidiu se tornar piloto.

Efthios? Vamos chamá-lo de Tio Ellinas. Nome engraçado, mas a carreira é promissora. “Tio Elias” ganhou um monte de coisas nos altamente irrelevantes campeonatos cipriotas de kart. Cansado de ser um caolho em terra de cego, Ellinas se mudou para a Inglaterra em 2010 para tentar disputar a Fórmula Ford local. No início do ano, ele disputou um Shootout contra nada menos que sessenta pilotos. Ganhou. Como prêmio, foi chamado para correr na JTR Racing.

Ellinas é tão bom piloto que, por poucos milésimos, não se tornou o primeiro piloto a marcar a pole-position em sua primeira corrida de Fórmula Ford desde Ayrton Senna! Com o passar do tempo, ele ganhou três corridas, subiu no pódio em outras cinco ocasiões e terminou o ano em quarto. Neste ano, Tio disputou a Fórmula Renault britânica, ganhou duas corridas e terminou o ano em terceiro. Além disso, ele disputou uma rodada dupla da Fórmula Renault norte-europeia em Oschersleben. Ganhou uma das duas corridas. Sem brincadeiras, é um nome bom a ser observado no futuro.

Eu só descobri que Tio Ellinas existia conferindo a lista de participantes dos testes de pré-temporada da GP3 em Barcelona, dos quais o cipriota tomaria parte pela equipe MW Arden. No primeiro dia, ele deixou 22 pilotos para trás e fez o quarto tempo, sendo superado apenas por pilotos mais experientes (Mitch Evans, Matias Laine e Carlos Huertas). No segundo, ficou em oitavo. Prestem atenção neste.

1- SÍRIA (Yazan Hamadeh)

Se o Chipre é um caso absurdo, o que dizer de um país que vive atolado em guerrinhas e pequenos pepinos religiosos? Honestamente, não sabia que existam até mesmo carros inteiros, pilotos vivos e ruas sem crateras na Síria. Pois tanto é que existem que um de seus filhos poderá integrar a Academia de Pilotos da FIA. Se você espera ouvir o hino sírio nos pódios da Fórmula 1 algum dia, é sua obrigação cívica depositar suas esperanças em Yazan Hamadeh.

Yazan tem apenas 18 anos de idade, é fã de James Hunt e mora atualmente em Londres. Ele desenvolveu sua carreira no kartismo em países tão distintos quanto Áustria, Itália, Malásia, Chipre (olha ele aí outra vez!) e Emirados Árabes Unidos. Foi uma boa passagem e ele ganhou alguns títulos no Oriente Médio. Não olhe torto. Infelizmente para os ocidentais, a turma da turba vai dar o que falar nas corridas em um futuro não tão distante. Aceitemos: o dinheiro do petróleo está lá.

Perto de alguns desta lista, Hamadeh ainda é um garotinho ranhento. Ele disputou campeonatos de kart até este ano, mas também iniciou sua primeira temporada nos monopostos. E foi um bom começo. Ele disputou seis corridas da Fórmula BMW saudita, marcou duas poles e ganhou duas corridas. Nada mal. A partir de novembro, Hamedeh disputará a Fórmula Gulf 1000, aquela mesma do Joe Ghanem.

Hamedeh ainda não é nenhum Ayrton Senna de Alá, mas ainda pode se desenvolver bastante. Só sugiro um pouco de distância do seu país. Campeões não combinam com terroristas.

PS: Pouco antes de postar, descobri que um dos patrocinadores de Hamedeh é a grife Bulgari, aquela que se escreve como Bvlgari. Sírio não tem braço, não tem casa, mas anda perfumado. Eita.

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