Os quatro de 2010 serão dois em 2011. Acredite, não é pouco

Com a entrada do indiano Narain Karthikeyan na Hispania, a Fórmula 1 terá, até esse momento, 15 nacionalidades presentes no grid de 2011. Uma delas, a alemã, terá cinco representantes. As outras terão apenas um ou dois. É sobre isso que falo hoje. O assunto rende.

Hoje em dia, é comum ver gente reclamando sobre a possibilidade de não haver pilotos brasileiros na Fórmula 1 do futuro. Eu mesmo faço isso, e muito. Para uma nação que ganhou oito títulos, 101 vitórias e o respeito dos europeus, é minimamente estranho contar com essa possibilidade. O Brasil possui ao menos um piloto inscrito em todas as corridas desde o GP da Inglaterra de 1970, quando Emerson Fittipaldi fez sua estreia na Fórmula 1 a bordo de um Lotus 49C. Em duas etapas da temporada de 2001, Canadá e Alemanha, o país teve cinco representantes na categoria. Nove anos depois, o panorama é bem menos auspicioso.

Em 2010, os pachecos tupiniquins ainda puderam torcer por quatro caraminguás: Rubens Barrichello, Felipe Massa, Bruno Senna e Lucas di Grassi. Os dois primeiros já são homens estabelecidos e conceituados dentro da Fórmula 1 e os dois derradeiros eram considerados as maiores promessas do país no automobilismo internacional. Nesse ano, muito provavelmente não teremos nem Senna e nem Di Grassi no grid. Muitos torcem o nariz por haver apenas dois brasileiros no grid.

Na verdade, as coisas não estão tão ruins assim. Pensando bem, há muita falácia com relação ao tal “futuro sombrio do Brasil na Fórmula 1”. É só olhar para os outros países tradicionais.

Dos 22 pilotos já confirmados para o ano que vem, além dos dois brasileiros, teremos cinco alemães (Vettel, Rosberg, Schumacher, Sutil e Glock), dois britânicos (Hamilton e Button), dois espanhóis (Alonso e Alguersuari) e uma série de representantes solitários de suas pátrias: um australiano (Webber), um polonês (Kubica), um russo (Petrov), um venezuelano (Maldonado), um japa (Kobayashi), um mexicano (Perez), um italiano (Trulli), um finlandês (Kovalainen), um indiano (Karthikeyan) e um belga (D’Ambrosio). O Brasil é, portanto, um dos quatro únicos países a contarem com mais de um representante na Fórmula 1 2011.

Sebastian Vettel. Nesse momento, os alemães mandam

Há países historicamente importantíssimos que têm muito mais motivos para reclamações. A Itália, com 97 pilotos e uma Scuderia Ferrari no currículo, terá apenas o eternamente desmotivado, azarado e niilista Jarno Trulli no grid deste ano. Em 1989, o país da macarronada iniciou o ano com 10 pilotos. E ao contrário do Brasil, os italianos possuem categorias fortíssimas para a formação de novos pilotos, como a Fórmula 3 e a Fórmula Abarth. Será que nossa situação é pior do que a dela? Se não houvesse uma Ferrari capaz de mover multidões em Monza, os italianos não teriam motivo nenhum pra acompanhar a Fórmula 1.

E a França, então? A única coisa que a francesada ainda tinha era a Renault, mas a equipe passará a ser controlada majoritariamente pelos malaios da Lotus Cars. Não há pilotos, corrida ou engenheiros de expressão do país na Fórmula 1 dos dias atuais. Em 1979, época em que les pilotes bleues estavam na moda, havia sete no grid da primeira corrida. Após o fim do saudoso programa Elf de pilotos, no início dos anos 90, a coisa ficou tão feia que os franceses só tiveram cinco pilotos nos últimos dez anos: Alesi, Panis, Montagny, Bourdais e o suíço naturalizado francês Grosjean. A esperança do país se encontra em alguns bons nomes que correm nas categorias de base, como Jules Bianchi e Charles Pic. Mas por enquanto, ainda é apenas uma esperança.

A Finlândia é um país em situação ainda mais delicada, já que nunca teve automobilismo interno relevante e os pais preferem ver os filhos nos ralis ou em esportes promissores como arremesso de celular e campeonato de sauna. Todos os pilotos que saíram de lá desenvolveram suas carreiras em outros países, em especial a Inglaterra. Eu realmente não sei explicar o sucesso de seus pilotos, que já ganharam quatro títulos. Deve ser a água, abundante no “país dos mil lagos”, como é conhecido. E exatamente por não ter um programa interno de desenvolvimento de pilotos e por ter seu sucesso explicado apenas pelo acaso, é impossível falar em um futuro da Finlândia na Fórmula 1. Entre 1993 e 2009, o país teve ao menos um representante em uma equipe de ponta. No ano passado, só restou Kovalainen na estreante Lotus, situação que se repetirá nesse ano. E não há expectativas a respeito de um novo Mika Hakkinen. Valtteri Bottas era considerado o jovem mais promissor, mas fez uma temporada insuficiente na Fórmula 3 européia em 2010 e terá de correr na GP3 em 2011 para recuperar o fôlego de sua então meteórica carreira. Se decepcionar, deixará seu país sem qualquer perspectiva a médio prazo. Há ainda outros nomes como Aaro Vainio, mas nada que empolgue muito.

Esses eram os franceses no início dos anos 80. Hoje em dia...

Até alguns anos atrás, os países que mais se sobressaíam eram a Alemanha e a Espanha. Ambos eram meio que os “países oprimidos marginalizados pelo primeiro mundo da Fórmula 1” até o início dos anos 90, mas tiveram a imensa sorte de contar com pilotos que trouxessem títulos e toda a atenção do resto do mundo. Até Michael Schumacher, os alemães eram só aqueles que viviam de Wolfgang von Trips e Jochen Mass e que eram obrigados a acreditar em Christian Danner. Após o trunfo do queixudo, todas as crianças do país, enfim, encontraram um ídolo no esporte a motor. E passaram a querer segui-lo.

O resultado desse boom foi o surgimento de gente como Heidfeld, Glock, Vettel, Sutil, Hülkenberg, Ammermüller, Vietoris e muitos outros. E a Alemanha, de uns tempos para cá, passou a encher o grid da mesma maneira que Inglaterra, Itália ou França já fizeram em outros tempos. Só que a fonte andou dando uma secada nos últimos dois ou três anos e aquela leva de jovens branquelos que queriam refazer a trajetória de Schumacher diminuiu consideravelmente. Se eu tiver de fazer uma aposta, creio que a Alemanha perderá esse status de incubadora de pilotos de Fórmula 1 nos próximos anos. Não que isso signifique um novo período de Christian Danner e Michael Bartels, mas a abundância de talentos não parece ter alicerces para uma continuidade.

A Espanha também andou assistindo ao crescimento exponencial do interesse de seus jovens pelo automobilismo após a Alonsomania. Até pouco tempo atrás, o país era o que mais tinha representantes em categorias como a GP2. O problema é que, ao contrário da Alemanha, a Espanha só criou quantidade. Os pilotos, apesar de numerosos, eram fracos e não tinham credenciais o suficiente para subir para a Fórmula 1. Nesse momento, os espanhóis são representados por Alonso e por Jaime Alguersuari. O momento ainda é bom, mas se o país não contar com gente melhor nas categorias de base, a tendência é passar uns bons anos apenas relembrando dos bons tempos de Fernando Alonso.

O indonésio Rio Haryanto testando um Virgin. É a Fórmula 1 das nacionalidades sortidas

Todos esses países perderam ou tendem a perder espaço para pilotos de países menos relevantes para o automobilismo, como a Rússia e a Índia. É um caso interessante, o de pilotos desses países. No geral, são jovens apoiados por grandes empresas de seu país que são obrigados a desenvolver suas carreiras no exterior, já que não há automobilismo de base em suas terras natais. Com muita grana, conseguem arranjar bons carros, vencem corridas e acabam atraídos para a Fórmula 1. São os casos de Sergio Perez (mexicano apoiado pela Telmex), Pastor Maldonado (venezuelado apoiado pela PDVSA) e Vitaly Petrov (russo apoiado por um bocado de gente). O próprio Jerôme D’Ambrosio só conseguiu chegar à Fórmula 1 graças ao apoio da Gravity, empresa de gerenciamento esportivo.

Tá, mas e daí? E daí que o automobilismo começa a entrar em um momento no qual as carreiras são feitas por variáveis muito mais individuais do que exatamente geopolíticas e econômicas. A tendência é que não haja mais um país que domine ou outro que decaia bruscamente. Todos se tornarão Itálias, países com um ou dois pilotos que não seguem nenhum fluxo lógico de ascensão ou queda nacional. Os pilotos não surgirão de uma “escola inglesa” ou “do automobilismo francês”, mas do apoio de uma grande empresa por trás. É o tempo dos Sebastian Vettel e dos Daniel Ricciardo da vida.

E os 15 países representados deverão até aumentar de número nos próximos anos. Haverá menos pilotos de poucos países e mais gente de países estranhos. Em 2010, tendo três pilotos, a Venezuela era, ao lado da tradicional Inglaterra, o país com mais representantes competindo em toda a temporada da GP2. Em alguns anos, talvez uns cinco ou dez, é possível que tenhamos franceses, italianos, brasileiros, portugueses, americanos, nigerianos, chineses, vietnamitas e costarriquenhos na mesma esparsa proporção.

Está com saudades da A1? É uma questão de tempo para todas as categorias se tornarem um arranca-rabo entre representantes solitários dos diversos países.

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