Inglaterra. País fodão. Motivos? Beatles. Blur. Libertines. Verve. Charlatans. Radiohead. Muse. Pulp. Stone Roses. PJ Harvey. Fish’n chips. Mr. Bean. Underground. Jaguar XJ8. Lotus. Monty Python. Maggy Thatcher. Chá. Ironia. Harrod’s. John Locke. Thomas Hobbes. Adam Smith. Beano. Brands Hatch. Puta lugar bom, essa tal de Inglaterra. O Calendário do Verde fará uma parada na principal nação do Reino Unido para apresentar um dos tais motivos da lista. Não, não vou falar sobre Mr. Bean! Com vocês, Brands Hatch.

Os ingleses são craques em desenvolver pistas estranhas. Com exceção de Silverstone, uma pista bacana e só, e Donington, detestável, eu gosto de todas as grandes pistas inglesas. Se pudesse, teria todas nesse calendário. Infelizmente, só pude colocar duas. Para mim, Brands Hatch é a melhor pista da ilha bretã. Explico de maneira bem estranha. Eu olho para a condução de um piloto naquela pista e tenho uma enorme sensação de ansiedade. Durante uma volta bastante curta, o piloto faz movimentos bruscos no volante que levam o carro a dançar em trechos muito velozes. O conjunto está sempre no limite em Brands Hatch. A impressão é que o piloto está a um passo de errar e bater. E bater em Brands Hatch significa fazer um enorme estrago. Não consigo perceber algo parecido em circuito nenhum do mundo. Talvez em Suzuka, mas o circuito japonês ainda me parece um nível abaixo disso.
 
Localizado a poucos quilômetros da cidadezinha de Swanley, Brands Hatch é um templo local da velocidade. Recebe corridas de monopostos, carros de turismo, motos e picapes há mais de meio século. No entanto, por algum tempo, o circuito não se restringiu às corridas motorizadas. Nos anos 20, um grupo de ciclistas liderados por Ron Argent buscava um local para realizar competições dentro do distrito de Kent. Por meio de negociações com o fazendeiro Harry Write, Argent arranjou um terreno previamente utilizado em treinamentos militares para a realização de atividades ciclísticas a partir de 1926. Dois anos depois, foi inaugurado um circuito de 6,4 km que receberia maratonas e corridas de bicicletas. Não demorou muito e ele passou a ser utilizado para corridas de motos. E sua vidinha pouco badalada seguiu assim até a Segunda Guerra Mundial, quando os coleguinhas do Eixo bombardearam o autódromo. Como ocorreu com outras pistas naquele período, Brands Hatch fechou as portas.

Com o fim da guerra, o autódromo foi reconstruído e reaberto em 1947. Aos poucos, a pista era ampliada e modernizada de modo a receber competições automobilísticas. A princípio, a Fórmula 3 e os carros-esporte realizaram algumas corridas por lá nos anos 50. Em 1956, após melhorar alguns aspectos de segurança, implantar um pitlane, construir algumas arquibancadas e criar a curva Druids, os organizadores puderam colocar seu circuito no calendário da Fórmula 2. No entanto, Brands Hatch só teria seu consagrado traçado após a reforma de 1959: a pista passou a ter 4,2 km e a ser composta por curvas velocíssimas.

Desde então, Brands Hatch sempre foi tida como uma das principais pistas européias. Recebeu a Fórmula 1 entre 1964 e 1986, além de corridas importantíssimas de categorias de ponta, como o Mundial de Protótipos e a Fórmula 3000. Foi o palco da primeira vitória de Ayrton Senna no automobilismo, quando ele corria na Fórmula Ford 1600 em 1981. Já assistiu a corridas espetaculares, como a brilhante atuação de Johnny Herbert no Festival de Fórmula Ford em 1985. Consagrou pilotos como Nigel Mansell e Jim Clark. Deixou marcas em outros, como Jacques Laffite e o próprio Herbert. Galgou um enorme número de fãs e entusiastas. 

Brands Hatch é uma das poucas pistas do mundo que ainda mantêm um traçado muito próximo ao de meio século atrás. Apesar de já não estar tão presente nos calendários das principais categorias mundiais, ainda recebe categorias como a Superleague, a Superbike e a Fórmula 3 local. Por mais que os críticos martelem que a pista está defasada e é muito perigosa, ninguém se atreve a mexer em seu traçado. Afinal, Brands ainda conserva aquela imprevisibilidade vintage que nós gostamos de ver.

TRAÇADO E ETC.

Se o leitor comparar a versão de 1960 com a atual, verá que Brands Hatch não sofreu grandes alterações em seu traçado. Escolhi a versão de 1976, válida até 1987, por ter versões mais velozes das curvas Westfield e Dingle Dell. De qualquer jeito, não será nada que irá mudar o mundo.

Brands Hatch tem 4,207 quilômetros de extensão e apenas nove curvas. Se eu tivesse de separar as pistas entre aquelas que são boas para ver corridas e as que são boas para pilotar, não pensaria duas vezes em colocar este no último grupo. A pista é bastante estreita e não tem muitos pontos de ultrapassagem. Uma corrida contemporânea de Fórmula 1 dificilmente daria certo por lá, especialmente se os pilotos se portarem de maneira conservadora. Mas aí está a graça maior: não há como ser conservador.

A pista é estreita o suficiente para fazer o piloto seguir um traçado ideal, mesmo em curvas como a lendária Paddock. Buscar um traçado diferente pode fazer o piloto perder muito tempo, ou até mesmo o controle do carro. As retomadas e as freadas neste circuito são muito bruscas, e um piloto mais arrojado terá de fazer constantes correções na condução de seu bólido. Há curvas lentas nas quais os pilotos devem girar brutalmente o volante, curvas rápidas onde os reflexos são importantíssimos, curvas longas que demandam bastante aderência e algumas poucas retas. As áreas de escape são escassas e os muros estão sempre próximos. Não há muito descanso por aqui. Além do carro ser obrigado a priorizar a aderência em curvas de alta, o piloto deverá ter uma boma preparação física e psicológica.

Conheça alguns trechos:

BRABHAM STRAIGHT: Reta é modo de falar. Por aqui, temos aquilo que Galvão Bueno chamaria de “reta curva”. É o local aonde os carros largam. Não chamo de reta porque o piloto deve manter o volante levemente esterçado para a direita. Trecho de subida e descida no qual o carro se comporta como se estivesse em uma montanha russa.

PADDOCK HILL: Belíssimo trecho, um dos melhores no mundo. O piloto entra nesta curva acelerado, mas acaba tendo de tirar o pé do acelerador e esterçar à direita com mais contundência. A curva se faz em descida e é cega por alguns instantes. A partir do descidão, o piloto poderá reacelerar para entrar na reta seguinte. Para corridas de moto, considero um dos trechos mais perigosos de todos os autódromos do mundo.

DRUIDS: Curva de média velocidade feita à direita em 180º. O piloto deverá esterçar consideravelmente o volante e reacelerar a partir da metade do trecho. Um carro com baixa aderência traseira sofrerá para completá-la.

GRAHAM HILL E COOPER STRAIGHT: É outra pseudoreta deste circuito. O piloto sairá da Druids acelerando e completará este trecho com o pé cravado no acelerador, esterçando levemente à esquerda. Por aqui, é bom ter um carro que não saia muito de frente.

PILGRIM’S DROP: Uma enorme descida em linha reta que passa por debaixo de uma ponte. Compõe a maior reta do circuito e é um trecho propício para carros com pouco downforce. Foi aqui que houve aquele célebre acidente de Fórmula 3000 que quase acabou com as carreiras de Johnny Herbert, Gregor Foitek e Olivier Grouillard em 1988. 

WESTFIELD: Curva ligeiramente cega feita em leve aclive à direita. Velocidade relativamente alta.

DINGLE DELL: Curva de média velocidade que, a princípio, não aparenta ter muitas dificuldades. A graça, no entanto, está no trecho imediatamente anterior. O piloto passará por uma descida e uma subida consecutivas. A subida é cega e o piloto não terá visão acerca da trajetória da curva. Um desavisado pode perder o ponto da freada.

CLARK: O bicampeão escocês foi homenageado com uma belíssima curva. O piloto sairá da reta Clearways para desacelerar levemente e esterçar seu carro à direita. Da mesma maneira que a Brabham Straight, é uma curva de raio longo com subidas e descidas. Some a Clark, a Brabham e a Paddock e temos uma gigantesca curva à direita com inúmeras subidas e descidas.

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