Iago fez dezoito anos hoje. Seu nome é um desses que os pais modernos tanto gostam. Modernos. Nosso aniversariante é um típico representante desta nova geração que já nasceu ligada a um computador conectado ao resto do planeta. Iago é garoto saudável, cheio de amigos na vida real e principalmente na vida virtual, dono de um tablet, morador de um confortável e hermético condomínio fechado, acostumado a baixar músicas dos seus rappers favoritos, fã de House e Angry Birds. Cresceu em uma época sossegada, sem muros germânicos, moedas instáveis e telefonia estatal.

Iago fez dezoitão hoje. Segundo o Estatuto da Criança e do Adolescente, acabou de se tornar um adulto. Que gracinha. A partir de hoje, é um homem de direitos e deveres. Pode abrir empresas, sair do país sem pedir permissão para papai e mamãe e dirigir. Em contrapartida, deve votar e cumprir a lei, pois agora é um sujeito imputável. Não é absurdo dizer que sua vida de verdade começou agora.

Estranho é pensar em quando tudo isso começou. Iago nasceu no dia 1 de maio de 1994. Naquele dia, sua mãe estava presa a uma cama de maternidade com a televisão ligada. Na Rede Globo, é claro. É muito raro encontrar uma televisão em local público que não esteja na Globo. Às nove da manhã, a emissora carioca estava transmitindo ao vivo o Grande Prêmio de San Marino, terceira etapa da temporada de Fórmula 1 de 1994. Ayrton Senna tinha largado na pole-position.

A mãe de Iago era uma dessas muitas mulheres brasileiras que nunca se interessaram em Fórmula 1 e nem sabem para que serve uma embreagem, mas que gostavam de ver Ayrton Senna em ação. Senna não era apenas um exímio piloto de carros, mas uma febre, um fenômeno, um acontecimento sociológico. Em uma época na qual o Brasil era apenas um enorme produtor de bananas, sambistas e problemas, Ayrton era talvez o único que pudesse associar o país a alguma coisa boa. Isso, convenhamos, não é pouca coisa.

Iago nasceu em um dia particularmente difícil. Senna, o líder, bateu sozinho na temida curva Tamburello, a mais veloz do circuito de Imola. Um braço de suspensão atravessou sua testa como um tiro de rifle. O tricampeão brasileiro morreu na hora, dentro de seu Williams destroçado. Somente um idiota acreditaria que um sujeito cuja cabeça derramava pedaços cerebrais diluídos em sangue teria chegado vivo ao Ospedale Maggiore di Bologna.

Iago nasceu ali, em meio a prantos e desespero. Sim, Senna era um sujeito que despertava as emoções mais fortes de cada um, sejam elas boas, ruins ou sufocantes. Até mesmo a mãe, que tinha acabado de colocar ao mundo sua melhor obra, deixava escorrer uma ou outra lágrima enquanto acompanhava os desdobramentos do fim de seu ídolo. Cirurgiões, enfermeiros e transeuntes da maternidade estavam desolados, perdidos, funcionando apenas no piloto automático, pensando no que seria do Brasil sem Ayrton. E havia também o pai de Iago.

O pai de Iago era um desses que cresceram e se criaram lá no fim dos sessenta. Aprendeu com seu pai, ou com o tio barrigudo, que havia um cara com costeletas exageradas que representava muito bem o Brasil, onde todos deveriam amá-lo ou deixá-lo, nas corridas de carro ao redor do mundo. Não demorou muito e o pai de Iago virou fã de Emerson Fittipaldi. Acompanhava em uma modesta TV de madeira da Telefunken os triunfos daquele que pôs a pátria de chuteiras em um espaço então reservado aos europeus. Depois de Emerson, veio Piquet. Não muito depois, Ayrton Senna virou sua religião. Nos domingos de manhã, o altar era montado naquela TV Sharp sem controle remoto, mas com o som e as cores da vitória. O púlpito era ambulante. Suzuka, Mônaco, Estoril e por aí vai.

Iago nasceu ao mesmo tempo em que Ayrton partiu. Era demais para um homem que tinha no primeiro seu sonho e no segundo sua inspiração. Ao mesmo tempo em que se maravilhava com a chegada do filho, o pai não conseguia esconder a dor e o desespero da perda de seu herói. Emotivo, como são todos os latinos, pensou em homenagear o tricampeão brasileiro dando ao filho o nome de Ayrton. Quantos Ayrtons não surgiram naqueles dias subsequentes? Mas o nosso garoto virou Iago, mesmo.

Dezoito anos se passaram de lá para cá. Hoje, Iago é apenas mais um jovem de classe média que tem a mesma cabeça vazia e a mesma falta de ideais de qualquer outro. O pai de Iago chorou e lamuriou, mas superou o ocorrido e voltou à vida normal. Amadureceu um pouco. Descobriu que o Brasil não era um país melhor ou pior por ter um piloto mais habilidoso que os demais. Descobriu que nunca haveria um outro Ayrton Senna, até porque todos somos estranhos ímpares. Descobriu que não dava para depositar o mesmo nível de exigência nos outros pilotos brasileiros que viriam por aí. Descobriu até mesmo que não precisava mais da Fórmula 1.

A mãe de Iago continuou sem saber para que servia uma embreagem. Comoveu-se dramaticamente com a morte de Ayrton Senna da mesma forma que verteu lágrimas pelo passamento de políticos, artistas e anônimos exaustivamente explorados na televisão. Depois dos choques, ela sempre retornava à sua vida comum de mãe, esposa e mulher. A Fórmula 1, para ela, significava apenas um esporte perigoso que só serviu para levar embora o maior ídolo que o Brasil já teve.

Uma coisa que acho bastante interessante destas novas gerações é a persistente sensação de desinteresse. Os jovens não leem, não discutem, não refletem, não reverenciam o passado, não analisam o presente e não preparam o futuro. Não costumam se apegar a coisas, a assuntos, a ideias, a simbolismos. Torcem para um time de futebol, mas sequer sabem recitar os jogadores de seu time ou os títulos obtidos no passado. Não sabem em quem votar, nem o porquê. Não conhecem uma vírgula da história de seu país. Para eles, e Iago certamente se enquadra nestas características, Ayrton Senna é apenas mais um fóssil. No mesmo patamar temporal de Tiradentes ou Visconde de Mauá, por exemplo.

Não tenho intenção de falar sobre o piloto ou a pessoa Ayrton Senna aqui. Textos sobre sua vida, sua morte, poles, vitórias, mulheres que levou para a cama, picuinhas e filosofias existem às pencas por aí. Estou longe de ser seu maior admirador. Sua personalidade por demais conservadora e workaholic definitivamente bate de frente com aquilo que admiro. Que ninguém venha me encher o saco por isso. O ponto do artigo é outro.

Desde 1995, o primeiro dia de maio é reservado às homenagens a Ayrton Senna. Nos primeiros anos, a comoção era muito mais intensa. As pessoas seguiam aos montes ao Cemitério do Morumbi para chorar, rezar e deixar flores. Os programas de televisão comentavam sobre tudo aquilo que todos já sabiam, as grandes vitórias, os títulos, os inimigos, as preocupações sociais. Faz um ano, né? Parece que foi ontem. Que saudade dele!

Como era de se esperar, as homenagens arrefeceram com o passar do tempo. Após alguns anos, as efemérides exploradas pela mídia haviam perdido o sentido. Por que relembrar uma morte ocorrida há sete anos, por exemplo? O fenômeno Ayrton Senna havia ficado definitivamente para trás. Cada vez menos gente associava o Dia do Trabalho a uma data trágica.

Hoje, passados quase vinte anos, chega a me causar estranhamento o fato de existir uma enorme geração que nunca o tenha visto correr. Não deveria me sentir assim, pois é óbvio que todos os que vieram e virão após Senna só terão contato com ele por meio da história. Mas não deixa de ser um pouco incômodo para aqueles que o viram, e isso me inclui. Sim, apesar de ter apenas 23 anos, eu pude ver Ayrton correr. Por incrível que pareça, tenho boas memórias de seus últimos anos. Portanto, faço parte dos privilegiados.

Mais interessante ainda é visualizar as diferenças de importância que cada um dá a Ayrton Senna. A turma que possui mais de 25 anos de idade não consegue digerir uma crítica ao tricampeão sem um certo destempero. Ressaltar um lado negativo dele é quase como xingar a mãe, inaceitável e digno de uma réplica mal-educada. Por outro lado, os que ainda não completaram duas décadas de vida ignoram a magnitude do nome Ayrton Senna no Brasil. Não sabem o que um piloto de corridas pôde causar em uma população que já se aproximava dos 150 milhões de habitantes. De um lado, o fanatismo. Do outro, a indiferença.

Esse negócio de Ayrton Senna poderia dar um belo estudo psicológico, antropológico ou sociológico. Poucos foram os indivíduos que conseguiram mobilizar um país inteiro para acompanhar um esporte elitista e completamente distante da realidade. Poucos foram capazes de fazer um povo se orgulhar de seu país numa época de presidentes desastrosos, planos econômicos desvairados, democracia nascente e futebol medíocre. Gostemos ou não, devemos admitir: o fenômeno existiu e foi avassalador.

Ayrton Senna sempre dividiu as pessoas entre os adoradores, a maioria, e os detratores. Em mesas de boteco, com incontáveis garrafas de cerveja pilsen e gordurosas coxinhas de frango, amigos trocavam farpas e bravatas por causa do piloto. Os fãs de Nelson Piquet se recusavam a torcer por um coxinha, todo certinho e metido a bom moço. Do lado a favor, uma multidão de pessoas que começou a acompanhar o esporte a partir de meados dos anos 80. A Fórmula 1 acabou se transformando apenas em pano de fundo para as glórias e desventuras de Ayrton Senna.

Hoje, tudo isso já não existe mais. Os Iagos da vida não ligam para a Fórmula 1, quanto mais para um ídolo já considerado velho. A moda agora é o UFC, que vai se consolidando como o segundo esporte do brasileiro. O adulto que se cria hoje pode dizer, sei lá se isso é motivo de algum orgulho ou desprezo, que nunca viu Ayrton Senna correr. E que não tem história alguma para contar sobre ele, seja ela positiva ou negativa. Sim, é isso mesmo: o tempo voou o suficiente para existir maiores de idade que não sabem o que é Ayrton Senna, poupança Bamerindus, Bebeto ninando um bebê após um gol ou uma vida sem redes sociais e sites de busca. Eu fico facilmente estarrecido com bobagens. Como não me assustar com isso?

Ídolo ou vilão, exemplo de vida ou personagem hipócrita, orgulho do país ou masturbação com o pau alheio, Ayrton Senna era um personagem da nossa época. Mas não da época dos mais jovens. O tempo passa, o tempo voa e o piloto brasileiro se torna apenas mais um distante personagem da história. O feriado do 01/05 deixa de ser um dia de lembrança e volta a ser tão somente um feriado.

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