Entrevista


(A segunda parte da entrevista começa com a história de sua primeira vitória na temporada de 1988 da Fórmula 3000, no circuito de Pau. Antes disso, Roberto Moreno passou por uns sufocos com seu engenheiro, Gary Anderson)

VERDE: Aí, Pau foi a primeira corrida que você ganhou. Essa você ganhou de ponta a ponta, né?

ROBERTO: É, essa aí tem uma história superlegal. A gente foi testar em Pembrey e o Gary (Anderson, engenheiro da Bromley) falou “quando a gente for pra Pau, essa suspensão bloqueada deste carro não vai funcionar”. Esse carro, para funcionar a aerodinâmica, tinha uma suspensão dianteira que usava oito voltas de precarga na mola. Era uma coisa absurda. A mola só dava uma mexida quando freava.

Aí nós convencemos o Ron (Salt, chefe da Bromley) de que era importante testar. E a gente conseguiu um circuito baratinho lá em Pembrey que, na época, pouca gente usava. Hoje em dia, muita gente usa. A Ralt foi a primeira a descobrir o circuito lá. Um dos meus mecânicos da época da Ralt vivia lá e ele conhecia esse circuito. Aí nós fomos lá ver o circuito e a Ralt foi a primeira a testar por lá porque era um circuito barato, embora um pouco longe, quatro horas de viagem, mas ainda era na Inglaterra.

Fomos lá e nós conseguimos testar. Eu me lembro que passei o dia testando e só saí do circuito depois que a gente virou o mesmo tempo com a suspensão mexendo e com a suspensão bloqueada, que era o estilo normal daquele carro. Embora estivesse começando o campeonato, a gente estava sempre procurando alguma coisa técnica para melhorar, né? E isso foi uma ideia do Gary, nós fomos lá, passamos o dia testando, conseguimos fazer a suspensão funcionar e viramos o mesmo tempo no final no dia. Fizemos um teste de comparação de novo para tirar a prova dos nove. Confirmou. Aí nós fomos para Pau.

Chegamos em Pau, cara. Eu saí dos boxes. Eu me lembro que a gente teve pouco treino, não sei o porquê. Não sei se foi o ano que teve um tufão lá e a gente perdeu o primeiro dia de treinos.

VERDE: Isso foi em 1987.

ROBERTO: É, né? A gente andou pouco. Eu sei que, quando a gente chegou na classificação, eu saí com o carro. Eu não me lembro que sessão que foi, tá? Acredito que tenha sido na classificação. Se foi na classificação, a gente não fez muito treino. Não tenho certeza se foi na classificação ou no primeiro treino.

Eu sei que a gente andou pra caramba lá. Eu saí com o carro, dei uma volta, duas voltas, cheguei lá no Parque e o carro estava saindo muito de frente. Aí eu entrei nos boxes e o Gary perguntou “O que que houve, cara? Não vai esquentar os pneus, não?”. Eu falei “Gary, quando a gente chega lá no Parque, eu viro o volante e o carro sai muito de frente, cara. O carro não vai esquentar os pneus assim”.

Aí ele não gostou muito por eu ter parado nos boxes sem ter esquentado os pneus e falou “não, vai lá, primeiro você esquenta os pneus e depois vem me dizer o que o carro está fazendo. A gente passou um dia inteiro arrumando esse carro e não é com duas voltas que você vai me dizer que o carro não funciona, né?”. “Não, cara, o carro não funciona”. “Ah, cara, duvido. Volta lá e vai ver”.

Aí eu saí, dei uma volta e parei de novo. Quando eu ia fechar a segunda volta, resolvi parar. Aí o Gary já ficou puto, né? Ele falou “Roberto, como é que é isso? Vai lá e dá uma volta”. “Não, Gary, muda o carro aí, põe o carro original que a gente vai virar bem aqui”. Ele falou “você tá louco, cara. Nós não perdemos esse tempo todo à toa”. Conversa vai, conversa vem e a gente ficou nessa briga. Eu dei mais uma saída, voltei e falei “Gary, esquece, cara. Ou você põe esse carro como é o original ou eu não vou guiar”. Ele ficou bravo pra caramba, quase brigou, não sei o quê, aí ele falou “vou fazer metade”.

Aí ele fez metade e eu saí. Antes de completar a segunda volta, parei. Ele falou “e agora, cara?!”. Eu falei “ó, precisa de mais. Melhorou um pouquinho, mas precisa de mais”. Aí ele ficou puto pra caramba, queria brigar comigo e o tempo foi passando. Aí eu convenci ele a colocar mais sobrecarga nas molas e fazer o carro ficar na altura certa que nem a gente fazia antes. Eu falei “não se preocupa, o carro não vai tocar no chão, eu freio de um lado ou do outro da pista, não vou frear no meio da pista”, já que o centro é mais alto que as laterais.

Eu lembro que eu saí e parei nos boxes. Ele falou “porra, e agora?!”. Eu falei “agora ficou bom”. Ele falou “e aí, você não vai virar tempo, não?”. “Opa, me dá um jogo de pneu melhor aí, que esse acabou na brincadeira que a gente tá fazendo”. Aí ele me deu um jogo de pneu melhor, eu saí e virei o melhor tempo. Uma volta antes da bandeirada. Então, isso aí, cara, foi um momento que eu me lembro até hoje. O Gary, dali pra frente, começou a acreditar em mim em tudo o que eu falava. E eu me lembro disso como se fosse a classificação, cara. Naquilo ali, a gente fez a pole-position.

VERDE: E pole-position em Pau é um passo e meio para a vitória, né?

ROBERTO: Não, mas eu não tava no grid e virei a pole, entendeu? Foi uma puta de uma volta que nem ele acreditou que eu fosse capaz. Eu não sei o que aconteceu nos treinos porque, se isso aconteceu na classificação, eu rodei muito pouco nos treinos, alguma coisa aconteceu nos treinos.

VERDE: Na corrida…

ROBERTO: Larguei bem, abri e terminei em primeiro. Chegou uma hora que um retardatário bateu na minha frente e bloqueou a pista.

VERDE: Você lembra quem era?

ROBERTO: Não lembro, era um retardatário, cara. Bem na hora que eu ia passar ele. Eu tive que parar o carro para não bater nele.

(acabei descobrindo que o retardatário em questão era o austríaco Fritz Glatz, um falecido gentleman driver que era conhecido por pilotar utilizando nomes falsos em várias línguas e sempre relacionados à sua falta de cabelo, como Pierre Chauvet, Umberto Calvo e Frederico Careca)

VERDE: Tem uma curva lá que tem 180°. É aquela lá? Sempre dá porcaria lá.

ROBERTO: Eu tô lembrando aqui, não sei se foi nesse ano que o Raphanel largou na minha frente e eu botei pressão nele até ele bater.

VERDE: Foi em 1987 isso aí.

ROBERTO: 1987, né? Então, em 1988 eu larguei na frente, eu lembro que fiz a primeira curva bem pela direita. Até o James Hunt tava lá, fazendo comentário da corrida para a transmissão inglesa.

VERDE: O irmão dele tava lá, né? Ele corria na categoria.

ROBERTO: Não sei, cara. Eu sei que o James tava lá, trabalhando lá. E ele veio me dar a maior força, pô, tinha me visto guiar, ficou muito impressionado com a precisão com que eu fazia a mesma curva em todas as voltas.

VERDE: Elogio do James Hunt, caramba…

ROBERTO: É, muito legal, depois da corrida.

VERDE: Aí você ganhou uma grana, né? Pela vitória em Pau…

ROBERTO: É, aí eu acho que a gente ganhou cinco mil dólares. E esses cinco mil dólares levaram a gente… Eu pensei que era a última corrida, né? O dono da equipe falou “ó, Roberto, com esse dinheiro aqui, dá pra gente correr em Silverstone, que é pertinho lá de casa, cara”.

VERDE: Vocês correram as três corridas sem nenhum apoio?

ROBERTO: Só com dinheiro do Ron Salt. Inclusive, eu tenho uma foto que eu adoro aqui na minha casa, do carro de Pau praticamente só com o número e com os patrocinadorezinhos pequenininhos que eram dos organizadores. Avon, aqueles pequenininhos.

VERDE: Geralmente, é patrocínio técnico, né?

ROBERTO: Exatamente.

VERDE: Aí depois você foi pra Silverstone, choveu e você ganhou…

ROBERTO: Choveu na tomada de tempo, né?

VERDE: Isso, choveu na tomada de tempo. Na corrida, o Gachot largou na pole, mas você passou e ganhou. Como é que foi?

ROBERTO: Foi assim, ó: o Gachot fez a classificação no seco. A gente se classificou no molhado. A sessão mais rápida faz a pole-position e fica com todo o grid da direita em Silverstone. A outra turma da chuva fazia todo o grid da esquerda, por isso que a gente largou em segundo. Eu era o mais rápido na chuva, mas larguei em segundo. E secou. E no warm-up, a gente não tinha andado no seco ainda.

O Gary começou a tirar asa no carro. Aí eu dei uma voltinha rápida e falei “Gary, na curva lá de baixo, não ficou bom, não. Põe mais asa”. Ele falou “como isso, Roberto? Aqui tem muita reta!”. Eu falei “não, pode botar mais asa, que se eu fizer aquela curva lá de pé no fundo, eu vou ser mais rápido na reta”. Ele falou “é, Roberto, mas você vai largar em segundo, o cara vai te atrapalhar na curva, você não vai conseguir fazê-la de pé no fundo e vai ficar lento na reta”. Eu falei “não se preocupa, não, Gary. Não vai demorar muito pra eu passar esse cara”. Aí ele aceitou, colocou mais asa e o carro ficou rápido pra caramba.

Aí nós largamos e eu acho que depois de uma ou duas voltas, passei o Gachot, fui abrindo e fui embora. E cada volta que eu virei era mais rápida que a outra. Minha volta mais rápida foi a última da corrida, a da bandeirada.

VERDE: Você ganhou abrindo um temporal pros outros, né?

ROBERTO: Eu não sei quanto eu abri, mas o que impressionou muito o Gary foi a constância das voltas e o ritmo de corrida que eu fiz até o final.

VERDE: Pelo que eu vi, você fez a volta mais rápida da história da Fórmula 3000, um recorde que ficou durante um bom tempo.

ROBERTO: Aí eu já não sei, cara. Eu sei que minha última foi a minha mais rápida.

VERDE: Você fez uma volta em 218km/h. Eu tenho um anuário que diz que sua volta em Silverstone foi a mais rápida da história. Aí veio mais dinheiro, né?

ROBERTO: É, aí o prêmio era pouco, cinco mil dólares, algo equivalente a isso, eu lembro disso. E o Ron falou “ó, Roberto, pô, você ganhou outra corrida, a gente tá bem no campeonato… Vale a pena a gente ir até Monza pra ver no que dá”.

Aí a gente foi pra Monza e eu fiz a pole. Chegando em Monza, eu tinha um amigo que era o Guido Forti, que tinha uma equipe de Fórmula 3000 que corria com carro Dallara, que andava em último. Eu fui no Guido e falei “Guido, quanto é que você recebe destes caras de patrocínio?”. Ele falou, sei lá, dez mil dólares, quinze mil dólares por corrida, era só uma ajuda. Eu falei “me dá dois mil dólares desse dinheiro aí e eu ponho teu patrocínio no meu carro”. Aí ele aceitou. Me deu os dois mil dólares e botou o patrocínio no meu carro. Eu ganhei a corrida, fiquei na primeira página do jornal lá e ele fez a maior publicidade pro patrocinador. (risos)

VERDE: Você mesmo foi lá e negociou com o próprio Guido?

ROBERTO: É, eu pedi pra ele.

VERDE: Coisa de amigo, então?

ROBERTO: É, eu fiz muito isso na Fórmula Atlantic aqui nos EUA. Eu levantava os patrocínios na última hora.

VERDE: Eu fiquei sabendo de uma coisa, isso foi em 1985. Você estava na Barron, que corria com carro da Tyrrell na Fórmula 3000. No Estoril, que era a terceira etapa, você estava no restaurante negociando com um patrocinador pra conseguir dinheiro para comprar rodas. Porque a equipe era tão pobre que não tinha condição pra nada.

ROBERTO: Não é que era pobre. A equipe era de um carro só. O manager da equipe, que foi o meu chefe de equipe na Fórmula 3, queria que eu corresse. Então ele botou o carro reserva para eu correr. E eu não sei se eu cheguei no Estoril com eles, na verdade.

VERDE: Acho que você fez umas cinco corridas com eles. Você percorreu um pouco menos da metade do campeonato. Aí depois você foi pra Galles.

ROBERTO: Silverstone, Thruxton…

VERDE: Estoril, Pau… Acho que você chegou até Vallelunga.

ROBERTO: Eu não corri em Pau com a Tyrrell, não.

VERDE: Será que foi até Enna?

ROBERTO: Não, não. Eu fiz só Silverstone e Thruxton. A gente tentou em Nürburgring, mas deu neve. Eu não fiz mais nenhuma corrida com eles.

fui confirmar e vi que Moreno disputou as etapas de Silverstone, Thruxton, Estoril e Vallelunga da Fórmula 3000 em 1985 com um Tyrrell azul e preto)

VERDE: Serviu pra alguma coisa correr com eles? Correr com um Tyrrell velho contra os outros carros?

ROBERTO: Me colocou no meio, mostrou que eu queria correr. Eu fazia qualquer coisa pra poder correr, né?

VERDE: Serviu, né? Você fez seus contatos e depois foi pros EUA. Mas voltemos para 1988. Em Monza, vitória de ponta a ponta, né?

ROBERTO: É, teve duas corridas, né?

VERDE: É. Teve um acidente na volta 13 com o (Fabien) Giroix, que ele quebrou a perna e se ferrou todo.

ROBERTO: Nossa preocupação na corrida era não deixar o acidente mexer com a gente. O cara bateu na Lesmo e caiu do outro lado, lá na árvore.

VERDE: Mas vocês achavam que o cara tinha, sei lá, morrido?

ROBERTO: Não, mas a gente sabia que ele tinha se machucado bastante.

VERDE: Mas o que aconteceu com ele?

ROBERTO: Ah, ele machucou as pernas. O Giroix ficou um tempão com as pernas ruins. E o outro também se machucou, não me lembro do nome dele.

VERDE: Massimo Monti. Foi ele que bateu em você em Jerez, acho.

ROBERTO: Que eu rodei no finalzinho, né?

VERDE: Mas em Monza, o que consta é que o Apicella andou perto de você, mas foi tranquilo. Não chegou a ser como Pau, mas também foi tranquilo.

ROBERTO: Eu tinha aberto tanto na primeira corrida que, na segunda, só precisava manter uma certa distância. Mesmo que eles chegassem na minha frente, eu ainda tinha um espaço para ganhar a corrida. Na primeira corrida, eu terminei bem à frente.

VERDE: Foi em Monza que você recebeu um convite para ser test-driver na Ferrari, não foi?

(Esta parte aqui você só vai ler na próxima parte, macacos)

Após uma longa série de nove artigos sobre o belíssimo título obtido pelo brasileiro Roberto Pupo Moreno na Fórmula 3000 Internacional em 1988, publico aqui a íntegra da entrevista que eu fiz com ele na noite do dia 20 de janeiro. Algumas observações:

  • A entrevista foi feita por telefone. Moreno ligou aqui em casa da Flórida. Não gastou um tostão com a ligação telefônica. Eu gravei a entrevista e passei um bom tempo transcrevendo tudo o que foi dito. Vou te dizer uma coisa: puta trabalho do cão.
  • Foram duas horas e meia de entrevista. Se não me engano, o telefone só foi desligado lá perto das duas da manhã.
  • Tentei manter o texto da entrevista no ponto mais próximo possível do original. Pasteurizar demais torna os diálogos chatos e artificiais.
  • Não vou disponibilizar o áudio porque gaguejei absurdamente e tenho voz de Bruno Senna bêbado.
  • Ao contrário do que me recomendaram, não fiz uma lista com as perguntas prontinhas. Deixei o negócio rolar naturalmente para ver no que dava. Por isso, temos aqui menos um esquema de perguntas e respostas e mais uma conversa de boteco. Não me condenem, porque não sou formado em jornalismo e, acredite, fazer uma entrevista com um ídolo teu é algo que te emociona e te deixa meio desorientado.
  • O assunto principal aqui é a Fórmula 3000. Você que veio babando atrás de histórias sobre a Coloni, a Eurobrun e a Andrea Moda se decepcionará porque nós praticamente não falamos disso. Mas não fique triste. Eu deixei estas pautas de fora de propósito, pois você poderá conferir tudo o que gostaria de saber na biografia que está sendo escrita pelo Márcio Madeira da Cunha. Seria sacanagem minha se eu antecipasse o conteúdo do livro aqui.
  • Tenham paciência. Quem não tem muito contato com a história da Fórmula 3000 vai boiar em várias partes. Mas ele contou muita coisa interessante, inclusive da Fórmula 1, da Indy e da Fórmula 2.
  • Aprendi uma coisa interessante. A esmagadora maioria dos pilotos sempre reclama de sua carreira, apontando uma oportunidade perdida ali, uma decisão equivocada acolá ou um azar na outra esquina. Este, definitivamente, não é o caso de Roberto Moreno, que se considera um tremendo sortudo por ter feito o que gostava, ser piloto de corridas, sem ter um puto no bolso. Ele rechaça veementemente esta pecha de piloto azarado. Quer saber de uma coisa? Sua filosofia é legal pra caramba. Uma felicidade sem deslumbre.
  • Mais uma vez, valeu, Roberto!

O começo é assim, abrupto. Eu estou em negrito.

ROBERTO MORENO: Eu mandei o seu artigo pro Márcio (Madeira da Cunha, seu biógrafo) e ele falou “Beto, conversa com ele porque ele tá te vendo como um cara sem sorte, e é o contrário. Eu tive muita sorte de, sem dinheiro nenhum, sem condições de competir, fazer tudo o que eu fiz na carreira. E é isso que as pessoas não entendem. Na verdade, eu tive é muita sorte de sair de onde eu saí e conseguir fazer tanta coisa sem dinheiro.

As pessoas não veem esse lado. Eu sentei com o Márcio e ele também tinha a mesma visão. Eu falei “não, Márcio, você tá enganado”. Você imagina só: eu saí do Brasil sem condições de competir em nenhum lugar. Eu saí do Brasil para fazer uma profissão. Então, eu consegui, do nada, fazer muita coisa. E sem dinheiro nenhum. Minha realidade, mesmo, era ir para a Europa, fazer meio ano e voltar. Eu consegui, sem nada, fazer uma carreira de 32 anos. E continuo tirando proveito disso.

Então, é isso que as pessoas não veem na minha carreira. Se você me comparar com um Ayrton Senna, que saiu para competir, levando verba para competir, aí sim. Mas se você me ver como um filho de um funcionário público que saiu pra Europa pra fazer uma carreira, eu fui muito mais que bem-sucedido. E é isso que as pessoas não veem, não têm a visão.

(A partir daí, a gente fala sobre a Fórmula 3000 em 1988. Sim, nós pulávamos de um assunto para o outro)

Outra coisa que eu ia falar é o seguinte. Um ano de Fórmula 3000 custava um milhão de dólares naquela época. E eu consegui, sem dinheiro, com o Ron (Salt, dono da Bromley) me ajudando. Porque o Gary (Anderson, engenheiro da Bromley) falou pra ele que “se o Roberto ganhar a corrida, sua equipe vai ter um nome e você vai poder contratar pilotos que tenham um orçamento para o ano seguinte”, que foi o que aconteceu. O Gary convenceu a ele a investir no sucesso da equipe. E falou pra ele “olha, você só precisa investir em três corridas. Se não der certo em três corridas, aí você para”.

Aí na terceira corrida, que foi em Pau, eu ganhei e nós ganhamos um prêmio que era em franco francês e era equivalente a cinco mil dólares, mais ou menos. E com aquele dinheiro, a próxima corrida era em Silverstone, que era perto da oficina. O Ron Salt resolveu me colocar na corrida de Silverstone. Nós ganhamos e, com isso, ele resolveu dar continuidade até a próxima corrida, que foi em Monza. Eu vencendo em Monza, a Ferrari me chamou como piloto de testes do semiautomático e me ofereceu um patrocínio para continuar no meu ano de Fórmula 3000.

VERDE: Uma curiosidade: o que a Bromley tinha em termos de infraestrutura, de dinheiro?

ROBERTO: A Bromley tinha uma oficininha pequenininha. Eles tinham também um caminhão que era um caminhão de frigorífico. O meu carro tinha de ir na horizontal, inclinado, para caber no caminhão, de tão pequeno que ele era. As rodas e as ferramentas iam mais ou menos debaixo do carro.

E o Gary trabalhava lá porque… O Ron era construtor de casas e o Gary tinha ido para os Estados Unidos porque ele tinha perdido a casa dele para o banco. O Gary tinha feito um Fórmula 3 chamado Anson. Era um Fórmula 3 de, eu não lembro da época, mas acho que era de 1984, 1983, por aí. E na Anson, o Ron Salt cuidava da parte financeira da equipe e o Gary cuidava da parte técnica. E esse carro era muito avançado para a época. E o Ron Tauranac (dono da Ralt) falou “porra, eu vou ter de trabalhar mais porque fizeram um Fórmula 3 muito mais avançado que o meu”.

Aí o Ron Salt era o financeiro do Gary. E o Ron Salt acabou quebrando a fábrica da Anson. Aí o Gary foi para os EUA trabalhar na Galles no mesmo ano que eu fui, 1985. E ele trabalhou em 85 e 86 que nem eu. Em 1987, ele voltou para a Europa e o Ron Salt falou “eu tenho uma equipe aqui, você vem trabalhar comigo e eu te ajudo a montar sua casa de novo”. E o Ron deu pra ele uma garagem de três carros que o Gary, ali, construiu a casa dele. E ele trabalhava nessa oficina.

Em 88, eles estavam sem piloto. E eu procurando lugar para correr naquela época lá. E o Gary falou “Roberto, arruma um carro e um motor que eu convenço o Ron a botar um dinheirinho pra você correr as primeiras três primeiras corridas”. Agora, como é que eu ia arrumar um carro de graça para correr as três primeiras corridas, né? Então, foi um processo. E eu venci tudo isso.

Pierre-Henri Raphanel

(bateu uma curiosidade grande durante a entrevista: a suposta tentativa de suicídio de Pierre-Henri Raphanel, seu companheiro na Coloni em 1989. Perguntei sobre isso)

VERDE: Uma dúvida: o Pierre-Henri Raphanel estava na mesma situação que você na Fórmula 3000 e ele tinha tentado suicídio naquele ano, 1988. Você ouviu falar disso?

ROBERTO: Não ouvi falar disso, não.

VERDE: Ainda tem contato com essa gente?

ROBERTO: Bom, eu conheço o Henri e ele é um dos meus melhores amigos franceses que eu conheci de quando ele correu comigo na Coloni. Mas esse boato não é verdadeiro não, porque eu não ouvi falar.

(volto a falar de Fórmula 3000, mais precisamente sobre o acidente sofrido num teste em maio de 1988)

VERDE: Você chegou a testar em Monza e sofreu um acidente. Lembra disso?

ROBERTO: Foi.

VERDE: O que aconteceu?

ROBERTO: A asa do carro saiu.

VERDE: Lembra em que curva que foi?

ROBERTO: Foi na Lesmo.

VERDE: Você desmaiou, né?

ROBERTO: Acordei na ambulância, pois é.

(falamos agora do primeiro teste com a Bromley, feito logo após Moreno arranjar um carro e um motor para correr com a equipe na Fórmula 3000 em 1988)

ROBERTO: A gente só tinha condições de fazer um teste em Snetterton, porque era o único lugar que dava para dar algumas voltas no carro antes de ir para a primeira corrida.

VERDE: Era mais perto da fábrica?

ROBERTO: Não… Era na Inglaterra, né? Era a uma hora e meia da oficina. Então, a gente foi pra lá. O Adrian Reynard tinha inventado uma asa dianteira igual à da Benetton.

VERDE: O carro da Benetton do mesmo ano?

ROBERTO: Era uma coisa que só a Benetton usava na Fórmula 1. Uma asa dianteira única, que para ela funcionar bem, precisava da barra de trás bem dura. E essa asa funcionou em Snetterton muito bem. Mas quando a gente chegou em Jerez, o carro ficou muito ruim.

VERDE: O que acontecia? Gerava pouco downforce?

ROBERTO: Era muito sensível na curva de alta de Jerez, aquela mesma que o (Martin) Donnelly bateu. Naquela pista, o carro não era muito rápido. Depois da corrida, a gente conversou: “Gary, o que tá acontecendo aqui, cara? Por que que a gente não consegue?”.

Aí a gente chegou à conclusão de que deveríamos usar as mesmas asas dos outros carros da Reynard, que foi a marca que ganhou a corrida com o Johnny Herbert. Aí nós fomos para Vallelunga com a asa igual à do Herbert. E quando a gente chegou em Vallelunga, o negócio já ficou bom de novo.

VERDE: Em Vallelunga, você teve um problema. Um mecânico da Bromley esqueceu de fechar a tampa que mede o combustível no tanque. Aí ficou sem pressão na bomba de gasolina e o motor não estava funcionando. E você perdeu a chance da pole-position. Foi isso?

ROBERTO: É… Quando eu entrei nos boxes, a gente trocou os dois pneus. Eu saía com um jogo de pneus e colocava um segundo jogo de pneus no finalzinho. E eu sempre deixava para os últimos cinco, seis minutos. Eu era geralmente o último a entrar nos boxes para trocar pneus e dava só uma volta, aproveitava o máximo da pista mais limpa possível.

No meu primeiro jogo de pneus, eu estava na pole-position. Quando os outros pilotos colocaram os pneus mais novos, que foi mais ou menos enquanto eu estava começando a entrar nos boxes, na última parada, eu caí para quinto lugar. Eu comecei a cair, né? Aí eu parei nos boxes, pus um pouco de combustível, pneus e saí. O Gary é que usa a tampa que você coloca a varinha de medição.

Porque na época, você tinha a tampa do tanque, que você abria e colocava com o funil. Aquela ele fechou direito. Depois, tinha uma pequenininha que ele abria e enfiava uma varinha de madeira com as medidas do tanque. E na pressa de me mandar embora para eu sair, ele esqueceu de botar a tampinha, pequenininha, que tem uma varinha de menos de um dedo mindinho de largura.

Gary Anderson, engenheiro e braço direito de Moreno na Fórmula 3000 em 1988

VERDE: Aí ele esqueceu de por e o que aconteceu com o motor?

ROBERTO: Aí aquele tanque precisava estar fechado pro vapor da gasolina dar pressão para a gasolina ir para o motor, porque a bomba era externa. Então, até chegar na bomba, precisaria de pressão. E ela era dada automaticamente pela pressão do próprio tanque, do vapor. E sem essa tampinha, não deu essa pressão.

Eu saí dos boxes nos últimos cinco minutos e o motor ficou falhando. Eu não conseguia dar potência total no motor. E aí eu caí de primeiro para quinto lugar.

VERDE: Faltavam poucos minutos, né?

ROBERTO: É. Enquanto os outros usavam os pneus novos, eu não conseguia usar o meu segundo jogo de pneus e eu caí para quinto lugar. E lá é muito difícil ultrapassar. Eu acho que um cara quebrou, se eu não me engano, e eu cheguei em quarto.

VERDE: O que eu tenho é que você ficou envolvido com o (Bertrand) Gachot e com o (Olivier) Grouillard. Aí lá na frente o Michel Trollé estava brigando com o Johnny Herbert e o Gregor Foitek, estes dois bateram e você herdou umas posições, mas ficou em quarto. Foi alguma coisa assim, né?

ROBERTO: É, que eu lembro, foi só um que eu passei. Se os outros dois bateram, eu não me lembro.

VERDE: Foi. O Herbert até ficou com traumatismo craniano e ele não participou em Pau.

ROBERTO: É. O Herbert e o Foitek, né? Gregor Foitek…

VERDE: Ah, este eu vou querer ouvir coisas de você. Você teve problemas com ele em 88, né?

ROBERTO: É, ele dirige sem respeito a ninguém, né? Ele dirigia sem respeito, batia em todo mundo… Então, o que eu lembro lá é que eu larguei em quinto, passei um cara ou o cara quebrou e cheguei em quarto. Não lembro do Herbert batendo com o Foitek, mesmo.

VERDE: Foi uma fechada. O Herbert tomou uma fechada, bateu e a quina do guard-rail pegou bem no cockpit do carro.

ROBERTO: Ah, foi só o Herbert que ficou de fora, não foi isso?

VERDE: Aí o Trollé tava na liderança, só que caiu, teve problemas nos pneus e caiu. Foi fazer uma parada nos pits e caiu. Aí você ficou atrás do Grouillard. É… Vallelunga foi uma corrida que, perto do que você iria fazer, foi mais ou menos morna, né?

ROBERTO: Eu já poderia ter ganho aquela corrida se tivesse largado na frente, só que lá é muito difícil de passar, entendeu? Então, embora estivesse com um carro mais rápido que o do Grouillard, eu fiquei bloqueado atrás dele. E eu acho que eu ganhei uma posição não lembro como. Se bobear, foi quando o Herbert bateu.

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