O post de hoje não tem nada a ver com a efêmera equipe de Peter Monteverdi, que adquiriu a Onyx no primeiro semestre de 1990. Vou comentar sobre o assunto mais importante do automobilismo no fim de semana, minha viagem para Monte Verde.

Para quem não sabe, Monte Verde é um pequeno, distante e razoavelmente gelado distrito da cidade mineira de Camanducaia. Tem uma avenida, muitos restaurantes, lojas de quinquilharias típicas de cidades serranas, dondocas da classe média alta paulistana desfilando seus SUVs empapados de barro, um bocado de árvores, um aeroporto (!) e vários habitantes parecidos com o Alfred E. Neuman, da Revista Mad. Um lugar legal para ir com a namorada. Foi o que eu fiz.

Eu e a Samia, minha grande paixão de quatro anos, adoramos viajar. Uma vez que os fins de semana em Campinas são sempre uma bosta fétida e entediante, qualquer oportunidade para nós cairmos fora daqui, nem que fosse para ir a Bagdá, é uma oportunidade. Certo dia, a Sam, que é como eu vou chamá-la aqui, chegou e me surpreendeu. Amor, a gente vai para Monte Verde nos dias 21 e 22 de abril, sábado e domingo. Reservei pousada e tudo o mais.

Legal, pensei. Nós iríamos para lá no fim de semana exatamente anterior à São Paulo Indy 300, que eu inventei de comprar tíquetes para o setor J há um bocado de tempo. Eu só precisava ver se estava tudo certo com o meu carro, um velho Corsa Sedan 1999 de câmbio duríssimo, para-choque dianteiro pendurado e retrovisor direito torto. Não queria deixar esta merda quebrar no meio da viagem, ora pois. Verifiquei o óleo e a água do radiador. Tudo estava certo. À Monte Verde, pois.

Dias antes, fiquei conferindo o clima de Campinas e Monte Verde. Não sei se já comentei isso aqui, mas odeio dirigir na chuva. Tenho o maior cagaço, no melhor estilo Alain Prost. Para minha aflição, vi que só choveria bastante em dois dias: o sábado e o domingo da viagem. Sol na sexta-feira anterior, sol na segunda-feira posterior. Que ótimo!

Chegou o sábado, 21 de abril, dia de Tiradentes. Abro a janela e vislumbro um céu azul acompanhado de lindo sol, mas exatamente o contrário. Chovia intermitentemente e tudo estava assustadoramente envolto em névoa branca e aterrorizante. Estava torcendo para que a chuva diminuísse, mas isso não aconteceu. Tive de ir desse jeito mesmo, fazer o quê?

Peguei a Sam na casa dela lá pelas 10h30 e entramos na Rodovia Dom Pedro I às 11h. Chovia. Chovia pra cacete. Não estava ventando, não havia muitos raios e a possibilidade de chover granizo era algo próximo de zero. Mesmo assim, caía água abundante e o limpador de para-brisa estava meio velho, coitado. A cada esfregada no para-brisa, um ruído. Nheeec. A porra do limpador estava mais velha do que Michael Schumacher na Jordan.

Os primeiros 130 quilômetros de viagem, entre Campinas e Camanducaia, foram sossegados. Não sofri nenhum acidente após aquaplanar e nenhum tornado F5 levou nosso carro embora, ao contrário do que minha paranoia costuma sugerir nestas ocasiões. As rodovias Dom Pedro I e Fernão Dias são de uma simpatia única, sinuosas e rodeadas de árvores e morros. As cidades pequenas após Bragança Paulista são graciosas.

Chegamos a Camanducaia lá pelo meio-dia. Faltavam apenas 28 quilômetros até o distrito de Monte Verde. Moleza, nós dois pensamos. Para quem fez 130 quilômetros sob chuva, o que seria fazer um quarto disso numa estrada pouco movimentada? Puta ingenuidade, a nossa.

A estrada que vai até Monte Verde é assassina, pior que o Rali da Córsega. Curvas fechadíssimas de 180° em subida, trechos estreitíssimos, barrancos quilométricos, aclives intermináveis, a morte sempre à espreita. Para piorar, chuva e neblina. Para piorar um pouco mais, um Corsa Sedan cujo motor 1.0 não chegava aos 60cv. Inspirado em Jarno Trulli, orgulhosamente criei uma fila indiana de sete carros atrás de mim. Cada motorista que me ultrapassava disparava um olhar assassino para mim. Morra, filho da puta, algo do tipo.

Após quatro meses de viagem nesta estrada, chegamos a Monte Verde lá pelas 13h. Avistamos uma cidade molhada e lambuzada de barro. Os motoristas que ficaram presos atrás de mim se vingaram e começaram a andar bem devagar na avenida principal, causando um enorme congestionamento. Como eu estava andando em rotações altas na serra, o motor MPFI do Corsa estava superaquecendo, o que me deixou meio aflito. Não havia lugar para parar. Os Tucsons e Ecosports haviam dominado o lugar.

Abandonei o Corsa num lugar meio ermo, distante de qualquer vigilância policial. Cansados de ficar tanto tempo dentro do carro, eu e Sam fomos dar uma volta. Ela queria comprar coisas para família, eu só queria me empanturrar de alguma coisa. Fomos atrás de um banco para sacar alguma grana. Descoberta terrível: não há bancos em Monte Verde. Sim, é isso mesmo. Há apenas uma grande agência do Bradesco, onde felizmente a Sam tinha uma conta mais ou menos abandonada. Banco do Brasil? Caixa Econômica Federal? Santander? Itaú? Bamerindus? Credit Suisse? Esqueça. Tivemos de nos virar com cartões.

Fondue em Monte Verde. Muito ruim, mas não

Fomos dar uma volta. Passamos por algumas lojas, não encontrei nada de interessante e nem ela. Somente xícaras, camisetas com dizeres humorísticos, sabonetes e barras de chocolate, tudo vigorosamente faturado. Almoçamos em um restaurante legal, até. Sam foi de truta com alcaparras. Eu escolhi truta com amêndoas. Truta é algo como o alimento principal de Monte Verde, assim como sorvete é o principal alimento de Espoo, cidade de Kimi Räikkönen.

Logo depois, fomos atrás da pousada onde ficaríamos. Ela se situava longe de tudo que era turístico, o que é interessante, pois daria para fugir um pouco daquela vida meio clichê de dondocas oxigenadas carregando meia dúzia de sacolas. A Pousada Aconchego, que é realmente aconchegante, ficava perto de uma farmácia bem simples e uma loja de materiais de construção. Nosso quarto, o nº 5, tinha lareira, chuveiro que utilizava energia solar e um monte de cobertores. Muito bom.

À noite, a gente foi comer fondue, outra especialidade de Monte Verde. Antes, fomos à Choperia do Fritz. Já ouviu falar? Criada pelo mestre-cervejeiro Jörg Schwabe em 1993, a choperia é uma das mais famosas do Brasil nesse ramo de cervejas artesanais. Na fábrica de Monte Verde, havia degustação de vários tipos e ainda uma visita à fabriqueta que ficava ao lado do bar. Sam, que não é de beber muito, não quis ir. Eu fui.

Nesta visita, além de mim, havia uns casais, uma família grande e até mesmo uma menina de uns nove anos de idade, que certamente preferia estar na fábrica da Coca-Cola. Tadinha dela. Tentando mostrar algum interesse no assunto, após ouvir algumas explicações sobre o lúpulo (que fede a queijo parmesão), perguntou à guia algo como “que bebida tem mais lúpulo, cerveja, chope ou vinho?”. Vinho com lúpulo? Eu não estava interessado em explicações sobre a história da cerveja e coisas do tipo, pois isso é coisa de cidadão que quer pagar de sommelier. Só queria beber de graça. Consegui: tomei dois copos cheios de cerveja pilsen especial. Pilsen, mas boa pra caralho.

Depois, fomos comer fondue. A foto acima é deste horário. Não vou me estender sobre isso. O fondue foi caro pra cacete (fiquei com medo real de não ter grana pra pagar) e só tinha gente muito mais endinheirada do que nós dois naquelas mesas. Na verdade, até mesmo os garçons deveriam estar dirigindo coisa melhor que o meu Corsa. Sabe como é, crédito facilitado, IPI reduzido, comerciais e reportagens apresentando a suposta vantagem da compra de um carro chinês…

Mas vou falar uma coisa, como estava bom aquele fondue. Vai se foder, estava bom pra caramba. Faltou apenas vinho, que era caríssimo no restaurante, mas eu tinha uma garrafa guardada para a pousada.

Tudo estava bem até aí. A partir daí, nossa sorte acabou.

Saímos do restaurante lá pelas 23h. Fui ligar o carro. Não ligou. Tentei de novo. Não ligou. O Corsa até ameaçava ligar, mas desistia meio segundo depois. Não parecia ser problema na bateria, porque todas as luzes acendiam normalmente. Meu humor acabou ali. Cara, nada me deixa mais consternado do que carro quebrado. Ainda mais num sábado à noite em uma cidade totalmente desconhecida.

Fui atrás de ajuda. O pai da dona do restaurante ofereceu sua Kombi para emprestar um pouco da carga da sua bateria. Como eu tinha aqueles cabos para transmitir carga de uma bateria para outra, tentamos fazer a conexão. Não deu. Meu carro continuou inerte. Fiquei, sei lá, possesso, com vontade de meter um tiro em alguém, talvez no presidente da GM. Não dava nem para dar partida no tranco, já que ele estava parado em uma subida estreita.

O sujeito da Kombi, um velhinho pra lá de simpático, aceitou dar carona até a pousada. Mais ainda: disse que nos arranjaria um improvável mecânico no domingo logo pela manhã e que nos levaria até a oficina às nove. Consertaríamos o carro e prosseguiríamos normalmente com o passeio.

Acordamos lá pelas oito da manhã. Fomos tomar café e o velhinho já estava esperando lá fora, sentado na Kombi. Entramos na kombosa e fomos até o tal mecânico, um cara que aparentava estar lotado de coisa para fazer. Mesmo assim, ele aceitou ir até meu carro, que ainda estava parado ao lado do restaurante. Sacou um trambolho enorme, desfibrilou a bateria e o carro, como mágica, ligou. Eu e Sam ficamos felizes. Ufa, foi só um contratempo. Fiquei acelerando um pouco para garantir um mínimo de carga na bateria. O mecânico nos tomou trinta reais para fazer quase nada, mas tudo bem.  Manobrei o carro e o deixei parado no lado oposto, na descida. Se desse alguma zebra, daria ao menos para tentar um tranco em segunda marcha.

Fomos andar na cidade. De repente, a Sam viu um quadriciclo circulando em alta velocidade na avenida principal. “Amor, vamos andar de quadriciclo?”. Aceitei, é claro. Nós dois gostamos desse tipo de coisa. Mas a história do quadriciclo e o restante do dia vão ficar para uma segunda parte. Não, não foi uma viagenzinha de namorados qualquer.

O que importa é que este foi o evento mais importante relacionado ao automobilismo neste último fim de semana.

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