Roberto Moreno em Le Mans: foi lá que surgiu o quarto campeão da história da Fórmula 3000

Le Mans Bugatti, antepenúltima etapa da temporada, 25 de setembro de 1988. Eu tinha vinte dias de idade, mas isso não interessa sequer à Polícia Federal. Ou interessa?

Roberto Moreno chegou à cidade francesa de algumas dezenas de milhares de habitantes com 16 pontos de vantagem para o vice-líder Pierluigi Martini. Havia ainda três corridas e 27 pontos em disputa, além de uma interminável série de combinações de resultados que poderiam garantir o título ao careca com antecedência de duas corridas. Na hipótese mais apertada, ele teria de terminar em quinto, Martini não poderia pontuar e a vitória não poderia ser de Martin Donnelly, Gregor Foitek ou Bertrand Gachot. Situação apertada, mas não impossível.

Apesar de ter vencido a corrida anterior, realizada em Birmingham, Roberto não estava totalmente satisfeito com seu novo Reynard 88D, que havia sido dado de presente pela construtora de Adrian Reynard após o acidente de Brands Hatch. Um dos grandes problemas do carro era o fato das saias laterais da asa dianteira serem muito baixas. Elas não só raspavam no chão como ocasionalmente quebravam em alguma zebra safada. Isso aconteceu, por exemplo, em um treino da etapa de Brands Hatch. E todo mundo aqui já sabe que a Bromley não tinha dinheiro para ficar gastando com reposição de peças.

Naquela época, esses troços de túnel de vento e projeção computadorizada eram acessíveis apenas às equipes grandes de Fórmula 1. Uma equipe furreca de Fórmula 3000 nunca conseguiria ter acesso a dados mais aprofundados sobre o comportamento de seu carro. O negócio era apostar no olho clínico do engenheiro e no acaso, assim como fazem apostadores da Mega Sena e formuladores de políticas econômicas. No caso, o engenheiro Gary Anderson era o responsável por dar uma resposta ao problema.

Ele e Moreno decidiram, então, elevar as saias da asa dianteira de modo a evitar que elas batessem no chão e quebrassem. Hoje em dia, uma decisão dessa soaria quase criminosa: projetistas e engenheiros tentam a todo custo deixar um carro e seus componentes na posição mais baixa possível. Vamos conferir mais à frente como essa decisão afetou a performance da Bromley e de Moreno em Le Mans e na etapa seguinte, realizada em Zolder.

Outro problema que criava dores de cabeça a Roberto e seu engenheiro era o maldito segundo carro da Bromley. Depois que Eric Bernard trouxe seu topete e seus francos franceses à equipe de Ron Salt, as coisas desandaram de maneira absurda. Nas duas corridas em que participou com a equipe, Bernard foi desclassificado por irregularidades em seu carro: medidas ilegais na asa traseira em Brands Hatch e peso total menor que o permitido em Birmingham. A equipe técnica era obrigada a cuidar de dois carros e é óbvio que, sem grandes alterações de estrutura, a qualidade de engenharia acabou decaindo.

Mas a vida segue e todo mundo zarpou para Le Mans. Antes disso, surgiu um boato de que Roberto Moreno poderia ter pilotado para a Ferrari no GP da Itália, realizado em meados de setembro. A equipe estava insatisfeitíssima com Michele Alboreto, que havia feito uma volta inteira no GP da Bélgica com o motor estourado. Além disso, durante aqueles dias, Nigel Mansell estava fora de ação e sua vaga na Williams estava momentaneamente aberta. Como Alboreto estava com um pré-contrato assinado com a equipe para 1989, ele poderia ter deixado a Ferrari e assumido a vaga de Mansell já em Monza. Com isso, Moreno entraria em seu lugar. Mas nada disso aconteceu e o brasileiro seguiu com a cabeça na Fórmula 3000.

Olivier Grouillard, o grande bicho-papão da Fórmula 3000 naquele fim de 1988

Mesmo assim, as notícias que chegavam eram excelentes. No dia 21 de setembro, a Coloni anunciou a contratação de Moreno para a temporada 1989 da Fórmula 1. Após dez anos de Europa, Roberto finalmente ocuparia uma vaga de titular na categoria máxima do automobilismo. A Ferrari cumpriu o que prometeu e lhe arranjou uma equipe italiana que utilizasse seus serviços após o desenvolvimento do câmbio semi-automático ferrarista. Na Coloni, Moreno seria o primeiro piloto, ganharia salário e ainda teria o direito de vender os espaços publicitários do macacão e de seu carro. Nada mal, definitivamente.

Além disso, dias antes da corrida, o grande rival Pierluigi Martini anunciou que não disputaria a corrida de Le Mans da Fórmula 3000. Ele, que estava dezesseis pontos atrás de Moreno na tabela, preferiu disputar o GP de Portugal de Fórmula 1 pela Minardi, equipe que o havia colocado para correr a partir da etapa americana. Martini sabia que fatalmente estrearia na Fórmula 1 em 1989 e o título na Fórmula 3000 não lhe faria falta. Era melhor comer bacalhau com Giancarlo Minardi.

De contrato novo com uma equipe de Fórmula 1 e sem seu maior rival inscrito na corrida, Roberto Pupo Moreno entrou na pista em Le Mans quase que certo de seu título na Fórmula 3000. Os demais adversários precisavam vencer as três últimas corridas e ainda rezar para que um alien sequestrasse Roberto. Aliens não existem, todavia.

No treino oficial, Moreno ficou em terceiro no seu grupo, o dos carros pares. À sua frente, seus nêmesis Olivier Grouillard e Martin Donnelly, os grandes nomes daquele final de campeonato. O tempo de Grouillard foi o mais baixo e, com isso, ele saiu na pole-position, a segunda consecutiva do francês da GBDA. O brasileiro teve de sair da quinta posição, irritado com o desempenho abaixo das expectativas. Pelo menos, uma vitória de Grouillard, que estava fora da briga pelo título, praticamente encerraria o campeonato.

O companheiro de Moreno, por outro lado, tinha ótimos motivos para sorrir. Eric Bernard foi o mais rápido dos ímpares e só não ficou com a pole-position por causa do tempo mais veloz de Grouillard. Esta diferença de resultados apenas refletia como as coisas estavam funcionando na Bromley. O chefão Ron Salt acreditava que Moreno ganharia o título mais cedo ou mais tarde. Então, o negócio seria deixá-lo de lado e fornecer toda a atenção a Bernard.

Largada. Grouillard não partiu bem e foi ultrapassado por Donnelly e Bernard antes mesmo da primeira curva. O norte-irlandês, no entanto, acabou perdendo tempo em algum lugar e voltou para a terceira posição. Bernard, o novo garoto de ouro da Bromley, assumiu a ponta e ficou por lá durante as 22 primeiras voltas. Enquanto isso, Moreno caiu de quinto para sétimo na primeira volta e só recuperou uma posição de Jean Alesi um tempinho depois.

Bernard só não ganhou a corrida porque começou a ter problemas de freios, foi ultrapassado por Grouillard na volta 23 e abandonou com uma saída de pista na volta 28. Olivier somente seguiu em frente e recebeu a bandeira quadriculada na primeira posição. Foi sua primeira vitória na categoria, obtida após uma longa carreira de quatro temporadas e trinta largadas. Um bom prêmio de consolo para alguém que perdeu a grande chance de entrar na briga pelo título na etapa de Birmingham.

Jean-Denis Délétraz, um dos destaques do final da temporada. Pelo lado positivo!

No pódio, Grouillard teve a companhia de Donnelly e, acredite se quiser, Jean-Denis Délétraz. O suíço fez sua corrida de estreia na GBDA substituindo Michel Trollé e conseguiu um resultado espetacular após ter largado na quarta posição. Vale dizer que Délétraz havia iniciado o campeonato na pequena equipe belga Sport Auto Racing e seus resultados haviam sido patéticos até então. A mudança para a GBDA foi talvez a melhor coisa que aconteceu em sua ridícula carreira.

Mas nada disso importava, pois a Fórmula 3000 havia acabado de conhecer o quarto campeão de sua ainda curta história. Depois de Christian Danner, Ivan Capelli e Stefano Modena, o brasileiro Roberto Pupo Moreno havia acabado de confirmar o título internacional da categoria após terminar a corrida de Le Mans em quinto lugar.

Moreno chegou a 41 pontos, o que o deixou com 18 pontos de vantagem para Pierluigi Martini, que ainda era o vice-líder. Havia exatos 18 pontos em disputa nas duas etapas finais, mas nem mesmo duas vitórias do italiano e dois abandonos do brasileiro poderiam mudar as coisas, pois Pupo ainda teria a vantagem do maior número de vitórias. Ele sequer precisaria dar as caras nas últimas etapas. Poderia passar o resto do ano comemorando com os amigos. Merecia. Após tantos anos comendo merda em várias categorias, Moreno finalmente conseguiu um lugar ao sol.

Pois que aproveite, então. No dia 13 de outubro, três dias antes da corrida de Zolder, Moreno fez seu primeiro contato com um carro da Coloni. Deu 30 voltas com um FC188 no circuito de Imola e conseguiu andar na casa de 1m35s. Naquele mesmo dia, Alain Prost e seu impecável Mclaren MP4/4 fizeram tempos na casa de 1m32s. Tomando o narigudo como referência, foi um bom resultado de Moreno, que estava ajudando a equipe de Enzo Coloni a acertar alguns detalhes relacionados à aerodinâmica do carro. Ajuda concedida, era hora de voltar as atenções à Fórmula 3000.

Zolder, 16 de outubro, penúltima etapa da temporada.

Roberto Moreno e Gary Anderson decidiram manter em Zolder a mesma configuração de Le Mans, com as saias laterais da asa dianteira em posição alta. O carro estava bem pior do que antes, mas já não batia mais no solo. Porém, ninguém na Bromley estava ligando, já que o título já estava garantido e o negócio era proporcionar a Eric Bernard, que ajudava a pagar as contas, o melhor carro possível. Ou seja, a situação de Le Mans permaneceu exatamente a mesma em Zolder. Por isso, era difícil falar em uma quinta vitória para Pupo naquele momento.

No treino oficial, Moreno apanhou do carro e ficou apenas em quinto no seu grupo. À sua frente, estavam Donnelly, Grouillard, Alesi e até mesmo Paul Belmondo, filho do ator e um dos pilotos mais bizarros que já competiram na Fórmula 1. Vale dizer que uma das grandes atrações da temporada foi a ilustre presença de Jean-Paul Belmondo em algumas corridas. O papai estava sempre pronto para torcer pelo filhote, que corria pela equipe oficial da Lola.

Como Donnelly foi o mais rápido de todos, os pilotos pares tiveram a primazia e Moreno acabou saindo da nona posição no grid. Zolder, como muitos de vocês sabem, é uma droga de circuito. Bonito e tal, mas estreito e impróprio para ultrapassagens. Gilles Villeneuve tentou uma por lá e, bem, vocês sabem o que aconteceu…

Damon Hill, já ouviu falar? Ele foi um dos muitos estreantes do final do campeonato

Algo a se destacar, e que certamente deixaria estarrecidos os idiotas que acham que um número alto de inscritos é ruim, é a lista de pilotos que tomaram parte nos treinos oficiais em Zolder. Nada menos que quarenta nomes tentariam ao menos uma das vinte e seis vagas do grid de largada, recorde na história da Fórmula 3000 até então. Havia nomes como Damon Hill, Bernard de Dryver, Johnny Dumfries e até mesmo os brasileiros Marco Greco e Maurizio Sandro Sala, este último fazendo uma corrida apenas visando ganhar experiência.

Na largada, Martin Donnelly manteve a liderança, seguido de perto por Grouillard, Mark Blundell e, puxa vida, Jean-Denis Délétraz. Enquanto isso, Moreno permanecia encaixotado no meio do grid. Um dia difícil em sua temporada, certamente.

Donnelly abriu uma boa vantagem, mas começou a ter problemas de câmbio, rodou na volta 17 e abandonou a corrida cinco passagens depois. Quem herdou a liderança foi exatamente Olivier Grouillard, mas o francês também tinha problemas na transmissão – sua segunda marcha não entrava nas curvas mais lentas. Com isso, quem se aproximou foi Mark Blundell, que tentava sua primeira vitória na Fórmula 3000.

Enquanto isso, o pau comia lá atrás. O folclórico Délétraz dava um surpreendente show de competência ao manter sua terceira posição mesmo estando também sem a segunda marcha. Atrás dele, nosso querido Gregor Foitek causou seu último acidente do ano ao acertar o carro de Pierluigi Martini. Enquanto isso, Eric Bernard mantinha-se por uma margem pequena à frente de Roberto Moreno, que não tinha muito mais a fazer a não ser desfilar.

Lá na frente, Grouillard segurava Blundell com enorme esforço. Ao fim das 49 voltas, o francês venceu a batalha contra o inglês por apenas dois décimos e ganhou sua segunda corrida consecutiva no campeonato. Mark ficou em segundo e Délétraz, nosso heroi da Pacific, obteve a terceira posição. Foi seu segundo pódio seguido na Fórmula 3000. E você aí, com cara de bobo, achando que ele nunca tinha feito nada na carreira, né? Quanto a Moreno, um quinto lugar que não lhe servia para muita coisa.

Com esta segunda vitória, Grouillard pulou para a vice-liderança do campeonato. Ele fez 30 pontos, mas ainda estava bem atrás de Roberto Moreno, que tinha chegado aos 43 com a quinta posição da corrida de Zolder. Com o campeão definido, a Fórmula 3000 estava babando pela briga pela segunda posição, esta, sim, um pouco mais animada. Terceiro colocado, Pierluigi Martini estava a sete pontos de Grouillard e era o maior adversário do francês. Quarto colocado, Donnelly tinha 21 pontos e até poderia sonhar com o vice-campeonato, desde que vencesse e Grouillard não pontuasse.

A última etapa deste belíssimo campeonato seria realizada no discreto circuito de Dijon-Prenois no dia 23 de outubro. Quer saber como ela foi? Espere ansiosamente pela última parte. Sim, a epopéia de Roberto Moreno em 1988 está chegando ao fim.

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