O olhar perdido de alguém que não sabe bem o que está fazendo

Uma coisa que eu raramente faço é duvidar da qualidade técnica de um piloto de uma categoria top. No geral, se o cara conseguiu chegar à Fórmula 1 ou à Indy, é porque ele deve ter um mínimo de talento. Pode ter a grana que for, mas se não tiver um mínimo de habilidade e um currículo minimamente convincente, não dá pra correr. Uma Milka Duno ou um Sakon Yamamoto teve de bater impiedosamente muita gente antes de se tornar uma piada. Devemos considerar também que muitos “ruins” são, na verdade, pilotos que não tiveram boas condições para mostrar seu talento. Enfim, quase todos que chegaram lá têm alguma coisa de bom. Mas não Jean-Pierre Frey, literalmente um amador ao volante, eleito por alguns da mídia americana “o pior piloto da história da Indy”. E também “o pior piloto da história da Fórmula 3000” pelos europeus.

Nenhum argumento é suficiente para defendê-lo. JP Frey, suíço da região românica de Baselgia, era digno de vexame quando tentava pilotar. Na Fórmula 3000, tentou largar em 19 ocasiões nas temporadas de 1986 e 1987. Fracassou miseravelmente em todas, caso único nos 20 anos de história da categoria. Na Indy, participou de apenas cinco fins de semana entre 1988 e 1989, largou em quatro e passou vergonha em todos. De quebra, ainda se envolveu em um problema judicial com seu amigo Antonio Ferrari. Uma sucessão de fracassos que merece ser lembrada aqui. E que prova que, definitivamente, o dinheiro não compra o talento.

Jean-Pierre era aquilo que poderia ser considerado como um gentleman driver, aquele sujeito de idade um pouco acima da média e muita grana no bolso que decide correr apenas por diversão. No Brasil, por exemplo, a maioria do grid da Porsche Cup tem esse perfil. Se Frey tivesse corrido em uma Porsche Cup suíça da vida, sequer apareceria aqui. O problema foi ter insistido em subir para as categorias maiores sem ter um pingo de talento.

Frey era um empresário do ramo imobiliário que havia ganhado muito dinheiro vendendo apartamentos lá na Suíça. No início dos anos 80, resolveu ser piloto de corridas. Entre 1981 e 1984, fez corridas na Fórmula Ford 2000 e na Fórmula 3 italiana e não conseguiu nenhum resultado que prestasse. Em 1985, decidiu largar a vida medíocre de piloto de monopostos e migrou para as corridas do Mundial de Protótipos. Arranjou um Alba e foi à luta em seis etapas. Largou no meio do pelotão em todas e terminou duas. Não é um resultado tão ruim assim, mas há um detalhe a ser considerado: as corridas eram realizadas em trio. Na certa, seus dois colegas, que sempre mudavam (a Alba teve vários pilotos em 1985), carregavam o carro nas costas. E o suíço só ia de gaiato.

Correr de protótipos era divertido, mas Frey decidiu voltar aos monopostos em 1986. E escolheu justamente a Fórmula 3000 Internacional, aquele competitivo e cruel campeonato que fornecia novos talentos para a Fórmula 1. Como equipe nenhuma estava interessada nele, Jean-Pierre Frey decidiu abrir seu próprio time, a Dollop. Arranjou uma oficina em Genova, um March 85B usado, um motorzinho Cosworth DFV preparado por Heini Mader e um pessoal pra trabalhar em seu carro. Eram bons tempos, aqueles. 500.000 dólares eram suficientes para manter uma equipe por uma temporada. Os critérios para inscrever uma equipe na Fórmula 3000 eram apenas dois: ter vontade e ter dinheiro o suficiente. Não por acaso, mais de 20 equipes se inscreveram para aquele ano.

Em Silverstone, local da primeira etapa, os organizadores decidiram que todos os pilotos que fizessem um tempo dentro do limite de 110% poderiam largar. Em uma categoria com muitos inscritos e carros parecidíssimos entre si, é o tipo de medida que leva à putaria generalizada. Resultado: nada menos que 31 dos 37 pilotos passaram e puderam largar. Frey ficou em penúltimo, a 12,57 segundos da pole-position. Promissor, hein, Arnaldo?

A FISA percebeu que a ideia de deixar todo mundo largar era irresponsável e, como na Fórmula 1, limitou os grids a 26 carros. Se o piloto fica de fora, problema é dele. A partir de Vallelunga, o sonho de Frey largar virou um pesadelo sem solução. Na pista italiana, ele ficou em 35º, a 6,19s da pole. Em Pau, 36º com um tempo 7,82 mais lento. Em Spa-Francorchamps, último entre 36 inscritos, assustadores 16,6 segundos atrás do pole-position. Naquela época, a diferença que cobria o primeiro e o último classificados era de cerca de três segundos. Dava pra ver que Jean-Pierre Frey não chegaria a lugar nenhum.

Frey na Fórmula 3000 com sua própria equipe

Em Imola, ele inscreveu um segundo March 85B para o incapacitado, mas não tanto, Aldo Bertuzzi. E Frey conseguiu o milagre: ficou à frente de três pilotos na tabela! 34º entre 37 inscritos, ele superou seu novo companheiro Bertuzzi, Fulvio Ballabio (que também é digno de um texto aqui) e Richard Dallest, que não havia conseguido fazer tempo com seu AGS. Por incrível que pareça, foi seu melhor resultado na categoria.

Em Mugello, os dois 85B da Dollop conseguiram ficar à frente de Bruno Corradi, que não havia feito tempo com seu Minardi. Dessa vez, Bertuzzi bateu Frey em meio segundo. Só que ambos ficaram a 10,91 e 11,42 segundos da pole, respectivamente. Em Enna-Pergusa, Bertuzzi se mandou daquela encrenca e Frey seguiu sozinho o calvário de tentar classificar seu carro avermelhado. Ficou em último, a apenas 5,34 segundos do pole-position. Oh, ele evoluiu!, exclamaria alguém. Vale lembrar: o último a se classificar no grid ficou a 2,78 da pole. O penúltimo colocado entre todos ficou quase um segundo à frente de Frey. Nesse sentido, ficar a 5,34 da pole era uma merda terrível.

Nada mudou em Österreichring: 34º entre os 35 que tentaram largar, 9,1 segundos atrás do pole-position. O último colocado, Andrew Gilbert-Scott, havia quebrado em sua volta rápida. Para a corrida seguinte, em Birmingham, Frey convidou o francês Marcel Tarrès, especialista em provas de subida de montanha, para correr em um segundo March 85B. E Tarrès, muito mais talentoso do que Frey, conseguiu o milagre de classificar o carro para o grid! Era a primeira vez que a Dollop participava de uma corrida!

Infelizmente, a aventura da equipe acabou na segunda volta, quando Tarrès se envolveu em uma batida com Tim Davies. Quanto ao Frey, ele seguiu como o mais lento entre os 34 inscritos, tendo ficado a 8,43 segundos da pole. O assustador é que o piloto que ficou imediatamente à sua frente foi quatro segundos mais rápido, mesmo tendo sofrido dois acidentes! Para piorar as coisas, o furacão que passou por Birmingham acabou levando uma asa traseira da equipe embora! Trágico, trágico.

Tarrès seguiu na equipe para a etapa de Le Mans, mas teve problemas e só ficou em 34º entre os 37 inscritos. Frey ficou logo atrás, a 4,31 segundos da pole. Foi seu melhor desempenho no ano, já que ele conseguiu superar dois pilotos (que não tiveram problemas!) e só ficou a dois segundos de conseguir um lugar no grid. Marcel Tarrès, após o fracasso, decidiu cair fora e Frey voltou a ficar sozinho. Na última prova, em Jarama, ficou em último entre os 35 inscritos, a 5,69 segundos da pole. É, ele estava melhorando…

A temporada foi tão ruim que ninguém achava que Jean-Pierre Frey e sua Dollop permaneceriam na Fórmula 3000, mas eis que Jean-Pierre reapareceu na categoria em 1987 para provar a todos que, sim, ele era competente! Sempre atrás de todos, arranjou dois defasados March 86B e decidiu que teria um companheiro de equipe durante todo o ano. Para a prova de Silverstone, ele seria um compatriota e amigo seu, o bigodudo Urs Dudler.

Dudler nem passou tanta vergonha: ficou em 29º entre os 33 inscritos. Frey, em ascensão, ficou em 32°, a apenas 6,93 segundos da pole-position. Atrás dele, apenas o azarado Alessandro Santin, que só havia participado dos treinos livres. Apesar do razoável desempenho, Frey mandou Dudler embora e trouxe o veteraníssimo Guido Daccò, de 45 anos de idade.

No IMSA, JEAN-PIERRE FREY e MARTY ROTH correram juntos. Fujam pras montanhas!

A partir daqui, vou ser sucinto sobre as performances de Frey.  Vallelunga: 32º entre 32 inscritos, 4,76s atrás da pole. Spa-Francorchamps: 34º entre 34 inscritos, 11,91s atrás. Pau: não apareceu, provavelmente com medo de bater e perder seu carro. Donington: 33º entre 34 inscritos, 6,23s atrás. Enna-Pergusa: 34º entre 34 inscritos, 4,49s atrás. Brands Hatch: 36º entre 36 inscritos, 6,81s atrás. Birmingham: 34º entre 35 inscritos, 4,74s atrás. Imola: 34º entre 34 inscritos, 7,14s atrás. Desiludido, Frey percebeu que a grana estava no fim e desistiu de participar das duas últimas etapas de 1987.

Saldo final: 19 tentativas de largar, 19 fracassos. Em quase todos, ele ficou em último entre os que conseguiram marcar tempo. Lembrem-se: por volta de 35 pilotos apareciam a cada corrida.

Em 1988, Frey decidiu voltar para o Mundial de Protótipos, dessa vez com sua Dollop. Arranjou um Argo JM19B e o equipou com um bizarríssimo motor Motori Moderni. O conjunto era extremamente vagabundo e frágil e foi abandonado após três etapas.  Em Silverstone, ele trouxe um Lancia LC2 novinho em folha, mas continuou andando lá atrás e abandonando com problemas e erros. Foram sete etapas disputadas e sete abandonos. Boa, campeão!

O sonho de correr em monopostos não havia sido deixado de lado. Na verdade, Frey achava que a Europa nunca compreenderia seu talento oculto. Sendo assim, ele se mandou para os Estados Unidos. Para correr na Indy!

JP bateu um papo com Dick Simon, o chefe de equipe que mais gostava de pilotos pagantes na Indy, e arranjou um simpático Lola-Cosworth para correr em Laguna Seca e Tamiami Park, as duas últimas etapas do campeonato. Com seus dois patrocinadores, a fabricante de miniaturas Bburago e a tabaqueira West, Frey fez com que o carro fosse pintado com uma tenebrosa combinação de azul claro e aquele amarelo de marca-texto da Brawn. Ao entrar na pista, assustou os americanos. Com sua lerdeza e sua absoluta incapacidade de completar corretamente uma única curva, os ianques pensaram “quem é esse maluco europeu?”.

Em Laguna Seca, até que ele não foi tão mal: ficou em 27º entre os 28 inscritos, a 6,231 segundos da pole-position. Superou com folga Dale Coyne, que utilizava um March de dois anos de idade. Na corrida, Frey dirigiu com seu peculiar sossego e até terminou a prova, a mastodônticas oito voltas do líder! Ganhou um dinheirinho com isso: 5.300 dólares.

Em Tamiami Park, ele superou Scott Atchinson e Dale Coyne e conseguiu largar em 24º! Impressionante! Infelizmente, após oito voltas, seu Lola esquisitão estava batido por aí. Ganhou 8.275 dólares pelo espetáculo. Chega, né?

Frey e seu horrendo Lola da Dick Simon em Laguna Seca 1988

Não. Frey quis continuar correndo em 1989. Mas Dick Simon, seu chefe de equipe, não quis saber de continuar com ele. O cara pode ser rico e tal, mas vá ser incompetente assim nos Alpes! Então, restou a ele ir atrás de Antonio Ferrari, um italiano que havia emigrado para os EUA havia um tempinho e que comandava a miserável Euromotorsport. Ferrari decidiu dar uma chance aos seus francos suíços e lhe colocou para correr no oval de Phoenix. No perigoso oval de Phoenix!

Sua primeira participação em um oval não foi tão absurdamente ruim: Frey conseguiu andar mais rápido que seu ex-colega de Fórmula 3000 Guido Daccò e largou em 23º. Mesmo assim, ficou a 3,177s do pole-position, uma era geológica em se tratando de um oval. Largou e se arrastou por 47 voltas. Indignados com tanta lerdeza e com o perigo que sua participação representava, os comissários deram bandeira preta e eliminaram Frey da corrida. Ao menos, garantiram a ele o pão com manteiga: 2.580 dólares de premiação, o menor valor já dado na história da categoria. Chega, né?

Não. Para desespero de todos, Jean-Pierre Frey se inscreveu para as 500 Milhas de Indianápolis! Porra, Frey! Além de incompetente e cara-de-pau, você é burro? Um acidente em Indianápolis e babau. Para sua sorte e para o alívio dos demais competidores, a USAC negou sua inscrição, alegando falta de experiência, puro eufemismo para designar incapacidade técnica e mental. Chega, né?

Não. Frey reapareceu em Detroit, prova que teve 32 inscritos, mas que apenas 28 poderiam largar. Obviamente, em uma pista difícil como esta, ele ficou de fora. Após esta prova, ele deixou a Euromotorsport e se arranjou na Bettenhausen. Sua última aparição foi em Portland: ele largou em último, quase dois segundos mais lento que o penúltimo, e se arrastou até o fim, terminando em 15º e ganhando 14.240 dólares, seu melhor resultado em monopostos na vida! Pronto, chega!

Mas um cara pitoresco como Jean Pierre-Frey ainda teria mais histórias para contar. Algum tempo depois, ele descobriu que Antonio Ferrari, seu chefe na Euromotorsport, conseguiu desviar nada menos que 1,259 milhão de dólares de uma conta conjunta que mantida com Frey no Bank One para sua conta particular na Itália. Frey decidiu processar Ferrari e o Bank One na justiça de Indiana pelo ocorrido, mas havia dois problemas: ele demorou tanto tempo para abrir o processo que a justiça alegou que não poderia fazer nada, já que havia prescrito o período para tomar qualquer atitude. Além disso, Frey apelou para um argumento altamente idiota: disse que o nome utilizado na transação foi “Pierre Jean Frey”. O problema é que esta era a maneira que o banco cadastrava o nome dos seus correntistas. Frey não ganhou nenhuma das causas.

Por fim, ele mesmo foi processado por ter vendido apartamentos que não lhe pertenciam e por ter vendido o mesmo imóvel a diferentes pessoas. Nesse caso, ele se deu mal.

O que Frey está fazendo da vida nos dias atuais? Não faço ideia. Mas quer saber? Espero que tenha virado monge no Quirguistão. Deve ser a única coisa que ele saberia fazer direito.

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