Sepang: tão ruim assim?

Uma das razões pelas quais a nostalgia pura e simples me enfastia é o maniqueísmo que diferencia conceitos amplos atuais dos antigos. Os que a praticam dizem, por exemplo, que a música contemporânea é um lixo. Justin Bieber, Ke$ha, Restart, Glee e aberrações afins são absurdos afeminados e idiotizantes que devem ser impiedosamente extirpados. Bons eram os anos 80 dos igualmente coloridos do new wave ou da meiguice de condomínio dos Menudos. Ou os anos 90 das boy bands e seus garotos cuidadosamente aviadados. Que Justin Bieber e companhia são lixo, este é um fato inegável, mas as outras décadas cultuavam música pop tão ruim e imbecil quanto. Só que os nostálgicos hardcore ignoram, achando que estão vivendo em um inferno temporal e que tudo aquilo que tem cheiro de mofo é passível de admiração.

Volto a falar de Fórmula 1. Não conheço nenhum outro esporte no mundo que sofra de tantas comparações nostálgicas como esse. Para muitos, as corridas antigas eram as melhores, os pilotos dos anos 70 e 80 (e só destas décadas: os anos 50 e 60 seguem solenemente ignorados) eram mais destemidos, o barulho do motor era melhor (mesmo que a maior parte dos grids dos anos 70 e 80 utilizasse os mesmos V8 que hoje em dia) e até o Galvão Bueno falava menos besteira. É evidente que há muita coisa hoje em dia que é, de fato, pior do que em outros tempos. Mas também houve evolução em muitas coisas, inclusive em aspectos que muitos acham que houve clara piora. Um caso interessante é o dos circuitos utilizados pela Fórmula 1.

Você abre qualquer fórum sobre automobilismo e depara com inúmeros clamores contra as pistas atuais. São todas ruins, insossas e geridas por chineses antipáticos ou muçulmanos desvairados. O calendário da Fórmula 1 está deixando a Europa, que é o berço do automobilismo por excelência, e migrando para a primitiva a arrivista Ásia. Antigamente, o calendário eurocêntrico era necessariamente melhor. É o que dizem por aí. Será?

Comecemos pelo presente. O calendário atual tem 20 pistas. Se perguntar pra mim quais são da minha preferência, minha lista é a seguinte: Melbourne, Sepang, Istambul, Montreal, Valência, Hungaroring, Spa-Francorchamps, Monza, Suzuka, Yeongam e Interlagos. Não tenho grandes problemas com Sakhir, Mônaco, Silverstone, Nürburgring, Marina Bay e Abu Dhabi. E dispenso as outras, embora ainda não possa falar sobre Jaypee, a nova pista indiana. É óbvio que a minha lista está longe de ser alguma unanimidade, mas alguns padrões se mantêm. Melbourne, Istambul, Montreal, Spa-Francorchamps, Monza, Suzuka e Interlagos são admiradas pela maioria das pessoas, que gostam também de Silverstone e Mônaco. Barcelona, Hungaroring e a maior parte das pistas de Hermann Tilke são desprezadas.

A nova Buenos Aires: uma das muitas pistas infelizes dos anos 90

Para um calendário considerado tão frustrante, ter nove pistas bastante admiradas entre vinte não é algo tão ruim. Se quer uma contraprova, basta comparar com a Indy. Quais pistas entre as 17 do calendário atual realmente são admiradas por uma parcela considerável de pessoas? Contabilizo Indianápolis, Long Beach, Mid-Ohio, Texas, Barber e Sonoma. Muitos gostam de Milwaukee, Toronto e New Hampshire unicamente pela tradição, já que nenhuma das três é lá grandes coisas. E muita gente ainda acha o calendário da Indy mais legal que o da Fórmula 1.

O WTCC, de 12 corridas, tem apenas cinco pistas realmente admiradas (Interlagos, Monza, Brno, Suzuka e Macau). O DTM é pior ainda: das 11 pistas pelas quais a categoria passa, apenas Brands Hatch é realmente admirada pela maioria, levando em conta que as versões atuais de Hockenheim, Nürburgring e Zandvoort estão longe de serem unanimidade. A Fórmula 1, portanto, não está tão defasada em relação às outras.

Analisemos as 20 pistas da Fórmula 1. Pista explicitamente veloz, só existe Monza, uma sequência de retões, chicanes e curvas de alta. Spa-Francorchamps, Suzuka, Silverstone, Barcelona e Istambul são pistas de alta com trechos mistos. Interlagos, Sakhir, Montreal, Sepang, Shanghai e Yeongam são pistas mistas de média velocidade. Valência e Marina Bay são pistas de rua de média velocidade. Abu Dhabi alterna trechos velozes e de baixíssima velocidade. Hungaroring é um circuito permanente de baixa velocidade. E Mônaco é a pista de rua de baixa velocidade, sendo a mais travada de todo o calendário. Em termos de variedade, não há muito o que reclamar. Falta talvez um oval. Ou uma pista de alta nos moldes de Österreichring. Ou uma pista de curvas de ângulo reto, como Phoenix.

O que é passível de reclamação é a falta de originalidade e de graça dos circuitos novos, conceitos absolutamente subjetivos. Eu acho um porre ver circuitos esplendorosos, compostos por áreas de escape intermináveis, construções suntuosamente bregas ao redor, asfalto impecavelmente uniforme e arquibancadas que comportam centenas de milhares de asiáticos deslumbrados. Também é cansativo ver pistas com os mesmos trechos, as mesmas sequências de curvas de 1ª e 2ª marchas, os cotovelos, os retões quilométricos e até mesmo aquelas corruptelas de “curva 8 do circuito de Istambul”. Nisso, eu concordo com muitos. O que discordo totalmente da maioria é que são circuitos chatíssimos e que os antigos eram inegavelmente melhores.

Österreichring: a variedade dos circuitos atuais é boa, mas falta um traçado veloz como este

Quando vejo uma corrida antiga em um circuito já esquecido pelo tempo, coisa que confesso não fazer muito, logo procuro imaginar como seria uma corrida atual por lá. E imagino o contrário: como seria uma corrida com os badalados carros dos anos 70 em Sakhir ou em Sepang. No primeiro caso, as ultrapassagens seriam até mais incomuns do que hoje em dia. Apenas traçados absolutamente estúpidos, como a salsicha de Avus, facilitariam a vida.

No segundo caso, por outro lado, imagino um cenário bem mais róseo. Carros sem muita sustentação aerodinâmica, mas dotados de larguíssimos pneus traseiros, motores mais elásticos e freios de aço, dançando nas sucessivas curvas lentas de Abu Dhabi ou nos trechos cegos de Sepang, instigando o piloto a dosar o pé na subida da curva 8 de Istambul e sofrendo para conter os ataques do adversário atrás nas ruas não tão apertadas de Valência e Marina Bay. Longe de indicar que as ultrapassagens viriam como cestas no basquete (até porque a Fórmula 1 nunca foi uma categoria de manobras fáceis e deve continuar assim), a competitividade seria bem maior do que com os delicados e acurados carros atuais. E as coisas não melhorariam só em relação às ultrapassagens, mas também com os desafios da pilotagem. Imagine um sobreesterço de Ronnie Peterson no caracol de Shanghai. Pois é.

O calendário atual pode até nem ser o melhor que já existiu, mas definitivamente não é ruim. E definitivamente já existiram calendários bem piores. Nos anos 90, especialmente após a morte de Ayrton Senna, a Fórmula 1 decidiu abolir gradativamente as pistas velozes. No lugar, entrariam os traçados travados e de média ou baixa velocidade, que não permitiam ultrapassagens e nem representavam desafios de pilotagem aos pilotos. Época ruim, na qual fomos bombardeados com absurdos como Aida e o novo Buenos Aires. Some-se a elas párias como o novo Kyalami, Estoril e Jerez e outras pistas que definitivamente não contribuíam para corridas mais disputadas, como Barcelona, Magny-Cours e Adelaide, e temos como resultado alguns dos piores calendários da história na década do “ah, eu tô maluco!”.

As décadas anteriores se destacavam pela presença de circuitos velocíssimos e de alguns templos icônicos como Nordschleife e o antigo Interlagos. As boas lembranças de nossa memória seletiva faz com que nós nos esqueçamos de que havia pistas terríveis no calendário. Algumas são claramente ruins, como Zolder, Jarama e Dijon. Outras, como Nivelles e Anderstorp, eram duramente criticadas em sua época, embora sejam lembradas com carinho por alguns hoje em dia. E nem falo das muitas tentativas de pistas de rua que existiam naquela época, coisas que fariam a tão odiada Valência corar de vergonha.

Jarama: até mesmo a belle époque da Fórmula 1 tinha seus circuitos ruins

O que salvava boa parte dessas corridas era o acaso, que era bem mais comum do que nos dias atuais. As quebras, os acidentes e os infortúnios eram maiores do que nos dias atuais, em que carros e pilotos são precisos como um relógio da Tissot ou Certina. E os bólidos, como disse lá em cima, permitiam uma competição bem mais renhida. Gilles Villeneuve e René Arnoux só puderam duelar naquelas últimas voltas do GP da França de 1979 porque a turbulência gerada pelo que ia à frente não afetava o que vinha atrás. Nos dias atuais, um comportadamente permaneceria à frente do outro, separados por uns cinco ou seis décimos. E todos desceriam o cacete em Dijon, alegando que ela é travada e que impossibilita ultrapassagens.

Pata terminar, recorro à matemática. Lá em cima, falei que 9/20 das pistas do calendário atual são do agrado da maioria, considerando que a maioria das pessoas carrega um preconceito contra as pistas do Tilke. Em 1977, uma temporada que considero excelente em relação às pistas, o calendário previa 17 corridas, sendo que 13 delas são admiradas (Buenos Aires, Interlagos, Kyalami, Long Beach, Mônaco, Silverstone, Hockenheim, Österreichring, Zandvoort, Monza, Watkins Glen, Mosport e Fuji). Repito: é um calendário excelente, talvez o melhor que a Fórmula 1 já teve. São 13 pistas admiradas em 1977, contra nove em 2011. Proporções à parte, será que as coisas estão tão ruins assim para os tempos atuais?

Em 1989, outro ano que gosto muito, houve 16 corridas, sendo 10 delas em pistas admiradas (Imola, Mônaco, Hermanos Rodriguez, Montreal, Paul Ricard, Silverstone, Hockenheim, Spa-Francorchamps, Monza e Suzuka). As pistas de Jacarepaguá e Adelaide também são admiradas, mas sejamos honestos, a admiração se dá pela pista ser brasileira, no primeiro caso, e por ter rendido corridas malucas debaixo de chuva, no segundo. Dez contra nove. Para um calendário tão ruim como o atual, até que ter apenas uma pista boa a menos do que o bom 1989 não é tão ruim, certo?

Não quis sugerir, aqui, que o calendário atual é uma maravilha e os antigos não são. É inegável que um calendário com 13/17 ou 10/16 corridas boas é melhor que um de 9/20. É inegável que já houve vários anos melhores. É inegável que boa parte das minhas preferidas está renegada ao passado. O que não dá pra dizer é que o calendário atual é muito ruim e que a Fórmula 1 antiga necessariamente tinha calendários melhores e isentos de falhas. Nesse sentido, não há grandes diferenças. O que há, sim, é aquela velha simpatia pelo passado, que superestima tudo o que já passou e despreza qualquer coisa atual. No fundo, é tudo asfalto.

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