A família de Rubens Barrichello é uma das mais humildes entre aquelas que tiveram um piloto na Fórmula 1. O que não quer dizer muito, é claro

Em um período de férias, nada melhor do que inventar assuntos idiotas para movimentar um site. O tema de hoje nem é tão idiota assim, mas há quem não veja utilidade em histórias que se afastam do mundo empapado de óleo e gasolina que é o paddock. Você tem interesse em saber qual é a origem familiar e social dos seus ídolos brasileiros das pistas? Não? Então espere pelo próximo post. Vou contar um pouco da vida dos principais pilotos do país antes de se tornarem astros das pistas. Quem tinha dinheiro e quem não tinha. Quem tem parente importante e quem não tem. Onde moravam e quem eram seus pais. Um verdadeiro momento Caras.

Em primeiro lugar, na minha singela porém extensa pesquisa, deu pra confirmar aquilo que qualquer um mais inteligente do que uma morsa sabe: automobilismo é coisa pra quem tem dinheiro. No entanto, é possível perceber que esse fato se torna cada vez mais verdadeiro conforme o tempo passa. Hoje em dia, devido à profissionalização cada vez mais presente nas categorias mais baixas, apenas o sujeito com um bom “paitrocinador” ou que deu a sorte suprema de ter o apoio de uma grande empresa conseguirá levar seu sonho adiante. Em um passado que já está relativamente remoto, as coisas não eram bem assim. Boa parte dos pilotos vinha da classe média alta, aquela que dispõe de uma boa grana na carteira mas não tem helicóptero e nem Jacuzzi no banheiro.

Comecemos com os três campeões de Fórmula 1, Emerson, Nelson e Ayrton. Emerson Fittipaldi é um caso típico de piloto que nasceu em um ambiente bastante familiar ao automobilismo. Seu pai, o “barão” Wilson Fittipaldi, era locutor de corridas nas rádios Panamericana e Record e promotor de corridas, tendo realizado a primeira edição das Mil Milhas Brasileiras. Sua mãe era dona Juze, ucraniana naturalizada brasileira que se formou em jornalismo, mas que também pilotava de vez em quando. Os dois, aliás, se conheceram quando estudavam no Instituto de Ciências e Letras de São Paulo. A família não era rica. Emerson é um caso bastante comum de piloto que conseguiu iniciar no automobilismo graças aos contatos feitos pelos pais e, acima de tudo, pelo espírito automobilístico que corria no sangue. Outros pilotos, como Tarso Marques e Cristiano da Matta, têm histórias parecidas. Falo deles depois.

Nelson Piquet era o típico filhinho de papai da socidade carioca. Seu pai era um respeitável médico e político, o pernambucano Estácio Souto Maior. Na política, Estácio teve uma longa e eclética carreira: elegeu-se deputado federal pelo PTB de Getúlio Vargas em 1954, reelegeu-se em 1958, foi nomeado Ministro da Saúde por João Goulart em setembro de 1961, deixou o cargo um ano depois para eleger-se novamente deputado federal pelo mesmo PTB, filiou-se à ARENA após o AI-2 e a instituição do bipartidarismo, reelegeu-se em 1966 e foi cassado pelo AI-5 em 1969. Já sua mãe, Clotilde, tinha uma ocupação bem mais singela: construtora de móveis e casinhas de brinquedo. Nelson Piquet levava uma vida boa: morou por um tempo nos EUA, jogava tênis e tinha seu carro próprio. Prestou vestibular para Engenharia na UnB, passou e desistiu do negócio. O que ele queria mesmo era ser piloto.

Ayrton Senna era o típico filhinho de papai da sociedade paulistana. Seu pai, Milton da Silva, nasceu em uma família simples mas começou a ganhar dinheiro rapidamente com a compra e venda de veículos em lojas na Zona Norte. Com a fortuna amealhada, ele conseguiu abrir a Universal, uma pequena metalurgia que fornecia peças à incipiente indústria automobilística, além de adquirir também um bom número de fazendas de gado no Nordeste e no Centro-Oeste. A mãe de Ayrton era dona Neide, dona de casa que cuidava dos três filhos na enorme moradia localizada no bairro do Santana. Apesar do dinheiro, a família era discreta e bastante respeitada na vizinhança pela simpatia e pela harmonia. A expectativa da família era de ter Ayrton, que ganhou seu primeiro kart aos quatro anos, trabalhando nas empresas do pai. Para isso, ele chegou a cursar Administração de Empresas na FAAP, tradicional faculdade paulistana.

Os outros pilotos brasileiros, em maior ou menor intensidade, também têm histórias de vida remediada, como diria minha avó. Se eu tivesse de dar uma de IBGE, colocaria Rubens Barrichello, atual piloto da Williams, na classe média mais estrita. Seu pai, Rubão, era dono de uma pequena loja de materiais de construção localizada nos arredores do circuito de Interlagos. Nas horas vagas, ele atuava como goleiro da equipe amadora do São Paulo Futebol Clube. Sua mãe, Idely, era dona de casa. O primeiro contato com o kart, na verdade, ocorreu quando seu avô Mário o presenteou com um novinho em folha. A carreira de Barrichello pôde prosseguir graças a alguns parentes que estavam envolvidos nas corridas, como o tio Dárcio dos Santos, piloto promissor daquele período. No entanto, a grana da família Barrichello, ao contrário da dos três campeões, era bem curta. Rubão teve de se desfazer de uma casa e se envolver com a venda de carros usados para complementar a renda. O investimento, no entanto,
valeu a pena.

Mario Moraes, um dos muitos filhos de empresário

Já Felipe Massa teve uma vida bem mais abastada que a de Barrichello, mas também teve bem mais dificuldades para seguir na carreira. Não faço idéia do que sua mãe, Ana Elena, fazia. No entanto, Titônio Massa, o pai, tem um histórico bem longo. Neto do criador da CAIO, uma das maiores empresas encarroçadoras de ônibus do país, Titônio herdou dele a empresa e o gosto por automobilismo. Além de administrar a CAIO, ele criou uma fábrica de produtos plásticos em Botucatu e se envolveu também na sociedade do restaurante paulistano Pandoro – hoje pertencente a um conluio de sócios que inclui o próprio Felipe Massa. Nas horas vagas, assim como seu avô fazia nos anos 50, Titônio se aventurava nas pistas em categorias como a Fórmula Uno. Seu desempenho era muito bom, mas não era sensacional. Já Felipe, que estreou no kart em 1990, teve bem mais sorte. Mau aluno, seu negócio era andar de carro de corrida. A família passou por maus bocados para financiar sua carreira e Felipe chegou a interromper sua carreira por um ano. Felizmente, ele conseguiu apoios que o levaram ao automobilismo de verdade.

Bruno Senna e Lucas di Grassi, pilotos da nova geração, vieram de famílias bastante endinheiradas. Dispensando as óbvias apresentações de seu tio mais famoso, Bruno é filho de Viviane Senna, psicóloga formada e presidente da Fundação Ayrton Senna e do Instituto Ayrton Senna, e de Flávio Lalli, empresário que faleceu em um acidente de moto em 1996. Lucas di Grassi é filho de Vito, vice-presidente da empresa bélica Engesa. Infelizmente, não encontrei nada a respeito de sua mãe. Membro do Mensa, organização que reúne pessoas superdotadas, morou a vida toda no luxuoso condomínio Alphaville e cursou Economia por um bom tempo antes de decidir seguir no automobilismo. Pelo gosto acadêmico, percebe-se que é um gênio, de fato.

Na Indy, destaco Mário Moraes, conhecido por ser o neto do Antônio Ermírio de Moraes, dono da Votorantim e homem mais rico do Brasil durante muitos anos. Seu pai, o falecido Mario Ermírio de Moraes, também era empresário, possuindo empresa própria. Vários outros pilotos são filhos de empresários consagrados. Pedro Paulo Diniz é filho de Abílio Diniz, dono da Companhia Brasileira de Distribuição, conglomerado dono de inúmeros supemercados no Brasil. O pai de Ricardo Rosset, Ivo, é dono de uma das maiores empresas de tecidos em lycra da América Latina. Outro Ricardo, o Zonta, é filho de Joanir, dono da rede paranaense de supermercados Condor.

E a lista de filhos de empresários não acaba. Alceu Gugelmin, pai de Mauricio, era dono de uma grande madeireira no Paraná. Antônio Pizzonia é filho do dono da maior recicladora de resíduos plásticos de Manaus, a Coplast. Luciano Burti é filho do dono da Gráfica Burti, uma das maiores de São Paulo. O pai de Bruno Junqueira é dono de uma destilaria localizada na região central de Minas Gerais. Os irmãos Sperafico são filhos do dono de uma grande empresa de produtos agroindustriais. Raul Boesel e Carlos Iaconelli também são filhos de empresário. Embora os pais de Enrique Bernoldi, Mario Haberfeld e Ingo Hoffmann não fossem donos de empresa, eles ocupavam cargos importantes nos lugares onde trabalhavam. A empresa onde Roberto Haberfeld trabalhava, a Dixie, chegou a patrocinar a passagem de Mario pela Fórmula 3000.

Como visto com Emerson Fittipaldi, outra categoria bastante comum é a de piloto que vem de família ligada ao automobilismo. Cristiano da Matta é filho de Toninho da Matta, um dos pilotos de maior sucesso no automobilismo brasileiro nos anos 80. Os irmãos Tarso e Thiago Marques são filhos de Paulo de Tarso, dono da conhecida equipe Action Power e da Action Agro, empresa de defensivos agrícolas. Hélio Castroneves é filho de um ex-dono de equipe da Stock Car sediada em Ribeirão Preto. O pai de Luiz Razia já foi piloto e dono de equipe na Fórmula 3. Na Stock Car, há vários filhos de pilotos, como Xandinho Negrão, Marcos Gomes e Daniel Serra. E podemos dispensar apresentações de pilotos como Christian Fittipaldi e Nelsinho Piquet.

Tarso Marques, um dos filhos de pai envolvido no automobilismo

E há também os filhos dos meros mortais, se é que dá pra dizer assim. Bia Figueiredo é a filha de um bem-sucedido psiquiatra. Roberto Moreno era filho de um funcionário relativamente baixo do Banco Central e uma professora de História. Gil de Ferran é o filho de um engenheiro mecânico da Ford. Neste último caso, a ocupação de Luc de Ferran influenciou até mesmo o local de nascimento de seu filho, já que o parto ocorreu em Paris em um instante de viagem a trabalho. Destaco também Pedro Nunes, piloto da GP3 e filho de Wanderley Nunes, aquele cabeleireiro famoso. A fama do pai ajudou muito na captação de patrocínios.

Há algumas histórias bem interessantes de pilotos não tão conhecidos. Destaco dois, que chegaram à Fórmula 3000 nos anos 90. Um é Marcos Gueiros, piloto de razoável capacidade que obteve o título brasileiro de Fórmula 3 em 1992. Os paraenses conhecem bem esse sobrenome. Marcos é filho de Hélio Gueiros, ex-governador do Pará entre 1987 e 1991. Seu currículo político é recheado de histórias controversas, como o apoio ao polêmico Jader Barbalho e o suposto envolvimento de pessoas próximas com o jogo do bicho local. Na Fórmula 3000, Marcos Gueiros era patrocinado pelas empresas locais Rodomar e Ebal, sendo que esta última pertencia aos seus irmãos André e Paulo. Há pouco tempo, a revista IstoÉ publicou que as duas empresas estariam envolvidas em um escândalo de desvio de 13 milhões de dólares em verbas recebidas do BNDES. A grana, que estava direcionada a elas, acabou entrando na carteira do senador Luiz Otávio Campos. Com todo esse background, Marcos Gueiros se colocava nas pistas como uma das esperanças do automobilismo brasileiro. Infelizmente, sua carreira não deu muito certo.

A outra história é a de Norio Matsubara. Único nissei a competir em alto nível no Brasil, ele chegou a disputar o GP de Enna-Pergusa da Fórmula 3000 em 1994. O sobrenome Matsubara é bem famoso na região de Cambará, Paraná. O pai de Norio, Sueo, é um dos maiores plantadores de algodão da região norte do estado. Além da agricultura, a família é dona de revendas de carros importados e outros negócios. Com pouco mais de 20 anos de idade, além de pilotar, Norio Matsubara comandava a Sociedade Esportiva Matsubara, time da terceira divisão do futebol paranaense. A grana e a influência da família nipo-paranaense de uma maneira impressionante. Quando o piloto estava disputando o título do brasileiro de Fórmula Ford em 1992, a família montou um esquema de ônibus que pudesse levar os habitantes da cidade para assistirem ao vivo a última etapa do campeonato em Goiânia, se não me engano. Os que não puderam ir ficaram assistindo a corrida em um telão montado no centro da cidade. Matsubara foi campeão, mas sua carreira não decolou muito mais.

E esses são os representantes do povo brasileiro no automobilismo de ponta: filhos de gente endinheirada ou de convivas do automobilismo. Portanto, se você, pai da classe média, pretende colocar seu filho para andar de kart sonhando em vê-lo na Fórmula 1 um dia, é melhor desistir da idéia. Ou abrir um conglomerado.

Anúncios