Spa-Francorchamps, a pista que deverá aparecer apenas uma vez a cada dois anos. Bill Clinton diria que é a economia, estúpido

O bicho pegou. Perder Imola não foi tão absurdo, pois a pista foi devidamente mutilada após as tragédias de 1994. Perder Magny-Cours também não, embora a ausência da França no calendário seja sempre lamentável. Ter de alternar entre Hockenheim e Nürburgring também não deprimiu ninguém, já que nenhuma das duas pistas tem o charme de outrora. Como diz a sua avó, a gente só se preocupa quando a água bate na bunda. Pois a melhor água mineral do planeta, a da Bélgica, acabou de chegar lá.

Aparentemente, a Fórmula 1 encontrou uma saída para Spa-Francorchamps, o melhor circuito do calendário com alguma folga. Há algum tempo, o circuito belga vem dando enormes prejuízos e registrando quedas dramáticas no número de espectadores. Em 2011, os organizadores contabilizaram perdas de mais de 5,5 milhões de euros. Em 2010, foram três milhões de euros no lixo. Em 2008, 3,8 milhões de euros. Em termos de pagantes, apenas 45 mil pessoas compareceram a Spa-Francorchamps em 2011, 5% a menos que o já baixo número de 2010. Para reverter os prejuízos, a corrida precisaria atrair ao menos 65 mil pessoas em 2012. Este número não é alcançado há cerca de dez anos. Sentiu a tragédia?

Pois o resignado governo belga aceitou promover um rodízio de sua bela corrida com qualquer outra na Europa. Até mesmo Enna-Pergusa serve. Nos últimos dias, alguns jornais franceses anunciaram aquilo que todos nós já tínhamos ouvido falar há algum tempo: a partir de 2013, Spa-Francorchamps passaria a se alternar com o circuito francês de Paul Ricard no calendário da Fórmula 1. Em um ano, todo mundo iria para a Bélgica, No outro, para a França. Fácil.

É isso aí que você leu: vamos ficar sem Spa-Francorchamps ano sim, ano não. Não que Paul Ricard seja a maior das tragédias esportivas. Eu só não aprecio aquele monte de áreas de escape pintadas com a palheta de Mondrian e acho que o relevo é plano demais. Mas ainda é um circuito que passa de ano e com nota bem maior do que Magny-Cours, por exemplo. Além disso, a França é um país espetacular. Ainda vou atravessar o país parando de vinícola em vinícola, vocês vão ver. Por fim, nada mais legal do que um circuito fundado por um cara excêntrico que ficou milionário fazendo uma bebida alcóolica à base de anis.

Mas nada disso compensa a ausência bienal de Spa-Francorchamps, localizada na igualmente espetacular Bélgica. É verdade que a pista não anda tendo lá grandes corridas. É verdade que o traçado é bem menos desafiador do que aquele triângulo que vigorava até os anos 70. Só que Spa é o que ainda nos resta entre os circuitos velozes, desafiadores, seletivos e de cenário deslumbrante da história do esporte. É um dos pouquíssimos focos de resistência da tradição e nostalgia do automobilismo. Um pouco de memória e caldo de galinha não fazem mal. Na verdade, caldo de galinha tem glutamato monossódico e isso é cancerígeno.

Nesta semana, saíram também algumas notas sobre os apuros financeiros das etapas espanholas. O circuito de rua de Valência está ameaçado a partir do momento em que a comunidade anunciou querer rever os valores que são pagos a Bernie Ecclestone para a realização da corrida. A cada ano, 26,8 milhões de dólares saem do caixa de Valência direto para o bolso do pequeno asquenaze. Fora isso, cerca de 14 milhões de dólares são despendidos em custos operacionais. A Espanha está praticamente falida. Estes valores são irreais.

Outra pista que corre risco na Fórmula 1 e também na MotoGP, Barcelona

Nesta semana, a turma de Barcelona também pôs em xeque o fluxo de euros que está sendo gasto para o financiamento da festança.  O ministro da Economia da Catalunha, Andreu Mas-Colell, considerou que não teria problemas em rever se valia a pena continuar torrando dinheiro para a realização das corridas de MotoGP e Fórmula 1. Em 2010, Barcelona gastou 3,8 milhões de dólares com a categoria de Bernie Ecclestone. No ano passado, estas cifras subiram para quase cinco milhões de dólares.  Muita grana para um país cuja variação do PIB é uma das piores do planeta.

Recentemente, Valência propôs a solução da alternância com Barcelona: o GP da Espanha seria mantido e as duas regiões economizariam uma grana bruta, pois só realizariam uma corrida a cada dois anos. Os catalães recusaram, orgulhosos como sempre foram. Pois é bom eles começarem a repensar. A Fórmula 1 tem duas corridas espanholas no calendário, sendo atualmente o único país a contar com o privilégio. A MotoGP, promovida pelo espanhol Carmelo Ezpeleta, abusa de nossa boa vontade: nada menos que quatro das dezoito rodadas do calendário são realizadas no país ibérico, Jerez, Barcelona, Valência e Aragón.

Até alguns anos atrás, a Espanha parecia ser o novo polo do esporte a motor na Europa. A Alonsomania e a sempre poderosa participação no motociclismo pareciam projetar o país a um patamar de elite nas competições motorizadas. Na verdade, o país como um todo parecia estar experimentando um momento de euforia e autoestima, a começar pela gastronomia molecular de Ferran Adrià, que muitos diziam estar superando a tradicional culinária francesa. Mas toda esta felicidade acabou tão logo o país começou a ruir, a partir do fim de 2007.

Perdida entre uma dívida externa que ultrapassa os 65% do PIB, um setor imobiliário em frangalhos após o estouro da bolha especulativa há quatro anos e uma assustadora taxa de desemprego que chegou aos 22% em dezembro, a Espanha é uma das bocas de porco da União Europeia. Para tentar cobrir um pouco do buraco, o país segue emitindo mais dívida a juros altíssimos. A Standard & Pool, uma das agências de rating mais importantes do planeta, aplicou nota AA- aos títulos espanhois. E ainda uma observação negativa: a situação pode piorar.

Bernie Ecclestone, como todo judeu, entende de dinheiro. Entende de economia. Os grandes economistas da humanidade eram judeus, de Adam Smith a Milton Friedman. Bernie poderia estar aí no meio se seu trabalho não fosse levar a Fórmula 1 aos xeiques e aos chineses.  Em novembro, ele foi categórico ao falar do futuro de sua categoria na Europa. “Ela (o continente) acabou. Nos próximos anos, os europeus deverão ter apenas umas cinco corridas”, sentenciou Bernie.

Ecclestone pode ser detestável, mas é um sujeito bastante inteligente. É errado dizer também que ele prefere conviver com barbudos que usam burca e espancam suas treze mulheres ou homenzinhos de olhos puxados que comem escorpião frito com dois palitos. Na verdade, os ingleses não costumam ser muito simpáticos com povos muito distantes. Se Bernie pudesse, passaria sua vida em Mônaco e em Côte d’Azur. Mas ele sabe que o dinheiro não está mais na Europa, e sim com os bárbaros asiáticos. Então, sinto muito, que o pedantismo europeu vá para a casa do cacete, é o que o baixote pensa.

Exatamente por isso, a Fórmula 1 procura incessantemente novas pistas. Neste ano, teremos o tal Circuito das Américas em pleno Texas. No ano que vem, será a vez de Nova Jersey ter seu circuito de sua. Em 2014, a Rússia terá sua primeira corrida de Fórmula 1, que será sediada no circuito de Sochi. Bernie Ecclestone está disposto a usufruir dos abundantes dólares que jorram da economia russa, que enriquece com o extrativismo e esbanja ostentação por meio dos oligarcas. Por outro lado, os EUA nunca deixaram de ser um objetivo de vida da categoria.

OK, e o que você acha da decadência europeia? Eu não só acho uma desgraça como também acho preocupante. Vejo com péssimos olhos este movimento geopolítico. Nossas vidas, e também as dos ilustres do automobilismo, seriam drasticamente afetadas. Para melhor? Ao que me parece, não.

Antes que você apareça aqui com tropas americanas tentando destruir meu bunker e meu reich particular, dê-me ao menos uma chance de explicar. Em primeiro lugar, se você fica feliz com o fato dos EUA, da Europa e do Japão estarem mergulhados em uma crise sistêmica, deverá saber que a humanidade nunca deixa de ter um país dominante ou, no máximo, uma oligarquia de países dominantes. E não me arriscaria a dizer que um país fora deste eixo contemporâneo necessariamente exerça um tipo de comando mais interessante para todos. Se você não liga para isso e sonha com a possibilidade do Nepal mandar no mundo, OK. Agora, se você acha que sua vida permaneceria igual se um país completamente diferente comandasse, sinto dizer, você é tolo.

Gostemos ou não, sejamos nós de direita, esquerda, centro ou do PSD, comamos com garfo, com hashis ou com os pés, devemos admitir que nós vivemos um tipo específico de civilização, pautado em valores ocidentais e judaico-cristãos. O Japão entra na conta, já que assimilou boa parte destes valores desde o fim da Segunda Guerra Mundial. É bom? É ruim? É indiferente? Vai de cada um. Eu acho que a vida contemporânea ocidental está cheia de imbecilidades, exageros e injustiças, mas simplesmente não conseguiria viver em uma tribo amazônica, em uma aldeia no meio do Himalaia ou na Coréia do Norte. Independente de a execução ser correta ou não, nossa civilização tem leis e ideias que permitiram a criação da democracia, da liberdade de expressão, do direito e daqueles conceitos preconizados na Revolução Francesa, como a igualdade e a fraternidade. Temos um ambiente onde o sujeito pode contestar os pais, ficar com alguém do mesmo sexo, consumir o que quiser, xingar os políticos e não dar satisfação a ninguém. Sim, sou um liberal clássico.

Yas Marina, em Abu Dhabi. Não seria este o padrão de automobilismo que os novos "líderes globais" seguiriam?

A Fórmula 1 surgiu neste contexto. Muita gente de esquerda repudia o automobilismo por considera-lo caro, inútil, perigoso, poluidor e injusto, já que ele premia quem pilota o veículo mais rápido. Mesmo sendo um reacionário fascista e diabólico, não deixo de concordar com alguns postulados acima. Mas o fato é que eu e todos os leitores gostamos do negócio. Aprendemos a assistir à Fórmula 1 que corre em Spa-Francorchamps e fuma Marlboro. Do mesmo jeito que nós gostamos de coisas desnecessárias, como chocolate, cerveja pale ale, séries americanas e Street Fighter. Não precisamos de nada destas coisas de consumo de massa, podemos viver perfeitamente bem sem elas. Ainda assim, gostamos e consumimos. Foi a tal civilização ocidental que todos cuspimos em cima que proporcionou estes caprichos a nós.

Pois tudo isso pode acabar, ou ao menos sofrer uma transformação deveras assustadora, se os hegemônicos atuais caírem. Não gosto muito disso. Não sei quanto a vocês, mas me apego a coisas antigas, a tradições. Antes que você pense que meu maior sonho é o retorno da Inquisição, digo que valorizo uma boa corrida antiga, uma marca legal (só eu me entristeci com a falência da Kodak?), um costume de infância, o antigo programa Sílvio Santos ou o fato das pessoas irem ao parque fazer um piquenique. Se tudo isso mudar, para onde o mundo iria? E, sim, uma mudança geopolítica afeta diretamente nossos costumes.

Onde a Fórmula 1 entra nisso? Você, que vive reclamando das pistas tilkeanas no meio do deserto, sabe muito bem. Os asiáticos, que são aqueles que deverão tomar as rédeas do globo nesta década, não têm o mesmo envolvimento emocional com o automobilismo que os ocidentais possuem. Com exceção do Japão (lembre-se: o Japão entra na minha turma dos “ocidentais”), os demais países do grande continente não possuem know-how, material humano ou mesmo disposição para o tipo de automobilismo que nós gostamos. Não duvido que esta situação possa ser revertida, até porque eles têm o dinheiro. O problema é que estes países podem acabar desenvolvendo um tipo de corrida que nós não gostamos. E este tipo de corrida poderia dominar o cenário automobilístico internacional.

Um chinês nunca teve a chance de ver uma corrida em Österreichring. Um paquistanês nunca viu um grid com mais de 24 carros. Um jordaniano não sabe o que é um carro de seis rodas ou um carro asa. Um bengali não imagina que havia equipes de Fórmula 1 que eram compostas por sete pessoas. Um vietnamita acha que toda pista de corrida deve ter áreas de escape de cinquenta hectares. Este pessoal construirá um automobilismo apenas com os seus valores. E este automobilismo terá grandes chances de ser mais chato, mais elitista, mais caro e mais instável do que o que nós conhecemos.

Por isso que fico preocupado com o sumiço dos palcos europeus do calendário da Fórmula 1, do mesmo modo que olho com apreensão para cada notícia ruim que sai da Europa ou dos EUA. Eu reconheço que europeus, americanos e japoneses fizeram um monte de cagadas, algumas delas homéricas e várias até criminosas. Reconheço que estes países pagam pelas suas decisões erradas. Mas ainda valorizo o mundo onde eu nasci, cresci e vivo. Não gostaria de perder elementos da minha vida por causa de uma transição geopolítica. E o automobilismo certamente é um destes elementos.

Pronto, agora vocês podem invadir meu bunker.

PS: Antes que algum engraçadinho venha fazer alguma interpretação obtusa e caluniosa, não tenho absolutamente nada contra asiáticos e demais povos. Sou descendente de asiáticos, aliás. Respeito suas culturas, acho a China pré-1949 uma das coisas mais belas da humanidade, mas não gostaria de vê-las comandando o planeta.

RED BULL9,5 – É chato não poder dar dez a uma equipe que tem um primeiro piloto top de linha, um carro impecável e uma turma de mecânicos e engenheiros dignos da NASA porque seu segundo piloto é um crocodile dundee incapaz de terminar em segundo. Fazer o quê? Sebastian Vettel ganhou mais uma, a sexta do ano, e Mark Webber terminou em terceiro após não conseguir superar Fernando Alonso, mesmo contando com o bom trabalho da equipe nos pits.

FERRARI7,5 – Nesse fim de semana, a equipe contava com o segundo melhor carro do grid e tinha ótimos prognósticos. Infelizmente, nem tudo foi perfeito: o trabalho dos mecânicos no segundo pit-stop de Felipe Massa foi terrível e o brasileiro acabou perdendo cinco segundos. Ainda assim, ele terminou em quinto. Fernando Alonso foi o segundo após boa briga com Mark Webber. Para os atuais padrões da equipe, um bom fim de semana.

MCLAREN6 – O MP4/26 vem despertando preocupações nos pilotos Lewis Hamilton e Jenson Button. Mesmo com Lewis largando na terceira posição, a equipe nunca conseguiu passar perto do pódio e acabou obtendo apenas o quarto e o sexto lugares. A vitória canadense, pelo visto, só aconteceu pelo imponderável.

MERCEDES5,5 – Apagada como na maioria das vezes, a equipe das três pontas não consegue se sobressair em um fim de semana normalzinho e perfeitinho. Nico Rosberg, aniversariante, fez aquela corrida chatinha de sempre e Michael Schumacher se divertiu um pouco mais após destruir o bico de seu carro em um toque com Petrov e cair para o fim do grid.

TORO ROSSO6,5 – Trouxe alterações aerodinâmicas em Valência, mas o que salvou o fim de semana da equipe foi a atuação de Jaime Alguersuari, que saiu da 18ª posição para a oitava após fazer uma parada a menos na prova. Sébastien Buemi fez o de sempre. Os dois pilotos estão com os mesmos oito pontos no campeonato e a briga pela sobrevivência na equipe seguirá encardida até o fim do ano.

FORCE INDIA6 – Poderia ter marcado pontos com os dois carros, mas teve alguns pequenos contratempos que atrapalharam tudo. Na sexta-feira, Nico Hülkenberg bateu o carro de Paul di Resta e atrasou os trabalhos dos indianos com o segundo carro. Na corrida, Adrian Sutil andou bem e marcou dois pontos. Di Resta até tentou, mas teve problemas com a estratégia e ficou de fora dos pontos. Aos poucos, a ordem se reestabelece.

RENAULT3,5 – Aparentava ter um carro bem melhor nos treinos do que na corrida, o que parecia provado pelo segundo lugar de Vitaly Petrov em um dos treinos livres. Na classificação, apenas Nick Heidfeld passou para o Q3. Na corrida, os dois pilotos não conseguiram ganhar posições e apenas um pontinho foi feito pelo alemão. Sem grana, a equipe parece ter estacionado no desenvolvimento do carro.

SAUBER2 – Nem mesmo a ótima capacidade do C30 em poupar pneus ajudou Kamui Kobayashi e Sergio Pérez, que terminaram a corrida sem pontuar. Os dois largaram lá no meio do bolo e, sem a ajuda dos abandonos e de pontos de ultrapassagem, ficaram por lá mesmo. Pior corrida do ano para os suíços até aqui.

WILLIAMS2,5 – Rubens Barrichello até obteve um resultado razoável ao terminar em 12º, considerando que o carro de Frank Williams aparenta ser o pior entre as equipes normais. Pastor Maldonado, por outro lado, teve outro fim de semana ruim, com direito a um problema de câmbio no Q2 da classificação. É outra equipe que precisa urgentemente de dinheiro para melhorar.

LOTUS3,5 – Não fez nada de muito diferente daquilo que vem fazendo neste ano. Tanto Heikki Kovalainen como Jarno Trulli ficaram à frente da Virgin e da Hispania com facilidade, e só. Eles ainda chegaram a brigar um pouco com Pastor Maldonado, mas a Williams ainda está furos à frente. Sem abandonos, ficou lá entre o 19º e 20º mesmo.

VIRGIN3 – Com Glock, a equipe parecia até um pouco mais próxima da Lotus. Com D’Ambrosio, ela parecia tão patética quanto a Hispania. O caso é que ambos os carros terminaram e o alemão ganhou um monte de posições na largada, mas acabou perdendo terreno conforme a corrida passava.

HISPANIA2 – Em casa, como sempre, não deu pra fazer porcaria nenhuma. Os dois pilotos, Vitantonio Liuzzi e Narain Karthikeyan, reclamaram um bocado do carro. Sem abandonos, ambos ficaram relegados à 23ª e à 24ª posições. Pelo menos, chegaram ao fim mais uma vez.

CORRIDABOM PARA VALÊNCIA – De verdade, ninguém liga a TV esperando ver aquela corrida sensacional e inesquecível. Eu mesmo estava tão ansioso que só me lembrei que haveria uma corrida no sábado de manhã! Por isso, a vontade de ver a prova (e de escrever sobre ela) estava lá no chão. Pelo menos, até me surpreendi positivamente: já tivemos corridas muito piores de Fórmula 1 no circuito de Valência, que gosto muito. Sebastian Vettel venceu liderando quase todas as voltas e Fernando Alonso acabou deixando Mark Webber para trás. Mais atrás, as brigas eram mais intensas, mas nada que chamasse muito a atenção. Enfim, corrida boa para os padrões valencianos e chatíssima para o que temos visto neste ano.

TRANSMISSÃOFSSST! – Como não prestei atenção em boa parte da corrida, não tenho lá grandes lembranças. Achei engraçado o “FSST” que o narrador global soltou quando quis descrever a largada fulminante de Felipe Massa. Suas onomatopeias relacionadas a pilotos brasileiros viraram atração à parte neste ano. Destaco também a explicação dada em conjunto com o piloto-comentarista sobre o que significa “engazopar”. E termino com uma das melhores frases ditas até aqui: “estamos na volta 43. Depois dela, a 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11…. opa, aí é 51”. 51 é o que esses caras bebem antes das transmissões. Fsst!

GP2O RENASCIMENTO PARA ALGUNS – Amanhã, escrevo texto sobre um dos camaradas que correm na GP2. Hoje, falo apenas das duas corridas. Na primeira, venceu o franco-suíço Romain Grosjean, que herdou a vitória após o pole Charles Pic não conseguir largar e o primeiro líder Giedo van der Garde ser punido por ultrapassar em bandeira amarela. Van der Garde, posteriormente, se meteu em uma briga encarniçada com Davide Valsecchi e se deu bem, terminando em segundo. Na corrida de domingo, o mexicano Esteban Gutierrez afastou o azar que o acompanhava e venceu sua primeira corrida na categoria. Em segundo, outro que vinha devendo um bom resultado, o baiano Luiz Razia. Gutierrez é o único piloto da ART Grand Prix a ter vencido uma corrida neste ano. E o seu companheiro? Fez um corridão de recuperação no domingo, mas não pontuou. Será o assunto amanhã.

SEBASTIAN VETTEL10 – Não há muito mais o que dizer. Pole-position com direito a recorde de pista. Liderança em todas as voltas menos uma, aquela em que Massa liderou enquanto os outros paravam. Volta mais rápida. Seis vitórias em oito. Entreguem o título para ele e recomecemos o ano do zero.

FERNANDO ALONSO - 9 – Você pode achar o espanhol um cara chato, marrento, mascarado e baixote, mas não pode negar que trata-se de um grande piloto. Pulou para terceiro na largada, fez uma boa ultrapassagem sobre Webber após a primeira rodada de pit-stops e conseguiu usufruir do bom trabalho dos mecânicos da Ferrari para recuperar a segunda posição do mesmo Webber na última rodada de pit-stops. Ótimo segundo lugar.

MARK WEBBER7,5 – Diz ele que foi sua melhor corrida no ano. Difícil concordar com ele. O australiano até fez seu trabalho no treino classificatório, colocando seu carro na segunda posição do grid. Na largada, quase foi ultrapassado por Massa. Durante a corrida, levou uma ultrapassagem de Alonso após a primeira parada, recuperou a segunda posição na segunda parada e perdeu na terceira. Lembrando que seu carro é um Red Bull, terceiro lugar magro.

LEWIS HAMILTON7 – Sem um carro que pudesse peitar Red Bull e Ferrari, não apareceu. Ainda foi bem no sábado ao obter a terceira posição no grid. No dia seguinte, largou mal e teve enormes dificuldades com os pneus, sendo sempre o primeiro a realizar suas três trocas entre os pilotos de ponta. Quarto lugar apenas morno, mas que representa enorme avanço após as bobagens das duas últimas corridas.

FELIPE MASSA7,5 – Trabalho bastante digno em uma pista bastante apreciada por ele. Fez um razoável quinto lugar no treino classificatório e chamou a atenção de todos na largada, quando passou Hamilton e Alonso logo nos primeiros metros e quase engoliu Webber na primeira curva. Temendo um toque com o australiano, tirou o pé e acabou perdendo uma posição para o companheiro espanhol. Depois, perdeu um pouco de rendimento e ainda sofreu com os costumeiros problemas ferraristas no seu segundo pit-stop, o que lhe custou cinco segundos. Ainda assim, resultado honesto.

JENSON BUTTON - 6,5 – Rei na última corrida, Jenson foi apenas mais um súdito na Espanha. Fez apenas o sexto tempo no sábado e, como de costume, manteve-se cauteloso durante a maior parte da corrida. O destaque maior vai para a boa ultrapassagem sobre Rosberg no início da corrida. Mesmo assim, não conseguiu se aproximar de Felipe Massa para uma briga real. Até certo ponto de maneira surpreendente, é o vice-líder.

NICO ROSBERG6 – Em um fim de semana sem grandes reviravoltas, o andrógino da Mercedes restringiu-se a fazer o arroz-e-feijão de sempre. Largou da sétima posição, passou Button na primeira curva e sustentou-se à frente até ser ultrapassado pelo inglês cinco voltas depois. Após isso, só correu para chegar em sétimo.

JAIME ALGUERSUARI - 7,5 – Assim como costuma acontecer com Button e Heidfeld, é difícil avaliar um sujeito que vai muitíssimo melhor na corrida do que na classificação. Teve problemas nos treinos livres e sobrou no Q1 do treino classificatório. Apostou em uma arriscada estratégia de apenas duas paradas e se deu muitíssimo bem na prova, ganhando posições a rodo. Terminou em um excelente oitavo lugar que o igualou ao seu companheiro de equipe na tabela do campeonato. Se não é gênio, pelo menos se esforça bastante.

ADRIAN SUTIL6,5 -A passos consideráveis, o alemão vem recuperando terreno em relação ao companheiro Di Resta. Sempre competitivo nos treinos, salvou-se por pouco no Q3 da classificação e optou por não participar da última sessão para economizar um jogo de pneus. Na corrida, passou Heidfeld na largada e esteve sempre entre os dez primeiros. Terminou colado em Alguersuari, mas não passou do nono lugar. Ainda assim, bom resultado.

NICK HEIDFELD5 – Caso raro de fim de semana melhor no sábado do que no domingo. No treino oficial, superou o companheiro de equipe e foi o único da Renault a ir para o Q3. Na corrida, largou mal, perdeu uma posição para Adrian Sutil e andou a maior parte do tempo em décimo. Chamou a atenção apenas em uma boa ultrapassagem sobre Pérez, mas não conseguiu mais do que um único ponto no final.

SERGIO PÉREZ4,5 – Resultado bom para alguém que não conseguiu correr em Montreal e que chegou a sofrer de tonturas na sexta-feira. Largou em 16º, apostou em uma estratégia de apenas uma parada e ganhou algumas posições na corrida, embora tenha sofrido com problemas nos pneus. Faltou apenas mais uma posição para marcar um pontinho.

RUBENS BARRICHELLO4 – Sem poder contar com abandonos, acabou ficando lá no meio da turma sem qualquer bom horizonte. Largou em 13º e terminou em 12º após uma corrida sem grandes emoções.

SÉBASTIEN BUEMI4,5 – Até tinha chances de fazer mais do que seu companheiro, mas não deu muita sorte. Largou da 17ª posição, ganhou três posições na primeira volta e chegou a sonhar com pontos. No entanto, sua estratégia de três paradas não lhe deu qualquer diferencial que o permitisse dar o pulo do gato. Fim de semana inútil, que só serviu para aumentar a moral de seu companheiro.

PAUL DI RESTA5 – Começou prejudicado seu fim de semana, já que o reserva Nico Hülkenberg danificou seu carro em um acidente na sexta-feira. No sábado, ainda foi razoavelmente bem e fez o 12º lugar no grid. Na corrida, apesar de ter feito algumas ultrapassagens, teve problemas com a estratégia e acabou ficando de fora dos pontos.

VITALY PETROV2,5 – Fez sua pior corrida desde há muito tempo. Seu único bom momento foi ter ficado em segundo em um dos treinos livres. No treino classificatório, sobrou no Q2 pela primeira vez no ano. Na corrida, largou pessimamente mal e não conseguiu se recuperar em momento algum. De quebra, ainda foi tocado pela Mercedes de Schumacher e acabou passando por sobre o bico do carro do alemão.

KAMUI KOBAYASHI3 – Nem ele conseguiu chamar a atenção. No treino oficial, fez o 14º tempo. Na corrida, confiando na boa capacidade de poupar pneus do seu Sauber, decidiu apostar em apenas duas paradas para ver no que dava. Como teve de poupar pneus, não conseguiu manter um bom ritmo e acabou terminando lá atrás. Deve ter sido, talvez, sua corrida mais fraca na Fórmula 1.

MICHAEL SCHUMACHER2 – Sem maiores problemas, provavelmente terminaria em oitavo. Em termos de ritmo, ele está cada vez mais próximo do companheiro Nico Rosberg. Falta-lhe, no entanto, a tocada mais conservadora que vem ajudando o alemão mais jovem. Após fazer sua primeira parada, Michael acabou tocando o Renault de Petrov e teve de voltar aos pits para colocar um bico novo. Com isso, caiu para a 22ª posição e só lhe restou passar carros mais lentos para terminar em um insignificante 17º lugar.

PASTOR MALDONADO - 1,5 – Fora a turma das nanicas, é o piloto que mais se ferra no grid. Mesmo sendo um especialista em pistas de rua, o venezuelano não fez nada em Valência. Saiu da 15ª posição do grid, teve problemas de câmbio no Q2, largou mal na corrida e passou boa parte do tempo misturado entre Lotus, Virgin e Hispania. No fim, ficou à frente deles, o que não deixa de ser obrigação. Foi o único piloto das equipes antigas a ser ultrapassado por Schumacher. Precisa urgentemente de sorte – e de velocidade.

HEIKKI KOVALAINEN4 – Na segunda divisão da categoria, como ocorre na maioria das vezes, foi o que se deu melhor. Mesmo parando três vezes, conseguiu ficar à frente dos adversários diretos e se sentiu satisfeito com sua corrida e com o carro esverdeado. Resultado bom para alguém que foi atropelado por Mark Webber na edição do ano passado.

JARNO TRULLI3,5 – Apesar de deprimido, ainda faz um trabalho honesto. Apesar de raramente bater Kovalainen, também nunca ficou muito atrás do companheiro nórdico. Na corrida, chegou a ficar à frente de Maldonado durante algumas voltas. No fim, terminou em sua posição típica: atrás do companheiro e à frente de Virgin e Hispania.

TIMO GLOCK4,5 – Até me arrisco a dizer que fez mais do que o carro permitia, sendo o piloto que mais me chamou a atenção lá no fundão. No treino oficial, mesmo dirigindo um mobilete avermelhado, ficou a apenas três décimos do Lotus de Trulli. Na corrida, fez uma excelente largada e chegou a andar em 18º. Depois, acabou sendo deixado para trás pela Lotus, mas ainda ficou à frente do companheiro. Para alguém em sua situação, bom fim de semana.

JERÔME D’AMBROSIO2,5 – Mal no treino oficial, ficou a mais de um segundo de Timo Glock e chegou a ficar atrás de uma Hispania. Na corrida, conseguiu se recuperar e deixou Liuzzi para trás. Ainda assim, só se arrastou até a bandeirada e não fez nada de mais.

VITANTONIO LIUZZI - 4 – Sujeito esforçado. No sábado, chegou a largar à frente de D’Ambrosio. No domingo, fez uma boa largada e chegou a ultrapassar o Williams de Maldonado. Depois, sucumbiu à ruindade de seu carro. Pelo menos, surrou seu colega de equipe.

NARAIN KARTHIKEYAN2 – Além de ter sido o primeiro piloto de seu país a correr na Fórmula 1, é o primeiro piloto da história da categoria a cruzar a linha de chegada em 24º. O duvidoso privilégio foi obtido após ficar a mais de um segundo do penúltimo colocado no treino oficial e não conseguir um mínimo de desempenho durante a corrida.

GP DA EUROPA: Muito antes dos burocratas do Velho Continente se unirem em algo chamado União Europeia, a Fórmula 1 já reservava um espaço para uma corrida disputada em um circuito europeu aleatório qualquer que pudesse substituir uma eventual prova cancelada. Esta corrida já foi disputada em Brands Hatch, Jerez, Donington Park e Nürburgring antes de ganhar uma sede definitiva, a cidade portuária de Valência. Muita gente não gosta deste circuito, por ser travado, feio e criado pelo mal-amado Hermann Tilke. Eu gosto, por lembrar Long Beach lá de longe. Além do mais, convenhamos, uma região portuária de uma velha cidade europeia é sempre muito mais simpática do que aquelas cidades de mentira do Oriente Médio.

DIFUSOR SOPRADO: Taí um negócio que já ganhou inúmeras denominações: difusor aquecido, difusor soprado, ignição tardia e por aí vai. Pelo que minha limitada compreensão captou, trata-se de um sistema que espirra um pouco de gasolina para o motor de modo a mantê-lo acelerado no momento em que o piloto tira o pé do acelerador. Este sistema permitia que o motor funcionasse a quase 90% quando o acelerador é “desligado” – é um punta-taco eletrônico, por assim dizer. Bacana, assim como boa parte das inovações sutis dos últimos anos. Mas a FIA, sempre ela, pisa em cima da meritocracia e anuncia o fim do tal difusor para Silverstone. Houve, no entanto, quem quis adiantar o banimento para Valência. E a distinta Federação, desta maneira, segue matando o pouco que resta de criatividade e ousadia na outrora gloriosa Fórmula 1.

BUTTON: É o cara, ainda mais depois de vencer de maneira primorosa o Grande Prêmio do Canadá. Recentemente, o jornal Marca até andou sugerindo que a Ferrari poderia colocá-lo no lugar de Felipe Massa em 2012 – algo veementemente rechaçado pelos italianos hoje mesmo. De qualquer maneira, Jenson é um cara que consegue ser uma quase unanimidade: é veloz, inteligente, simpático, tem cara de artista e uma namorada fora de série. No Censo, que terá resultados publicados semana que vem, ele foi um dos mais citados. É o cara.

SILLY SEASON: Para quem escreve sobre Fórmula 1, a silly season é um dos períodos mais aguardados. Afinal, é aquela época na qual podemos divergir sobre quem vai para aonde, podendo apostar nas possibilidades mais esdrúxulas e torcer por fulano ali, sicrano acolá e beltrano na puta que o pariu. Mas até agora, muito pouco foi falado sobre o ano que vem. Não há boatos, não há equipe querendo entrar, não há piloto com medo do desemprego, não há mafioso russo querendo comprar equipe pequena, não há gente devendo até as calças, não há nada além de silêncio e bolas de feno voando. Lembre-se: estamos entrando em julho. Já está mais do que na hora da boataria começar.

PIETSCH: Sem grandes assuntos, comento sobre a notícia mais importante dos últimos tempos: o alemão Paul Pietsch, o piloto de Fórmula 1 mais antigo entre os que ainda vivem, completou 100 anos hoje, sendo o primeiro ex-piloto a fazê-lo. Curiosamente, Pietsch já foi citado por cima em um post meu, quando falei sobre o circuito de Nordschleife. O cara é tão antigo que seu primeiro Grand Prix foi o da Alemanha em 1932! Naquela corrida, disputada no mesmo Nordschleife, Pietsch abandonou ainda na primeira volta, com o radiador de seu Bugatti furado. Correram contra ele gente como Tazio Nuvolari, Rudolf Caracciola, Louis Chiron e René Dreyfus. E, em pleno 2011, Pietsch está aí, lúcido e saudável. Pode parecer bizarro falar isso, mas que venham mais anos para Paul Pietsch!

BANDEIRA VERDE: Normalmente, eu só comento sobre cinco assuntos aleatórios. No entanto, uso esse espaço para dizer que esta semana está uma correria dos infernos para mim e que não teremos post na quarta-feira. Farei, sim, a continuação do Censo, dessa vez com outra pergunta. Não me deixem só. Ainda.

Grande Prêmio da Austrália: a Qantas financia um pouquinho. O resto fica por conta do cidadão local

Os sinais são bem claros.

Na quinta-feira passada, Bernie Ecclestone ligou para Gianni Alemanno, alcaide de Roma, para dizer que não haveria mais uma corrida de Fórmula 1 a ser realizada na capital italiana. A mídia repercutiu a ligação com força. No dia seguinte, o promotor da futura corrida, Maurizio Flammini, anunciou que não era bem assim e que Ecclestone, na verdade, propôs uma alternância entre Monza e Roma como sedes do GP da Itália. O jornalista inglês James Allen, macaco velho do meio, interpretou a sugestão como uma simpática maneira de Bernie sugerir que não queria mais saber de Roma.

Bernie Ecclestone foi a última pessoa importante a se manifestar contra a corrida de Roma. Antes dele, muita gente importante e até mesmo insuspeita nesse assunto já havia se pronunciado a respeito. Luca di Montezemolo, um dos sujeitos mais poderosos de seu país, disse que era contra haver mais de uma corrida em um mesmo país e que a preferência deveria recair sobre novos mercados. Em pesquisa recente, 80% dos moradores da cidade dizem discordar da realização da corrida. E o próprio prefeito de Roma declarou que o circuito de Monza é historicamente mais importante.

Com exceção de Flammini, que parece não passar de mais um italiano picareta, ninguém quer essa corrida em Roma. A princípio, é estranho ver tanta gente que seria beneficiada pela Fórmula 1 rechaçando a categoria. Na verdade, não é. Ao contrário do que a expansão do calendário do campeonato nos últimos anos sugere, cada vez menos gente está interessada em receber a Fórmula 1. E cada vez mais países estão interessados em pular fora.

Os australianos, por exemplo, estão cansados de perder dinheiro com a Fórmula 1. Em 2010, a organização do Grande Prêmio da Austrália registrou prejuízos de 49 milhões de dólares. Em 2009, as perdas foram de 40 milhões de dólares. Para não dizer que a culpa é da crise econômica de 2008, as perdas de 2006 ultrapassaram os 20 milhões de dólares. Somando todas as perdas, o GP já sumiu com nada menos que 200 milhões de dólares! Alguns políticos locais de mentalidade mais austera consideram que a Fórmula 1 é um gigantesco ralo onde se escoa uma considerável parcela de recursos públicos. E estão certos.

Grande Prêmio da Bélgica: ameaçado por questões financeiras e sonoras

O GP da Austrália é patrocinado pela Qantas, maior companhia aérea do país. Pelo que pude apurar, a empresa paga cerca de 3 milhões de dólares para estampar seu nome na denominação oficial do Grande Prêmio (Qantas Grand Prix of Australia) e para espalhar seu logotipo por várias partes do circuito. 3 milhões de dólares é quirera perto dos custos necessários para a realização da corrida. O restante da grana vem do governo. Assim como acontece com praticamente todas as corridas do calendário.

Os defensores da corrida australiana alegam que a corrida em Melbourne é uma das medidas de revitalização do local, que não era lá aquelas coisas até meados dos anos 90, e também um poderoso propulsor do turismo no país. Tudo besteira. Em 1995, muitos habitantes de Melbourne reclamaram um monte sobre a transferência da corrida australiana de Adelaide para seu parque municipal. Há três anos, um auditor independente concluiu que a corrida não só não turbinou o turismo em Victoria, estado onde se localiza Melbourne, como também não rendeu os dividendos esperados. O GP da Austrália pode ser muito divertido, mas representa um fardo pesadíssimo e despropositado para o contribuinte australiano.

O caso australiano não é único. Para desespero dos seus muitos fãs, o Grande Prêmio da Bélgica é outro enorme problema. Entra ano, sai ano, e a corrida de Spa-Francorchamps segue ameaçada para os anos seguintes. Nós podemos reclamar muito, mas não temos como discordar 100% dos motivos. Muitos habitantes das pacatas cidadezinhas locais reclamam muito do barulho dos motores. E eles não estão errados, já que devem escutá-lo em boa parte dos fins de semana do ano (lembrando que não existe só a Fórmula 1). Além do mais, até onde eu sei, não foi a região de Spa-Francorchamps que se desenvolveu após o surgimento do circuito, mas exatamente o contrário. Logo, os nativos têm todo o direito de reclamar.

Mas o pior dos motivos é financeiro, é claro. A corrida belga, assim como a australiana, é uma enorme privada de recursos públicos. Ela é 100% financiada com o dinheiro dos contribuintes e só traz como contrapartida prejuízos. Em 2009, a organização da corrida reportou perdas de 6,6 milhões de dólares. E 2010 deve ter sido ainda pior, já que as vendas de ingressos foram bem inferiores às do ano anterior. Mergulhados em profunda crise, os europeus estão cansados de perder dinheiro para o Estado. Uma corrida de Fórmula 1, nesse contexto, não passa de um capricho estúpido.

Australianos e belgas são os exemplos mais extremos de uma dura realidade edulcorada pelo glamour do esporte. Há outros exemplos. A China, país de mais de 1,5 bilhão de habitantes, é incapaz de lotar suas arquibancadas. Os chineses não se interessam pela Fórmula 1 e a categoria já não sabe mais o que fazer para conquistar este poderosíssimo mercado. Outros países asiáticos, como a Malásia e a Turquia, também lamentam arquibancadas vazias, desinteresse generalizado e perspectivas cada vez mais sombrias. O que salva todas essas “novas corridas” é o dinheiro público de governantes oportunistas e irresponsáveis. E se a torneira fechar um dia?

Grande Prêmio da China: aquele CHINA ali é uma maneira de preencher as arquibancadas vazias

Isso está para acontecer com o Grande Prêmio da Europa, realizado no circuito de rua de Valência. Seu organizador, Francisco Camps, praticamente implorou a Ecclestone para que seja liberado do contrato leonino que garante a corrida até 2012. Os números são absurdamente negativos. Foram gastos 120 milhões de dólares apenas na construção do circuito. Anualmente, 40 milhões de dólares são gastos com a realização da corrida, sendo que 24 milhões são depositados diretamente em contas de Bernie Ecclestone localizadas em paraísos fiscais. E quanto a organização consegue recuperar? Em 2010, por volta de míseros 13 milhões de dólares, o que não paga nem a comissão de Ecclestone. O buraco é financiado, mais uma vez, pelo governo.

Segundo o que andei lendo, de todas as 19 etapas realizadas em 2010, apenas o Grande Prêmio da Inglaterra é lucrativo. Os ingleses são doidos por corridas e, faça chuva ou faça sol, lotam as arquibancadas de Silverstone. Os patrocinadores, como o banco Abbey, são bastante generosos e o resultado é positivo. As demais corridas, no entanto, apresentam apenas abstrações como “retornos institucionais” ou, na melhor das hipóteses, vantagens absolutamente indiretas. O GP do Brasil, por exemplo, é o evento internacional que mais traz grana para São Paulo. Mas devemos considerar que Sampa é uma cidade de excelente infra-estrutura que não tem nenhum outro grande atrativo turístico natural. Nesse caso, uma corrida de Fórmula 1 só faz bem para ambos os lados: os gringos se divertem com cerveja, putas e churrasco e os paulistanos conseguem turbinar os setores de turismo e de serviços. Eu diria que uma corrida de Fórmula 1 só funciona verdadeiramente nesse caso.

Prejuízos, desinteresse, reclamações dos habitantes locais… É sintomático ver tantos argumentos contra uma corrida de Fórmula 1. A verdade é que Bernie Ecclestone impõe um estilo de grande prêmio que se mostra financeiramente insustentável, urbanisticamente inútil e esportivamente desinteressante. As corridas acabam trazendo benefícios reais para apenas uma pessoa: ele mesmo.

Com isso, a tendência, a médio prazo, é haver cada vez menos países “responsáveis” no calendário. Bernie Ecclestone será obrigado a negociar com políticos extravagantes ou simplesmente irresponsáveis que se disponham a cumprir todas as miseráveis cláusulas de realização de uma corrida, o que inclui enormes quantias de recursos públicos destinadas à Fórmula 1. Você acha ruim ter corrida em locais antidemocráticos como a China ou Abu Dhabi? Prepare-se, porque a coisa tende a piorar.

Quem quer a Fórmula 1? Os políticos responsáveis não querem. Os contribuintes não querem. Os torcedores estão querendo cada vez menos. Ela vai acabar ficando nas mãos de Hassanal Bolkiah, Hugo Chavez, Robert Mugabe e Nursultan Nazarbayev.

E a Fórmula 1 segue fazendo seu papel de Fodor automobilístico. Dessa vez, o novo país a ser desbravado é a Coréia do Sul, aquela que é capitalista. O circuito de Yeongam, preparado às pressas após uma série de problemas e um cronograma mais desorganizado do que república de estudantes, recebeu algumas horas atrás os primeiros treinos livres do Grande Prêmio da Coréia. E, surpreendentemente, a pista agradou a muita gente, inclusive a mim. Os trechos de alta velocidade são realmente velozes, o retão é visualmente interessante e os pontos de freada forte complicam a vida dos paupérrimos pilotos. E ainda tem algumas peculiaridades, como o muro que circunda as curvas 16 e 17 e aquela zebra da curva 18, na qual o carro passa por cima em alta velocidade, jogando um monte de terra na pista. Tudo legal, muito legal.

Mas é claro que Hermann Tilke, o arquiteto semi-oficial da Fórmula 1, não podia deixar de colocar suas marcas registradas. Eu reconheço que o circuito é bem diferente das demais pistas do calendário, mas alguns conceitos tipicamente tilkeanos estão lá. Você sabe reconhecer as tendências dos circuitos desenhados pelo lápis maroto do alemão? Agora, saberá.

5- CURVÃO ARREDONDADO DE ALTA


Este é um tipo de curva que poucos reparam, até porque não é utilizado na maioria dos circuitos feitos por Tilke. Em Yeongam, ele está lá, representado pela curva 17. Em poucas palavras, é uma curva de alta velocidade no qual o carro percorre um trecho circular rodeado por muros. O piloto simplesmente faz uma única tangência com o pé no acelerador. Um carro sem muito downforce sofre para completar esse tipo de trecho. Um argumento possível para o uso cada vez mais comum deste tipo de curva é a possibilidade de aproximação e formação de vácuo para uma tentativa de ultrapassagem.

Além de Yeongam, o circuito de rua de Valência é cheio de trechos deste tipo. O primeiro é a curva 1, uma continuação da reta dos boxes. O piloto entra com o pé cravado no acelerador e apenas mantém o volante esterçado levemente para a direita. Há a curva 7, no qual o piloto faz um leve movimento sutil para a esquerda enquanto acelera ao máximo. Há a curva 11, talvez o trecho mais veloz da pista, no qual o piloto esterça para a esquerda enquanto acelera por um longo trecho. E há o trecho que liga as curvas 15 e 16, no qual o piloto também mantém o carro esterçado à esquerda. Há quem considere esta uma sequência, mas o movimento de volante do piloto é tal que dá pra considerar o conjunto como uma curva só.

4- SEQUÊNCIA DE CURVAS DE BAIXA


O maior alvo de críticas do modelo tilkiano de circuitos é o excesso de trechos de baixa velocidade. A maioria dos circuitos assinados por Tilke tem ao menos um complexo de curvas de primeira e segunda marcha separadas por pequenas retas ou, em alguns casos, simplesmente conectadas umas às outras, formando algo próximo de um ziguezague. A explicação do arquiteto para isso é simples. Sequências de curvas de baixa aproximam os carros, permitindo que o que está atrás cole na traseira do que está na frente e comece a tentativa de ultrapassagem a partir do momento em que um trecho mais veloz ou uma reta se aproxime. Na teoria, faz sentido. Mas se o carro que está atrás é tão dependente de um ar limpo e não consegue lidar com a turbulência gerada pelo carro da frente, do que adianta?

O fato é que as sequências existem e serão cada vez mais comuns, se depender de Hermann Tilke. O circuito barenita de Sakhir inaugurou neste ano um complexo de nove curvas de baixíssima velocidade que liga as antigas curvas 5 e 6. Criticado por todos, ele não reaparecerá em 2011. Yas Marina tem várias sequências de baixa velocidade, especialmente na parte final. Yeongam tem as lentíssimas curvas 4, 5 e 6, que antecedem o retão de mais de um quilômetro. E até mesmo o veloz circuito de Istambul tem três curvas consecutivas, 12, 13 e 14, que quebram a velocidade para aproximar os carros na reta dos boxes.

3- COTOVELO


O que é exatamente um cotovelo? É difícil dar uma explicação exata, então vou utilizar a nomenclatura para designar dois tipos de curvas. Um dos tipos de cotovelo é aquele que se assemelha muito ao Hairpin do circuito de Suzuka: uma curva de baixa velocidade, grande angulação e diâmetro curtíssimo que forma um “U”. Sepang tem uma curva assim, a 15, que está localizada ao lado da grande arquibancada e desemboca na reta dos boxes. Yas Marina também tem um, a curva 7, que também desemboca em um retão.

O outro tipo de explicação para cotovelo é aquela curva bastante pontiaguda, de baixa velocidade e raio minúsculo. Este tipo de trecho é muito comum em circuitos tilkeanos. Shanghai tem a curva 6 e a curva 14. Marina Bay tem vários, mas o que se destaca é a curva 13, que sai de uma ponte. Valência também tem muitos, e destaco as curvas 12, 17 e 25, que saem de trechos de alta velocidade. Sakhir tem a primeira curva, que sempre faz bicos voarem. E até mesmo o antigo A1-Ring, primeiro trabalho de Tilke para a Fórmula 1, tinha vários cotovelos que separavam as retas.

2- RETÃO


Sempre que vejo um circuito novo com um retão e uma descrição do tipo “maior reta do calendário da Fórmula 1”, dou risada. A cada novo projeto, Hermann Tilke supera sua antiga “maior reta do calendário da Fórmula 1” com uma ainda maior. Atualmente, o honroso título está com o segundo retão de Yeongam, que tem um pouco menos de 1,2 quilômetro de extensão. Antes dele, o quase novo Yas Marina era o detentor do título, com cerca de 1,173 km de reta, apenas alguns metros a menos que o circuito coreano. E aquele retão de Shanghai é um pouco menor que os outros dois retões, creio eu. Sakhir e Sepang também têm retas de tamanho considerável. O argumento é óbvio: retas maiores permitem um maior tempo de vácuo e são, obviamente, os melhores trechos para executar uma ultrapassagem.

No entanto, obra nenhuma de Hermann Tilke supera os 1.475 metros da maior reta da história da categoria, aquela reta dos boxes do remodelado circuito de Fuji, que esteve no calendário em 2007 e 2008. Mas não pensem que vai ficar assim. O circuito americano de Austin, um dos projetos futuros de Tilke, terá uma reta de sei lá quantos quilômetros, bem maior do que qualquer uma que já existiu. Como se vê, não há limites para ele.

1- SEQUÊNCIA DE CURVAS DE ALTA NA MESMA DIREÇÃO


Para quem não acredita na criatividade de Hermann Tilke na hora de desenvolver um trecho veloz e que quebre a cabeça dos pilotos, eis que o arquiteto nos presenteia com a curva 8 de Istambul, aquela que chamei certa vez de “melhor curva da década”. E não é só a melhor curva da década, mas também a mais desafiadora da Fórmula 1 atual. Mais que a Eau Rouge? Pô, a curva belga pode ser feita perfeitamente com o pé cravado no acelerador e com alguns toques sutis no volante. A curva 8, ao contrário, faz o piloto brigar com o carro, com o acelerador, com a tangência, com a força centrífuga e com a mãe.

Mas o que há de tão espetacular nessa curva? Ela é basicamente uma sequência de quatro curvas de alta feitas à esquerda. Cada curva tem seu raio e sua tangência ideal e o piloto deve saber mudar a tangência sem perder muito tempo ou o carro. É uma tarefa inglória, e muitos perdem a dianteira ao tentar completá-la o mais rápido possível. O carro precisa ter um acerto que privilegie o comportamento da parte dianteira: se ele sofre de subesterço, não conseguirá passar incólume pelo trecho. Esta é a solução que Tilke encontrou para fazer os pilotos cometerem erros.

De certa forma, este tipo de curva é uma solução até comum nas pistas de Tilke. A nova pista de Austin terá um trecho muito parecido com a sequência turca, mas com as curvas sendo feitas à direita. O circuito de rua de Valência tem um trecho com natureza semelhante, as curvas 19 e 20, nas quais o piloto acelera e vira levemente à direita, tendo de corrigir levemente para entrar na segunda curva. E outras pistas como Shanghai e Sepang também utilizam o conceito de juntar curvas de mesma direção e tangenciamento distinto, ainda que com velocidades reduzidas.

RED BULL - 8 - Quando não é um, é outro. Dessa vez, Sebastian Vettel venceu a corrida de maneira impecável. Webber? Largou mal, arriscou uma estratégia duvidosa e causou um dos mais espetaculares acidentes da história da Fórmula 1. Ao menos, provou que o RB6 é bastante seguro. A equipe não consegue fazer uma única corrida boa com seus dois carros.

MCLAREN - 8,5 - É uma equipe bem mais coesa que a Red Bull. Não venceu, mas colocou seus dois pilotos no pódio. Ambos lideram um campeonato que deveria estar fácil para sua concorrente rubrotaurina. Hamilton, como sempre, espertão. Button, como sempre, oportunista.

WILLIAMS - 8 - Até agora, a melhor apresentação da equipe no ano. Rubens e Nico largaram entre os dez primeiros e se manteriam entre eles até o final, mas o alemão teve um pequeno incêndio no carro. Barrichello terminou em um ótimo quarto lugar. Pela primeira vez, uma melhora visível no FW32 foi percebida.

RENAULT - 7 - Tinha um carro bom para Valência, algo que deu pra perceber no treino de classificação. Kubica, mais uma vez, levou o carro até o limite e terminou em quinto. Petrov, mais uma vez, não fez nada. A equipe francesa vem se aproximando da Mercedes a largas braçadas.

FORCE INDIA - 7,5 - Resultados parecidos no treino de classificação e diferentes na corrida: Sutil largou imediatamente à frente de Liuzzi, mas fez uma ótima corrida, ganhou posições e terminou em sexto. Liuzzi desapareceu. O alemão vem trazendo a equipe nas costas.

SAUBER9 - A equipe que mais me chamou a atenção em Valência. Apesar de terem ido muito mal na classificação, se recuperaram de maneira notável na corrida. Kobayashi e sua equipe inteligentemente escolheram permanecer na pista com pneus duros até o final. Ambos os pilotos deveriam ter pontuado, mas De La Rosa tomou uma punição e perdeu duas posições. O melhor de tudo, no entanto, é que nenhum carro terminou quebrado ou esborrachado no muro.

FERRARI - 5 - Fez um bom treino de classificação e, dependendo do tarô e do i-ching, poderia subir no pódio com facilidade. Mas o azar falou mais alto e tanto Alonso como Massa perderam um turbilhão de posições ao ficarem atrás do safety-car. No fim, o espanhol ainda salvou alguns pontinhos. O carro, ao menos, dá sinais de que está melhorando.

TORO ROSSO - 5,5 - Típica corrida de equipe média. Buemi andou muito bem e marcou alguns pontos. Alguersuari não apareceu. No fim das contas, os pontos do helvético configuraram um fim de semana bastante razoável.

MERCEDES - 1 - Atuação vergonhosa, hein? Tanto Rosberg quanto Schumacher tiveram enormes dificuldades nos treinos e não se recuperaram na corrida. Michael até tentou e chegou a ocupar a terceira posição, mas teve de esperar o sinal abrir quando parou nos pits. Marcou apenas um pontinho com Nico. Na verdade, merecia ter saído zerada.

VIRGIN - 6 - Terminou com os dois carros e foi a melhor das equipes novatas. A novidade, nesse caso, foi ver Lucas di Grassi terminando à frente de Timo Glock.

HISPANIA - 5 - Sem qualquer outra pretensão, a equipe segue terminando suas corridinhas. Chandhok e Senna conseguiram levar seus carros ao final nesta ordem.

LOTUS - 2 - Na pseudocomemoração do Grande Prêmio de número nove quinhentos, a equipe só teve motivos para lamentar. Trulli teve muitos problemas e terminou em último, muito atrás dos outros pilotos. Já Kovalainen serviu como rampa de lançamento de Mark Webber.

CORRIDAGIVES YOU WINGS - Eu gosto do circuito de Valência, mas não estava esperando nada além de uma corrida medíocre. No entanto, até que ela não foi tão ruim assim. Tudo bem, houve a necessidade de um megaacidente entre Mark Webber e Heikki Kovalainen para animar as coisas. No entanto, tivemos alguns bons momentos, como as duas ultrapassagens de Kamui Kobayashi nas duas últimas voltas. O japonês, por sinal, deu vida à corrida ao fazer o máximo de voltas possível sem ir aos pits. Não houve grandes mudanças com relação aos dois primeiros, mas creio que esta corrida foi bem melhor do que as duas primeiras edições.

TRANSMISSÃO - FUTURA BOLD? - A transmissão foi marcada por algumas peculiaridades. No sábado, Cléber Machado narrou os treinos. Na corrida, Galvão Bueno assumiu o microfone. Não me lembro disso ter ocorrido em alguma transmissão global, ao menos nos últimos 20 anos. O narrador-mor, que preferiu a corrida ao jogo entre Alemanha e Argentina, reclamou um bocado sobre o circuito, sobre a pseudocomemoração da Lotus e sobre os carros mais lentos. Em determinado instante, a geração da imagens ficou ajustando o tamanho da tela. E ainda estou tentando entender o que aquele Futura Bold estava fazendo na tela por alguns segundos.

GP2 - GÉRSON GOUVÊA?? - Pobre Josef Kral. Na primeira corrida valenciana, o jovem checo se envolveu em um acidente com mais três carros na primeira volta. Na segunda corrida, em uma prévia do vôo rubrotaurino na corrida de Fórmula 1, ele subiu na traseira do carro de Rodolfo Gonzalez, deu uma pirueta, caiu no chão com força e seguiu como um míssil descontrolado até a barreira de pneus. No fim das contas, apenas um braço quebrado e dor nas costas. Pastor Maldonado ganhou a primeira corrida e segue rumo ao título. A segunda corrida foi vencida pelo companheiro de Kral na Supernova, o sueco Marcus Ericsson. Alberto Valério errou tanto no sábado como no domingo, e ainda cavou uma punição para Silverstone por ter batido em Sergio Perez na última corrida. E, não, Lito Cavalcanti, o Jerôme D’Ambrosio não se parece com o pedófilo da novela das oito…

SEBASTIAN VETTEL9,5 - Vitória fácil, construída a partir da pole-position obtida no sábado. No domingo, conseguiu segurar o ímpeto de Hamilton e não perdeu a liderança em momento nenhum. O dez só não veio por causa daquela escapada ocorrida logo após a saída do safety-car. Quase que a vitória escapa por entre os dedos.

LEWIS HAMILTON - 9 - É tão bom piloto quanto malandro. Fez uma boa largada, tocou em Vettel e nunca deixou o rubrotaurino se distanciar muito. Acabou ultrapassando o safety-car quando este entrou na pista, foi punido com uma passagem nos pits, acelerou o máximo possível e conseguiu voltar à frente de Kobayashi. Quase ultrapassou Vettel quando o alemão cometeu um erro na relargada. Diante disso, o segundo lugar está de bom tamanho.

JENSON BUTTON - 8 - Mal nos treinos, aproveitou-se de seu costumeiro oportunismo para ganhar algumas posições na corrida com a entrada do safety-car. Ficou um bom tempo preso atrás de Kobayashi, mas acabou subindo para terceiro com a parada do japonês e pegou mais um bom pódio. Foi o primeiro dos punidos.

RUBENS BARRICHELLO - 8,5 - Fez sua melhor apresentação desde a vitória em Monza, no ano passado. Andou bem nos treinos, ganhou algumas posições com o safety-car na pista e conseguiu manter sempre um bom ritmo de corrida. Quarto lugar merecidíssimo.

ROBERT KUBICA - 8 - À francesa, fez um corridão. Largou muito bem e tinha tudo para obter um pódio. No entanto, acabou perdendo tempo no pit-stop durante o safety-car.

ADRIAN SUTIL - 8,5 - Começou mal o fim de semana ao ficar longe do Q3 na classificação. Na corrida, no entanto, ganhou várias posições no momento do safety-car e ainda executou uma boa ultrapassagem sobre Buemi na segunda metade. Uma bela recuperação.

KAMUI KOBAYASHI - 9,5 - O nome da corrida. Rememorando suas duas belíssimas corridas de estréia pela Toyota, Kamui demonstrou esperteza e coragem. Muito mal nos treinos, escolheu largar com pneus duros para fazer o máximo de quilometragem possível antes de parar. Com o safety-car, pulou para terceiro e ficou por lá até poucas voltas para o fim, quando teve de parar e colocar pneus macios. Ao voltar para a pista, ultrapassou Alonso e Buemi nas duas últimas voltas. Uma das melhores apresentações individuais do ano.

FERNANDO ALONSO - 7,5 - Tinha tudo para fazer um ótimo fim de semana, a começar por um bom quarto lugar no grid, mas acabou perdendo tudo com um lance de extrema falta de sorte. Com a entrada do safety-car na pista, Alonso fez o certo e ficou atrás dele, andando devagar por uma volta completa antes de parar nos pits. Caiu de terceiro para décimo primeiro e não conseguiu se recuperar muito depois. Terminou a corrida irritadíssimo com a direção de prova.

SEBASTIEN BUEMI - 7,5 - Ótima atuação de um piloto que evolui rapidamente. Andou bem nos treinos e conseguiu ganhar algumas posições com o safety-car na pista. No final da corrida, sem ter um carro 100%, cometeu alguns erros e perdeu algumas posições. Após a prova, ainda perdeu mais uma posição com uma punição. Ainda assim, uma boa corrida.

NICO ROSBERG - 2,5 - Um fim de semana horrível que só o premiou com um ponto porque o alemão está longe de ser o cara mais azarado do grid. Não conseguiu passar para o Q3 no treino de classificação, largou mal, perdeu posições no pit-stop e só obteve um ponto porque De La Rosa foi punido.

FELIPE MASSA - 6 - Não foi mal nos treinos e até que vinha andando razoavelmente bem na corrida. No entanto, acabou perdendo muito tempo com o safety-car e teve até mais prejuízos que Alonso. Depois, sumiu. Ficou a apenas uma posição de marcar pontos. Não que ele esteja em uma grande fase, mas o caso valenciano só pode ser explicado por um enorme azar.

PEDRO DE LA ROSA - 7 - Coitado dele. Foi mal nos treinos, mas conseguiu se manter à frente de Kobayashi na primeira parte da prova. Com o safety-car, até ganhou algumas posições e se aproximou dos pontos. O abandono de Hülkenberg o colocou em posição de marcar um ponto. Infelizmente, após a corrida, ele também estava entre a turma dos punidos e acabou voltando à estaca zero. O azar kobayashiano, definitivamente, o pegou de jeito.

JAIME ALGUERSUARI - 3,5 - Já está definitivamente atrás de Buemi. Superado pelo suíço nos treinos, perdeu algumas posições com o safety-car e nunca esteve próximo de pontuar. Teve dificuldades com o arro.

VITALY PETROV - 4 - Em uma pista na qual venceu por duas vezes na GP2, teve uma chance de ouro ao largar em décimo. No entanto, largou mal e não conseguiu ganhar posições com o safety-car. Terminou próximo dos pontos, mas foi punido e perdeu mais algumas posições.

MICHAEL SCHUMACHER - 5 - Em mais um fim de semana péssimo, largou lá atrás e terminou lá atrás. No entanto, conseguiu andar na frente de Rosberg no início da corrida e ganharia algumas posições de fato, mas acabou tendo de ficar parado esperando o sinal verde abrir, em uma cena absolutamente patética. Com isso, caiu lá pro fim do pelotão. Ainda assim, marcou várias voltas mais rápidas e provou que tinha tudo para ter obtido um resultado muito melhor que o de seu companheiro.

VITANTONIO LIUZZI - 3 - Largou imediatamente atrás de Sutil e poderia ter obtido um resultado parecido. No entanto, envolveu -se em um entrevero com Petrov dentro dos pits e acabou perdendo um bocado de tempo. Depois disso, desapareceu e terminou como o último entre as equipes estabelecidas.

LUCAS DI GRASSI - 7 - Melhor fim de semana do ano. Largou pela primeira vez à frente do companheiro de equipe e sempre conseguiu manter um bom ritmo em comparação aos outros pilotos das equipes novatas. Terminou em um razoável décimo sétimo, algo que serve como uma vitória para sua equipe.

KARUN CHANDHOK - 6 - Largou à frente de Bruno Senna e terminou à frente dele com uma certa folga. Dessa vez, dá pra dizer que o indiano claramente bateu o brasileiro.

TIMO GLOCK - 3 - Nesta temporada, está passando a impressão de ser um piloto que, sem um carro decente, se desespera ao tentar levá-lo ao limite e acaba cometendo erros. Em Valência, o alemão foi superado por Di Grassi pela primeira vez no ano. Ao tentar recuperar terreno, causou um acidente estúpido com Bruno Senna, teve o pneu furado e quase bateu no muro. Ao menos, terminou.

BRUNO SENNA - 3,5 - Largando em último, sua única expectativa era superar o companheiro de equipe. Infelizmente, não deu. De quebra, quebrou ao bico ao ser tocado por Glock em uma tentativa frustrada de ultrapassagem deste. No fim das contas, saiu no lucro por ter terminado a prova.

JARNO TRULLI - 3,5 - Foi o melhor entre as equipes estreantes no treino de classificação, mas arruinou sua corrida ao destruir o bico de seu carro em um toque no Sauber de De La Rosa. Depois, teve de trocar o sistema de transmissão e ficou definitivamente para trás. No fim das contas, terminar foi algo positivo.

NICO HÜLKENBERG 6,5 – Um ótimo fim de semana destruído por um pequeno incêndio em seu Williams. Largou à frente de Barrichello e manteve-se o tempo todo nos pontos. Merecia ter marcado pontos.

HEIKKI KOVALAINEN - 4 - Não teve culpa nenhuma no acidente com Webber. O finlandês mantinha-se em sua linha e simplesmente foi atingido por trás pelo velocíssimo Red Bull. Uma pena, já que vinha sendo o melhor dos pilotos das equipes estreantes na corrida.

MARK WEBBER - 1 - O que foi aquilo?! Conseguiu protagonizar um dos maiores acidentes dos últimos anos, digno daqueles da série Havoc. E não adianta culpar Kovalainen, já que o australiano insistiu em se manter atrás de um Lotus muito mais lento que o seu Red Bull. Deve agradecer a Alá e a Buda por ter saído inteiro. Este episódio foi a cereja do bolo de uma corrida que começou com uma péssima largada e uma estratégia que o jogou para o fundo do pelotão.

VALÊNCIA: Uma das minhas pistas preferidas. Não, agradeço pelo Gardenal mas não preciso, obrigado. Eu realmente gosto deste circuito. Eu concordo que as corridas de Fórmula 1 ocorridas por lá foram terríveis. Eu concordo que o visual é feio. Eu concordo que pista de rua costuma significar excesso de acidentes e ausência de ultrapassagens. Mas gosto não se discute, só se lamenta. Eu olho para Valência e me lembro de Long Beach e seus trechos de alta velocidade misturados com curvas lentíssimas e estreitas. E as corridas de GP2 por lá são muito boas.

BURGER KING: E o emblema da simpática rede de lanchonestes estará no carro da Sauber novamente. Eu gosto da Sauber, e gosto do Burger King. O Whooper deles dá de dez a zero no insosso Big Mac.

FIA: Pneus Pirelli, bacana. Retorno dos 107%, uma merda. Asa dianteira regulável, não entendi direito. Possível retorno do KERS, inútil. Tomo um Engov e espero pra ver o que vai acontecer.

FALTA DE ASSUNTO: Total. Eu nem ia postar nada hoje, mas encontrei algo que achei por bem colocar aqui.

STEFAN: Deixo uma lembrancinha para vocês, já que não vou aparecer até semana que vem. Foto tirada em Köln em fevereiro. Não por mim, é claro.

 

A próxima corrida, daqui a duas semanas, será realizada no circuito urbano de Valência. O Grande Prêmio da Europa será realizado no segundo dos três circuitos de rua do atual calendário da Fórmula 1. Pista de rua é uma coisa legal não só por causa dos acidentes que costumam ocorrer, mas também devido ao cenário existente em volta. Tem algo de idílico em ver um McLaren acelerando ao redor de prédios, um Ferrari contornando uma esquina ou um Williams passando por sobre uma ponte. Deve ter algo a ver com a identificação do mero mortal com o lugar: o Schumacher ou o Hamilton estaria realizando o sonho de um cidadão comum de passar por aquela reta a mais de 300 km/h, enquanto que ele não pode (ou não consegue) levar seu Corsa ou Polo a mais de 120.

Não que o cenário seja excepcional, mas você não consegue ver nada disso na TV

O único problema é que o circuito de rua de Valência é muito, como posso dizer, enfadonho. Feio. Horrível. Se o circuito de rua supõe ser a ligação mais terrena entre o distante automobilismo e a vida citadina, Valência conseguiu construir o circuito de rua mais distante possível da cidade, se é que se pode falar assim. Os muros são muito altos em alguns pontos. Em outros, os alambrados é que estragam a vista. As poucas áreas de escape são asfaltadas. E é tudo muito, muito cinzento. A ponte, que deveria ser a maior atração visual da pista, simplesmente não pode ser identificada por si só nas transmissões. Há, sim, uma tenebrosa sequência de arcos que indica a todos “olha, estamos sobre a água”. E só.

Poucos sabem, mas este circuito está localizado ao lado do centro histórico e atravessa todo o famoso porto de Valência. Ao redor, temos marinas, embarcações encostadas nos píeres, casinhas simples e prédios antigos, além de um belíssimo mar. Não é, de fato, a parte mais bonita da cidade, mas também está longe de ser feia. E Valência conseguiu a proeza de esconder a maior parte em seu circuito, restando apenas algumas construções mais altas. Me arrisco a dizer que é o visual mais insípido, para não dizer feio, que eu já tive conhecimento em se tratando de um circuito de rua.

Esse tipo de pista não pode ser assim. Comparemos com as duas outras pistas de rua do calendário, Mônaco e Marina Bay. O primeiro dispensa apresentações: se há um circuito que consegue expressar perfeitamente bem a cidade que o sedia, este é Mônaco. Uma profusão de enormes prédios clássicos, alguns casarões centenários, um pequeno comércio destinado aos abastados moradores e turistas, um túnel, marinas e portos, tudo isso rodeado por uma pista que exibe detalhadamente bem cada ponto. Temos aí o Casino de Montecarlo, o restaurante La Rascasse, o hotel Fairmont (antigo Loews), as lojinhas de produtos náuticos da curva da Piscina e por aí vai. Tanto o piloto quanto o espectador conseguem sentir o espírito nobre e ao mesmo tempo espalhafatoso do principado às margens do Mar Mediterrâneo. Não por acaso, por mais aborrecidas que sejam as corridas, muitos amam Mônaco unicamente pelo elitismo inerente à pista.

Mônaco, um principado que une italianos, franceses e demais europeus mediterrâneos cujas contas-correntes são ligeiramente maiores do que as dos mortais

Eu, sinceramente, respeito mas não consigo admirar aquele culto ao luxo feito à francesa em Montecarlo. No entanto, adoro o cenário de Marina Bay. Sou fã das chamadas skylines, os arranha-céus em português. E o circuito cingapurense consegue realizar com perfeição o que propõe: exibir os exuberantes prédios da cidade-estado à noite, quando todas as luzes estão acesas e há um ar futurista naquele bolo urbano. O curioso da história é que Cingapura não tem prédios exatamente gigantescos (o maior tem 280m de altura), já que há a questão do tráfego aéreo. Mas Marina Bay não é só isso: a pista contempla também a Esplanade (um enorme teatro em formato de domo), o centenário hotel Fullerton, o parque Merlion e até mesmo uma enorme roda gigante. Ao contrário do que eu imaginava, a cidade de Cingapura, antigo entreposto britânico no sudeste asiático, é um colosso que mescla perfeitamente bem a modernidade asiática com a tradição européia.

Posso lembrar de outros circuitos de rua famosos pela sua vista. Muitos brasileiros das antigas ainda se lembram do circuito da Gávea, um enorme descidão com mais de cem curvas que contemplava famosas avenidas cariocas e até mesmo o local da atual favela da Rocinha. Temos também os belos circuitos de Florianópolis e Vitória, localizados próximos à praia, e também o circuito paulistano localizado às margens do Tietê, coisa horrível. Os franceses adoram o Circuit du Pau (no Brasil, é aquilo que afeminados gostam; na França, é uma pequena cidade turística), composto por esquinas e muitas curvas de baixíssima velocidade rodeadas por casarões. O mesmo acontece entre os ingleses e o antigo circuito de Birmingham, seus sobradinhos e a Halfords, uma curva em forma de gota que rodeava uma praça circular.

Marina Bay e seu hotel Fullerton. Os muros podem até ser altos, mas as construções superam qualquer coisa

Em Macau, seu Circuito da Guia passa por prédios, casas e até mesmo ao lado de uma maternidade. Os Estados Unidos têm um monte deles. Destaco Detroit, rodeado por prédios altíssimos, túneis, pontes e o rio Detroit, que margeia a reta dos boxes. Long Beach também tem um belo cenário, mas a largura da pista e os muros extremamente altos criam o mesmo efeito negativo que temos em Valência. A Espanha teve por um ano o circuito de Bilbao, utilizado apenas para uma corrida da World Series by Renault e composto até mesmo por uma ponte aonde os carros passavam por cima de parte da pista. Na Finlândia, temos Helsinki, uma gracinha de cidade e uma bosta de circuito. Na Austrália, tem Surfers Paradise, uma belíssima cidade praiana que mais parece estar na Califórnia, e Adelaide, uma pista excelente que infelizmente não valoriza o cenário da bela cidade. Temos muitos outros circuitos de rua e eu não tenho tempo nem saco para ficar descrevendo todos. Corram atrás no Google e no Youtube.

Muitos exemplos bons de circuitos que valorizam sua cidade. Citei também circuitos que não tem um cenário tão belo assim, e infelizmente Valência está nesse grupo. É uma pista boa para corridas (não para a Fórmula 1, mas para outras corridas) que não atrai pelo visual. Nesse sentido, até mesmo algumas pistas permanentes localizadas em regiões metropolitanas, como são os casos de Interlagos e Hungaroring, acabam dando um destaque maior para a vida citadina localizada ao redor. Valência merecia um tratamento melhor, mesmo que o centro histórico signifique centro degradado cheio de drogados e putas e o porto cheire a peixe. É melhor isso do que um monte de muros e alambrados cinzentos.

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