Perdoem-me a imprecisão histórica, até porque minha memória é falha e faz um tempo que li a respeito. No século XIX, em uma colônia espanhola localizada no norte da América do Sul, havia um jovem aristocrata de origem européia que passou uma temporada na Europa estudando e viajando. Leu alguns autores iluministas e revolucionários e voltou cheio das idéias novas para o Novo Continente. Por aqui, liderou uma revolução armada contra o imperialismo espanhol e foi o responsável maior pela independência de seu país, a Venezuela. Tendo conseguido seu objetivo, ele formou uma espécie de união com outras duas ex-colônias que também haviam acabado de lograr a liberdade territorial, a República da Grã-Colômbia. Seu maior sonho era o pan-americanismo, um movimento que congregaria todas as ex-colônias sul-americanas para formar uma potência que representasse a resistência à prepotência européia. O personagem em questão é Simón Bolívar.

O sonho de Bolívar não deu muito certo, mas inspirou muitos lunáticos ou oportunistas por aí. Um deles é o atual presidente da República Bolivariana da Venezuela, o caudilho gorducho Hugo Chavez. Megalomaníaco e ávido pela idéia de restaurar o sonho bolivariano com uma bela pitada de socialismo populista, Chavez comanda seu país como o último dos revolucionários, espinafrando a elite nacional e os opositores políticos, tidos como burgueses e lacaios do imperialismo capitalista americano. Mas nada como tirar uma casquinha do tal do sistema político do McDonald’s, não é? E é exatamente por isso que ele financia uma série de pilotos de automobilismo, o esporte capitalista par excellence.

Nesta semana, a Venezuela finalmente conseguiu o que queria: em 2011, o país terá seu primeiro piloto na Fórmula 1 desde há quase trinta anos. Pastor Maldonado, 25 anos, nascido em Maracay, será o companheiro de Rubens Barrichello da Williams. É o que a revista Warm Up diz. Segundo a reportagem, Maldonado levará 15 milhões de euros para a equipe, cerca de 34,7 milhões de reais. Uma grana boa, garantida pela miríade de companhias e órgãos estatais que o patrocina desde sempre. Fiz uma pesquisa sobre as tais companhias e órgãos. São nove. E nenhuma empresa privada.

Na verdade, apenas dois patrocinadores são empresas. Um deles é a PDVSA, Petróleos de Venezuela S. A. Esta é a menina dos olhos do corporativismo estatal venezuelano: terceira maior empresa petrolífera do mundo, 35ª maior empresa do mundo, dona de uma reserva de mais de 210.000 bilhões de barris, empregadora de quase 68.000 pessoas e grande instrumento de negociação de Hugo Chavez com o mundo. Desde 2004, a empresa é também a grande fomentadora de projetos sociais, educativos e esportivos, tendo gasto até aqui nada menos que 61,4 bilhões de dólares. E olha que a empresa registrou em 2009 lucro cinco bilhões de dólares menor do que no ano anterior, devido à queda na produção e no preço do barril. Faça chuva ou faça sol, lá está a PDVSA apoiando a galera. No automobilismo, podemos perceber a força da empresa: além de Maldonado, Ernesto Viso, Rodolfo Gonzalez e Milka Duno (por meio da CITGO, que pertence aos venezuelanos) também carregam seu emblema.

A outra empresa que o apoia é a Compañía Anónima Nacional Teléfonos de Venezuela, ou simplesmente CanTV, a maior empresa de telefonia e internet do país. Esta história reflete bem a relação de Chavez com as empresas privadas. Criada em 1930 como empresa privada, ela foi estatizada em 1953, privatizada novamente em 1991 e reestatizada em 2007, logo após a reeleição de Chavez. No seu primeiro período como empresa estatal, a CanTV ficou conhecida como um antro de corrupção, cargos nomeados, enorme ineficiência e atraso tecnológico. A privatização de 1991, assim como o que ocorreu no Brasil, expandiu a rede telefônica e trouxe a internet e a telefonia celular. O maior pecado da empresa era opor-se a Hugo Chavez. E nosso querido presidente, como solução, simplesmente ordenou a nacionalização da empresa, alegando “compromisso com a conquista da Plena Soberania e da autodeterminação” e visando “colocá-la a serviço de todos os venezuelanos” e “construir uma nova estrutura social na Venezuela em que predomine valores de igualdade, solidariedade, participação e responsabilidade”, como aparece no site do próprio Pastor Maldonado. É o socialismo autoritário travestido de boas intenções.

Os outros sete patrocinadores que constam são meros órgãos do governo. Na verdade, um deles é o próprio Poder Executivo, representado pelo slogan “Venezuela, ahora es de todos”. Os outros são o Instituto Nacional de Esportes, o Banco de Desenvolvimento Econômico e Social da Venezuela, o Ministério do Poder Popular para o Turismo, o Banco de Comércio Exterior, o Instituto Nacional de Promoção e Capacitação Turística e o Ministério do Poder Popular para o Esporte. Na prática, quem manda a grana para a carreira de Maldonado é Hugo Chavez. E o petróleo é, literalmente, o combustível.

Quem manda a grana para Pastor Maldonado

Deixo bem claro a todos. Respeito profundamente quem é partidário da esquerda ou de Hugo Chavez, mas sou absolutamente contra. Não acho nem um pouco positivo o fato de um presidente utilizar suas empresas para motivações e projetos pessoais, como é o caso do apoio a um piloto. E não é perseguição, pois também não gostava do aspecto estatal das equipes francesas Ligier e Renault. O dinheiro público deve ser gasto com parcimônia em setores importantes, como a educação, a saúde ou até mesmo algum assistencialismo condicionado. Pagar impostos para ver um moleque correndo na Europa com seu dinheiro não dá.

Mas o fato é que Maldonado chegou lá. E, independente do fator político que há por trás, mereceu. De carreira longa porém relevante, Pastor chegou ao seu ápice até aqui ao ser coroado campeão da GP2 em Monza, após uma excelente temporada. As dez vitórias obtidas nas suas quatro temporadas na categoria o fazem o maior vencedor da história da categoria até aqui. Muitos torcem o nariz pelo fato dele ter disputado o campeonato por quatro anos, mas a verdade é que ele nunca teve lá grandes condições de ser campeão nos três primeiros anos.

Expliquemos. Em 2007, ele estreou pela mediana Trident. No ano anterior, a equipe italiana havia vencido três corridas e ainda era considerada um lugar razoável para estrear. A concorrência era fortíssima naquele ano, mas ainda assim Pastor conseguiu vencer de ponta a ponta em Mônaco, sua quinta corrida na categoria. No restante do ano, ele se destacou pela extrema velocidade e pelos inúmeros erros e acidentes. Pouco depois da etapa húngara, ele se machucou em um acidente quando fazia exercícios e quebrou a clavícula. Mesmo sem ter competido em oito etapas, ele ainda terminou em 11°, com 14 pontos a mais que companheiro.

Em 2008, encontrou um lugar na Piquet Sports ao lado de Andreas Zuber. Ele começou o ano completamente burro, cometendo uma série de erros, mas melhorou sensivelmente e venceu uma etapa em Spa-Francorchamps. A partir daí, pode-se dizer que o lado desastrado do venezuelano começou a desaparecer. No ano seguinte, uma migração para a ART sugeria uma belíssima chance para brigar pelo título. Mas tudo não passou de ilusão, já que a equipe estava trabalhando para Nico Hülkenberg vencer o título. Maldonado seria apenas o segundo piloto.

De fato, ele terminou apenas em sexto, com absurdos 64 pontos a menos que Hülkenberg. Mas também demonstrou notável evolução e aprendeu a parar de errar. E a agressividade foi mantida, como pôde ser visto na série de ultrapassagens feita na etapa espanhola. No início de 2010, ele teve sérias conversas com a natimorta Campos, que pediu inacreditáveis 50 milhões de dólares pela vaga. Ele até estava em vias de conseguir o dinheiro, mas deu o extremo azar de, na semana da conclusão da negociação, seu próprio “patrão” Hugo Chavez ter decidido desvalorizar paulatinamente do bolívar fuerte, o que acabou com qualquer chance de comprar uma vaga na Fórmula 1. Restou a ele assinar com a Rapax para um quarto ano na GP2 e rezar para que o carro fosse bom o suficiente para ele brigar pelo título. Felizmente, deu tudo certo.

Maldonado em 2010

Tão certo que até mesmo o sonho pan-americano do bolivarianismo vai se concretizar em 2011. Com Rubens Barrichello e Pastor Maldonado, a Williams terá uma dupla completamente sul-americana para a próxima temporada. É algo incomum. Se minha memória não trai, a última vez que isso aconteceu foi em 2004, com o colombiano Juan Pablo Montoya e o manauara Antônio Pizzonia correndo juntos por algumas etapas na mesma Williams! Frank Williams é o Simón Bolívar da Fórmula 1. Patrick Head, José San Martin.

Em 1983, a Theodore, de Teddy Yip, reproduziu a Grã-Colômbia na Fórmula 1 ao colocar pra correr o colombiano Roberto Guerrero e o venezuelano Johnny Cecotto. Hoje, Colômbia e Venezuela se odeiam e sempre aparecem com uma ameaça de guerra aqui e acolá. O ex-motociclista Cecotto, que correu na Fórmula 1 até 1984, foi segundo e o último piloto de seu país a competir na categoria. O primeiro havia sido Ettore Chimeri, milanês que emigrou para a América do Sul quando ainda era criança. Em 1960, ele arranjou um Maserati 250F e foi correr o GP da Argentina. Não agüentou o esforço de correr sob temperatura tão alta e desistiu após 21 voltas. Em 2006, Ernesto Viso foi inscrito como terceiro piloto da MF1/Spyker no GP do Brasil. Fez dois treinos livres de sexta e só.

Pastor Maldonado chega à Fórmula 1 carregando um país consigo e uma trajetória bastante relevante. A América do Sul domina a Williams. E o cara finalmente poderá mostrar a todos seu misto de loucura e genialidade. Mas é bom ele pensar bastante em Simón Bolívar. Como disse o próprio, apenas um passo separa o heróico do ridículo.