As pessoas que estão por trás da Fórmula E, a primeira categoria feita para gente que não gosta de automobilismo

Que negócio é esse de Fórmula E? Você também nunca tinha ouvido falar? Pois é. Eu acabei de ler sobre a confirmação deste troço aí. Se o caro leitor ainda está perdido, dou uma canja.

Hoje, a Federação Internacional do Automóvel anunciou a criação de uma categoria de monopostos movidos apenas a eletricidade, a Fórmula E. O presidente da federação, o nanico Jean Todt, viajou ao Rio de Janeiro na semana passada e se encontrou com o governador Sérgio Cabral e o alcaide Eduardo Paes para discutir sobre amenidades. Os três aproveitaram e iniciaram algumas tratativas sobre a realização de uma corrida de carros elétricos nas ruas cariocas. Após as devidas negociações terem sido feitas, Todt aproveitou o climão de euforia e anunciou de uma só vez o surgimento da Fórmula E e a confirmação da etapa do Rio de Janeiro em 2014.

Hoje em dia, as novas categorias são sempre trazidas ao público com pompa e serpentinas. Além de Todt, Cabral e Paes, estavam presentes no anúncio o piloto brasileiro Lucas di Grassi e os empresários espanhóis Alejandro Agag e Enrique Bañuelos.  Di Grassi será o cara que testará os carrinhos eletrizados antes deles estarem prontos para desfilar. Agag, que é o dono da equipe Addax na GP2, será o CEO da holding promotora do certame. Bañuelos será um dos padrinhos do projeto. Este monte de gente de peso se reuniu para levar adiante o sonho de realizar o primeiro campeonato ecologicamente sustentável da história do automobilismo.

A Fórmula E terá um conceito totalmente diferente de qualquer outra categoria que existe hoje em dia. Seu objetivo é o de promover o uso de veículos que não agridem o meio ambiente e também funcionar como um laboratório para novas tecnologias que possam favorecer o desenvolvimento de carros de rua sustentáveis. É o mesmo papo de sempre. Vamos proteger a natureza! Troquemos nosso Hummer por um Chevy Volt! Deixar o carro em casa e andar a pé ou de bicicleta, ninguém quer. É a cultura sustentável do novo século.

Alguns detalhes sobre a Fórmula E já foram revelados. A FIA já divulgou um esboço de regulamento para a categoria. Um texto enorme que, sinceramente, não interessa a quem não está diretamente ligado ao esporte. Dá para compreender, no entanto, algumas informações preliminares sobre o carro que será utilizado. Ele será um monoposto não muito diferente de um Fórmula Atlantic que pesará 780kg (contando aí o peso do piloto e da bateria) e terá controle de tração. Aparentemente, a FIA estará disposta a dar asas à criatividade das manufatureiras: o desenvolvimento aerodinâmico e das baterias será livre. Isso é bom.

A Fórmula E terá sua primeira temporada em 2014. Para um primeiro instante, a organização espera poder contar com dez equipes e vinte carros. Nos dois anos seguintes, se for do agrado de todos, poderiam ser admitidos 22 ou até mesmo 24 carros. Assim como ocorre em quase todas as categorias europeias atualmente, as equipes aceitas teriam de cumprir contratos de três anos. Quem participasse da temporada de 2014 teria de disputar também as de 2015 e 2016.

O tal carro da Fórmula E

Complicado, para mim, foi entender a dinâmica das provas. Aparentemente, todas as corridas de uma etapa da Fórmula E seriam realizadas num único dia. Seriam quatro, cada uma com duração de quinze minutos. A bateria dos carros seria recarregada nos intervalos entre uma corrida e outra. Curioso, no entanto, é a palhinha que Alejandro Agag antecipou em entrevista a um site inglês. “No pit-stop, o piloto não trocará de pneus ou de bateria, mas de carro”, afirmou o empolgado empresário espanhol. Pit-stops em corridas de quinze minutos? Fico à espera de melhores explicações.

Neste momento, a FIA está aberta a inscrições. Você aí, que me lê e que é dono de uma grande fábrica que constrói monopostos: não perca seu tempo. Elabore um plano de negócios que comprove que seus carros são melhores, mais bonitos, cheirosos e agradáveis que os da concorrência, mande a papelada lá para o Palácio da Concórdia e espere até ser chamado. Uma coisa bacana da Fórmula E é que existe a possibilidade de liberar a entrada para vários fornecedores de carros. Poderíamos ter um campeonato com várias construtoras consagradas no automobilismo, como Rayovac e Duracell.

Outra ideia nova da Fórmula E seria realizar corridas apenas nos grandes centros das cidades grandes. O Rio de Janeiro faria companhia, portanto, a lugares como Los Angeles, Mumbai e Cidade do México. A intenção da categoria é realizar provas nos cinco continentes, mas é evidente que a atenção maior será destinada à Ásia, a dona do dinheiro neste exato instante. As corridas de carros ecologicamente corretos sendo realizadas nas maiores metrópoles do planeta trariam à tona inúmeras vantagens: excelente divulgação dos carros elétricos, estímulo sustentável a estas cidades, maior aproximação do público, fomento do turismo, grana rolando aqui e acolá. Tudo está lindo e você está babando.

Bobagem pura. Esta Fórmula E, assim como quase tudo que é relacionado a esse mercado de badulaques sustentáveis, é apenas um engodo politicamente incorreto que será promovido apenas para atrair gente boboca. A Fórmula E será a primeira categoria feita para pessoas que não gostam de corridas. Como é?

Faça um teste. Pergunte a algumas pessoas conhecidas se elas gostam de automobilismo ou não. Algumas delas responderão que sim. Outras dirão que não, pois ficou chato desde a morte do Senna, os brasileiros não ganham nada, é pura perda de tempo e mais um monte de abobrinhas. Repare em uma coisa. As pessoas mais idiotas, sem a menor dúvida, serão aquelas que responderão que “as corridas de carro poluem o ar”. Esta é a pior resposta que uma pessoa poderia dar. Uma réplica como “eu prefiro passar a manhã de domingo me masturbando com fotos de velhos mortos” soaria mais agradável aos ouvidos.

O Fórmula E lembra, muito de longe, o carro da Fórmula Atlantic

Um carro de Fórmula 1 emite, em média, algo em torno de 1,5 quilo de dióxido de carbono por quilômetro, cerca de nove vezes mais que um carro comum. Na pré-temporada deste ano, as doze equipes completaram exatos 49.987 quilômetros em quinze dias. Não consegui fazer a conta total para a quilometragem para a temporada, mas posso estimar tranquilamente que um piloto está fazendo cerca de 5 mil quilômetros por ano. Se multiplicarmos pelos 24 pilotos que fazem a temporada, chegamos ao total de 120 mil quilômetros percorridos.

120 mil quilômetros percorridos significam 180 mil quilos de dióxido de carbono emitidos pela Fórmula 1 durante um ano. Sabe quantos carros de rua andando os mesmos 5 mil quilômetros anuais de um bólido de Fórmula 1 seriam necessários para emitir os mesmos 180 mil quilos de dióxido de carbono? Sente-se na cadeira, pois o número é gigantesco! Duzentos e quinze.

Isso mesmo: a Fórmula 1 polui tanto quanto míseros 215 carros de rua. Note, porém, que é muito difícil para uma pessoa que usa o carro diariamente fazer apenas 5 mil quilômetros anuais. Eu, por exemplo, não completo menos que uns 10 mil quilômetros anuais. Ou seja: os mesmíssimos 180 mil quilos de dióxido de carbono da Fórmula 1 seriam emitidos por cerca de cem carros com motoristas como o dono deste blog.

Vamos moderar a burrice. A Fórmula 1 representa uma parcela ínfima, verdadeiramente mixuruca, do montante de poluição que é gerado pela humanidade. Podemos atribuir uma culpa muito maior, por exemplos, aos otários que adquirem carros 1.0 a torto e direito, como se estivessem na padaria comprando pão e cigarro. Só em São Paulo, nada menos que 328 novos carros são colocados às ruas diariamente. Segundo o DENATRAN, existiam no mês de julho 4.806.460 automóveis licenciados rodando pelas abarrotadas ruas e avenidas da capital paulista. Sei lá eu quanta poluição todos esses amontoados de aço geram anualmente. Um pouco mais que a Fórmula 1, eu imagino.

O argumento da sustentabilidade é típico das pessoas mais imbecilizadas e alienadas que podemos conhecer. Antes que alguém venha me aborrecer com acusações de ser contra a natureza e tal, eu gosto de árvores, de bicicletas, de animais, de mato, odeio o calor cada vez mais forte da bosta da minha cidade e, se fosse bilionário, faria de tudo para tentar reverter um pouco a poluição generalizada. Dito isto, as pedradas a quem merece.

Acabar com isso aqui…

Você tem medo do aquecimento global? Incomoda-se com aquelas manchas enormes de petróleo nos mares setentrionais? Gostaria de ver um mundo mais verde? Saiba que trocar a sacolinha de plástico por uma de algum material produzido por uma tribo isolada do norte do Mato Grosso não fará a menor diferença. Aliás, fará, sim. Fará diferença ao sujeito pra lá de perspicaz que decidiu vender sacolas biodegradáveis e, agora, ri da sua cara enquanto torra um baita dinheiro com um iate ou prostitutas em Gibraltar.

Governos, midiáticos e grandes empresas adoram esse negócio de assustar os outros para vender um pouco mais. Isso se chama criação de necessidades. A partir do momento em que alguém te conta que o mundo vai acabar porque o ar está irrespirável e o chão todo sujo, o desespero toma conta do indivíduo mais ingênuo. Ele acaba se sentindo responsabilizado e culpado pelo mau estado do planeta e se dispõe a mudar todo o seu consumo. Saem os alimentos enlatados, entram as alfaces orgânicas.

Não vejo nada contra o consumo ecologicamente correto em si. Se houver um produto que polui ou maltrata menos o ambiente, que seja lançado e utilizado por todos. O problema é vender este produto como a salvação do planeta sem comprovar seus benefícios a longo prazo, contrapondo um outro produto que é tido como ruim e maléfico igualmente sem comprovações. Então você compra alimentos orgânicos e demoniza aqueles cultivados com agrotóxicos, mas não tem a menor ideia sobre benefícios e malefícios de alimentos orgânicos e “inorgânicos” e também não imagina como sua compra mísera ajudará o mundo e os coelhinhos. A única coisa que você sabe é que o bonequinho do comercial, a atriz descolada da Zona Sul carioca e o Al Gore disseram que é pra você comprar porque é “sustentável”.

Aí ninguém chega ao ponto correto, que é o do consumo em si. Só idiotas acham que trocar A por A sustentável fará grande diferença, pois a maior parte das etapas da produção continuará poluidora, o processo logístico continuará poluidor e o filho da puta do consumidor ainda poderá acabar jogando a embalagem na rua. A única coisa que realmente reduz a poluição é a redução do consumo. Se você realmente quer reduzir a poluição e os supostos grandes problemas climáticos, então pare de comprar carros e celulares o tempo todo! Mas quem é que vai falar isso pra você? A redução do consumo não interessa a ninguém porque políticos e empresários não encheriam seus cofres. O bonequinho do comercial não existiria, a atriz descolada da Zona Sul carioca não faria seu merchandising na novela e o Al Gore ficaria lamentando a decadência da indústria automobilística de Detroit.

O que todo este compêndio tem a ver com o automobilismo? Simples. A ideia da Fórmula E parte do pressuposto de que as corridas de carro são um esporte altamente danoso para o meio ambiente. Da mesma maneira, parte-se do princípio que o perfil do povão mudou bastante de uns dez anos para cá e algumas coisas se tornaram inaceitáveis, como um esporte onde 180 mil quilos de dióxido de carbono são despejados no ar anualmente. O primeiro pressuposto é falso. O segundo, infelizmente, não é.

… não vai salvar este bichinho aqui.

Assim como o churrasco e o boxe, as corridas de carro se tornaram os grandes alvos daqueles politicamente chatos que militam por ideias que nem conseguem compreender. O sonho mais intrínseco desta gente é exterminar algumas coisas que não a agradam e substitui-las por outras, digamos, mais convenientes. São, em seu íntimo, tiranos. Olham torto a você por qualquer atitude considerada “incorreta”. Põem em xeque seu caráter devido a alguma preferência sua que não siga o mainstream. Nutrem o desejo de convencê-lo do quão equivocado você está por simplesmente gostar de algo, atropelando qualquer traço de individualidade e personalidade. Se alcançassem o poder, seriam os primeiros a proibir isso e aquilo. É o verdadeiro duplipensar do século XXI.

A FIA compreendeu esta mudança comportamental há muito tempo. Ela sabe que se o esporte a motor dependesse apenas de seus fãs antigos, ele já teria falido há algum tempo. É hora de deixar os velhotes para trás e conquistar a carteira dos novos personagens, aqueles que gastam mais e que são os capitães da nova economia: o homem moderno, consciente e fragilizado, a mulher que acha que vive em Sex and the City, o adolescente mimado, o chinês deslumbrado, o xeique exibicionista, a mocinha que vive eternamente na TPM. São eles que têm o dinheiro e o poder de consumo. Logo, o automobilismo pertence a eles.

Isso significa, é claro, que algumas mudanças deverão ser feitas e velhas características do automobilismo terão de ser extirpadas. Carros com motores grandes são poluidores e gastões. Acidentes fortes são inaceitáveis. Corridas na chuva são uma loucura. Circuitos muito velozes representam um enorme perigo e serão riscados dos calendários. Autódromos sem aquela infraestrutura faraônica de Yas Marina são anacrônicos e devem ser demolidos. Pilotos agressivos são sociopatas incapazes de saudável convívio com a humanidade e deverão ser corrigidos no melhor estilo Laranja Mecânica. Blogueiros fanfarrões como este aqui são apenas resmungões retrógrados que deveriam ter nascido no século III.

Não ache que uma corrida de carros elétricos é apenas uma corrida de carros elétricos. Se esta ideia agradar aos chefões do automobilismo, ela será utilizada em todas as demais categorias, assim como ocorre com o DRS hoje em dia. Lentamente, o esporte a motor como conhecemos está sendo dilacerado e o que restará lá na frente será somente um invólucro.

Um invólucro biodegradável.

Antigamente, quando se falava num Senna e num Mika, lembrávamos de Ayrton e Häkkinen dividindo a McLaren no fim de 1993. Hoje em dia…

Em 1993, o tricampeão Ayrton Senna e o imberbe Mika Häkkinen dividiram a mesma equipe nas últimas três corridas da temporada. Insatisfeita com o americano Michel Andretti, a McLaren decidiu mandá-lo mais cedo para a grande fazenda ianque e colocou Häkkinen, então apenas uma promessa do automobilismo mundial, para comboiar Senna nas suas últimas corridas pela equipe. Se Mika fizesse bonito, quem sabe ele não ganharia de presente a titularidade em 1994?

Era um relacionamento pacífico. Häkkinen foi um raro companheiro de equipe que não era visto por Ayrton Senna como um capacho ignóbil ou uma ameaça nuclear. Pudera: o finlandês é um sujeito tipicamente laid-back, agradável e de convivência facílima. Só mesmo Michael Schumacher num dia de sol em Macau poderia ser capaz de irritá-lo. Como Ayrton também estava de saída para a Williams e não estava disposto a arranjar mais confusão, ele nem ligou pelo fato de ter sido superado pelo finlandês logo nos primeiros treinos oficiais que disputaram juntos, os de Estoril.

Ah, as analogias são dos recursos literários favoritos de alguém que escreve bobagens.

“Não há Mika Salo no mundo que me convença que o Bruno teve alguma culpa naquele choque com o Kobayashi. E se é pra ser maldoso, o Mika Salo é um piloto finlandês. Tem um cara que é reserva na equipe do Bruno Senna que é finlandês também. Pronto, já fiz a maldade”. Que proferiu tais palavras foi o narrador Galvão Bueno, claramente puto da vida com o acidente que o sobrinho sofreu com Kamui Kobayashi. Para Galvão, a culpa foi toda do japa, que é uma vaca-brava de olhos puxados. Eu não vi culpa na manobra dele, mas isso não importa agora.

O sexagenário locutor também não estava satisfeito com o fato de Mika Salo ter sido o ex-piloto escolhido para fazer as de comissário desportivo em Valência. Para ele, o acidente de Kobayashi e Senna só resultou em punição para o brasiliano porque o diabólico comissário Salo quis prejudicá-lo na cara dura, visando deixá-lo sem moral na Williams, que se veria forçada a olhar com mais ternura para o reserva Valtteri Bottas.

Além de comissário domingueiro, ex-piloto de Fórmula 1 e sobrinho de Cid Moreira, Mika Juhani Salo é comentarista nas transmissões finlandesas da MTV3, que não tem nada a ver com a emissora favorita das meninas bobinhas que pintam o cabelo de rosa. Salo ficou conhecido recentemente por ser um árduo defensor dos pilotos de seu país, embora eu já tenha ouvido falar que ele costuma pegar pesado com o próprio Bottas nas transmissões. É um pacheco sami, mas bate e assopra ao mesmo tempo. Vai entender.

No Brasil, o então olvidado Salo tornou-se um dos inimigos públicos dos nacionalistas ao fazer comentários negativos a respeito de Felipe Massa e Bruno Senna. Sobre Massa, o nórdico afirmou que “não acredita que ele seguirá na Ferrari na próxima temporada. Na verdade, é surpreendente que a equipe tenha ficado com ele neste ano”. Não mentiu. Os fãs brasileiros também não reagiram mal, aqueles mesmos fãs que perturbavam a ordem quando alguém cometia o pecado de tecer qualquer crítica que fosse ao piloto paulista em 2008. Para felicidade de Salo, os brasileiros não estão entre os 15.000 povos mais fiéis aos seus ídolos.

O que pegou mais foi a crítica a Bruno Senna. Nesse caso, o pacheco uralo-altaico Salo falou um monte de coisas. Num primeiro instante, Mika afirmou que “a dupla da Williams é uma das piores do grid. Tanto Pastor Maldonado como Bruno Senna são suscetíveis a erros. O brasileiro teve algumas boas corridas no ano passado, mas decaiu muito no final da temporada”. Muita gente se sentiu como se tivessem ofendido suas respectivas progenitoras. A reação geral foi à base de extensivo ad hominem. Quem é Mika Salo?

Mika Salo, que andou falando um monte sobre Bruno Senna e arranjou um bocado de inimigos no Brasil

Não satisfeito, o finlandês seguiu batendo pesado. “Senna é um cara legal, mas incapaz de pilotar no nível exigido por Frank Williams”, proclamou há não muito tempo. Em seguida, encaixou sua dose de protecionismo. “Valtteri Bottas é extremamente respeitado por Frank Williams, que o elogia muito e diz que seu lugar é nas corridas”. Para terminar, a insinuação maior: Bruno Senna não terminará a temporada. Levará uma botinada nos fundilhos.

Quem é Mika Salo para dizer umas merdas dessas?, perguntou a nação. Eu respondo quem é Mika Salo.

Em termos de pilotagem, Salo é um que uma pessoa que entende um pouco mais do esporte sabe que não teve seus talentos devidamente aproveitados. Em 1990, ele duelou contra o xará Häkkinen nas pistas inglesas da Fórmula 3. Foi uma rivalidade legal de se ver e a mídia britânica adorava. Os destinos dos dois, depois disso, se distanciaram. Häkkinen foi para a Fórmula 1 já em 1991 e fez uma carreira frutífera. Com Salo, isso não aconteceu.

“O outro Mika” foi pego dirigindo totalmente chapado ainda em 1990 e acabou em cana. Ken Tyrrell tinha lhe oferecido uma vaga para 1991, mas rasgou a proposta após perceber que estava contratando um moleque bêbado e inconsequente. Salo se viu obrigado a ir para o Japão tentar reconstruir a carreira e a imagem. Comeu uma boa mulherada e arranjou uma namorada que trabalhava como dançarina e modelo – sim, eu sei que alguns de vocês interpretaram uma terceira profissão implícita.

Depois de algum tempo, Salo foi meio que resgatado pelo automobilismo internacional para disputar duas corridas pela Lotus no fim de 1994. Depois, passou por Tyrrell, Arrows, Sauber, Ferrari, BAR e Toyota. Demonstrou ótimo desempenho em corridas malucas, fez provas excepcionais em Mônaco e superou seus companheiros de equipe sem grandes problemas. Na Ferrari, fez seis corridas e chegou ao pódio em duas. Por outro lado, Mika não era um gênio na chuva, raramente andava bem em treinos oficiais e não costumava cuidar do físico. Não foi uma carreira brilhante, portanto. Mas dá para jogar na conta da falta de uma oportunidade decente.

Esta é a parte boa de Mika Salo. A ruim se refere à fama de sujeito arrogante, egoísta e pouco agregador. O cara conseguiu brigar com a maior parte das equipes por onde passou. Tem um histórico de declarações infelizes e até meio desrespeitosas. Na Inglaterra, onde as pessoas realmente entendem de automobilismo, são poucos os que gostam dele.

Vamos às histórias. Nos anos 90, Salo atraiu um bocado de antipatia quando falou que “o melhor Mika não era o Häkkinen”. Em 2000, apesar de ter feito uma boa temporada na Sauber, seu Peter não quis ficar com ele, já que o piloto finlandês não era um sujeito que criava um bom ambiente na equipe. Alegação parecida foi feita pela Toyota em 2002, quando ela anunciou de forma até surpreendente que não permaneceria com Salo no ano seguinte.

Em resposta, o finlandês soltou cobras e lagartos sobre suas antigas empregadoras. Quando Kimi Räikkönen sofreu um acidente no GP de San Marino de 2001 após uma quebra na barra de direção, Salo afirmou algo como “é por essas que a Sauber nunca será uma equipe importante na Fórmula 1”. Com relação à Toyota, em uma entrevista concedida à F1 Racing no fim de 2002, ele falou mal de praticamente tudo referente à equipe japonesa. Apenas o projetista Gustav Brunner e a cúpula japonesa foram poupados da língua ferina.

Valtteri Bottas, o cara que Mika Salo quer colocar de todo jeito na Williams

Mas a melhor amostra da personalidade de Mika Salo é uma entrevista que ele concedeu ao jornal finlandês Turun Sanomat no início de 2002. O jornalista pediu para que ele comentasse sobre os demais pilotos do grid. Péssima idéia.

Schumacher: “Tem uma equipe que faz tudo por ele. A única coisa que ele precisa fazer é manter o carro na pista”.

Barrichello: “Ele é praticamente um nada. Tem dias bons e ruins, e os ruins são sempre mais frequentes”.

Coulthard: “Muito bonzinho pra Fórmula 1. É piloto pra ganhar uma corrida ou outra e só. Vivia tomando tempo do Häkkinen”

Ralf: “Fiquei surpreso pelo fato dele ter vencido corridas em 2001. Nunca achei que ele tivesse capacidade para isso”.

Montoya: “Comete muitos erros”.

Heidfeld: “Nunca o achei tão bom como dizem. Só o Peter Sauber acha isso, na verdade”.

Massa: “Dirige de maneira estranha. É um selvagem que já destruiu um monte de carros”.

Fisichella: “Erra pra caralho. E olha que ele é o melhor italiano do grid”.

Sato: “Não o conheço. Mas sei que ele só entrou na Fórmula 1 graças à Honda”.

Villeneuve: “Está sem motivação já faz um bom tempo”.

Trulli: “É um cara veloz, mas sempre perde concentração e geralmente abandona as corridas por causa disso”.

Button: “Nunca demonstrou lá um grande potencial na Fórmula 1. Desanimou de vez após não conseguir ser contratado por uma equipe grande”.

Irvine: “Um cara rápido, mas que não tem atitude de primeiro piloto. Não deveria ter ficado com esse papel na Jaguar”.

De La Rosa: “Bom em corridas, mas fraco nos treinos”.

Bernoldi: “Um ninguém”.

Frentzen: “É um cara rápido e experiente, mas sempre está batendo ou indo para a caixa de brita”.

Yoong: “Um cara que toma seis segundos por volta. O que mais preciso dizer?”.

McNish: “Fala muito. MUITO. E pelo tanto que fala, não consegue ter tempo para correr”.

Salo: “O melhor, claro”.

Façam seus próprios julgamentos. Eu lavo minhas mãos. Fecho os parênteses.

Bruno Senna, o cara que toma as porradas

Eu sempre achei que o pachequismo, assim como a jabuticaba, era uma invenção latina. Apenas brasileiros, espanhóis e demais povos barulhentos e de péssima auto-estima eram capazes de deixar a realidade de lado e exaltar todas as coisas boas de seus países, como o ETA e o PCC, o Generalíssimo Franco e o General Geisel. Felizmente, sempre existe um Mika Salo pronto para provar que eu estou errado, como de costume. A idiotia nacionalista acomete a todos, sem distinguir classe social, credo e religião.

Para Salo, apenas seus fellas de país Räikkönen, Kovalainen e Bottas merecem respeito, carinho e atenção. O resto é lixo. Na Espanha, eles fazem a mesma coisa quando se fala em Fernando Alonso. No Brasil, bem, dispenso comentários.

Aliás, falando em Brasil, eu acho incrível a capacidade da torcida local em rebaixar ainda mais um estúpido debate de verve nacionalista. Andei lendo alguns comentários feitos a respeito das declarações de Mika Salo sobre Bruno Senna. É estarrecedor. O problema maior nem é a incapacidade ortográfica e gramatical dos comentaristas, mas a total ausência de imaginação e capacidade crítica das réplicas. Nem seria tão difícil dizer que Valtteri Bottas ainda não passa de um campeão de GP3, que Mika Salo está falando merda como sempre, que apenas a própria Williams pode apontar quem corre para ela ou não e que o Bruno calará a boca dos críticos num dia, talvez o de São Nunca.

Mas não. A incapacidade de argumentação é um mal que deveria ser combatido imediatamente por qualquer ministro da Educação que se preze. Em tese, eu não deveria me incomodar com um punhado de gente que não sabe replicar corretamente uma declaração sobre um assunto tão besta quanto a Fórmula 1. O problema é que um sujeito que não argumenta corretamente no âmbito do esporte geralmente também não sabe fazer isso em assuntos ligeiramente mais sérios. Ser burro quando se fala, por exemplo, de política ou economia é um pouco mais grave. Seguimos.

“Mika Salo foi um péssimo piloto”. Não, não foi. O fato dele falar bosta e de agir como um babaca não o torna inapto para dirigir. E ele fez pequenos milagres na época em que correu por equipes pequenas. No GP de Mônaco de 1997, conseguiu ser o único piloto da história recente a completar uma corrida (dificílima, diga-se) sem parar uma única vez nos boxes. No ano seguinte, na mesma pista monegasca, levou um lamentável Arrows A19 ao quarto lugar. E suas performances na temporada de 2000 foram excelentes.

Mas o argumento que sempre dói mais é o “quem é Mika Salo?”. Nunca entendi a lógica desses que fazem questão de replicar uma opinião desmerecendo seu emissor mesmo estando em situação muito pior. O finlandês pode não ter sido o piloto de maior sucesso de todos os tempos, mas tem muito mais moral e bagagem para fazer o comentário que for do que qualquer um de nós. A propósito, a maioria das pessoas não tem condição mental para escolher entre duas marcas de extrato de tomate, quanto mais emitir um juízo sobre algo um pouco mais complexo. Salo, por outro lado, viveu ali no meio durante anos. Ele mesmo pode ser um acéfalo com relação a extrato de tomate. De Fórmula 1, no entanto, ele entende.

Este é Mika Salo

Eu vislumbro aí uma deliciosa guerra entre imbecis abraçados a bandeiras. Quem perde, é claro, é a verdade. Falando na dita cuja, o que podemos dizer sobre os pilotos da Williams envolvidos na história?

Bruno Senna, sinto muito aos defensores, não está fazendo aquela temporada dos sonhos. É verdade que ele é bem mais inteligente do que macacos, peixes e pilotos venezuelanos, mas isso não seria uma obrigação de um homo sapiens? Sendo bem franco, eu o considero um cara legal, um sujeito honesto e um piloto com algumas qualidades. Fez boas corridas na Malásia e na China, mas sumiu de umas corridas para cá. E tem bem menos sangue nos olhos do que seu companheiro. Diz o senso comum que é mais fácil domar um piloto veloz e selvagem do que fornecer velocidade a um cara comportado e conservador. É verdade. Mesmo sendo um asno hoje em dia, Maldonado é um cara que tem bem mais chances de evoluir e virar um gênio.

Valtteri Bottas, sinto muito aos pachecos fineses, ainda não é nada além de um piloto reserva com um título na GP3 e outro numa Fórmula Renault qualquer por aí. Eu o acompanhei na temporada 2010 da Fórmula 3 Euroseries e posso dizer que não fiquei tão impressionado. Longe de insinuar que ele seja um mau piloto, gostaria apenas de lembrar que Bottas precisa de um pouco mais de quilometragem para comprovar o talento que parece ter. Fora isso, qualquer tipo de idolatria exacerbada a um sujeito desse tipo é representada na Classificação Internacional de Doenças pelo código F52.4: ejaculação precoce.

O nacionalismo é uma merda desgraçada. Último refugo dos canalhas, como dizia Nelson Rodrigues. Antes, quando falávamos na guerra entre um Senna e um Mika, nos referíamos apenas às belas corridas do final da temporada de 1993. Hoje em dia, o Mika em questão é apenas um tonto que insiste em cavar espaços para um compatriota. O Senna em questão é apenas um piloto razoável que não merece as pancadas que vem levando. E estamos aqui, os comentaristas da internet vomitando suas asneiras de sempre e eu escrevendo uma tonelada de coisas que também não servem para merda alguma.

Todos são idiotas, como sempre. E Galvão, maldoso sou eu.

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