Dias bem difíceis para a Monteverdi

Dias bem difíceis para a Monteverdi, que sucedeu a Onyx

Quando a coisa engrena, ela anda que é uma beleza. A frase pode servir para descrever um Fusca em uma descida, mas também cabe muito bem na interminável série sobre a mais espetacular e genial equipe de todos os tempos do automobilismo mundial, a Onyx Grand Prix. Depois de meses arrastando esse negócio, lutando contra a falta de tempo e de vergonha na cara, superando os obstáculos da vida e a mais profunda indolência, dizem alguns rumores que a história terá um ponto final ainda esse ano. Sentiremos saudades. Sentiremos?

A escuderia pode até fazer falta para meia-dúzia de desocupados e abilolados, mas certamente deixou memórias bem amargas para outros tantos. Ayrton Senna foi atrapalhado por carros da equipe fundada por Mike Earle em três ocasiões. Stefan Johansson e Bertrand Gachot foram demitidos sumariamente e nem seguro-desemprego receberam. A família Foitek pulou fora do barco ainda no fim de semana do Grande Prêmio da Hungria de 1990. Enfim, insatisfeitos existiam. Basicamente, só eu achava esse troço aí legal.

No último capítulo, falei justamente do tal GP húngaro. Na ocasião, a equipe, já renomeada como Monteverdi Grand Prix, não conseguiu classificar para a corrida nenhum de seus dois pilotos, o suíço Gregor Foitek e o finlandês JJ Lehto. Os dois passaram por tudo quanto é tipo de perrengue naquele fim de semana e não chegaram nem perto de obter uma vaga entre os 26 largadores. Foitek ainda sofreu uma inaceitável quebra de suspensão em alta velocidade, o que quase resultou em um acidente de grandes proporções. Depois do ocorrido, seu pai Karl, um dos sócios da Monteverdi, decidiu que não queria mais tomar outro susto dessa natureza e pulou fora da equipe, levando seu filhinho desvairado junto.

A saída de Karl e Gregor Foitek da Monteverdi significou basicamente que a equipe perdeu não só um de seus pilotos como também uma de suas únicas fontes de dinheiro. Dali em diante, os sócios remanescentes Peter Monteverdi e Bruno Frei teriam de se virar para achar um mecenas que ajudasse a pagar as contas e um piloto que fosse desmiolado o bastante para aceitar pilotar o lamentável ORE-2. Desnecessário dizer que, além de dirigir, o tal piloto também teria de contribuir com a vaquinha.

E eles precisariam de muito dinheiro para resolver os problemas. Para começar, a equipe dispunha de apenas um motorhome (que na verdade era um modesto ônibus de dois andares modificado), não tinha carro-reserva e nem mesmo peças de reposição em quantidade aceitável – Peter Monteverdi chegou a retirar componentes dos carros que ficavam expostos em seu museu para utilizá-los nos bólidos de Fórmula 1.

A Monteverdi Grand Prix tinha débitos aqui e acolá. Imagino eu que direitos trabalhistas compunham boa parte do seu passivo: os mecânicos ingleses dos tempos da Onyx foram todos embora por conta das decisões arbitrárias dos donos suíços e certamente abocanharam uma grana preta dos cofres da escuderia. Para mantê-la funcionando, Peter Monteverdi teve de contratar mecânicos e engenheiros suíços, que não custavam barato e ainda por cima não eram tão eficientes quanto os britânicos.  A transferência da sede da equipe de Fontwell para a Suíça, o maior motivo de insatisfação dos antigos funcionários, ainda teria propiciado uma economia de 20 mil libras esterlinas mensais aos patrões, nada que mudasse muito a situação.

Andrea Chiesa, um dos pilotos cogitados para substituir Gregor Foitek

Andrea Chiesa, um dos pilotos cogitados para substituir Gregor Foitek

O maior dos credores da Monteverdi, no entanto, era a Goodyear. A fabricante de pneus cobrava 400 mil dólares de pagamentos atrasados referentes aos compostos utilizados durante a temporada de 1990. Caso essa dívida não fosse quitada, a Monteverdi ficaria sem pneus para o GP da Bélgica. O contrato que a Goodyear mantinha com todas as suas clientes previa que cada equipe tinha de fazer um depósito anual antecipado e dividido em duas parcelas, uma delas a vencer em 1º de março e a outra em 1º de junho. No fim do ano, o total de pneus utilizados pela escuderia na temporada seria contabilizado para posterior ajuste comercial. Se a equipe gastasse mais pneus do que o previsto pelo contrato, ela faria um pagamento adicional. Se gastasse menos, teria direito a reembolso.

Cada pneu Goodyear custava 450 dólares. Naquela época, uma equipe que competia com dois carros utilizava cerca de 80 pneus em um fim de semana. A conta é simples: a cada GP, 36 mil dólares eram gastos apenas com sapatos novos para os carros de corrida. A dívida da Monteverdi chegava aos 400 mil dólares. Ou seja, ela passou o ano inteiro competindo no fiado.

Outras credoras importantes eram a Advanced Composites, a Bob Warren Travel e a MSL. A primeira era responsável pelo fornecimento de parte da matéria-prima utilizada para a construção dos carros. A Bob Warren Travel e a MSL realizavam o frete de carros e equipamentos ao redor do mundo. Além dessas empresas, uma miríade de insatisfeitos menores batia às portas exigindo o pagamento de dívidas passadas.

Sem dinheiro, sem crédito na praça, sem equipamentos, sem peças e sem um dos pilotos, a Monteverdi Grand Prix caminhava a passos largos rumo à bancarrota. Para piorar, alguns dias após o GP da Hungria, a mídia europeia publicou a informação de que o outro piloto da equipe, o finlandês JJ Lehto, também estava dando um jeito de pular fora do barco. Lehto já estava negociando seu destino com outras equipes e não estava disposto a ficar no meio daquela bagunça helvética por muito mais tempo.

A saída confirmada de Gregor Foitek e a enorme vontade de ir embora de JJ Lehto deixaram a Monteverdi em péssimos lençóis, sem ninguém para conduzir as carroças azuladas. Numa situação como essa, a melhor solução é recorrer a novatos com muita grana no bolso e sem muita paciência para esperar por uma oportunidade melhor. Na Fórmula 3000, havia muitos com esse perfil.

Logo de cara, dois jovens pilotos suíços chamaram muito a atenção de Peter Monteverdi e Bruno Frei. Um deles era mezzo italiano e se chamava Andrea Chiesa. Futuro piloto da Fondmetal, Chiesa estava fazendo sua terceira temporada na F-3000 sem grandes perspectivas de título. Sua única vitória havia sido obtida no mítico circuito de Enna-Pergusa em 1989. Apesar da magreza do currículo, ele era um desses afortunados que podiam contar com uma boa gama de patrocinadores pessoais para chegar ao topo do automobilismo.

O outro piloto alpino em questão era moitié français e se chamava Philippe Favre. Em algum momento do ano passado, você deve ter lido esse nome no noticiário automobilístico. Poucas semanas antes do fatídico acidente de Michael Schumacher em Méribel, Favre faleceu vítima de um acidente de esqui também na França. A mórbida semelhança entre a história dos dois desafortunados para por aí. Philippe teve uma carreira automobilística discreta e não alcançou grandes voos. Na Fórmula 3000, obteve apenas um pódio na corrida de Silverstone em 1989. Assim como o conterrâneo Chiesa, os grandes atributos de Favre eram estritamente financeiros.

Eric van de Poele, piloto Moneytron que interessou muito aos suiços da Monteverdi

Eric van de Poele, piloto Moneytron que interessou muito aos suiços da Monteverdi

Chiesa e Favre definitivamente não eram os caras que salvariam a pele da Monteverdi no plano esportivo. Sua presença só fazia sentido se eles ajudassem a pagar algumas contas atrasadas, postergando a falência o máximo possível. Cientes da pequeneza de seu papel, nenhum dos dois pilotos aceitou o convite para pilotar o carro azulado a partir do GP da Bélgica, 11ª etapa da temporada de 1990. Se fosse apenas para passar vergonha no fim do pelotão e perder dinheiro, era melhor ficar zumbizando na Fórmula 3000 mesmo.

Sem Andrea e Philippe, Peter Monteverdi concluiu que os jovens pilotos helvéticos eram exigentes e rebeldes demais para topar o desafio de pilotar para sua equipe. Então, ele decidiu deixar qualquer orgulho patriótico de lado e foi atrás de qualquer piloto que fosse minimamente competente e ainda pudesse injetar dólares, ienes, rúpias, pesos, pesetas, liras, cruzeiros ou o capeta. Podia ser inglês, brasileiro, marciano ou soviético.

Havia um cara mais ou menos interessado, o belga Eric van de Poele. Esse rapaz aqui era um piloto tão competente quanto polivalente, já que disputava dois campeonatos totalmente diferentes em alto nível. Na Fórmula 3000, Van de Poele venceu corridas em Pau e Birmingham e logo passou a ser visto como um especialista em pistas de rua. No Campeonato Belga de Turismo, ele arrepiava a bordo de um carro patrocinado por uma empresa local chamada Moneytron. Você já ouviu falar dela, imagino…

Numa lógica obtusa, podemos imaginar que Van de Poele pode ter se aproximado da Monteverdi por meio da Moneytron, que pertencia justamente ao cara que financiou a primeira fase da Onyx. Essa associação nem faria muito sentido, na verdade, pois Jean-Pierre Van Rossem largou a Fórmula 1 totalmente desiludido e aparentemente não tinha nenhuma relação com os donos suíços que assumiram a escuderia em 1990. Tudo fica no campo das especulações. O fato é que Van de Poele era um piloto Moneytron e havia a possibilidade do contrato com a Monteverdi. Caso tudo desse certo, ele faria sua estreia em Spa-Francorchamps, pista que conhecia como a palma de sua mão.

Enquanto tentava arranjar pilotos para disputar a etapa belga, a Monteverdi tentava dar um jeito de seguir em frente. Não adiantaria apenas convencer dois otários a arriscarem suas vidas em uma máquina obsoleta e perigosa se não houvesse condições financeiras e técnicas para botar essa máquina na pista. No entanto, se a equipe optasse por simplesmente não se inscrever para o GP, ela teria de pagar uma multa de 250 mil dólares à FISA. Os suíços logo perceberam que se correr, o bicho pega, e se ficar, o bicho come.

Para sua sorte, algumas de suas parceiras ainda nutriam certo sentimento de dó e resolveram fazer caridade com a Monteverdi. A Goodyear aceitou reduzir sua cobrança de 400 para 170 mil dólares e ainda subsidiou cem pneus novos para que a equipe azulada pudesse competir pelo menos em Spa-Francorchamps. A Marlboro, uma das poucas patrocinadoras que haviam sobrado, não queria continuar injetando dinheiro nesse buraco depois do final da temporada de 1990. Mesmo assim, e por pura compaixão, a tabaqueira resolveu manter a parceria para o futuro, mas reduzindo o tamanho do patrocínio. Melhor do que nada, né?

Não para Peter Monteverdi. Ele ainda estava enfurecido com a Goodyear, porque ninguém gosta de credores, e também com a Marlboro, que estava decidida a cortar investimentos em sua escuderia. Mas era isso ou nada. Brigar com aqueles que, a contragosto, ainda lhe ofereciam uma mão não era a mais sensata das atitudes.

Peter Monteverdi, cada vez mais enrolado com sua equipe de Fórmula 1

Peter Monteverdi, cada vez mais enrolado com sua equipe de Fórmula 1

Peter não tinha direito de reclamar de nada. Sua equipe estava praticamente falida. A morte era uma questão de tempo. A mídia automobilística já tratava a Monteverdi como um caso perdido, uma piada de péssimo gosto, uma equipe que conseguiu jogar tudo o que a Onyx tinha de bom no lixo em questão de meses e que certamente não faria falta alguma no futuro. O jornalista inglês Nigel Roebuck, do Autosport, até criou um apelido que zombava não só com a certeza da falência como também com a falta total de confiabilidade dos carros azulados: “Equipe Relógio Cuco”.

Não havia muito mais o que fazer. Mas os caras insistiam.

Essa daqui eu não posso confirmar, mas é o que os fofoqueiros do paddock da Fórmula 1 andaram cochichando na época. Apesar de não ter sequer encontrado um substituto para Gregor Foitek, a Monteverdi estava determinada a participar do GP da Bélgica, 11ª etapa do campeonato de 1990. Ela ainda estava contando com a presença de JJ Lehto e Eric van de Poele, muito embora o primeiro não estivesse muito a fim de correr e o segundo sequer tivesse um contrato válido. Caso Van de Poele fosse confirmado, o próprio Bernie Ecclestone intermediaria a emissão rápida de sua superlicença. Se entrassem na pista, os carros utilizariam peças em estado de petição e pneus praticamente doados pela Goodyear. Em tese, todos os bólidos e equipamentos sairiam da Suíça rumo à Bélgica em 20 de agosto, quatro dias antes do início das atividades.

Antes da ida a Spa-Francorchamps, porém, a escuderia decidiu realizar um teste rápido no circuito de Monza. Eles levariam apenas um carro cujo bico seria reaproveitado de um antigo chassi ORE-1B que já estava encostado no museu Monteverdi. Ainda vinculado à equipe, JJ Lehto entrou na pista, completou a primeira volta e parou na segunda. Sabe o que aconteceu? O diabo do bico arrebentou sozinho, deixando o finlandês na mão.

A Monteverdi não tinha um bico novo para ser instalado no carro. As peças que haviam sobrado eram muito antigas ou estavam completamente desgastadas. Não dá para ter um carro de Fórmula 1 moderno sem um bico, oras bolas.

E como desgraça pouca é bobagem, as negociações com Eric van de Poele fracassaram. O piloto belga recebeu a proposta em suas mãos, ponderou, pensou, ponderou, pensou, ponderou, pensou e concluiu que estaria fazendo a maior besteira de sua vida se aceitasse aquele convite. Além do mais, no mesmo fim de semana do GP da Bélgica, haveria uma corrida de Fórmula 3000 nas ruas de Birmingham e Van de Poele ainda tinha chances de brigar pelo título. Não valia a pena jogar tudo para o alto pelo capricho de estrear na Fórmula 1 de qualquer jeito.

Sem piloto? Sem bico? Fim da linha.

No dia 21 de agosto de 1990, o chefe Peter Monteverdi emitiu um comunicado anunciando aquilo que todos já esperavam. A Monteverdi Grand Prix, equipe que surgiu a partir do que havia sobrado da Onyx, estava se retirando de forma imediata do Campeonato Mundial de Fórmula 1. A partir do Grande Prêmio da Bélgica, os carros azulados de números 35 e 36 não mais dariam as caras nos autódromos mundo afora. Com isso, a equipe foi automaticamente excluída da FOCA, associação de construtores, pelo menos até o fim do ano.

O misterioso teste de JJ Lehto com o que poderia ter sido o carro da Monteverdi em 1991

O misterioso teste de JJ Lehto com o que poderia ter sido o carro da Monteverdi em 1991

Não foi um comunicado sucinto, a bem da verdade. Com erros de inglês e tom vitimista, Monteverdi culpou principalmente a Goodyear e a Marlboro por não conseguir seguir adiante com sua escuderia, acusando a fabricante de pneus de deliberadamente cortar o fornecimento de novos compostos. Foi preciso que Barry Griffin, porta-voz da Goodyear, aparecesse e rebatesse publicamente as acusações feitas pelo suíço, afirmando que os pneus estavam disponíveis e prontos para serem entregues.

Depois de listar suas reclamações, Peter Monteverdi terminou o comunicado fazendo uma revelação bombástica: retornaria à Fórmula 1 em 1991 com uma nova estrutura, a Monteverdi F-1 Swiss Team. Essa nova equipe seria totalmente suíça, do jeitinho que o homem queria, e ainda teria pelo menos um representante do país como piloto.

A ideia foi para frente? Até certo ponto. Depois do comunicado, nada mais foi noticiado em caráter oficial a respeito da tal Monteverdi F-1 Swiss Team. No entanto, circulam pelos fóruns e páginas obscuras da vida algumas fotos de um suposto carro que a equipe poderia utilizar em 1991. À primeira vista, o bólido chama a atenção por substituir a cor anilada por um layout totalmente vermelho e branco, baseado nas cores da bandeira suíça, e por introduzir algumas grandes novidades técnicas, tais como um bico novo e uma nova cobertura do motor.

Uma das fotos até mostra o carro em ação, pilotado pelo intrépido JJ Lehto. Não tenho informações sobre esse teste. Diz a lenda que ele ocorreu em Monza, mas não saberia dizer se foi justamente naquela ocasião em que o bico do carro quebrou sozinho. Também não posso confirmar se ele ocorreu antes ou depois da falência. Imagino que tenha ocorrido antes, quando a Monteverdi ainda tinha algumas peças e pneus disponíveis. O mistério está aí. Se algum leitor tiver o que acrescentar aqui, ficaria muito feliz.

No fim das contas, o projeto do retorno da Monteverdi foi definitivamente engavetado.  Não havia dinheiro para a empreitada e o tal carro alvirrubro preparado para 1991 literalmente virou peça de museu. Hoje em dia, se você quiser vê-lo de perto, basta dar um pulo na cidade suíça de Basel, onde está localizado o Monteverdi Museum. Além dele, estão expostos um ORE-2 utilizado durante a temporada de 1990, o MBM que o próprio Peter Monteverdi pilotou em uma corrida extraoficial de Fórmula 1 em 1961 e vários outros carros projetados pelo homem. O cara pode não ter dado certo na categoria, mas era um baita engenheiro e merece todos os créditos por isso.

E foi assim, desse jeito meio atribulado, que acabou a história da Onyx na Fórmula 1. A melhor equipe de todos os tempos no automobilismo mundial teve vida curta, mas marcante. Todas as dezesseis pessoas que se interessam pelo lado B da história do esporte a motor guardam com carinho as lembranças daquela pintura extravagante, do chassi ambicioso, das doideiras de Jean-Pierre Van Rossem, das burradas gerenciais dos sócios suíços, dos ótimos e péssimos resultados, do pódio no Estoril e dos causos e lendas de uma das escuderias mais pitorescas que já passaram pela F-1.

E é isso. Demorou, mas acabou.

Quer ver o Monteverdi 1991? Vá a Basel, na Suíça

Quer ver o Monteverdi 1991? Vá a Basel, na Suíça

Mentira! Haverá ainda um último capítulo de verdade. Ou melhor, um epílogo. Este daqui foi o verdadeiro último capítulo, a não ser que você conte um epílogo como um capítulo, o que tornaria toda a coisa mais confusa.

Epílogo ou capítulo, fiquem ligados. No post derradeiro da série sobre a Onyx, falarei sobre o que aconteceu com cada um dos personagens principais que fizeram parte dessa história. E contarei também algumas histórias que pouquíssima gente conhece, como o comentado retorno da Onyx propriamente dita à Fórmula 1. Enfim, acabou, só que ainda não.

Gregor Foitek passeando por Hungaroring: problemas até mesmo com Ayrton Senna

Gregor Foitek passeando por Hungaroring: problemas até mesmo com Ayrton Senna

Quase um ano e meio após a primeira parte desse especial que certamente merecia um espaço no Guinness Book pela absoluta falta de celeridade, parece que dezembro de 2014 será o tão esperado mês do fim desse trambolho aqui. Pelas minhas contas, cuja margem de erro pode ser igual àquela das eleições presidenciais, é possível que em dois ou três capítulos seja possível finalizar definitivamente a história da Onyx Grand Prix, a melhor equipe de automobilismo de todos os tempos.

Sim, amigos, o fim dessa epopeia não será como o último episódio de Caverna do Dragão. Haverá um ponto final que satisfará a todos. Ou não, mas que se dane.

A 23ª parte dessa série foi escrita em agosto, quando Papai Noel ainda não havia terminado de montar todos os presentes. Falei do Grande Prêmio da Alemanha de 1990, nona etapa da temporada, corrida em que os dois carros da Monteverdi (lembrem-se, não existe mais o nome “Onyx” nessa história) milagrosamente conseguiram largar e infelizmente não conseguiram cruzar a linha de chegada. Os jovens Gregor Foitek e JJ Lehto já estavam por aqui de tantos problemas, tantas frustrações, tantas dores de cabeça. A ótima temporada de 1989 já havia ficado para trás fazia muito.

A etapa seguinte seria o Grande Prêmio da Hungria, a ser realizado em 12 de agosto de 1990, auge do verão europeu.

Lá nas primeiras posições, a briga estava legal às pampas. Ayrton Senna e Alain Prost protagonizavam uma luta praticamente fratricida em que um apenas queria ver o outro morto e devidamente enterrado. A McLaren ainda era a equipe mais forte do mundial, mas somente graças ao imbatível motor Honda: a Ferrari já tinha um chassi melhor e o tão sonhado câmbio semiautomático. As demais equipes de ponta, Williams e Benetton, haviam conseguido se aproximar da ponta em 1990 e às vezes davam algum trabalho para os dois postulantes ao título. Porém, o que nos interessa aqui é o fim do pelotão.

A Monteverdi desembarcou em Hungaroring sem grandes expectativas. A recente transferência da sede da equipe do sul da Inglaterra para a Suíça havia sido um desastre do ponto de vista técnico, pois os bons engenheiros e mecânicos britânicos não quiseram sair da terra da Rainha e resolveram pedir as contas. O dinheiro estava curtíssimo e as perspectivas futuras eram basicamente as piores possíveis. Caso uma revolução das marmotas não acontecesse na escuderia azulada, o sonho acabaria antes mesmo do fim da temporada.

O belo, mas ao mesmo tempo horrendo, carro da Monteverdi Grand Prix

O belo, mas ao mesmo tempo horrendo, carro da Monteverdi Grand Prix

A situação da esquadra de Peter Monteverdi não era muito diferente daquela que, por exemplo, a Caterham enfrentou nesse final de 2014. A turma foi à Hungria com um único motorhome, dois carros de competição, nenhum bólido de reserva, o mesmíssimo acerto utilizado na corrida de 1989 e poucas peças sobressalentes. Caso Gregor Foitek fizesse uma das suas e se arrebentasse em uma barreira de pneus, não haveria como reparar seu carro e ele ficaria de fora do GP de qualquer jeito.

Então comecemos falando da sexta-feira. Coisas (ruins) aconteceram aos montes.

Gregor Foitek teve um dia movimentadíssimo e, pela segunda vez no ano, arranjou problemas com ninguém menos que Ayrton Senna. No treino livre realizado pela manhã, o suíço sofreu uma rodada sem grandes consequências após passar por cima do óleo deixado pela Ferrari de Nigel Mansell. Sem grandes objetivos, só conseguiu o 26º melhor tempo entre trinta carros. A volta em 1m23s810 não era de todo ruim, mas o fato de um AGS ter conseguido ser mais rápido provava que a concorrência não facilitaria o trabalho da Monteverdi.

Após essa sessão, a equipe descobriu que a relação de marchas do carro de Foitek estava toda errada e precisava ser ajustada urgentemente. Porém, essa tarefa costumava tomar umas três horas e os mecânicos não tinham todo esse tempo livre. Então, sabendo que isso não faria muita diferença no fim das contas, o pessoal optou por deixar as coisas do jeito que estavam. Gregor Foitek que se vire para conseguir algum milagre.

No treino classificatório do período da tarde, o grande feito de Foitek foi aborrecer Ayrton Senna novamente. Em Mônaco, o helvético havia trancado o caminho de Senna quando este estava em volta rápida. Dessa vez, o incidente não foi captado em vídeo.

Gregor estava passeando pela pista com os pneus bem desgastados, sem condições de fazer uma volta rápida ou qualquer coisa do tipo. Restava apenas voltar aos boxes para colocar um jogo novo de pneus, se é que a Monteverdi ainda tinha algum disponível. De repente, surge em sua traseira a ameaçadora figura de Ayrton Senna, que vinha em uma daquelas suas voltas diabólicas típicas. Nessa situação, tudo o que o humilde Foitek deveria fazer era sair da frente e deixar o mestre passar, certo?

JJ Lehto também não teve um fim de semana fácil.  Os mecânicos não ajudaram

JJ Lehto também não teve um fim de semana fácil. Os mecânicos não ajudaram

Errado. Ele permaneceu no meio do caminho, pisou no acelerador e segurou Senna por alguns irritantes segundos. Ayrton conseguiu ultrapassá-lo na marra, mas chegou a fritar o pneu dianteiro direito para evitar um acidente e perdeu ali a chance de fazer algo melhor que o desastroso oitavo tempo daquela sessão. Após o fim dos treinamentos, o campeão de 1988 não perdeu a oportunidade para falar um monte sobre Gregor Foitek. “Eu não faço a menor ideia do que ele estava fazendo ali naquele horário”, descascou Senna.

Só para lembrar, essa foi a terceira vez que Ayrton Senna teve problemas com um carro da Onyx/Monteverdi. Um ano antes, no GP húngaro de 1989, ele se assustou com a presença do bólido lento de Stefan Johansson em seu caminho, tirou o pé e acabou sofrendo uma ultrapassagem fenomenal de Nigel Mansell. Em 1990, Gregor Foitek foi o seu algoz nos treinamentos dos GPs de Mônaco e da Hungria. Garanto que ninguém tinha mais medo da Onyx do que o falecido tricampeão mundial.

Para quem ficou revoltado com o comportamento amador de Gregor Foitek em relação a Ayrton Senna, posso dizer que ele pagou seus pecados ainda na sexta-feira. Com um carro completamente desajustado, o suíço só conseguiu uma volta em 1m24s361, suficiente apenas para a 29ª e penúltima posição no grid provisório. Como havia apenas 26 vagas no grid oficial, podemos dizer que Foitek foi dormir sem o direito de largar no GP húngaro.

Vamos agora falar de JJ Lehto, que não teve uma sexta-feira muito melhor.

No último capítulo, comentei que o finlandês descobriu lá na Alemanha, de um jeito meio patético, que sua equipe estava montando o diferencial de seu carro numa posição completamente errada desde a corrida de Montreal. Por conta disso, ele vinha andando muito menos do que o companheiro Gregor Foitek. Os mecânicos ficaram estupefatos com a cagada que haviam cometido, resolveram o problema e Lehto conseguiu se classificar para a prova de Hockenheim.

Errar uma vez, ainda que o erro seja crasso, é humano. Repetir o erro…

No treino livre da manhã, Lehto penou com um carro totalmente instável e lento. Completou algumas poucas voltas e fez a melhor delas em 1m25s516, a pior de toda a sessão. Só para sentir o drama, o penúltimo colocado, David Brabham, ainda conseguiu um tempo 1s1 mais rápido. JJ não entendia o que estava acontecendo. Os mecânicos desmontaram o Monteverdi nº 36 e fizeram uma incrível descoberta.

Pois é, e a série está chegando ao fim...

Pois é, e a série está chegando ao fim…

Os gênios conseguiram a façanha de repetir a mesma burrada de Montreal e montaram o diferencial na mesmíssima posição errada de antes. Com isso, o motor não conseguia passar força total para as rodas e o resultado era um carro vagaroso e um piloto puto da vida. Lehto ficou embasbacado com a total inépcia de seus mecânicos. A Monteverdi havia deixado de ser uma tragédia grega para se tornar apenas uma piada das mais escatológicas.

Para consertar a bobagem, os mecânicos teriam de trabalhar por várias horas. Com isso, não daria tempo para aprontar o carro de JJ Lehto para o treino classificatório do período da tarde. Sendo assim, o finlandês passou toda a sessão nos boxes, assistindo de forma desolada ao trabalho frenético e inútil que estava sendo feito em seu bólido. Logicamente não marcou tempo algum e terminou a sexta-feira sem sequer saber se teria uma chance de tentar a milagrosa classificação no dia seguinte.

Vamos então ao sábado. Por questão de andamento da história que vocês entenderão depois, começo falando do próprio JJ Lehto.

O segundo treino livre foi a primeira vez em que o nórdico conseguiu andar com alguma dignidade. Competente, ainda conseguiu uma razoável 27ª posição nas tabelas com o tempo de 1m23s231, ficando à frente de Michele Alboreto e Jean Alesi.

No segundo e último treino classificatório, Lehto teve duas oportunidades de volta rápida. Na primeira delas, quando seus pneus ainda estavam novos, ele escapou para fora da pista após passar por cima dos detritos deixados pelo Lotus de Derek Warwick. Retornou aos boxes, fez algumas pequenas mudanças e voltou à pista para sua tentativa final. O problema é que o motor já estava no fim de sua vida útil (ele era exatamente o mesmo utilizado na corrida de Hockenheim) e os pneus haviam passado do seu ponto ideal ainda na primeira tentativa. O melhor que conseguiu fazer foi 1m22s647, que lhe garantiu apenas a 29ª e penúltima posição no acumulado das duas sessões classificatórias. JJ, portanto, estava fora do GP da Hungria.

Agora, falemos um pouco de Gregor Foitek. Aquele sábado basicamente definiu para sempre o destino de sua carreira e da equipe Monteverdi como um todo.

De manhã, Foitek fez apenas o último tempo no treino livre. Ele estava bem chateado, mas mal imaginava o que aconteceria com ele na sessão classificatória vespertina.

Máquina mortífera?

Máquina mortífera?

Em sua primeira tentativa de volta rápida, o suíço fez apenas 1m24s863 e retornou aos boxes para tentar algumas mudanças de acerto, pois esse tempo aí havia sido meio segundo mais lento do que o obtido no dia anterior. Voltou à pista esperando ao menos se aproximar do penúltimo colocado, mas seu objetivo não pôde ser cumprido.

Num trecho mais veloz no circuito de Hungaroring, um dos braços da suspensão dianteira esquerda se rompeu de forma abrupta e o carro de Gregor Foitek saiu a rodopiar violentamente até parar na caixa de brita. O Monteverdi de número 35 não chegou a bater em lugar algum, mas Foitek saiu do carro desnorteado e assustadíssimo, querendo respostas para aquela quebra em alta velocidade.

Sem carro-reserva ou peças sobressalentes, o dia de trabalho de Gregor Foitek obviamente acabou ali, no meio do cascalho. A volta feita anteriormente em 1m24s863 foi ainda mais lenta do que a obtida no dia anterior, que já era a pior entre os trinta pilotos, e o suíço ficou na lanterna na classificação geral. Assim como Lehto, ele também ficou de fora do Grande Prêmio da Hungria.

Mas isso pouco importava. Nos boxes, Gregor e Karl Foitek queriam esclarecer a causa, motivo, razão ou circunstância do absurdo problema com a suspensão dianteira que quase resultou em uma tragédia. Os mecânicos, envergonhados, admitiram que a falta de recursos os obrigou a recauchutar componentes que já tinham passado de sua vida útil. Ou seja, JJ Lehto e Gregor Foitek estavam pilotando dois amontoados de peças velhas que poderiam, a qualquer momento, arrebentar a mais de 200km/h. Imagine se um deles morresse por causa de um acidente causado por um braço de suspensão ou uma asa traseira que já deveria estar no lixo há muito tempo? Pois as chances disso acontecer eram reais.

Karl Foitek, que era um dos sócios da Monteverdi Grand Prix, achou aquilo o fim da picada e tomou uma decisão drástica: pegou suas coisas, abandonou a sociedade e ainda impediu que seu filho Gregor continuasse arriscando sua vida com aquela verdadeira máquina mortífera. “Após ter visto o acidente que meu filho sofreu com a Rial na Espanha no ano passado, eu não estaria preparado para deixa-lo pilotar um carro que não considero minimamente seguro. A situação estava ficando inaceitavelmente perigosa”, admitiu o pai-coruja. Ele tem toda a razão. Em um esporte profissional e perigoso como a Fórmula 1, não dava mesmo para admitir que uma equipe reutilizasse peças vencidas a ponto de comprometer a integridade de seus pilotos.

Com a saída da família Foitek, sobraram apenas Peter Monteverdi e Bruno Frei no comando da Monteverdi Grand Prix. Os dois não teriam como resolver todos os inúmeros problemas da equipe sem a ajuda de outrem. Só que ninguém mais queria fazer parte daquilo lá. A escuderia criada a partir do sonho de Mike Earle estava afundando e mal havia botes salva-vidas para todos. Todos se perguntavam: até quando esse embuste vai durar?

Você ficará sabendo no próximo capítulo.

Foitekão e o seu On... Monteverdi em Hockenheim

Foitekão e o seu On… Monteverdi em Hockenheim

Para quem quiser ler o capítulo passado, basta clicar aqui. Os demais capítulos estão todos aqui.

Uma luz se forma no túnel preto, gélido e sufocante. Depois de um ano inteiro falando de forma intermitente e irregular sobre esse assunto, parece que tanto os leitores como o próprio escriba aqui estarão definitivamente livres dessa epopeia. A história da espetacular Onyx Grand Prix, enfim, está chegando ao fim. Não hoje, mas muito rapidamente. Os leitores que não querem saber de carro azulado poderão respirar aliviados. Os que sentirão saudades da série, bem, ficarão na saudade.

As coisas estão difíceis para a escuderia fundada por Mike Earle, financiada por Jean-Pierre Van Rossem e mantida por três suíços sem muito traquejo com esse negócio de Fórmula 1. O carro, que nada mais era do que uma atualização mambembe do ORE-1 de 1989, não servia para porcaria alguma. Os pilotos, JJ Lehto e Gregor Foitek, estavam desconsolados e desgostosos. Os funcionários ingleses da escuderia, irritados com a transferência da sede administrativa para a Suíça, abandonaram o barco. Os resultados não vinham e até mesmo a classificação para o grid de largada estava sendo uma tarefa inglória. No meio de todo esse caos, ainda houve quem ficasse feliz.

Um dos sócios da equipe, Peter Monteverdi, queria tornar a Onyx uma esquadra com a sua cara redonda. No verão de 1990, enquanto as demais equipes se preparavam para os desafios das corridas velozes do segundo semestre, Monteverdi arquitetava uma série de mudanças que faria da Onyx um orgulho não só pessoal como também nacional. A mudança da sede, que saiu da Westergate House para uma construção anexa ao Monteverdi Automuseum, foi apenas uma das novidades. Outras que estavam por vir seriam um novo nome e um novo layout.

Monteverdi passou quatro semanas negociando com o implacável Bernie Ecclestone o rebatizado de sua escuderia. Bernie, como vocês sabem, é tradicionalista e não gosta muito de quem fica mudando de cara ao sabor do tempo. Contudo, se é para ajudar um amigo e um cara interessado em elevar a pátria helvética na Fórmula 1, por que não? Ecclestone apenas exigiu que as mudanças de denominação e imagem fossem realizadas apenas após a transferência definitiva de sede. E assim foi feito.

O antigo nome “Monteverdi Onyx Grand Prix” foi abolido e substituído por “Monteverdi Grand Prix”, identificando somente o sobrenome de um dos sócios da equipe. Em tese, a partir daquele momento, a alcunha “Monteverdi” seria a única realmente válida para a designação dos carros de Lehto e Foitek e deveria, portanto, ser utilizada nos caracteres televisivos, nas transmissões e nos artigos escritos.

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Aqui é Monteverdi!

Mas não foi bem assim. A FOCA não atualizou seus registros e seguiu estampando o nome “Onyx-Ford” nos seus cronômetros e computadores. No Brasil, o desatento Galvão Bueno ignorou a mudança e continuou chamando os carros nº 35 e 36 de “Onyx”. Jornais e revistas da época também optaram por deixar de lado o pomposo sobrenome de Peter Monteverdi e permaneceram fiéis à denominação antiga.

Há uma explicação psicológica para isso. Embora tenha prometido repintar os bólidos com as cores da bandeira suíça, vermelho e branco, a Monteverdi optou por manter o mesmo layout anil, branco e verde-limão que vinha sendo utilizado desde o Grande Prêmio de San Marino. Pelo menos até o final de 1990, a equipe aproveitaria a mesma programação visual criada nos tempos de Jean-Pierre Van Rossem. É razoável supor que os suíços tenham percebido que a elegante pintura azulada havia se tornado tradicional lá no fundão do grid da mesma forma que o vermelho ferrarista da Dallara ou o azul-calcinha da Leyton House. Por isso, ficaria estranho chamar de “Monteverdi” um carro tão identificado com a época da Onyx.

Mudanças esclarecidas, vamos falar um pouco de competição. Permitam-me utilizar a nova nomenclatura.

Nos dias 19 e 20 de julho, a Monteverdi se juntou às demais equipes do circo para participar dos testes coletivos realizados em Hockenheim dias antes do GP da Alemanha. Um dos grandes destaques dessa sessão foi a presença do ex-piloto suíço Marc Surer, que havia abandonado a Fórmula 1 em 1986. Surer foi convidado para dar umas voltas com o carro da Arrows no lugar de Alex Caffi. Desacostumado com os novos monopostos, ele fez apenas o último tempo. Mas isso não importa nesse texto.

O que importa é que Gregor Foitek sentou a bota e obteve um bom 13º lugar entre 27 participantes das atividades. Com o tempo de 1m46s60, ele ficou a apenas cinco segundos do melhor tempo, que invariavelmente pertencia a Ayrton Senna. O resultado foi notável se considerarmos que o helvético tinha passado por poucas e boas nas velozes pistas de Paul Ricard e Silverstone. O bom desempenho em Hockenheim poderia representar uma virada de sorte nas pistas velozes que estavam por vir. Em compensação, JJ Lehto fez apenas o 23º tempo. Sua sina continuava.

Avancemos alguns dias, pois. O Grande Prêmio da Alemanha de 1990, nona etapa do campeonato daquele ano, foi realizado no fim de semana de 29 de julho.

JJ Lehto, que descobriu em Hockenheim que estava andando com o carro bichado desde Montreal por causa de um mecânico estúpido

JJ Lehto, que descobriu em Hockenheim que estava andando com o carro bichado desde Montreal por causa de um mecânico estúpido

Comecemos falando um pouco sobre Foitek, o queridinho da cúpula. Seu engenheiro Steve Foster foi demitido na semana anterior à corrida porque havia batido boca com Peter Monteverdi. Para que Gregor não ficasse sem ninguém em sua assistência, o próprio Monteverdi decidiu assumir o papel de engenheiro de pista do jovem suíço. Querendo demonstrar seus bons conhecimentos técnicos, Peter desenhou uma nova asa traseira e resolveu instalá-la no carro de seu pupilo.

Bem que Foitek tentou testar a nova asa, mas não foi possível fazer mais do que algumas voltas na sexta-feira. De manhã, o carro titular apresentou problemas no acelerador e o reserva não tinha amortecedores em boas condições. No treino classificatório do período da tarde, Gregor desperdiçou um jogo de pneus novinho em folha com uma rodada estúpida na segunda chicane. Mesmo com tantos aborrecimentos, ele ainda conseguiu marcar uma razoável volta em 1m47s209, assegurando o 23º lugar no grid provisório.

A sexta-feira de JJ Lehto foi ainda mais complicada. No treino livre matinal, o carro balançava como touro louco nas frenagens e nenhuma alteração resolvia o problema. À tarde, mesmo após os mecânicos terem sacrificado seu almoço para tentar tornar o ORE-2 um pouco menos inguiável, Lehto continuou sofrendo com a falta de estabilidade de seu brinquedo e não conseguiu nada além do tempo de 1m48s856, o que lhe garantiria apenas a 29ª posição no grid provisório. Como, porém, apenas 26 poderiam largar, o finlandês terminou o dia sem lugar na grelha de partida.

No entanto, às vezes um mal pode vir para bem. Como se não bastassem os grandes problemas de dirigibilidade, o câmbio do Monteverdi nº 36 também resolveu falhar na sexta-feira. Os mecânicos desmontaram o bólido e abriram o sistema de transmissão, que estava intocado desde o Grande Prêmio do Canadá, para uma verificação rápida. Nisso, eles perceberam que haviam cometido um erro digno da Fórmula Ford.

No fim de semana da corrida em Montreal, um mecânico distraído da Onyx não prestou atenção no seu trabalho e simplesmente montou o sistema de transmissão do carro de Lehto instalando o diferencial do lado contrário. Sim, é isso mesmo: o dispositivo responsável por distribuir o torque gerado pelo motor às rodas não estava funcionando corretamente porque um infeliz o encaixou em uma posição errada. O pior é que os caras demoraram quatro corridas para perceber a cagada. É por causa desse estúpido detalhe que JJ estava perdendo tanto terreno para Gregor Foitek nas últimas etapas.

Gregor Foitek, que por pouco não ficou de fora da corrida

Gregor Foitek, que por pouco não ficou de fora da corrida

Tão logo descoberta a bobagem, os mecânicos reposicionaram o diferencial no lugar correto e Lehto pôde respirar de alívio. “Do jeito que estava, o diferencial funcionava apenas quando eu tirava o pé do acelerador, não gerando nenhum torque quando eu acelerava”, explicou o pobre finlandês. Dessa vez, pela primeira vez desde há muito tempo, ele teria um carro que ao menos funcionava a pleno.

Falemos agora do sábado.

Com novo ânimo, Gregor Foitek andou bem no segundo treino livre e marcou 1m46s423, finalizando em 19º. A volta foi tão boa que o suíço não mais conseguiu repeti-la no fim de semana. Para o último treino classificatório, ele apostou no uso da tal nova asa desenvolvida por Peter Monteverdi e de dois jogos de pneus de qualificação. Porém, por conta das condições de pista desfavoráveis para seu carro, Foitek só conseguiu fazer três voltas e não logrou bom desempenho em nenhuma delas. Ne melhor das passagens, fez apenas 1m47s726, tempo ainda pior do que o obtido na classificação da sexta-feira.

Uma boa notícia, no entanto: quatro pilotos que haviam terminado atrás dele no treino classificatório da sexta não conseguiram melhorar seus tempos no sábado. Com isso, apesar do fraco desempenho, Gregor Foitek assegurou a 26º e última posição no grid de largada para o Grande Prêmio da Alemanha. Pela primeira vez desde Hermanos Rodríguez, ele participaria de uma corrida de Fórmula 1.

JJ Lehto teve um sábado bem melhor que o de seu colega. Seus mecânicos não só consertaram o tal problema do diferencial como também encontraram um acerto bem melhor para ser utilizado no último treino classificatório. Na sessão livre pela manhã, ele obteve uma notável 17ª posição na tabela com o tempo de 1m46s212. À tarde, assim como Gregor Foitek, Lehto também apostou na utilização de dois compostos de qualificação. O finlandês ainda foi bem mais feliz que seu companheiro e obteve uma volta em 1m46s857, garantindo a 25ª posição no grid de largada. Apesar da instabilidade de seu Monteverdi-Ford nas ondulações, “algo que dá para aguentar”, Lehto estava contente e classificado para sua primeira corrida desde a etapa do México.

Todos na Monteverdi ficaram muito felizes por terem, logo na primeira corrida após o rebatizado, conseguido classificar os dois carros azulados para o grid de largada. Planos para a corrida? Não muitos. Terminar já estaria bom.

Foitek rodando no Stadium. Falaram que foi culpa do Lehto, mas o cara disse que não

Foitek rodando no Stadium. Falaram que foi culpa do Lehto, mas o cara disse que não

Fazia um calor desgraçado naquele domingo de verão, como era de costume nos GPs em Hockenheim. Os pilotos partiram para largada e os moleques da Monteverdi, saindo da última fila, conseguiram se livrar do acidente que alijou Emanuele Pirro logo na largada. Gregor Foitek ultrapassou JJ Lehto e permaneceu na frente durante quase todo o tempo em que esteve na pista. Pouco tempo, diga-se.

Na 19ª volta, um pouco à frente da ferrenha disputa entre Nelson Piquet e Gerhard Berger, Foitek perdeu o controle de seu carro na curva do Stadium, rodou e ficou travado na caixa de brita, abandonando a prova. Alguns no paddock sugeriram que ele havia se tocado justamente com seu companheiro Lehto, mas o próprio finlandês veio à mídia e declarou que não havia feito nada. O fato é que o dia havia acabado para o helvético.

JJ Lehto também não teve um dia fácil. Como se não bastasse ter sido acusado de algo que não fez, ainda voltou a ter problemas em seu bólido e foi obrigado a fazer dois pit-stops. Pelo menos, o Monteverdi nº 36 aguentou a labuta e cruzou a linha de chegada. Cruzou, mas não se classificou: por ter ficado muito para trás, Lehto só conseguiu completar 39 voltas, correspondente a menos do que 90% do total da prova. Por conta disso, a impiedosa FISA não quis saber e deixou Lehto de fora da turma dos que oficialmente finalizaram a corrida. Ainda assim, é melhor do que ficar pelo meio do caminho em plena Floresta Negra.

A mudança de nome não trouxe absolutamente nada de novo para a equipe. Hockenheim foi outro fim de semana infeliz e nada indicava que as coisas melhorariam. Aliás, a tendência era justamente outra: sem investimentos, era provável que Foitek e Lehto sequer conseguissem se qualificar para as corridas seguintes.

Aliás, ninguém sabia se haveria essas corridas seguintes. Se dependesse da Goodyear, da Marlboro e do pai de Gregor Foitek, a resposta seria negativa. Mas essa eu deixo para o próximo capítulo dessa série, que está fazendo aniversário.

Gregor Foitek comendo o pão que o diabo amassou com seu precário Onyx em Hermanos Rodriguez

Gregor Foitek comendo o pão que o diabo amassou com seu precário Onyx em Hermanos Rodriguez

A conta-gotas, sigo adiante. O especial sobre a Onyx Grand Prix, a melhor equipe do mundo, aquela que está tomando grande espaço desse blog há alguns meses, vai chegando cada vez mais longe. Mereço um espaço no Guinness Book por isso. Os leitores também merecem um prêmio pela paciência. A maioria que se manifesta está gostando, alguns criticam, agradeço os elogios e entendo as reclamações. Aos do primeiro grupo, digo que é bom aproveitar, pois a série está acabando e não pretendo voltar a fazer uma tão cedo. Aos do segundo, mais paciência.

No último capítulo, escrito há alguns milênios, estávamos falando do Grande Prêmio do Canadá, a quinta etapa da temporada de 1990. A Onyx vinha passando por tempos duros, difíceis, ingratos, realmente deprimentes. Nas cinco primeiras três corridas, exceção feita a um frustrante sétimo lugar obtido pelo suíço Gregor Foitek em Mônaco, a equipe azulada só acumulou dificuldades financeiras, técnicas e, sobretudo, organizacionais. A mudança de donos não trouxe grandes novidades. Os três suíços que assumiram a sociedade, Peter Monteverdi, Bruno Frei e Karl Foitek, apenas cortaram custos e condenaram a Onyx a um futuro duvidoso.

Depois de Montreal, a Fórmula 1 desceu a América do Norte rumo à poluída Cidade do México, palco da sexta corrida do ano de 1990. A Onyx desembarcou na terra cucaracha sem novidades. Pelo menos, nada de pré-classificação para seus dois pilotos.

Comecemos com o finlandês JJ Lehto. Na manhã de sexta-feira, seus mecânicos apareceram com um motor Cosworth novinho em folha para seu carro titular. Ele gostou do presente, mas preferiu entrar na pista com o bólido reserva equipado com o propulsor antigo por puro conservadorismo. A decisão funcionou para o primeiro treino livre, em que Lehto finalizou em um razoável 17º posto.

Só que a carruagem decidiu voltar a ser abóbora justamente no primeiro treino classificatório. Toda vez que JJ engatava a segunda marcha, ela escapava e o motor acabava passando de giro violentamente. Para não perder o equipamento inteiro, o piloto retornou aos boxes e voltou para seu carro titular. Este, por sua vez, começou a apresentar problemas no tal motor zero quilômetro e também na asa dianteira, que estava prestes a cair. Lehto até fez muito em fechar a sexta-feira com a 24ª posição no grid provisório.

Gregor Foitek passou a sexta-feira inteira fazendo experiências. Tentou os pneus de classificação e detestou, optando por utilizar os de corrida. Gastou um bocado de tempo tentando encontrar a altura perfeita para seu Onyx-Ford, considerado “mais macio que meu antigo Eurobrun, um bicho duro como o cão”. Tanto trabalho acabou lhe rendendo resultados interessantes. Gregor ficou apenas em 21º no primeiro treino livre, mas melhorou seu tempo em oito décimos e conseguiu a 18ª posição no treino classificatório do período da tarde.

No sábado, muito calor e poluição no ar. JJ Lehto iniciou os trabalhos com o chassi titular e um motor Cosworth normal, sem as últimas inovações desenvolvidas pelo preparador Heini Mader. O bichão não funcionou direito e o finlandês resolveu voltar ao carro reserva, o mesmo que tinha dado problemas no dia anterior. Penando com os pneus de classificação, Lehto até não foi tão mal no treino livre pela manhã, ficando em 20º, mas teve uma última sessão classificatória horrível e conseguiu marcar apenas 1m21s6, terminando o treino apenas em 28º. Ele só garantiu o 26º lugar no grid definitivo porque havia feito 1m21s519 na sexta-feira à tarde.

Paul Ricard serviu apenas para provar que, sim, a situação ainda poderia piorar mais

Paul Ricard serviu apenas para provar que, sim, a situação ainda poderia piorar mais

Gregor Foitek também não teve um sábado tão satisfatório. De manhã, comprometeu seus trabalhos com uma rodada. À tarde, após deixar o cérebro nos boxes, rodou duas vezes e acabou desperdiçando um bocado de tempo. “Eu estava arriscando um pouquinho além da conta antes dos pneus atingirem a temperatura correta“, justificou o constrangido, porém honesto piloto suíço. E assim como Lehto, ele também não conseguiu andar bem no treino classificatório. O 23º lugar no grid de largada só se justificou porque Gregor havia marcado 1m21s012 no dia anterior. Mais uma vez, os dois Onyx passavam de ano raspando.

No dificílimo autódromo de Hermanos Rodriguez, todos sabiam que Lehto e Foitek não teriam vida fácil. O finlandês largou muito bem e engoliu uns seis pilotos na primeira curva, mas a façanha não lhe serviu para nada por conta da total falta de potência do motor Ford. “Todos eles me ultrapassaram na reta! E eu não pude fazer nada para evitar isso! O negócio estava tão feio que eu nem precisei utilizar a sexta marcha! O carro percorria em quinta e ainda economizava combustível!”, bradou Lehto com todos esses pontos de exclamação. Para variar um pouco, o Onyx de número 36 parou na 26ª volta por causa de problemas no propulsor.

E para variar mais um pouco, Gregor Foitek não passou por bocados tão maus, mas também não terminou o domingo tão contente assim. A partir da vigésima volta, o pedal de freio começou a ficar meio bambo e perder eficiência, situação perigosíssima num circuito como Hermanos Rodriguez. Muito provavelmente por conta disso, o carro escorregou na entrada da Peraltada e o piloto teve uma sorte desgraçada de não voar rumo aos pneus. Voltou à pista com o assoalho danificado, os pneus sujos e a cueca mais suja ainda. Dali em diante, correu como uma velhinha e terminou em 15º, enxergando a bandeira quadriculada pela primeira vez em sua carreira.

Terminada a temporada norte-americana, a Fórmula 1 empacotou suas coisas e retornou à Europa, sua verdadeira casa. Enquanto as demais equipes trabalhavam para levar novidades ao Grande Prêmio da França, a única coisa que interessava à Onyx era a maldita mudança de sede da Westergate House para o museu de Peter Monteverdi na Suíça. O departamento técnico não tinha recursos para efetuar melhorias no ORE-1 e os pilotos ficavam de mãos atadas frente a um carro que mal aguentava uma corrida inteira. Mas nada disso realmente importava para os suíços que comandavam a coisa.

Em Paul Ricard, a Onyx esperava repetir os feitos do GP francês de 1989, em que Bertrand Gachot e Stefan Johansson largaram no meio do pelotão e o sueco somou os dois primeiros pontos da história da escuderia. Só que as coisas haviam mudado nos doze meses seguintes. Naquela época, a equipe estava crescendo rapidamente. Em 1990, um resultado bom só seria possível com uma overdose de sorte.

Nos dias anteriores à corrida, quase todas as equipes da Fórmula 1 realizaram uma bateria de testes de reconhecimento no renovado circuito francês. Alguns meses antes, a diretoria de Paul Ricard promoveu o recapeamento completo do asfalto, considerado bastante abrasivo até então. No GP de 1990, os pilotos teriam à disposição uma pista lisinha como mesa de bilhar. Portanto, os testes eram indispensáveis para que ninguém reclamasse já no primeiro treino livre que foi mal por causa do novo asfalto.

Pois a Onyx foi uma daquelas que não se deu ao trabalho de participar desses testes. Portanto, Gregor Foitek e JJ Lehto só tomariam contato com o novo asfalto nos treinos de sexta-feira. A ausência acabou custando muito caro para os dois pilotos.

Comecemos com Gregor Foitek. Seu carro simplesmente não tinha aderência nenhuma com a pista recapeada. Ele tentou os compostos duros e macios e conseguiu ser meio segundo mais rápido com esses últimos, o que não significou muito. No treino livre, ficou em último entre os trinta participantes. Na classificação à tarde, bateu na trave e terminou apenas em 27º. Estava arrasado, é óbvio.

Pobre JJ Lehto...

Pobre JJ Lehto…

JJ Lehto também não tinha motivos para sorrir. Sofreu com os mesmos problemas de falta de estabilidade que seu companheiro e não conseguiu aproveitar a boa velocidade proporcionada pela pista de Paul Ricard. No primeiro treino livre da manhã, só conseguiu superar o próprio Foitek. À tarde, invertendo as coisas, ficou imediatamente atrás do suíço. Os dois pilotos da Onyx, portanto, foram para a cama sem participação garantida na corrida.

Todos acordaram empolgados para o sábado que vinha. Todos, menos a turma da Onyx.

A maior reclamação de Gregor Foitek na sexta-feira foi direcionada ao ajuste das molas de seu carro, que estavam absurdamente duras. Os mecânicos deram um jeito no dia seguinte e o comportamento do bólido até melhorou um pouco, mas não o suficiente. Lento, Foitekão não passou da 28ª posição no segundo treino livre e até fez muito ao marcar o 26º tempo na última sessão classificatória. A volta de 1m08s232, no entanto, não foi o bastante para colocá-lo no grid de largada. 29º colocado na tabela final, Gregor teria de assistir à corrida no sofá de casa.

A situação de JJ Lehto não foi muito diferente. Os mecânicos também conseguiram melhorar um pouco o Onyx nº 36, mas ele continuou vagaroso e deprimente. Na sessão livre realizada pela manhã, Lehto galgou apenas a 27ª posição. Na classificação do período da tarde, o tempo de 1m08s487 lhe garantiu novamente o 27º posto na sessão e uma humilhante lanterna no acumulado de tempos dos dois dias. Ele também não teria mais nada para fazer no domingo.

E assim acabou o péssimo fim de semana francófono para a Onyx. Pela primeira vez desde o Grande Prêmio do Brasil, a equipe ficaria de fora de uma corrida. Os dois pontos de Stefan Johansson obtidos um ano antes deram espaço ao mais retumbante fracasso possível. Dali em diante, as coisas não melhorariam muito.

No fim de semana seguinte, a Fórmula 1 atravessou o Canal da Mancha para disputar o Grande Prêmio da Inglaterra em Silverstone. Sem dinheiro e tempo, a Onyx não levou novidades técnicas para a corrida e logicamente nem tinha como. Mas isso não significa que seu nome tenha ficado ausente dos noticiários da semana entre França e Grã-Bretanha. Dias antes do evento em Silverstone, um dos nomes fundamentais da escuderia no ano anterior foi preso sob uma chuva de acusações. Vocês sabem de quem estou falando.

Jean-Pierre Van Rossem foi detido em seu país enquanto passeava com, veja só, um carro roubado. Homens da polícia belga e suíça tinham em mãos um mandado de prisão justificado por evidências de falsificação de documentos, emissão de cheques sem fundo e estelionato. Após a detenção de Van Rossem, os policiais fizeram uma busca minuciosa por mais coisas absurdas nas casas do acusado e de sua falecida esposa e também nos escritórios das empresas comandadas pelo homem. Foi o início de uma longa investigação que resultou em… Não, não vou contar hoje.

Outro motivo que levou a Onyx às manchetes foi a tão esperada mudança de sede. Na terça-feira anterior ao GP britânico, toda a equipe foi transferida da Westergate House para o tal galpão anexado ao museu de Peter Monteverdi. Os caras podiam não ter dinheiro para investir em atualizações técnicas, mas certamente gastaram uma fortuna fazendo o frete de máquinas, equipamentos, carros e peças, tudo unicamente por capricho da diretoria suíça.

Só não digo "pobre Foitek" porque seu pai era rico pra cacete

Só não digo “pobre Foitek” porque seu pai era rico pra cacete

Peter Monteverdi aproveitou o ensejo e anunciou à mídia britânica que outras mudanças seriam posteriormente implementadas. Depois da corrida na Inglaterra, a equipe apresentaria novo nome e um layout completamente remodelado. A denominação “Monteverdi Onyx Grand Prix” desapareceria de forma definitiva e daria lugar à “Monteverdi Grand Prix”, ou simplesmente Monteverdi. Com relação à programação visual, os carros deixariam a cor azul de lado e passariam a ser pintados de vermelho e branco. Note que nenhuma grande evolução técnica foi anunciada. As novidades seriam apenas cosméticas.

Com sede nova e já distante das encrencas de Van Rossem, a Onyx queria apenas se livrar da uruca e largar com ao menos um carro na sua “despedida” em Silverstone. JJ Lehto começou as atividades com alguma esperança: superou David Brabham por um milésimo e terminou o primeiro treino livre em 26º, o que já era alguma coisa para quem sempre ficou entre os quatro últimos lá em Paul Ricard. Mas a realidade voltou a bater à porta no primeiro treino oficial, em que o finlandês só conseguiu o penúltimo tempo com uma volta em 1m12s712. Ele precisaria baixar esse tempo em ao menos seis décimos para sonhar com um lugar no grid de largada.

Gregor Foitek teve uma sexta-feira não menos que horrível. Em um carro que simplesmente não respondia a nenhuma mudança de acerto, o suíço finalizou em 29º no treino livre da manhã e numa desonrosa última posição na primeira classificação à tarde. A desastrosa volta em 1m13s417 foi sete décimos mais lenta que a do companheiro Lehto, que já havia sido ruim o suficiente. “Poderia até ser culpa minha, mas na boa, não acredito nisso. O carro simplesmente é uma droga”, desabafou Foitek.

A melhor forma de descrever o sábado dos dois pilotos da Onyx é apresentando suas lacônicas declarações feitas à imprensa no fim do dia. JJ Lehto afirmou que “tudo o que posso dizer é que a situação era exatamente a mesma da sexta-feira, apenas o dia havia mudado“. Gregor Foitek complementou dizendo que “tentamos absolutamente tudo, mas não conseguimos fazer nada de diferente”.

Lehto ficou em 27º tanto no segundo treino livre como na última classificação. No combinado de tempos, sua volta em 1m12s631 lhe garantiu somente o 29º lugar entre os trinta que tentaram lugar no grid. O finlandês estava, portanto, fora de ação pelo segundo domingo seguido. Gregor Foitek foi ainda pior e carregou a lanterna nas duas sessões realizadas no dia. Por conseguinte, acabou sendo o mais lento entre os que brigaram por uma vaga no grid com o tempo de 1m13s271. O suíço também não foi admitido para a corrida novamente.

Pela segunda vez seguida, não teria Onyx no grid. Não haveria uma terceira chance. O GP da Inglaterra de 1990 foi a última vez em que vimos o sonoro nome pétreo no grid. A partir do GP da Alemanha, a escuderia fundada por Mike Earle passaria a ser chamada simplesmente de Monteverdi, denominação bacana para um condomínio de alto padrão, mas idílica demais para uma Fórmula 1 que sempre foi dominada por nomes curtos e bradados.

A mudança de sede, o novo nome e a nova proposta de layout sugeriam, na teoria, que uma nova equipe estava surgindo a partir da esgotada Onyx. Os donos suíços não pareciam ser dos homens mais comprometidos do mundo, mas ao menos estavam tentando renovar a cara de uma equipe que precisava urgentemente de uma luz no fim do túnel.

E aí? Como ficariam as coisas? No próximo capítulo, conto. Aproveitem, pois falta pouco para o fim.

A "nova" Onyx pintada de azul e verde andando em Imola com JJ Lehto

A “nova” Onyx pintada de azul e verde andando em Imola com JJ Lehto

Em doses homeopáticas, como se fosse uma goteira em um ginásio, vou tentando acabar logo com essa longuíssima e cansativa série. Sem mais delongas, falo novamente da Onyx Grand Prix, aquela equipe que obviamente é mais legal do que Ferrari, McLaren e Corinthians juntos. Obviamente.

(E aí eu peço um pouco mais de paciência com os leitores. Eu sei que o grupo de pessoas realmente interessadas na Onyx cabe numa Kombi velha. Estamos chegando realmente ao fim. Depois, voltaremos normalmente com os posts contemporâneos sobre essa Fórmula 1 que começa logo já)

Então voltemos. Entre os meses de março e abril, a Onyx passou por grande reviravolta administrativa. O economista belga Jean-Pierre Van Rossem, conhecido pela absoluta falta de parafusos na cabeça, repassou suas ações a um grupo de três amigos suíços ligados ao comércio de carros de luxo em seu país. De uma hora para outra, os alpinos Peter Monteverdi, Bruno Frei e Karl Foitek se tornaram chefes de uma equipe de Fórmula 1.

Outras mudanças vieram a reboque. Stefan Johansson foi mandado para casa e em seu lugar entrou o enigmático Gregor Foitek, filho de um dos novos sócios. Outras pessoas importantes, como o projetista Alan Jenkins, também acabaram saindo. No fim das contas, a única coisa que não mudou foi o carro. Por absoluta falta de fundos e de ambição, o ORE-1 foi mantido como o instrumento de trabalho de Foitek e de JJ Lehto nas demais etapas da temporada de 1990. Para não dizer que o carro era exatamente o mesmo de 1989, os caras pintaram as partes anteriormente rosadas de verde-limão. “Para atrair o patrocínio da Telefónica”, argumentariam.

Então vamos falar de corridas, que é o que interessa.

A primeira etapa da renovada Onyx seria o Grande Prêmio de San Marino, aquele que era realizado na Itália justamente porque um circuito de Fórmula 1 jamais caberia no humílimo território samarinês. A F-1 voltava de um período de quase seis semanas de férias e todos estavam babando de vontade de entrar na pista novamente. Muitas equipes estreariam carros novos, os pilotos estavam revigorados após as cansativas provas dos Estados Unidos e do Brasil e Bernie Ecclestone, como sempre, queria encher seu cofrinho mais um pouco.

Como vocês sabem, a Onyx havia se livrado da pré-classificação em 1990 graças aos esforços do rejeitado Stefan Johansson. Em Imola, Foitek e Lehto já estavam automaticamente admitidos aos treinos livres e oficiais. Tudo o que eles deveriam fazer para participar da corrida era superar apenas quatro carros, algo que não deveria ser um grande desafio para uma escuderia que até pódio conseguiu em 1989. Mas as coisas não são tão cartesianas assim.

No primeiro treino livre da sexta-feira, Gregor Foitek superou JJ Lehto ao obter a 20ª posição contra a 21ª do finlandês. Sobrancelhas se ergueram de dúvida, pois até mesmo o cocô do cavalo do bandido sabe que Foitek não é melhor que Lehto nem mesmo no dominó. Ocorre que uma parte da Onyx pertencia ao pai de Gregor e é óbvio que os suíços fariam de tudo para ajudar seu pupilo. JJ sabia que provavelmente trabalharia como segundo piloto dali em diante.

Gregor Foitek, o filho do novo dono, fazendo sua estreia com a Onyx em Imola

Gregor Foitek, o filho do novo dono, fazendo sua estreia com a Onyx em Imola

No treino classificatório do período da tarde, cada piloto apresentou sua nada modesta lista de reclamações. JJ Lehto reclamou que seu bólido titular estava muito duro com os pneus tipo C e o motor do reserva também relutava muito nas subidas. Já Gregor Foitek afirmou que vinha enfrentando problemas de subesterço com compostos de classificação e que precisava de amortecedores mais duros para trechos mais lentos e de mais asa para as curvas mais velozes. Apesar de tudo isso, ambos terminaram a sexta-feira provisoriamente qualificados, Foitek em 20º e Lehto em 23°.

Sábado de sol, os pilotos utilizaram o segundo treino livre para resolver os problemas diagnosticados na sexta-feira. Os mecânicos reduziram a carga sobre os amortecedores do carro de Gregor Foitek exatamente do jeito que ele queria, mas o resultado não foi tão bom assim e o suíço finalizou a sessão apenas em 21º. As modificações feitas no bólido de JJ Lehto foram mais felizes e o finlandês terminou numa feliz 15ª posição.

À tarde, no último treino classificatório, Gregor Foitek decidiu voltar a endurecer seus amortecedores para garantir sua vaguinha no grid de largada. Só que o retorno às origens não deu certo e Foitek acabou marcando um tempo três décimos mais lento do que o feito no dia anterior. Dessa forma, ele teve de se contentar com a volta de 1m28s111, que lhe assegurou apenas a 23ª posição. Longe de ser algo a se comemorar, já era um tremendo avanço para quem passou todo o ano de 1989 barrado nas pré-classificações.

JJ Lehto estava contente com o carro: motor funcionando bem, boa aderência dianteira, coelhos correndo pelos campos e cotação favorável do dólar. Pena que ele mesmo pôs tudo a perder. Ainda na volta de saída dos boxes, Lehto meteu a mão num botão errado e simplesmente desligou o carro. Por causa disso, ele ficou sem ter o que dirigir no restante do treino, não marcou nenhuma volta rápida e também teve de se contentar com o que conseguiu na sexta-feira. O tempo de 1m28s625 ainda lhe garantiu a 25ª e penúltima posição no grid de largada. Apesar dos pesares, os dois carros da Onyx largariam pela primeira vez em 1990.

E eles foram para a contenda. Por terem partido lá das últimas filas, os dois carros azulados escaparam da confusão que alijou Satoru Nakajima e Ivan Capelli já na temida Tamburello. Gregor Foitek não teve um bom início de prova, foi ultrapassado por alguns adversários ainda na primeira volta e logo teve de iniciar cansativa luta contra o sobreesterço de seu Onyx-Ford. O sofrimento durou até a volta 35, quando o motor não aguentou o esforço e explodiu em pedacinhos.

JJ Lehto teve um domingo mais feliz, mas não mais fácil. Largou melhor que o companheiro e jamais foi ameaçado por ele enquanto ambos estiveram na pista. Quem ameaçou a participação do finlandês foi justamente seu próprio carro. Apesar de não apresentar os mesmos problemas de aderência do bólido de Foitek, o Onyx nº 36 foi vítima de um escapamento quebrado que obrigou o nórdico a reduzir o ritmo a ponto dele não conseguir sequer utilizar a sexta marcha. Arrastando-se sempre no fim do grid, Lehto ainda fez muito ao cruzar a linha de chegada na 12ª e última posição.

Primeira qualificação e primeira bandeirada. Será que a Onyx estava retomando o caminho das pedras? Será que os três perdulários suíços conseguiriam, mesmo fechando a torneira, reavivar o projeto criado por Mike Earle? Vamos a Mônaco, quarta etapa do campeonato.

JJ Lehto se fodendo legal em Mônaco

JJ Lehto tentando fazer alguma coisa de bom em Mônaco

Por incrível que pareça, Gregor Foitek vinha com a moral em alta naqueles dias. O suíço não matou ninguém em sua breve passagem pela Brabham e também pilotou de forma digna em Imola. Ele iniciou seus trabalhos em Mônaco discutindo com o engenheiro Steve Foster como resolver seus problemas de subesterço e sobreesterço. Sabe como é, carro que não faz curva em Montecarlo não vai a lugar algum.

Gregor iniciou o treino livre de quinta-feira reduzindo a carga aerodinâmica na dianteira para minimizar o subesterço. A mudança funcionou, mas ele só ficou em 26º porque ainda faltava resolver a questão do sobreesterço. No treino classificatório à tarde, o piloto e seu engenheiro optaram por reduzir a carga sobre os amortecedores na parte traseira para solucionar o problema. Aí o carro ficou bacana. Foitek veio à pista e obteve um ótimo 21º lugar no grid provisório.

Sábado. No último treino livre, o suíço gastou nada menos que três jogos de pneus apenas para aprimorar ainda mais seu carro. Ficou show de bola, como costumam dizer os caraminguás do interior paulista. À tarde, Gregor Foitek foi à labuta visando melhorar sua posição na grelha de partida.

Foitek instalou o primeiro set de pneus de classificação e saiu à pista logo no comecinho da sessão, mas pegou tráfego pesado em suas duas voltas boas e teve de voltar aos boxes para arranjar compostos novos. No segundo set, ele deu sorte e conseguiu encaixar uma volta sem nenhum carro à sua frente. Problema maior foi ter errado a tangência da Rascasse e escorregado de traseira, quase chapuletando o muro. Ainda conseguiu completar a volta em 1m24s367, o que lhe assegurou a 20ª posição no grid de largada definitivo.

O maior feito de Gregor Foitek naquela sessão, no entanto, foi atrapalhar uma volta rápida de Ayrton Senna diante de milhões de telespectadores ao redor do mundo. O brasileiro vinha naquele ritmo sobrenatural de sempre até dar de cara com o carro de Foitek em plena chicane da piscina. Meteu o pé no freio e não se esborrachou no aerofólio “Monteverdi” por pouco. É a segunda vez em menos de um ano que um Onyx-Ford surge no meio do caminho do brasileiro.

JJ Lehto não começou seu fim de semana com o mesmo sucesso de seu colega. Na quinta-feira, estava pilotando um carro completamente instável e lento. Na tal da “reta curva”, o finlandês estava andando cerca de 11km/h mais lento que Foitek, um absurdo em se tratando de Mônaco. Tanto no treino livre como no classificatório, ele terminou em 29º e percebeu que as coisas não poderiam continuar daquele jeito.

Para o sábado, a Onyx providenciou um novo motor. Funcionou legal e JJ pôde recuperar parte do terreno perdido. Porém, ele percebeu que os pneus de classificação não estavam funcionando em seu carro: enquanto Foitek ganhava dois décimos com a boa borracha, Lehto perdia um décimo com os mesmos calçados. Puro mistério (ou não, considerando que apenas um dos pilotos era filho do sócio da escuderia). No fim das contas, teve de se contentar com o tempo de 1m25s508 e a 26ª posição no grid de largada. Novamente, dois Onyx no grid.

Eric Bernard, o inimigo público número 1 da Suíça

Eric Bernard, o inimigo público número 1 da Suíça

A vida continuou complicada para JJ Lehto no domingo. Logo nas primeiras voltas, seu carro apresentou sérios problemas de subesterço e de câmbio, com a quinta marcha mais dura do que bala de menta. Em seguida, a segunda e a quarta marcha desapareceram de vez. Aí sumiu a quinta. Por fim, a primeira também foi embora. Lehto ficou praticamente ilhado na terceira marcha, felizmente uma das mais utilizadas em Mônaco. Na volta 53, nem mesmo ela aguentou e o carro parou definitivamente. Enquanto esteve na pista, JJ ficou quase sempre nas últimas posições.

Gregor Foitek largou mal, foi ultrapassado por três caras na Saint Devote e caiu para 22º na primeira volta, mas ainda se manteve dois postos à frente de JJ Lehto. Carro saindo de traseira, pista difícil, não dava para inventar muito. Se quisesse sobreviver a Mônaco, Foitek teria de conter seus instintos mais primitivos e se comportar.

E foi o que ele fez. Enquanto os demais pilotos abandonavam a prova por acidentes e quebras, o suíço foi galgando posições numa boa, sem forçar o ritmo. Na volta 67, milagre dos milagres, assumiu uma improvável sexta posição. Aquele modesto e defasado carro da Onyx estava prestes a premiar Gregor Foitek com seu primeiro ponto na carreira. Só que o destino não quis que as coisas se encaminhassem dessa forma.

O francês Eric Bernard, piloto da Larrousse, passou a corrida toda atrás de Foitek. Nas últimas voltas, sabendo das enormes limitações do conjunto carro-piloto à frente, Bernard iniciou uma verdadeira caça à sexta posição. Foitek não quis saber de abrir espaço e os dois pilotos protagonizaram uma disputa que chamou a atenção até mesmo das câmeras de televisão, que costumavam mostrar apenas os pilotos da frente.

A batalha seguiu limpa e sem lágrimas até a volta 73. Na saída do túnel, Eric Bernard decidiu empreender um ataque suicida definitivo contra Gregor Foitek. Este fechou a porta sem titubear e os dois acabaram batendo. Destroçado, o Onyx escorregou rumo à área de escape e por ali ficou. Bernard conseguiu manter seu carro ligado e se arrastou pela pista do jeito que dava até a bandeirada de chegada, finalizando em sexto e marcando seu primeiro pontinho na temporada. Foitek ainda acabou classificado na sétima posição, sendo que apenas os seis primeiros pontuavam. Foi o bobo do dia.

Mônaco acabou e nenhum ponto foi marcado, mas os dramas não terminaram aí. Logo após a corrida, um grupo de dez funcionários da Onyx manifestou oficialmente o desejo de sair da equipe. O motivo já foi comentado em capítulos anteriores: um dos donos, Peter Monteverdi, estava disposto a transferir a sede da equipe da Westergate House para um galpão localizado ao lado do museu Monteverdi, localizado na cidade suíça de Binningen.

Em reunião realizada logo após o primeiro treino classificatório do GP de Mônaco, os dez insatisfeitos deixaram claro que não somente eles eram contrários à mudança como também a maioria dos demais funcionários queria permanecer no Reino Unido. Peter Monteverdi deu de ombros às queixas: “Lamento que alguns deles não queiram vir conosco, porque poderei oferecer a eles boas condições de trabalho, bons salários e ótima acomodação”. Um hoteleiro, praticamente.

Monteverdi chegou a convocar alguns funcionários para uma viagem de reconhecimento à Suíça. Eles dariam uma olhada nas instalações disponíveis e analisariam as melhores opções para a nova sede. Enquanto isso, a Westergate House continuaria sendo a base da Onyx para desenvolvimento de peças e materiais por mais uns dois ou três meses. Depois disso, esses setores seriam transferidos para um galpão mais próximo do aeroporto de Heathrow. Os suíços esperavam iniciar a mudança logo após o fim da temporada norte-americana, que passaria pelo Canadá e pelo México.

A vida estava dura para os caras da Onyx, faça chuva ou faça sol

A vida estava dura para os caras da Onyx, faça chuva ou faça sol

Então vamos falar um pouco do Grande Prêmio do Canadá, a quinta corrida realizada em 1990. Calma, falta pouco.

Gregor Foitek e JJ Lehto, para variar, estavam insatisfeitos com seus carros. Novamente, o finlandês foi o que mais sofreu com os problemas. Na sexta-feira, o motor de seu carro resolveu não colaborar e o finlandês acabou perdendo um bocado de tempo especialmente nas retas. O resultado nos dois treinos não mereceu aplausos de ninguém: 25º no treino livre, 22º no grid provisório.

No sábado, Lehto voltou à pista com o carro titular e o motor continuou falhando finlandês só entrou na pista apenas para fazer alguma quilometragem e ver se o carro estava funcionando direitinho. Estava chovendo horrores e não seria possível fazer voltas rápidas. O tempo de 1m24s425 obtido na sexta-feira acabou garantindo ao piloto a 22ª posição definitiva na grelha de largada. – na verdade, apenas sete dos oito cilindros estavam funcionando. Para o último treino classificatório à tarde, seu carro recebeu um propulsor novinho em folha. Porém, 

Gregor Foitek passou a sexta-feira repetindo o mesmo trabalho cretino de Mônaco, o de ajustar a altura e os amortecedores do carro para acabar com os problemas de subesterço e sobreesterço. Ao que parece, ele teve mais sucesso do que seu companheiro na hora de fazer os acertos. Nos dois treinos daquele dia, ficou em 21º e foi sempre o melhor dos pilotos da Onyx.

No sábado, os mecânicos conseguiram melhorar ainda mais seu carro. Só faltou ter feito o trabalho por completo, pois Foitek chegou a parar no meio da pista com um problema do assoalho. Com a chuva, ele também não conseguiu melhorar sua posição no grid. O tempo de 1m24s397 lhe obrigaria a partir em 21º, logo à frente de Lehto. Na disputa interna, Gregor surpreendentemente ganhava de 3×0 do companheiro finlandês nas qualificações.

Largaram os dois. Largaram bem, aliás. Gregor Foitek pulou para 18º e JJ Lehto subiu para 20º. Mas a corrida não foi fácil para nenhum deles. O motor do carro de Lehto voltou a falhar no warm-up pela manhã e ele teve de começar a prova de qualquer jeito porque não havia tempo para fazer modificações no carro. As posições ganhas no começo foram perdidas tão logo o finlandês percebeu que não tinha equipamento para segurar ninguém. O Onyx nº 36 estava tão lento que Lehto não precisava sequer engatar a sexta marcha, percorrendo as retas sempre em quinta. O calvário durou até a volta 46, quando o engenheiro Ken Anderson pediu para que ele encostasse o carro nos boxes visando salvar o equipamento de um fim inglório.

Sem os mesmos problemas de motor, Gregor Foitek teve uma corrida um pouco menos intranquila, o que também não significou muito no fim das contas. O cara andou quase sempre no meio do bolo e teve surpreendente calma para lidar com uma pista tão difícil e, ainda por cima, molhada. Já havia completado 53 voltas e estava numa razoável décima posição quando seu motor Ford Cosworth morreu de vez, deixando o suíço na mão novamente.

Mais um fim de semana frustrante para a Onyx. Os integrantes estavam insatisfeitíssimos com esse negócio de mudança de sede, os pilotos não aguentavam mais tantos problemas e os dirigentes suíços só se preocupavam com bobagens. O futuro da equipe voltava a ficar sombrio.

Continuo falando no próximo capítulo.

O que esse cara tem a ver com a Onyx? TUDO!

O que esse cara tem a ver com a Onyx? TUDO!

Chega! Até mesmo alguns leitores já vieram me pedir para abreviar essa merda. Eles estão rigorosamente certos. Enjoei da Onyx Grand Prix. A equipe era legal, folclórica, repleta de boas histórias e de inúmeros exemplos de como enterrar um projeto promissor, mas até mesmo ela cansa. Vocês não imaginam a trabalheira que é escrever cada capítulo. Mas tudo bem. Estamos chegando ao fim. Acho que lá em abril, no dia da mentira, normalizaremos isso aqui. Por enquanto, vamos de pedra ônix.

No capítulo pré-carnavalesco, falei um pouco sobre os atribulados primeiros meses de 1990 para a Onyx. Entre idas e vindas, depois de tantas negociações e boatos, a equipe azulada teve de disputar o Grande Prêmio dos Estados Unidos contando centavos e esperando sentada por um comprador, um salvador ou algo que o valesse. Uma luz surgiu no trevoso túnel já em Interlagos, palco da segunda etapa da temporada.

Dias antes da prova brasileira, já narrada aqui nesse espaço esverdeado, todas as ações da equipe Onyx foram adquiridas por um grupo de três endinheirados homens vindos lá da Suíça. Eles se comprometeram a pagar todas as muitas dívidas deixadas por Jean-Pierre Van Rossem, o antigo sócio majoritário da escuderia, e ainda prometeram investir alguns francos visando recuperar o gás de uma equipe outrora promissora.

Mas quem eram os helvéticos em questão? 50% das ações da Onyx passaram para as mãos de Peter Monteverdi, criador da fábrica de esportivos artesanais Automobile Monteverdi. Não torça o nariz. O cara não é um neófito nesse negócio de competição, muito pelo contrário.

Nascido em 1934, Peter Monteverdi iniciou sua carreira no setor automobilístico quando, aos 22 anos de idade, herdou a luxuosa oficina mecânica de seu falecido pai. Começou a vida consertando carrões alheios, depois passou a construir karts, pequenos monopostos e chegou até mesmo a projetar um bólido de Fórmula 1 em 1961, o MBM. A maquineta foi pilotada pelo próprio Monteverdi em uma corrida extraoficial no circuito alemão de Solitude, mas sua inscrição para o GP da Alemanha de 1961 foi retirada após Peter se machucar em outra corrida.

Apesar dos parcos resultados no automobilismo, os esportivos feitos por Monsieur Monteverdi fizeram relativo sucesso comercial e foram produzidos até 1984. Três anos depois, Peter Monteverdi decidiu reunir alguns carros antigos de sua própria fábrica e também de outras marcas em um suntuoso museu na cidade de Binnigen. Atração imperdível para todos os fãs de carros que viajam à Suíça, o Monteverdi Car Collection existe até hoje e certamente merecerá uma visita marota deste cara aqui.

E esse cidadão com cara de atentado à escola do Colorado, o que tem a ver com a Onyx? TUDO!

E esse cidadão com cara de atentado à escola do Colorado, o que tem a ver com a Onyx? TUDO!

Mas por que um cara que já não fabricava mais nada havia algum tempo acabou se interessando por uma equipe de Fórmula 1? As más línguas dizem que tudo o que Peter Monteverdi queria era apenas comprar alguns monopostos baratos para, enfim, expô-los em seu amado museu. Ele não tinha dinheiro e nem ambição de se tornar um novo Ron Dennis ou coisa do tipo. Na verdade, trata-se de uma indagação sem resposta certa possível, já que Peter faleceu em 1998. Ficamos apenas no campo da suposição.

25% das ações da Onyx foram parar nas mãos de Bruno Frei, comerciante de modelos Ferrari lá nas terras suíças. E os 25% restantes sobraram para outro negociante de carros sofisticados, o ex-piloto Karl Foitek. Reconheceu o sobrenome?

Karl era ninguém menos que o pai do piloto Gregor Foitek, figura conhecidíssima entre aqueles que mexericam as histórias mais obscuras da Fórmula 1. O patriarca, um ancião com cara de Mister Magoo, ganhou quatro títulos no automobilismo nacional suíço na época em que o país ainda permitia competições do tipo (como vários de vocês sabem, as corridas de carro foram proibidas na Suíça após a tragédia que vitimou dezenas de espectadores nas 24 Horas de Le Mans de 1955). Após encerrar sua carreira esportiva, Karl fundou em Zurique uma concessionária que vendia modelos de marcas tão furrecas como Maserati, Ferrari, Lamborghini e Jaguar. Ficou ainda mais rico do que a média suíça.

Diz a lenda que, além de bom piloto e ótimo vendedor, Karl Foitek era um tremendo de um pai-coruja. Nos anos 80, ele decidiu investir transformar um de seus filhos, o atabalhoado Gregor, em um piloto de sucesso. O processo não foi tão simples assim. O garoto, aparentando um Frejat com cara de psicopata, até ganhou um título na irrelevante Fórmula 3 suíça em 1986, mas não logrou muito mais do que isso. Tornou-se negativamente famoso na Fórmula 3000 por ter causado vários acidentes perigosos e absurdos em uma única temporada. Estreou na Fórmula 1 em 1989 e tudo o que conseguiu foi uma coleção de fracassos a bordo de um Eurobrun e um violento acidente com um Rial-Ford na pista de Jerez.

A mídia inglesa, que sabe destilar maldade como ninguém, cansou de escrever palavras negativas acerca de Gregor Foitek. Compreensível. O pecado maior do cabeludo piloto suíço foi quase ter aleijado Johnny Herbert, aquele que era visto como o mais promissor piloto britânico desde Jim Clark. Eu faço coro e digo que Herbert só não se tornou o cara mais foda do planeta por causa da tragédia de Brands Hatch, mas também abro espaço para um pouco de reflexão.

Recentemente, um jornalista francês escreveu um artigo analisando Gregor Foitek e suas altas confusões na Fórmula 3000. Ao contrário dos seus colegas britânicos, que não perdem tempo em apontar seus nobres dedos na fuça do suíço, o jornalista aí preferiu buscar alguma explicação no psicológico do piloto. Ao que parece, Gregor era apenas um cidadão quietão, tímido e introvertido que não se sentia verdadeiramente feliz e confortável no automobilismo. Tudo indica que ele estava lá justamente por desejo do papai Karl, que inclusive fazia questão de acompanhar seu rebento no paddock. Com isso, o moleque acabou ficando com fama de playboy que não sabia fazer nada sem a sombra do pai. Falar inglês muito mal e não se enturmar com os demais pilotos também não lhe ajudou muito.

Na pista, Gregor Foitek era rápido como um foguete e também meio doido. A Fórmula 3000 é uma categoria onde tipos assim são comuns e os acidentes são frequentemente causados por lapsos cerebrais aliados a um excesso de ímpeto e autoconfiança dos jovens. Em condições normais, Foitek seria visto apenas como mais um garoto desastrado entre muitos. O problema foi justamente ter entrado no caminho do promissor e popular Johnny Herbert. Então, sua má fama alcançou proporções exageradas e sua personalidade fechada apenas ajudou a semear ainda mais o imaginário das pessoas, que realmente acreditavam que ele era um assassino ou coisa do tipo.

E o que o tal do criador da USF1 tem a ver com a Onyx? TUDO!

E o que o tal do criador da USF1 tem a ver com a Onyx? TUDO!

Voltemos a 1990. Nas etapas de Phoenix e Interlagos, Gregor Foitek pilotou o segundo carro da Brabham sem grande sucesso. Na corrida americana, ele se envolveu em um acidente em alta velocidade na Washington Street e não se machucou por sorte. No Brasil, abandonou com a transmissão quebrada após 14 voltas. Karl Foitek não gostou muito do que viu e decidiu levar seus francos suíços para outra granja.

Na Onyx, Karl não seria apenas o típico pai chato que enche o saco de mecânicos e engenheiros com palpites inúteis. Como acionista minoritário, ele não só poderia assegurar a carreira de Gregor por uns bons anos a fio como também teria liberdade para mandar e desmandar em cima dos funcionários.

Resumindo toda a novela até aqui, o economista belga doidivanas acabou dando espaço a um dono de museu, um desconhecido vendedor de Ferrari e um exigente pai de piloto. Não parecia ser exatamente a mudança gerencial mais promissora do planeta. O tempo apenas comprovou que, de fato, os tempos que estavam por vir não seriam fáceis.

Jean-Pierre Van Rossem podia ser pirado e o diabo a quatro, mas ao menos tinha alguns sonhos bem ambiciosos para a Onyx. O trio suíço, por outro lado, não estava nem um pouco a fim de gastar muito dinheiro com a Fórmula 1. Seus planos eram reducionistas e incluíam a demissão de nomes muito caros e o corte generalizado de custos. Nada de transformar equipe pequena em equipe grande. O negócio era apenas ir sobrevivendo enquanto dava – e capitalizar o máximo possível nesse ínterim.

Os dois primeiros nomes dispensados foram justamente o diretor técnico e o primeiro piloto da equipe. Peter Monteverdi chamou o indispensável Alan Jenkins para uma conversinha na sala da chefia e lhe ofereceu uma indecente proposta de redução salarial. Jenkins ficou puto da vida e obviamente falou que não aceitaria nada. Monteverdi entrelaçou os dedos, olhou para o teto e apenas sentenciou a famosa frase de Donald Trump e Roberto Justus: “Então você está demitido”. Foi dessa forma que o projetista, um dos técnicos mais competentes de toda a Fórmula 1, foi dispensado como se fosse uma casca de banana podre.

Sem um profissional do calibre de Alan Jenkins, a reduzida Onyx teve de recorrer à prata da casa para preencher o buraco técnico. Ao invés de contratar um nome à altura de Jenkins, ela promoveu os jovens engenheiros Dave Amey e Ken Anderson à diretoria técnica da escuderia. Alguns de vocês devem ter reconhecido o nome do último citado. Anderson, ao lado de Peter Windsor, foi um dos criadores do projeto USF1, aquele mesmo.

E o que esse rapaz tinha a ver com a Onyx? Mais nada

E o que esse rapaz tinha a ver com a Onyx? Mais nada

O próximo que foi chutado para a rua da amargura foi Stefan Johansson. O piloto sueco também foi convocado para uma simpática reunião com Peter Monteverdi. À mesa, o dirigente revelou seus planos a Johansson: “Eu comprei a equipe e não vou te pagar um tostão. Quer continuar mesmo assim?”. A resposta foi óbvia e o bate-papo durou apenas uns quinze minutos. Johansson, o homem que salvou a Onyx da pré-classificação, também foi escorraçado como se fosse outra casca de banana podre. De forma compreensível, o irritado sueco foi buscar seus direitos na justiça comum, no que foi acompanhado por Alan Jenkins. Depois comento mais sobre isso.

A saída de Johansson abriu espaço para a entrada de Gregor Foitek, que seria o novo companheiro do finlandês JJ Lehto, cuja permanência jamais foi questionada exatamente por conta de sua ligação com a Marlboro. A mídia inglesa também chegou a cogitar o nome do espanhol Luis Perez-Sala, mas este não tinha meios de competir por uma vaga contra a família Foitek e o forte lobby de Lehto.

Outros nomes importantes também acabaram saindo, como o diretor Peter Reinhardt, o consultor financeiro Johan Denekamp e a relações-públicas Mireille Poirier. No fim das contas, quinze dos 65 funcionários da escuderia acabaram indo embora. Em compensação, os antigos sócios Mike Earle e Jo Charmberlain aceitaram retornar à Onyx após a saída definitiva de Jean-Pierre Van Rossem e a chegada dos suíços. Após sua brevíssima passagem pela Brabham, a dupla dinâmica voltou para recolocar a nova velha equipe nos trilhos.

Todas essas mudanças aconteceram muito rapidamente. Em Interlagos, o primeiro sinal da nova gerência foi o adesivo do museu de Peter Monteverdi, devidamente colado nos pontos mais importantes do carro. Naquela corrida, Stefan Johansson e Alan Jenkins ainda não haviam sido demitidos. Eles foram ao Brasil, trabalharam, e depois levaram a botinada na bunda.

Entre as etapas de Interlagos e de Imola, a Fórmula 1 passaria por um sombrio período de quase dois meses sem corridas. Essas férias vieram a calhar para a Onyx, que poderia se reorganizar com um pouco mais de calma. Foi nesse ínterim que todas as grandes mudanças foram realizadas.

No entanto, nem tudo cheirava a novidade lá na Westergate House. O carro a ser utilizado até o final da temporada, por exemplo, continuaria sendo o ultrapassado ORE-1. Os diretores suíços optaram por simplesmente jogar no lixo o projeto do novo chassi ORE-2, que estava previsto para estrear justamente no GP de San Marino. O argumento era previsível: além da óbvia necessidade de corte de custos, o ORE-2 estava sendo desenvolvido por Alan Jenkins e não daria para levar esse desenvolvimento adiante após a saída do cara.

Foitek em seu début com o carro da Onyx em Silverstone

Foitek em seu début com o carro da Onyx em Silverstone

Vamos ligar os motores? No dia 11 de abril, a Onyx realizou em Silverstone seu primeiro teste oficial em 1990. Primeiro? Exatamente. A equipe não andou absolutamente nada na pré-temporada e foi para as duas primeiras corridas basicamente da mesma maneira que compareceu ao último GP de 1989. Se bobear, nem mesmo os macacões de pilotos e mecânicos foram lavados na virada do ano.

Gregor Foitek teve na Inglaterra seu primeiro contato com um ORE-1. Com pneus duros, ele completou não mais do que umas cinco voltas e fez 1m13s5 na melhor delas. Ao voltar para os boxes, disse que não estava muito confortável. Paciência. Sapato novo sempre dói no pé na primeira calçada.

Já acostumado com o carro, JJ Lehto foi à pista e rapidamente obteve o tempo de 1m11s9. Pena que seu bom trabalho foi interrompido por um problema no eixo cardã, o mesmo que apresentou problemas nos treinos do GP do Brasil.

De volta à velha casa, Mike Earle admitiu que a Onyx teria “uma enorme montanha a subir” até voltar a ser competitiva, mas também revelou que o problema no cardã ocorreu basicamente por fadiga de material. Portanto, assim que mais dinheiro entrasse no caixa, a escuderia poderia instalar peças novas nos carros. É realmente muito animador quando uma equipe de Fórmula 1 não tem dinheiro sequer para trocar uma merda de eixo.

Mas não dá para dizer que o teste de Silverstone não trouxe nada de novo. A Onyx aproveitou a ocasião para dar uma reformulada em seu look. Os carros de Foitek e Lehto entraram na pista com uma pequena modificação visual: as listras rosadas foram repintadas de verde fosforescente. O rosa era uma das cores oficiais do Moneytron e a equipe queria de todo jeito se desvencilhar da figura de Jean-Pierre Van Rossem. Ficou feio? Até que não, mas confesso preferir muito mais a versão anterior.

Na semana seguinte, Lehto e Foitek viajaram a Imola para participar dos testes coletivos promovidos pela Goodyear. Os dois teriam de dividir apenas um chassi. No primeiro dia de testes, Gregor entrou na pista, completou duas voltas lentas e retornou aos boxes para ajustar os pedais. Aí começou a chover e os mecânicos preferiram não mandá-lo de volta à pista. Enquanto as gotas caíam lá fora, Foitek filosofou muito e concluiu que o melhor a se fazer era deixar seu companheiro finlandês pilotar o carro no tempo restante.

E foi isso o que aconteceu. JJ Lehto monopolizou o ORE-1 não só naquele dia como também nos demais. Na sexta-feira, ele conseguiu marcar seu melhor tempo, 1m28s614. Entre 28 pilotos, ficou em 21º na classificação geral. Nada mal para quem pouco pilotou naquele início de 1990.

Os dois pilotos ainda fizeram mais alguns testes em Silverstone no fim de abril. Logo no começo de maio, quando tudo finalmente parecia estar se assentando, mais uma bomba: apenas um mês após retornar à equipe, Mike Earle pediu as contas novamente.

Foitek, Monteverdi e Lehto

Foitek, Monteverdi e Lehto

Earle regressou à Onyx com o dever de recuperá-la, mas viu que não chegaria a lugar algum porque Peter Monteverdi, Bruno Frei e Karl Foitek não estavam dispostos a investir seu precioso dinheiro em melhorias reais. Além disso, ele não concordava de forma alguma com uma das ideias mais teimosas de Monteverdi, a transferência da sede da Inglaterra para a Suíça.

Peter nunca escondeu de ninguém seu sonho de transformar a Onyx em uma espécie de vitrine esportiva do seu pomposo museu lá nos Alpes. Os ingleses que trabalhavam na escuderia obviamente acharam aquilo um absurdo e muitos acabaram saindo exatamente por essa razão. O plano acabou não indo adiante por causa justamente dos dois demissionários mais importantes da equipe, Stefan Johansson e Alan Jenkins.

Após ser demitido, Johansson entrou na justiça com uma esperta tática em mente. Como ele sabia que provavelmente não conseguiria reaver seu emprego nos tribunais e que Peter Monteverdi estava querendo transferir a Onyx para a Suíça, o sueco pediu ao juiz que o dinheiro a ser utilizado nas operações referentes à transferência ficasse amarrado a uma obrigação financeira. Dessa forma, se a Onyx realmente mudasse de sede, a grana seria sequestrada por Johansson, que tinha muitos salários atrasados a receber. Alan Jenkins achou a ideia interessante e decidiu entrar com processo semelhante. Com isso, Peter Monteverdi teria de pagar uma nota preta a Johansson e Jenkins se quisesse ir para a Suíça. Ele acabou desistindo de seu plano original e teve de levar a cabo um plano B, o de realocar sua escuderia para um galpão menor que a Westergate House ainda dentro da Inglaterra.

Mas chega de falar de problemas jurídicos. Na mesma semana da saída de Mike Earle, a Onyx realizou um bom teste em Paul Ricard no qual descobriu que um erro de calibragem era a razão pela qual que os pneus traseiros de classificação aqueciam tanto. Os mecânicos começaram a calibrar os compostos corretamente e o problema desapareceu.

Alguns dias depois, a Onyx viajou a Imola novamente para mais uma semana de testes coletivos. JJ Lehto foi a grande surpresa do primeiro dia ao cravar o sétimo melhor tempo entre 26 pilotos. No sábado, fez sua melhor volta na contagem geral, 1m27s784, apesar de um motor quebrado e um câmbio bichado. Terminou as atividades muito feliz, confiante de que havia achado um bom acerto para o GP do fim de semana seguinte.

Gregor Foitek não foi tão bem assim e marcou apenas 1m28s544 na sexta-feira. Ao que parece, suas voltas mais promissoras foram comprometidas por bandeiras vermelhas causadas por uma rodada de um carro da McLaren e pela capotagem de Ivan Capelli. Mesmo assim, os testes também foram frutíferos para o suíço, que dividiu a pista com concorrentes reais pela primeira vez desde sua contratação pela Onyx.

Então vamos falar um pouco sobre corridas de verdade. Sério? Você promete? Prometo. Mas não hoje. A estreia oficial da Monteverdi Onyx fica para o próximo capítulo.

Brabonyx: seria essa a salvação da Onyx? (Montagem de Paintbrush, foda-se)

Brabonyx: seria essa a salvação da Onyx? (Montagem de Paintbrush, foda-se)

O mais interessante desse capítulo é que ele faz a história da Onyx Grand Prix, a melhor equipe de Fórmula 1 desse universo e também de mais alguns outros, empatar em número de partes com a igualmente longeva série da AGS que eu escrevi há alguns meses. Ambas as escuderias foram descritas em nada menos que dezoito artigos (lembrem-se: o número adotado por Pastor Maldonado é aziago e logicamente pulado na contagem), mas a Onyx logicamente ultrapassará o recorde simplesmente porque assim eu decidi.

Então sigamos em frente. No último texto, contei a vocês o fim do relacionamento entre a equipe e seu financiador maior, o economista belga Jean-Pierre Van Rossem. O fracasso em obter um contrato de fornecimento de motores com a Porsche deprimiu Van Rossem de tal modo que ele não viu mais sentido em continuar desperdiçando dinheiro com a porra da Fórmula 1. Ele recolheu sua grana, colocou suas ações da escuderia à venda e ainda fez questão de promover coletivas de imprensa apenas para criticar não só a categoria como também o presidente da FISA, o simpático e democrático Jean-Marie Balestre.

Com a saída de Van Rossem, a Onyx terminou o mês de fevereiro de 1990 sem um dono e praticamente sem chance alguma de disputar a temporada de Fórmula 1 daquele ano. Faltavam poucos dias para o início do campeonato e a possibilidade de algum outro aventureiro inconsequente surgir e assumir a bodega era quase nula. Quase, mas não totalmente.

E a salvação poderia estar justamente naquela que quase inviabilizou a sobrevivência do time. Estou falando da Brabham, a equipe que pescou da Onyx os diretores Mike Earle e Jo Chamberlain e quase venceu sua rival na disputa pelo contrato com a Porsche – no fim, ambas foram passadas para trás pela Arrows. Mas como assim?

Naquele verão europeu, a Brabham estava numa situação tão deprimente quanto a Onyx. Revivida no fim de 1988 pelo financista suíço Joachim Lüthi, a equipe batizada com o sobrenome do tricampeão Jack Brabham teve uma reestreia muito boa em 1989, mas a felicidade acabou no dia em que Lüthi foi pego pela justiça por ter arquitetado algumas maracutaias fiscais em seu país. Dali em diante, as coisas só se tornaram mais nebulosas para o time.

Como contei no capítulo passado, quem surgiu na história como um possível salvador da Brabham foi o poderoso Ron Dennis, ninguém menos que o chefão da McLaren. Dennis fez em janeiro de 1990 uma proposta de compra da equipe visando transformá-la na representante oficial da Porsche na Fórmula 1, já que sua McLaren velha de guerra já estava ligada com a Honda e ele precisava da parceria com os alemães para obter motores para os superesportivos que sua empresa estava preparando para o futuro.

Middlebridge, a nova dona da Onyx?

Middlebridge, a nova dona da Onyx?

O projeto Brabham-Porsche até estava correndo bem, mas tudo melou de vez quando a Kingside Establishment, a empresa de Joachim Lüthi que comandava a Brabham, foi posta em liquidação. Com isso, os bens do suíço foram congelados e sua amada escuderia de Fórmula 1 foi desmantelada. O inglês Martin Brundle, um dos pilotos da Brabham em 1989, decidiu cair fora por perceber que, do jeito que as coisas caminhavam, jamais conseguiria receber seus salários atrasados. O projetista Sergio Rinland, pai do ótimo chassi BT59, decidiu aceitar um convite para integrar a Tyrrell em 1990. Até mesmo os novos diretores vindos da Onyx, Mike Earle e Jo Chamberlain, acabaram dispensados após apenas alguns dias. A verdade é que o barco estava afundando e não havia muito o que fazer.

O fim das tristonhas equipes alemãs Rial e Zakspeed realmente não incomodou Bernie Ecclestone, mas o naufrágio iminente das promissoras Brabham e Onyx já não era uma coisa tão bacana assim. O asquenaze maior da Fórmula 1 começou a trabalhar em uma solução para as duas escuderias. Algo surgiu no horizonte.

Mais ou menos como a Rússia nos dias atuais, o Japão era a bola da vez na Fórmula 1 naquela época. Apesar do país estar então passando por uma complicada crise imobiliária, muitos empresários nipônicos acreditavam que poderiam seguir a mesma trajetória bem-sucedida da Honda, que ampliou exponencialmente sua boa imagem mundial por conta de sua parceria com a McLaren. Entre 1989 e 1992, uma enxurrada de ienes inundou várias equipes da categoria.

Uma das muitas empresas japonesas interessadas na Fórmula 1 era a Middlebridge, um conglomerado industrial presidido pelo honorável Kohji Nakauchi. Além de japa craque em engenharia, Nakauchi era um virtuoso colecionador de carros antigos e amante do automobilismo. Em 1986, ele foi à Inglaterra e comprou da Reliant os direitos de produção dos modelos Scimitar. Essa foi sua primeira grande atividade internacional relacionada ao mundo motorizado.

Nos anos seguintes, a Middlebridge se tornou um nome razoavelmente relevante no automobilismo europeu. Em 1986 e 1987, Nakauchi fundou uma equipe de Fórmula Ford 2000 e Fórmula 3 e entregou sua administração ao seu grande amigo Dennis Nursey, um inglês que já trabalhava no Japão fazia algum tempo. Em 1988, a Middlebridge Racing subiu para a Fórmula 3000. No ano seguinte, ela obteve seus primeiros bons resultados na categoria com o piloto britânico Mark Blundell.

No fim de 1989, a Middlebridge anunciou que estava interessada em comprar uma equipe de Fórmula 1. Num primeiro instante, ninguém deu muita bola. Porém, quando as notícias péssimas sobre as situações financeiras de Brabham e Onyx começaram a pulular na imprensa, Bernie Ecclestone entendeu que a companhia de Nakauchi-san poderia ser a luz no fim do túnel para o problema.

E aí?

Com ou sem Brabham, a Onyx teria de se virar sem Jean-Pierre Van Rossem e seu Moneytron

Em poucos dias, o onipresente Ecclestone conseguiu arquitetar a criação de uma nova escuderia a ser administrada pelo pessoal da Middlebridge a partir da fusão entre as sobras da Brabham e da Onyx. A solução era, de fato, muito boa no papel: Brabham e Onyx possuíam bons chassis, técnicos e pilotos e só precisavam do dinheiro e da estabilidade organizacional que a Middlebridge não se importava em oferecer.

Os criativos jornalistas especializados até inventaram um nome simpático para o monstrengo: Brabonyx. Lógico que a denominação não seria essa, mas estampar um “Brabonyx” nas manchetes sempre ajuda a chamar a atenção. Na verdade, não se sabia muito sobre a nova formação. Especulava-se que ela poderia até herdar o nome Onyx, mas ninguém confirmou nada. Da mesma forma, decidir sobre o que poderia ser aproveitado de cada um dos espólios não era algo fácil.

Os melhores ativos da Onyx Grand Prix eram o projetista Alan Jenkins, o patrocínio da Marlboro e os pilotos Stefan Johansson e JJ Lehto. Por outro lado, a Brabham poderia contribuir com o piloto Stefano Modena e o diretor esportivo Herbie Blash, que havia aceitado voltar para a escuderia antes dela ser liquidada. Em termos de equipamento, não havia muitas diferenças entre os dois lados: Onyx e Brabham tinham ótimos chassis e motores fraquinhos. Os contratos de pneus, em compensação, eram diferentes: a Onyx tinha um acordo ainda válido com a Goodyear e a Brabham era uma das queridinhas da Pirelli. Porém, a Goodyear não estava com muita vontade de fornecer compostos à sua parceira, que ainda não tinha pagado todas as contas referentes aos pneus de 1989.

Bacana, né? Uma equipe com Herbie Blash, Alan Jenkins, Marlboro, um chassi competente e uma dupla de pilotos formada pelos camaradas citados acima até poderia dar certo. Só estava faltando a confirmação oficial. Que não vinha.

A nova escuderia estrearia na Fórmula 1 no Grande Prêmio de San Marino, terceira etapa da temporada de 1990. Até lá, ninguém sabe o que aconteceria com o que havia restado da Brabham e da Onyx. Mas as pistas foram surgindo na semana anterior à primeira etapa do ano, a dos Estados Unidos.

Uma semana antes do início das atividades em Phoenix, dois chassis Onyx ORE-1 foram remetidos desde o aeroporto de Stansted rumo ao Arizona. Os demais integrantes da Onyx também viajaram normalmente rumo aos Estados Unidos, inclusive os pilotos Stefan Johansson e JJ Lehto. Na quinta-feira anterior ao GP, a equipe já trabalhava normalmente nos boxes de Phoenix, como se nada de extraordinário estivesse acontecendo. Ou seja, a Onyx continuaria existindo como tal pelo menos nas duas primeiras etapas da temporada de 1990.

A Brabham, por outro lado, demorou um pouco mais para responder às dúvidas de todos. Até poucos dias antes dos primeiros treinos livres do GP dos Estados Unidos, os chassis e equipamentos da equipe estavam lacrados em um galpão localizado nos arredores de Londres. Na quinta-feira da semana da corrida, dia em que até mesmo a Onyx já se mostrava presente no paddock, ainda não havia qualquer sinal de vida nos boxes 7 e 8. O único indício de que a Brabham participaria do GP era a presença de seus dois pilotos anteriormente confirmados, o italiano Stefano Modena e o suíço Gregor Foitek.

Johansson não começou muito bem o ano de 1990...

Johansson não começou muito bem o ano de 1990…

Sexta-feira, 9 de março de 1990, todos já preparados para o início da temporada de Fórmula 1 em 1990 e nada de Brabham no paddock. De repente, de forma quase abrupta, um comboio de caminhões surgiu das trevas e desembarcou quatro chassis BT58 e uma infinidade de equipamento nos boxes reservados à escuderia criada por Jack Brabham. Faltando apenas poucas horas para o primeiro treino livre, a Brabham finalmente confirmou ao mundo que participaria do GP dos Estados Unidos.

Então vamos situar o confuso leitor nesse carnaval aí. Onyx e Brabham disputariam ao menos as duas primeiras corridas de 1990 separadas. A Onyx levou para Phoenix o mesmíssimo equipamento de 1989: chassi ORE-1, motores Ford Cosworth DFR e pneus Goodyear. Os pilotos seriam os mesmos do final da temporada anterior, Stefan Johansson e JJ Lehto. Até mesmo a fantástica pintura seria a mesma, em que se pese o patrocínio da Moneytron não estar mais lá. Já a Brabham competiria com o mesmo BT58 equipado com propulsores Judd de 1989 e a dupla de pilotos seria composta por Gregor Foitek e Stefano Modena. Ambas as equipes padeciam de problemas parecidos: carros desprovidos de patrocínio e quilometragem praticamente nula em testes de pré-temporada.

Mas esse especial aqui não é sobre a Brabham – se fosse, eu estaria condenado a escrever sobre ela por uns cinco anos. Vamos falar apenas da Onyx e de seus últimos momentos como Onyx.

Sua situação obviamente não era das mais confortáveis. A equipe estava momentaneamente sem dono, esperando sentada pela fusão com a Brabham ou pela chegada de um improvável messias. O chassi ORE-1 recebeu algumas mínimas atualizações durante o inverno, nada que o transformasse em um candidato ao título. Os sessenta funcionários faziam o melhor que dava, mesmo sabendo que não necessariamente receberiam seus salários em dia. Pelo menos, os dois pilotos estavam livres da pré-classificação no primeiro semestre. Por pior que estivessem as coisas, Lehto e Johansson não teriam de acordar mais cedo às sextas.

Em Phoenix, a dupla de nórdicos foi logo convocada para os treinos livres e de classificação. Stefan Johansson fez a lição de casa no primeiro treino da sexta-feira de manhã e terminou em 21º. À tarde, no primeiro treino classificatório do ano, o sueco cometeu um erro besta e bateu de leve nos pneus, danificando um pouco o bico de seu bólido e ocasionando uma das três bandeiras vermelhas que interromperam a sessão. O tempo fora de ação custou caro a Johansson, que só conseguiu a 27ª posição provisória em uma volta de 1m33s468. Em resumo, ele estava momentaneamente fora da corrida.

No sábado, o milagre aconteceu: a desértica cidade de Phoenix foi abençoada com um temporal diluviano, algo inacreditável em se tratando de uma metrópole cravada no meio do Arizona. Só a Fórmula 1 mesmo para propiciar esse tipo de coisa. O problema é que a água não era benéfica para todos. Stefan Johansson foi um dos grandes prejudicados pela pista encharcada. Como o sueco foi um dos quatro pilotos que não asseguraram uma vaga no grid provisório no dia anterior, ele dificilmente conseguiria reverter o revés no último treino classificatório realizado no período da tarde.

No segundo treino livre, Stefan sentiu o drama: ficou apenas em 20º entre os 23 carros que se atreveram a marcar uma volta. Seu tempo mais rápido foi mastodônticos 36 segundos mais lento que o de Alessandro Nannini, o líder da sessão. A marca de Nannini, por sua vez, foi 23 segundos mais lenta que o tempo da pole provisória obtida por Gerhard Berger no dia anterior. Pois é… Johansson só melhoraria sua situação se a chuva desaparecesse em um passe de mágica.

Stefan passeando pelas ruas de Phoenix

Stefan passeando pelas ruas de Phoenix

Isso não aconteceu. O temporal até piorou à tarde e apenas catorze pilotos tentaram, sem sucesso, fazer alguma coisa no último treino classificatório. Stefan Johansson sequer saiu dos boxes. Antes mesmo do início da sessão, ele sabia que não tinha a menor chance de classificação. Sua participação no GP dos Estados Unidos acabou ali mesmo.

Vamos ver se JJ Lehto teve melhor sorte. Estreante no circuito de Phoenix, o finlandês teve de se virar para aprender em poucas voltas um traçado que nunca tinha visto mais gordo na vida. O noviciado cobrou seu preço: logo no primeiro treino livre de sexta-feira, ele errou uma curva e bateu razoavelmente forte em um dos muros de concreto de Phoenix, finalizando prematuramente sua participação naquela sessão. Antes do acidente, JJ havia marcado um tempo em 1m33s124, garantindo a discreta 20ª posição na tabela.

A pancada foi dura e os mecânicos tiveram de trabalhar muito para consertar o pobre bólido nº 36. Eles até aceitaram pular o almoço apenas para ver o Onyx-Ford novinho em folha novamente. Mas as boas intenções e a obstinação não foram suficientes. A falta de peças sobressalentes e os extensos danos no carro impediram que os caras conseguissem consertá-lo a tempo para o treino classificatório à tarde. Lehto sequer entrou na pista e terminou a sexta-feira na 30ª e última posição no grid provisório sem nenhum tempo registrado.

Após uma sexta-feira muito difícil, JJ era o último homem do planeta Terra que queria ver chuva em Phoenix no sábado. Mas ela caiu e acabou enterrando de vez sua chance de participar do Grande Prêmio dos Estados Unidos. No segundo treino livre, Lehto ainda finalizou em 19º com um tempo absolutamente fora dos padrões mínimos de competitividade. O temporal que desabou justamente na hora do último treino classificatório inviabilizou os sonhos dos excluídos que queriam entrar na turma dos 26 largadores. Sem ter marcado nenhuma volta nas duas qualificações, Jyrki acabou ficando em 30º e obviamente não arranjou lugar em grid de largada algum nesse mundo.

A Onyx foi embora mais cedo dos Estados Unidos sem ter conseguido participar da corrida com nenhum dos dois carros. A etapa seguinte, a última que a equipe faria antes de passar para as mãos de um novo dono, seria o Grande Prêmio do Brasil, a ser realizado no revitalizado autódromo de Interlagos.

O circuito paulistano retornava à Fórmula 1 depois de dez anos de ausência. Uma grande parte de seu histórico traçado de quase oito quilômetros foi mutilada por conta das exigências de segurança da FISA e do capricho de Ayrton Senna em querer botar uma maldita chicane egocêntrica no trecho do anel externo. A pista nova perdeu parte da graça, mas ainda continuou interessante. Tanto que ao chegar em São Paulo, JJ Lehto arranjou uma bicicleta, deu algumas voltas na pista e a cobriu de elogios. De forma geral, os demais pilotos também gostaram do que viram.

JJ Lehto em Interlagos. O que diabos é aquele troço  de "Monteverdi" lá no aerofólio?

JJ Lehto em Interlagos. O que diabos é aquele troço de “Monteverdi” lá no aerofólio?

Na quinta-feira anterior ao GP, os trinta e cinco inscritos foram convocados para um treino coletivo de reconhecimento do novo traçado. Naquela época de ouro, a Fórmula 1 sempre promovia uma sessão extra nas pistas que estreavam no calendário para que os caras não entrassem todos perdidos no primeiro treino livre. Se dependesse dos resultados obtidos aí, a Onyx estaria muito bem na fita. JJ Lehto terminou em 13º, imediatamente à frente do Benetton do tricampeão Nelson Piquet, e Stefan Johansson finalizou em 16º. Bastava manter a forma e o sucesso estava garantido.

Mas as coisas não funcionam bem assim. JJ Lehto nem foi tão mal assim no primeiro treino livre da sexta-feira, fazendo 1m20s485 e terminando em 16º apesar de uma quebra no eixo cardã. Na sessão classificatória do período da tarde, contudo, a Onyx decidiu inventar uns acertos novos que simplesmente ferraram com o carro do finlandês. Brigando para mantê-lo na pista, Lehto só conseguiu o tempo de 1m21s323, insuficiente para garantir um lugar no grid provisório.

Stefan Johansson teve ainda menos sorte. Treino livre de sexta-feira, o sueco inicia as atividades padecendo com uma suspensão traseira direita quebrada e freios inoperantes em seu bólido titular. Ele volta aos boxes atrás do carro reserva, mas o bicho já está sendo pilotado por Lehto. Resultado final: 27º colocado com o tempo de 1m21s987. Na qualificação vespertina, Johansson sofreu com os mesmos problemas de falta de aderência de seu companheiro de equipe e o tráfego também não lhe favoreceu muito. Pelo menos, ele foi dormir provisoriamente classificado na 24ª posição do grid de largada.

Sábado de sol. JJ Lehto e Stefan Johansson mantiveram a tendência de apresentar melhor desempenho em sessões inúteis com, respectivamente, o 15º e o 21º tempos no segundo treino livre. À tarde, só dramas.

Lehto iniciou a última sessão definitiva com o carro reserva. O câmbio estourou e o finlandês teve de correr de volta para a máquina titular, que não estava devidamente ajustada. Aí não deu para fazer nenhum milagre. O tempo de 1m21s417 foi ainda pior do que o obtido na qualificação de sexta-feira. Com isso, JJ acabou ficando apenas em 28º no acumulado das duas sessões – fora do Grande Prêmio do Brasil, portanto.

E Stefan Johansson, então? Seu Onyx-Ford apresentou problemas de motor e ele não conseguiu fazer volta melhor que 1m22s184, tempo quase um segundo mais lento do que o obtido na tarde anterior. Mesmo assim, ele esteve classificado para o Grande Prêmio por quase 55 minutos. Nos cinco finais, o francês Yannick Dalmas empreendeu um milagre com seu AGS e marcou 1m21s087, subindo para a 26ª posição e empurrando Johansson para fora do grid. Como o motor de seu carro já havia ido para as cucuias, Stefan não teve mais o que fazer a não ser chorar. Novamente, ele não participaria de uma corrida.

Dois GPs, dois fracassos. A cataléptica Onyx do início de 1990 não tinha nada a ver com a emergente equipe azulada que brigava por posições intermediárias no semestre anterior. Mas o fim de semana de Interlagos não foi completamente perdido. Você viu aquele logotipo “Monteverdi” estampado nos bólidos de Lehto e Johansson? Ele marcou o início de uma nova fase para a escuderia.

No próximo capítulo, conto. Fiquem calmos, a série está acabando.

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