O texto de hoje é baseado numa opinião que li em um fórum de automobilismo. A imagem é meramente ilustrativa

É isso aí, Nelson Rodrigues… Os idiotas realmente são em maior número.

Além de escrever, eu costumo observar silenciosamente alguns fóruns e comunidades de automobilismo. Os fóruns estrangeiros costumam ser mais organizados, interessantes e sérios que os brasileiros, que compensam com maior diversão. O problema é que a possibilidade de ler merda mal-escrita em português é muito mais alta.

Na semana passada, observei um tópico qualquer que comentava sobre a possível saída precoce de César Ramos da World Series by Renault. O piloto gaúcho da Fortec, que venceu a Fórmula 3 italiana no ano passado, está tendo sérios problemas financeiros e, mesmo tendo ponteado um teste coletivo em Snetterton alguns dias atrás, poderá ficar de fora da categoria a partir da próxima etapa, em Silverstone. Ele precisa de 50 mil euros para correr na Inglaterra e mais 150 mil para as etapas restantes.  Seu único patrocinador, a manufatureira de pastilhas e lonas de freio Fras-Le, dá uma enorme força, mas faltam mais apoios para completar o orçamento.

Ramos é mais uma vítima da falta de apoio das empresas brasileiras. Em um país onde todo mundo se orgulha de ser a potência esportiva que, na realidade, não é, inúmeros esportistas não têm a menor idéia de como seguir em frente porque ninguém se dispõe a providenciar um mínimo apoio financeiro que seja. O mais engraçado é que o dólar está absolutamente favorável a qualquer iniciativa no exterior, a economia brasileira aparentemente vai bem e as grandes empresas brasileiras só têm motivos para sorrir. O problema é de pura má vontade.

Não é este o cerne do texto, no entanto. Enquanto lia o tópico, observei que um sujeito cuja aparência não transmitia lá muita credibilidade ou inteligência escreveu, sem qualquer apego às normas mais elementares da língua portuguesa, que César Ramos não tem patrocinador por não ser “fora de série”. Se ele fosse realmente bom, teria dinheiro para prosseguir. Para exemplificar seu brilhante raciocínio, apontou que o heptacampeão Michael Schumacher tinha o apoio da Mercedes, que tinha total noção da genialidade do jovem alemão. É este o raciocínio do rapaz.

Eu não sei o que leva uma pessoa a escrever tamanho absurdo. Ou o rapaz é dolorosamente burro ou há apenas um problema de caráter aí. Não o conheço, mas acredito haver aí uma lamentável combinação destas duas características nefastas. O pior é que gente como este daí existe em grande número no mundo. Na verdade, os idiotas são a esmagadora maioria. E é óbvio que o fato de um sujeito emitir uma opinião dessas sobre um piloto de corridas é o menos grave de tudo. Deram aos idiotas legitimidade para tudo: emitir opiniões sobre os mais diversos assuntos, mandar nos outros, enriquecer e encher o nosso saco.

César Ramos, aquele que "não tem patrocinadores por não ser fora de série"

Falo, primeiramente, do automobilismo. É fácil refutar um argumento frágil como o apresentado acima. César Ramos não dispõe de patrocinadores pelo mesmo motivo que aflige outros pilotos brasileiros “que não são fora de série”: as empresas brasileiras simplesmente não estão dispostas a investir em ninguém. De modo geral, um piloto costuma enviar propostas a centenas de empresas esperando por algo. Sim, centenas! Quase todas fecham as portas. Uma ou outra diz que se interessou bastante pelo projeto e até agenda uma reunião futura. Para dizer que, infelizmente, não vai dar.

Cadê a Petrobras, as dezenas de empresas do Eike Baptista, a Vale ou aquelas corporações gigantescas que foram formadas a partir de fusões nos últimos anos com o único propósito de criar monopólios que prejudicam os fornecedores e os consumidores? E isso não vale apenas para o automobilismo, é claro. Cadê o apoio aos esportistas olímpicos ou a esportes que não o futebol? Na verdade, boa parte dos empresários é bastante oportunista neste sentido. Só aceita investir quando o esportista está por cima ou quando se trata de um grande time de futebol. Se o Corinthians anunciar que sua camisa está disponível, um monte de empresas disputará a tapa preciosos centímetros. Porque ninguém quer apoiar nada lá de baixo.

É óbvio que isso não acontece só no Brasil. O português Álvaro Parente sofre a cada ano para conseguir levar sua carreira adiante. Campeão da Fórmula 3 britânica em 2005 e da World Series by Renault em 2007, Parente é um dos melhores pilotos da Europa que não têm lugar na Fórmula 1. Hoje em dia, faz bicos na GP2. E os faz com enorme competência. Em terras lusas, ninguém quer saber de patrociná-lo, o que deixa muita gente do automobilismo indignada

Há outros nomes muitos bons que estão sem correr neste ano. Nico Hülkenberg, campeão da GP2, perdeu seu lugar na Williams no fim do ano passado porque não tinha dinheiro. Na GP2, o promissor Oliver Turvey acabou ficando de fora da atual temporada porque a empresa que o apoiava o abandonou no início deste ano. Além disso, pilotos excelentes como Giorgio Pantano e Adam Carroll circulam por aí como zumbis tentando encontrar um lugar onde possam construir uma carreira sólida. Será mesmo que a ausência de patrocinadores necessariamente diz algo sobre a qualidade dos desafortunados?

Ah, o caso Schumacher. Michael Schumacher era um dos pilotos mais promissores da Alemanha no fim dos anos 80. Ele era tão promissor quanto Heinz-Harald Frentzen, seu primeiro desafeto, ou Otto Rensing, um que quase ninguém aqui no Brasil sabe de sua existência. No início de 1990, a Mercedes-Benz criou um programa de desenvolvimento de jovens pilotos semelhante aos programas atuais da Red Bull ou da Gravity. Schumacher, Frentzen e o austríaco Karl Wendlinger, três dos melhores pilotos da Fórmula 3 alemã daquela época, disputariam corridas pela marca no Mundial de Protótipos e poderiam sonhar com uma vaga na Fórmula 1 no caso dela realmente se interessar em retornar à categoria.

Michael Schumacher (o último à direita), tão "fora de série" como Karl Wendlinger e Heinz-Harald Frentzen

No início, Frentzen era considerado o melhor piloto do trio, embora Schumacher não ficasse muito atrás. Heinz-Harald, no entanto, cometeu um erro básico de julgamento. Ele achava que o Mundial de Protótipos o desviaria demais de seu sonho de correr na Fórmula 1 e preferiu se desligar do programa da Mercedes para correr na Fórmula 3000 Internacional. Infelizmente para Frentzen, seus dois anos na categoria foram muito ruins e restou a ele ficar um tempo exilado no Japão antes de ser resgatado por Peter Sauber em 1994. Wendlinger seguiu o mesmo caminho de Schumacher e também conseguiu estrear na Fórmula 1 em 1991 pela Leyton House. Sua carreira vinha bem nas equipes médias, mas um acidente em Mônaco em 1994 acabou prejudicando sua ascensão.

Aos olhos da Mercedes, Schumacher era tão “fora de série” quanto Frentzen e Wendlinger, mas nosso querido idiota lá em cima, que não deve conhecer muito sobre a história do automobilismo, deve ignorar este fato. Ou ele acredita piamente que os três são pilotos geniais que, fatalmente, seriam multicampeões do mundo?

Enfim, automobilismo é pura questão de sorte e contatos. Se o cara é muito bom e não tem dinheiro ou contatos, ele não passará nem perto da Fórmula 1. Isso é inegável. Sebastian Vettel e Lewis Hamilton nunca foram ricos, mas tiveram padrinhos que valem mais do que dinheiro. O ex-piloto Pedro Paulo Diniz é um caso clássico do cara que chegou à Fórmula 1 com um currículo fraco e muito dinheiro no bolso. Uma pessoa inteligente e que acompanha o esporte deve ter noção clara desta dura realidade.

O outro lado da moeda é o desprezo torpe. Acusar César Ramos de ser o culpado maior pelo fato de não ter patrocinadores é algo que chega às raias da maldade. Se for assim, o que dizer de Felipe Nasr, que lidera com folga a temporada atual da Fórmula 3 britânica e que, no entanto, não tem patrocinador algum? Para mim, pessoas que dizem que “um piloto que não tem patrocinadores não é bom o suficiente” estão no mesmo nível daquelas que dizem que “gente como Ayrton Senna ou Michael Schumacher andaria bem até mesmo com um Andrea Moda”. São pessoas idiotas, simples assim.

As críticas e os elogios raramente são feitos com bom senso e racionalidade. Eu não vou com a cara de alguns poucos pilotos e, por meio deste espaço, busco justificar caso por caso. Posso até estar completamente equivocado sobre as razões utilizadas, mas ninguém pode me acusar de partir para a ignorância gratuita. E estou sempre aberto a retificações. Se o Bruno Senna, eterno saco de pancadas aqui, se tornar um piloto de ponta, ficarei feliz em engolir minha desconfiança a seco. Só que são poucos os que têm este cuidado.

Bruno Senna. Quando eu o critiquei, escrevi um texto enorme dando minhas razões. Ninguém pode me acusar de fazer crítica gratuita e rasteira

Por isso que não consigo confiar em momentos de amor ou ódio dos torcedores. Em 2008, Felipe Massa era o piloto preferido de todo mundo, potencial campeão do mundo e substituto de Ayrton Senna, uma superestimação antipática e aborrecida. Em 2011, o mesmíssimo Massa é um picareta decadente para os mesmos que o idolatravam três anos antes. As pessoas poderiam muito bem reclamar do fato dele ter deixado Fernando Alonso ultrapassá-lo naquele fatídico Grande Prêmio da Alemanha, no que nem estariam tão erradas. Ao invés disso, preferem contestá-lo por completo. E o novo gênio se transforma na ovelha negra dos brasileiros. No fim, Felipe Massa nunca foi avaliado corretamente pela maioria das pessoas.

Ninguém realmente sabe o que se passa com o próximo. Desse jeito, a crítica e o elogio sempre são fáceis de serem feitos. No caso do automobilismo, o piloto pode estar com um carro quebrador, uma equipe que o sabota, problemas psicológicos, bloqueios contratuais, azares e toda a sorte de problemas e duendes que o impedem de obter um bom resultado. Para o cego espectador, a culpa pelo fracasso é unicamente do cara que pilota o carro. O mesmo vale para o elogio. Se um sujeito obtém um bom resultado, ah, é porque ele é bom pra caralho. Não importa se ele está dirigindo uma nave espacial ou se a sorte abriu suas asas sobre ele. Ele é bom. E o cara que fracassou é ruim. E viva o maniqueísmo!

Se este tipo de coisa se restringisse apenas ao esporte, tudo bem. O problema é que um sujeito que diz besteiras quando seu time perde ou quando um piloto comete um erro pode muito bem dizer besteiras até mais graves com relação a questões delicadas como política, economia, religião, cultura ou comportamentos. Explorando a hipérbole, um sujeito que diz que “um César Ramos não tem patrocinadores porque não é fora de série” pode dizer também que “candidato B é pior que candidato A porque não aparece na televisão e não dá dentadura pro povão” ou que “cantor C está na mídia unicamente porque é melhor do que os outros que não estão”. Meu raciocínio pode até ser exagerado, como sempre, mas não é irreal.

De uns tempos para cá, está todo mundo muito idiota. Longe de querer parecer um gênio incompreendido no meio dos selvagens canibais, o que mais me incomoda é o fato de quase ninguém se esforçar um tiquinho de nada para melhorar, para parecer menos burro e medíocre. As pessoas só usam a cabeça para fazer penteado de moicano ou para cobrir sua falta de neurônios com um boné. É impossível conversar e trocar idéias com a esmagadora maioria daqueles que, em tese, são da mesma espécie que você. Todo mundo só quer rir, falar bobagens para chamar a atenção geral, entender do maior número de assuntos possível sem se aprofundar em nenhum deles e curtir frases banais em redes sociais vida afora. Não, não quero que o mundo se torne uma grande Sorbonne. Só gostaria de ver gente menos burra por aí. É pedir muito?

Vocês devem achar uma tremenda forçada de barra escrever um texto desses a partir de um mísero comentário de fórum de automobilismo. Devem pensar que o melhor que eu deveria ter feito era simplesmente ter deixado o comentário de lado, pois a ignorância não merece muita publicidade. Até concordo, mas é que eu não consigo tolerar burrice. Não entendo gente burra e não quero entender. Para muitos, uma declaração estúpida sobre automobilismo como aquela é só mais uma declaração estúpida. Para mim, um sinal, ainda que minúsculo, de que não estamos sabendo utilizar o cérebro.

Felipe Nasr: o piloto mais promissor do Brasil simplesmente não tem um patrocinador em seu carro

Nesses últimos dias, o acervo digital da Folha tem me tomado um tempo desgraçado. O jornalão do seu Frias nos fez o favor de liberar todo o conteúdo já publicado desde os anos 20. São quase cem anos de pura história brasileira e mundial, coisa preciosíssima. E uma pessoa que gosta muito de ler coisas do passado, como é o meu caso, se esbalda com vontade. Aproveite: o acesso será gratuito por tempo limitado.

Consultando o acervo, encontrei muitas notícias referentes ao automobilismo. Muitas mesmo. Centenas, dezenas, milhões delas. Notícias sobre Fórmula 1, Fórmula Indy, Fórmula 3000, Mundial de Marcas, Fórmula 3 sul-americana, Mundial de Motovelocidade e tudo o mais. Um detalhe deve ser relevado, no entanto: essas notícias são, em sua esmagadora maioria, da primeira metade da década de 90 para trás. Depois da morte de Ayrton Senna, o automobilismo perdeu enorme espaço na Folha, assim como ocorreu em outros grandes veículos de mídia.

E observando esse monte de notícias, vi como eram frequentes as citações a jovens pilotos das categorias de base. O exemplo mais incrível é o de Rubens Barrichello, atual piloto da Williams. Se você pesquisar todos os seus registros de 1992 para baixo no acervo da Folha, encontrará nada menos que 213 páginas mencionando seu nome. Pesquisando em outros acervos digitais, os resultados são igualmente impressionantes. No acervo da Quatro Rodas, o nome de Barrichello é mencionado 72 vezes antes dele entrar na Fórmula 1. Até mesmo no acervo da Veja, ele é citado em cinco ocasiões nesse mesmo período.

Vamos fazer comparação semelhante com Felipe Nasr, o piloto brasileiro de maior potencial entre todos os que correm nas categorias de base internacionais. Na Folha, ele foi mencionado em apenas uma ocasião, em uma tímida notinha colocada em uma coluna de Fábio Seixas em abril de 2010. Na Quatro Rodas, nada. E na Veja, nem sonhando. Há quem diga que a comparação é injusta, já que a carreira de Barrichello era maior e mais expressiva que a de Nasr antes da Fórmula 1. Mais ou menos: Rubens correu em monopostos por apenas quatro anos antes de chegar à categoria máxima. Felipe está exatamente em seu quarto ano, e tem boas chances de ser campeão inglês de Fórmula 3, que foi o campeonato mais importante já vencido por Barrichello.

Aonde eu quero chegar com isso? Nesse texto, uma das explicações vem antes da apresentação inicial da ideia. O que mais me chama a atenção não é a comparação entre o número de menções dos pilotos antigos em relação aos novos. Falo, sim, de como esse tratamento especial da mídia representa uma enorme diferença em relação a patrocinadores. A maior diferença entre a geração de Barrichello e a geração de Nasr é a presença de apoiadores de peso e da mídia, ambos praticamente inexistentes atualmente.
Nas reportagens antigas, vemos Rubens Barrichello sempre apoiado pela gigante alimentícia Arisco. Seja no kart, na Fórmula Opel, na Fórmula 3 ou na Fórmula 3000, seja seu carro vermelho, azul ou branco, o logotipo da empresa de molhos de tomate e sucos em pó sempre aparecia ao lado do jovem piloto no início de sua carreira. E a Arisco não o ajudava apenas enfiando dinheiro em sua carteira. O apoio também era feito por meio de divulgação extensiva aliada à publicidade. Quem aqui, entre os que têm mais de 30 anos, não se esquece do jovem e cabeçudo Barrichello aparecendo em anúncios de TV e em revistas como um garoto-propaganda dos catchups da marca?

Alguém imagina um comercial estrelado por um piloto da Fórmula 3 inglesa? Pois é, isso aconteceu em 1991

Rubens Barrichello é o caso mais interessante, mas está longe de ser o único. Christian Fittipaldi, seu maior adversário no kart, também tinha apoios de peso. No começo, eram os barbeadores da Philishave que pintavam seus carros de vermelho. Na Fórmula 3000, ele passou a ser apoiado pelos aparelhos da Gradiente e pelo velho tênis M2000. Gil de Ferran levou a marca de cosméticos Phytoervas para o âmbito internacional. E Mauricio Gugelmin, sempre apoiado pela Perdigão e que até gravou um comercial contra o desmatamento com a marca em 1989?

Os dois maiores nomes do Brasil na Fórmula 1 também nunca tiveram enormes problemas com patrocinadores. Quem acompanhava o início da carreira de Nelson Piquet não se esquece do apoio da Brastemp, que o acompanhou até seus primeiros anos na Fórmula 1. E Ayrton Senna  teve vários apoios expressivos. Na Fórmula Ford 2000, a transportadora de carros Transzero investiu sozinha no brasileiro no início da temporada de 1982. Após alguns meses, o banco Banerj apareceu com um cheque de 40 mil dólares para completar o orçamento. Na Fórmula 3 inglesa, além do Banerj e da Transzero, passaram a apoiá-lo os jeans Pool, os brinquedos Estrela e a boate paulistana Gallery. Juntas, estas cinco empresas garantiram uma vaquinha de 500 mil dólares, quantia mais do que suficiente para uma vaga de ponta na Fórmula 3.

E hoje? Felipe Nasr, o brasileiro com mais potencial, corre em um carro verde e amarelo. Bonito, mas há um detalhe: não há um mísero adesivo sequer. No macacão, também não há nada. É uma situação constrangedora, ainda mais sabendo que concorrentes de nível bem inferior, como Jazeman Jaafar e Rupert Svendsen-Cook (leitor desse blog!), carregam patrocinadores robustos em seus bólidos.

Se o negócio tá tenso pro Nasr, o que dizer dos outros brasileiros? César Ramos, o atual campeão italiano de Fórmula 3 e um dos candidatos às vitórias na World Series, também pilota um carro pelado em patrocinadores. Situação bem diferente da do seu companheiro Alexander Rossi, americano que carrega em seu carro um considerável número de emblemas de seu país. Se o cara que ganha títulos não atrai a atenção de ninguém, a situação dos demais deve estar uma merda.

De fato, está. Lucas Foresti, da Fórmula 3 britânica, só tem um pequeno apoio da Radiex Produtos Automotivos. Leonardo Cordeiro, ex-campeão da Fórmula 3 sul-americana que corre na GP3, é apoiado pela Minoica Global Logistics. Pietro Fantin, da mesma Fórmula 3 britânica de Cordeiro, tem o apoio da Silea Energy. Não consegui identificar nada no carro de Yann Cunha, também da supracitada Fórmula 3. E Luiz Razia só tem o emblema da Razia Sports, o que não passa de “paitrocínio” puro e simples.

César Ramos, outro que corre com o carro pelado

Com todo o respeito para essas empresas, que já fazem muito ao dar um mínimo apoio aos garotos, você compara com os patrocinadores de vinte ou trinta anos atrás e vê que há algo de errado. Naqueles tempos, falávamos em Brastemp, Perdigão, Labra, Arisco, Estrela, Banerj e outros. Eram grandes empresas que injetavam muito dinheiro para fazer a garotada chegar ao olimpo e mostrar ao mundo quem é que a apoiou. Com relação aos pilotos atuais, nenhum deles é apoiado por uma empresa de fama nacional, quanto mais internacional. Em alguns casos, suspeito que sejam empresas familiares, ou de amigos próximos de familiares. Talvez algumas nem sejam brasileiras. Reconheçamos: é muito mais difícil para um piloto poder subir para a GP2 em boas condições tendo um pequeno apoio de uma empresa menos conhecida do que foi para um Barrichello, que fez a Fórmula 3000 sossegado com o boné da Arisco.

Um caso que prova que há algo de errado no envolvimento de empresas com pilotos brasileiros é Pedro Nunes, da GP3. Há cerca de sete anos, Nunes fez sua estreia no kartismo com uma estrutura digna de piloto de Fórmula 1. Filho do cabeleireiro Wanderley Nunes, ele pôde desfrutar de todos os bons contatos do pai e arranjou uma série de patrocinadores fortes que incluíam a Vivo, o Guaraná Antarctica, a Bauducco e um monte de empresas do mundo da beleza. Quem via, pensava “taí um cara que vai desbancar o Pedro Paulo Diniz em termos de grana de patrocinadores”.

Pois não é que aquele monte de patrocinador desapareceu? Hoje em dia, Nunes continua sendo provavelmente o piloto brasileiro mais bem patrocinado do automobilismo mundial, contando com o apoio da OGX (uma das milhares de empresas de Eike Baptista), do grupo CGE, da Claro, da Wella e da Alfaparf. Não que Nunes seja lá o piloto mais talentoso de todos, mas não é sintomático que nem mesmo o filho de um dos homens mais bem relacionados do Brasil possa exibir um logotipo expressivo para os outros?

O caso é que o automobilismo deixou de ser interessante para os departamentos de marketing das empresas. Não sei se pelo fato das corridas supostamente não serem mais tão boas ou se a mentalidade corporativa se tornou mais conservadora após a crise de 2008, mas o fato é que ninguém mais está disposto a abrir sua carteira para apoiar um piloto de corridas.

Ayrton Senna, que mal tinha espaço para patrocinadores em seu carro

Há quem argumente que se trata do fato de não haver exposição na mídia. Concordo, mas há algo a ser retificado. Nos anos 80, a Globo vinha com notícias diárias sobre Fórmula 1, desde informações técnicas até sobre o furúnculo do cu do cachorro do Senna. Eram outros tempos, em que a cobertura jornalística global como um todo era mais profunda e apegada a detalhes. A gestão de Ali Kamel, atual diretor da Central Globo de Jornalismo, é marcada pelo generalismo com o qual os assuntos são tratados. O lema de ordem é falar sobre o máximo de assuntos no menor tempo possível e da maneira mais superficial possível. Faz sentido, se o objetivo é atrair o máximo de telespectadores. Mas os nichos, e o automobilismo é um deles, acabam pagando o pato.

O jornalismo brasileiro, como não podia deixar de ser, segue a tendência global, e as coberturas sobre quaisquer assuntos se tornam mais pobres e genéricas. A internet tomou de vez o lugar da televisão e do jornal impresso como fonte de informação especializada. Mas não dá pra comparar a cobertura de um bom site como o Grande Prêmio com a divulgação de uma reportagem de três minutos no Jornal Nacional. Queira ou não, a mídia de massa ainda é a principal em se tratando de merchandising.

Se o automobilismo é deixado de lado pela grande mídia, as empresas não vão querer investir. Se não há investimentos, os pilotos acabam catando os cacos do automobilismo internacional ou simplesmente desistem da brincadeira. Se a situação dos pilotos é tão ruim assim, o automobilismo acaba sendo ainda mais deixado de lado pela mídia. Círculo vicioso filho da puta, este. Como quebrá-lo?

Hoje em dia, a solução passa por uma espécie de mecenato do século XXI. Empresas como a Red Bull, a Telmex, a Petronas e algumas montadoras mantêm programas de desenvolvimento de pilotos. Esses programas funcionam muito bem, mas o problema é que eles são restritos: quem fica de fora deve sentar e chorar copiosamente. A tendência é que o automobilismo de base se transforme em um conflito entre essas panelinhas. E o Brasil costuma ficar à margem desses programas.

Você, que reclama do Massa e do Barrichello, pode ficar feliz. Não vamos ter pilotos brasileiros para te aborrecer no futuro.

Sou muito bonzinho. Depois de abrir esta nova seção no Bandeira Verde, mereço incontestavelmente ir para o céu. Como este importantíssimo sítio eletrônico funciona também como um órgão de utilidade pública, farei algo que não costumo ver nos outros sites: ceder espaço aos pilotos brasileiros de potencial. Falarei um pouco de suas carreiras e darei espaço até mesmo para seus patrocinadores.

Verde jabazeiro? Nada disso, embora eu não reclamasse caso alguém quisesse pagar por isso. Quero, sim, dar espaço aos pilotos que se aventuram na Europa contra tudo e contra todos. Sem a menor divulgação no Brasil, sofrem para encontrar patrocinadores. No exterior, padecem também das dificuldades típicas dos jovens que deixam a pátria-mãe em busca do sonho: a barreira da língua, as diferenças culturais, o altíssimo nível técnico dos rivais e a inexperiência. Não por acaso, boa parte dos poucos brasileiros que tentaram a vida na Europa ou nos EUA acabaram tendo de desistir, ou tiveram de se contentar com uma vaga na Stock Car.

É um panorama bastante desagradável para os fãs brasileiros de Fórmula 1, que correm o risco real de não ter ninguém para representar o país a médio prazo. E, todos sabemos, se não houver ao menos um piloto brasileiro de destaque, ninguém garante que a Globo se interessará em manter as transmissões. Portanto, se quisermos manter nossa religiosa e irritante mania de ver corridas aos domingos de manhã, devemos apoiar os caras lá embaixo. E é o que farei. Deixo claro: nem todos os brasileiros no exterior receberão atenção por aqui. O cara deve ter algum talento, coisa que não acontece com alguns nomes da GP3 e até mesmo da GP2, por exemplo. Começo com o gaúcho César Ramos.

Nascido em Novo Hamburgo em um dia qualquer de 1989, Ramos foi um dos poucos destaques no combalido kart brasileiro desta atual década. Em 2007, ele fez sua estréia nos monopostos ao disputar a Fórmula Renault italiana. Ele teve algumas dificuldades no campeonato principal, mas obteve um pódio em Monza. O melhor veio, no entanto, no Campeonato de Inverno da categoria, mais curto que o principal. Ramos venceu as quatro corridas do calendário e foi campeão com sobras. Parece pouco? Para um piloto em seu primeiro ano, é sempre bom começar com um título.

Em 2008, Ramos competiu nos campeonatos europeu e italiano da Fórmula Renault. No italiano, ele fez uma pole-position e obteve cinco pódios e a sexta posição final. No competitivo europeu, ele fez um pódio e terminou em sétimo. No ano seguinte, ele estreou na Fórmula 3 européia pela Manor. Infelizmente, César teve enormes dificuldades e abandonou o campeonato após a rodada dupla de Barcelona.

Para este ano, Ramos aceitou dar um passo atrás e assinou com a BVM, a sua equipe nos tempos de Fórmula Renault, para competir na Fórmula 3 Italiana. E a decisão se mostrou acertadíssima: com quatro etapas realizadas até aqui, o brasileiro é o terceiro colocado, com 35 pontos, apenas três a menos que o líder. O melhor, no entanto, veio na última corrida, realizada em Hockenheim: largando em terceiro, Ramos se aproveitou do toque dos dois primeiros, segurou um agressivo Daniel Mancinelli e venceu sua primeira corrida no automobilismo internacional.

Faltando doze corridas para o fim do campeonato, César Ramos entrou definitivamente na briga pelo título. Nada mal para um campeonato aonde se inscrevem, em média, 30 pilotos.

CÉSAR RAMOS
Nascido em 25 de Julho de 1989 em Novo Hamburgo
Campeão do campeonato de inverno da Fórmula Renault italiana em 2007
Terceiro colocado no atual campeonato italiano de Fórmula 3

Site: http://www.ramoscesar.com

Patrocinadores: BMP Proar, empresa de equipamentos pneumáticos para automação industrial
http://www.bmpproar.com.br

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