
O texto de hoje é baseado numa opinião que li em um fórum de automobilismo. A imagem é meramente ilustrativa
É isso aí, Nelson Rodrigues… Os idiotas realmente são em maior número.
Além de escrever, eu costumo observar silenciosamente alguns fóruns e comunidades de automobilismo. Os fóruns estrangeiros costumam ser mais organizados, interessantes e sérios que os brasileiros, que compensam com maior diversão. O problema é que a possibilidade de ler merda mal-escrita em português é muito mais alta.
Na semana passada, observei um tópico qualquer que comentava sobre a possível saída precoce de César Ramos da World Series by Renault. O piloto gaúcho da Fortec, que venceu a Fórmula 3 italiana no ano passado, está tendo sérios problemas financeiros e, mesmo tendo ponteado um teste coletivo em Snetterton alguns dias atrás, poderá ficar de fora da categoria a partir da próxima etapa, em Silverstone. Ele precisa de 50 mil euros para correr na Inglaterra e mais 150 mil para as etapas restantes. Seu único patrocinador, a manufatureira de pastilhas e lonas de freio Fras-Le, dá uma enorme força, mas faltam mais apoios para completar o orçamento.
Ramos é mais uma vítima da falta de apoio das empresas brasileiras. Em um país onde todo mundo se orgulha de ser a potência esportiva que, na realidade, não é, inúmeros esportistas não têm a menor idéia de como seguir em frente porque ninguém se dispõe a providenciar um mínimo apoio financeiro que seja. O mais engraçado é que o dólar está absolutamente favorável a qualquer iniciativa no exterior, a economia brasileira aparentemente vai bem e as grandes empresas brasileiras só têm motivos para sorrir. O problema é de pura má vontade.
Não é este o cerne do texto, no entanto. Enquanto lia o tópico, observei que um sujeito cuja aparência não transmitia lá muita credibilidade ou inteligência escreveu, sem qualquer apego às normas mais elementares da língua portuguesa, que César Ramos não tem patrocinador por não ser “fora de série”. Se ele fosse realmente bom, teria dinheiro para prosseguir. Para exemplificar seu brilhante raciocínio, apontou que o heptacampeão Michael Schumacher tinha o apoio da Mercedes, que tinha total noção da genialidade do jovem alemão. É este o raciocínio do rapaz.
Eu não sei o que leva uma pessoa a escrever tamanho absurdo. Ou o rapaz é dolorosamente burro ou há apenas um problema de caráter aí. Não o conheço, mas acredito haver aí uma lamentável combinação destas duas características nefastas. O pior é que gente como este daí existe em grande número no mundo. Na verdade, os idiotas são a esmagadora maioria. E é óbvio que o fato de um sujeito emitir uma opinião dessas sobre um piloto de corridas é o menos grave de tudo. Deram aos idiotas legitimidade para tudo: emitir opiniões sobre os mais diversos assuntos, mandar nos outros, enriquecer e encher o nosso saco.
Falo, primeiramente, do automobilismo. É fácil refutar um argumento frágil como o apresentado acima. César Ramos não dispõe de patrocinadores pelo mesmo motivo que aflige outros pilotos brasileiros “que não são fora de série”: as empresas brasileiras simplesmente não estão dispostas a investir em ninguém. De modo geral, um piloto costuma enviar propostas a centenas de empresas esperando por algo. Sim, centenas! Quase todas fecham as portas. Uma ou outra diz que se interessou bastante pelo projeto e até agenda uma reunião futura. Para dizer que, infelizmente, não vai dar.
Cadê a Petrobras, as dezenas de empresas do Eike Baptista, a Vale ou aquelas corporações gigantescas que foram formadas a partir de fusões nos últimos anos com o único propósito de criar monopólios que prejudicam os fornecedores e os consumidores? E isso não vale apenas para o automobilismo, é claro. Cadê o apoio aos esportistas olímpicos ou a esportes que não o futebol? Na verdade, boa parte dos empresários é bastante oportunista neste sentido. Só aceita investir quando o esportista está por cima ou quando se trata de um grande time de futebol. Se o Corinthians anunciar que sua camisa está disponível, um monte de empresas disputará a tapa preciosos centímetros. Porque ninguém quer apoiar nada lá de baixo.
É óbvio que isso não acontece só no Brasil. O português Álvaro Parente sofre a cada ano para conseguir levar sua carreira adiante. Campeão da Fórmula 3 britânica em 2005 e da World Series by Renault em 2007, Parente é um dos melhores pilotos da Europa que não têm lugar na Fórmula 1. Hoje em dia, faz bicos na GP2. E os faz com enorme competência. Em terras lusas, ninguém quer saber de patrociná-lo, o que deixa muita gente do automobilismo indignada
Há outros nomes muitos bons que estão sem correr neste ano. Nico Hülkenberg, campeão da GP2, perdeu seu lugar na Williams no fim do ano passado porque não tinha dinheiro. Na GP2, o promissor Oliver Turvey acabou ficando de fora da atual temporada porque a empresa que o apoiava o abandonou no início deste ano. Além disso, pilotos excelentes como Giorgio Pantano e Adam Carroll circulam por aí como zumbis tentando encontrar um lugar onde possam construir uma carreira sólida. Será mesmo que a ausência de patrocinadores necessariamente diz algo sobre a qualidade dos desafortunados?
Ah, o caso Schumacher. Michael Schumacher era um dos pilotos mais promissores da Alemanha no fim dos anos 80. Ele era tão promissor quanto Heinz-Harald Frentzen, seu primeiro desafeto, ou Otto Rensing, um que quase ninguém aqui no Brasil sabe de sua existência. No início de 1990, a Mercedes-Benz criou um programa de desenvolvimento de jovens pilotos semelhante aos programas atuais da Red Bull ou da Gravity. Schumacher, Frentzen e o austríaco Karl Wendlinger, três dos melhores pilotos da Fórmula 3 alemã daquela época, disputariam corridas pela marca no Mundial de Protótipos e poderiam sonhar com uma vaga na Fórmula 1 no caso dela realmente se interessar em retornar à categoria.

Michael Schumacher (o último à direita), tão "fora de série" como Karl Wendlinger e Heinz-Harald Frentzen
No início, Frentzen era considerado o melhor piloto do trio, embora Schumacher não ficasse muito atrás. Heinz-Harald, no entanto, cometeu um erro básico de julgamento. Ele achava que o Mundial de Protótipos o desviaria demais de seu sonho de correr na Fórmula 1 e preferiu se desligar do programa da Mercedes para correr na Fórmula 3000 Internacional. Infelizmente para Frentzen, seus dois anos na categoria foram muito ruins e restou a ele ficar um tempo exilado no Japão antes de ser resgatado por Peter Sauber em 1994. Wendlinger seguiu o mesmo caminho de Schumacher e também conseguiu estrear na Fórmula 1 em 1991 pela Leyton House. Sua carreira vinha bem nas equipes médias, mas um acidente em Mônaco em 1994 acabou prejudicando sua ascensão.
Aos olhos da Mercedes, Schumacher era tão “fora de série” quanto Frentzen e Wendlinger, mas nosso querido idiota lá em cima, que não deve conhecer muito sobre a história do automobilismo, deve ignorar este fato. Ou ele acredita piamente que os três são pilotos geniais que, fatalmente, seriam multicampeões do mundo?
Enfim, automobilismo é pura questão de sorte e contatos. Se o cara é muito bom e não tem dinheiro ou contatos, ele não passará nem perto da Fórmula 1. Isso é inegável. Sebastian Vettel e Lewis Hamilton nunca foram ricos, mas tiveram padrinhos que valem mais do que dinheiro. O ex-piloto Pedro Paulo Diniz é um caso clássico do cara que chegou à Fórmula 1 com um currículo fraco e muito dinheiro no bolso. Uma pessoa inteligente e que acompanha o esporte deve ter noção clara desta dura realidade.
O outro lado da moeda é o desprezo torpe. Acusar César Ramos de ser o culpado maior pelo fato de não ter patrocinadores é algo que chega às raias da maldade. Se for assim, o que dizer de Felipe Nasr, que lidera com folga a temporada atual da Fórmula 3 britânica e que, no entanto, não tem patrocinador algum? Para mim, pessoas que dizem que “um piloto que não tem patrocinadores não é bom o suficiente” estão no mesmo nível daquelas que dizem que “gente como Ayrton Senna ou Michael Schumacher andaria bem até mesmo com um Andrea Moda”. São pessoas idiotas, simples assim.
As críticas e os elogios raramente são feitos com bom senso e racionalidade. Eu não vou com a cara de alguns poucos pilotos e, por meio deste espaço, busco justificar caso por caso. Posso até estar completamente equivocado sobre as razões utilizadas, mas ninguém pode me acusar de partir para a ignorância gratuita. E estou sempre aberto a retificações. Se o Bruno Senna, eterno saco de pancadas aqui, se tornar um piloto de ponta, ficarei feliz em engolir minha desconfiança a seco. Só que são poucos os que têm este cuidado.

Bruno Senna. Quando eu o critiquei, escrevi um texto enorme dando minhas razões. Ninguém pode me acusar de fazer crítica gratuita e rasteira
Por isso que não consigo confiar em momentos de amor ou ódio dos torcedores. Em 2008, Felipe Massa era o piloto preferido de todo mundo, potencial campeão do mundo e substituto de Ayrton Senna, uma superestimação antipática e aborrecida. Em 2011, o mesmíssimo Massa é um picareta decadente para os mesmos que o idolatravam três anos antes. As pessoas poderiam muito bem reclamar do fato dele ter deixado Fernando Alonso ultrapassá-lo naquele fatídico Grande Prêmio da Alemanha, no que nem estariam tão erradas. Ao invés disso, preferem contestá-lo por completo. E o novo gênio se transforma na ovelha negra dos brasileiros. No fim, Felipe Massa nunca foi avaliado corretamente pela maioria das pessoas.
Ninguém realmente sabe o que se passa com o próximo. Desse jeito, a crítica e o elogio sempre são fáceis de serem feitos. No caso do automobilismo, o piloto pode estar com um carro quebrador, uma equipe que o sabota, problemas psicológicos, bloqueios contratuais, azares e toda a sorte de problemas e duendes que o impedem de obter um bom resultado. Para o cego espectador, a culpa pelo fracasso é unicamente do cara que pilota o carro. O mesmo vale para o elogio. Se um sujeito obtém um bom resultado, ah, é porque ele é bom pra caralho. Não importa se ele está dirigindo uma nave espacial ou se a sorte abriu suas asas sobre ele. Ele é bom. E o cara que fracassou é ruim. E viva o maniqueísmo!
Se este tipo de coisa se restringisse apenas ao esporte, tudo bem. O problema é que um sujeito que diz besteiras quando seu time perde ou quando um piloto comete um erro pode muito bem dizer besteiras até mais graves com relação a questões delicadas como política, economia, religião, cultura ou comportamentos. Explorando a hipérbole, um sujeito que diz que “um César Ramos não tem patrocinadores porque não é fora de série” pode dizer também que “candidato B é pior que candidato A porque não aparece na televisão e não dá dentadura pro povão” ou que “cantor C está na mídia unicamente porque é melhor do que os outros que não estão”. Meu raciocínio pode até ser exagerado, como sempre, mas não é irreal.
De uns tempos para cá, está todo mundo muito idiota. Longe de querer parecer um gênio incompreendido no meio dos selvagens canibais, o que mais me incomoda é o fato de quase ninguém se esforçar um tiquinho de nada para melhorar, para parecer menos burro e medíocre. As pessoas só usam a cabeça para fazer penteado de moicano ou para cobrir sua falta de neurônios com um boné. É impossível conversar e trocar idéias com a esmagadora maioria daqueles que, em tese, são da mesma espécie que você. Todo mundo só quer rir, falar bobagens para chamar a atenção geral, entender do maior número de assuntos possível sem se aprofundar em nenhum deles e curtir frases banais em redes sociais vida afora. Não, não quero que o mundo se torne uma grande Sorbonne. Só gostaria de ver gente menos burra por aí. É pedir muito?
Vocês devem achar uma tremenda forçada de barra escrever um texto desses a partir de um mísero comentário de fórum de automobilismo. Devem pensar que o melhor que eu deveria ter feito era simplesmente ter deixado o comentário de lado, pois a ignorância não merece muita publicidade. Até concordo, mas é que eu não consigo tolerar burrice. Não entendo gente burra e não quero entender. Para muitos, uma declaração estúpida sobre automobilismo como aquela é só mais uma declaração estúpida. Para mim, um sinal, ainda que minúsculo, de que não estamos sabendo utilizar o cérebro.





