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Neste exato momento, façam silêncio, arranjem pipoca e apertem o play. No dia 6 de setembro de 1998, um único dia após meu aniversário de dez anos, os astros se uniram e juntaram minha categoria preferida, meu circuito preferido e o piloto para quem mais torço na Fórmula 1 atual, o que resultou na melhor corrida de todos os tempos. O Grande Prêmio do Mediterrâneo de 1998 bate qualquer corridinha inútil de Fórmula 1, Le Mans, Indianápolis, Targa Fiorio ou Daytona. Qualquer uma.

Este post, para os meus padrões exagerados, será pequeno. O tempo é escasso e, além disso, estou preparando um material legal sobre a próxima pista do Calendário do Verde. Não quero deixar os senhores sem nada aqui. Por isso, um vídeo daqueles bem legais.

A Fórmula 3000 Internacional foi a melhor categoria automobilística criada pelo ser humano. Em corridas que duravam pouco mais de uma hora, os pilotos mais promissores do automobilismo de base se reuniam para fazer as maiores barbaridades já vistas nos melhores (e piores) circuitos da Europa. Nos bons dias, os grids eram lotados, os carros eram velozes e os pilotos se comportavam como retardados. Havia até gente nas arquibancadas!

O autódromo de Enna-Pergusa é a melhor obra arquitetônica já criada pelo homem. As pirâmides, o Empire State Building e a Torre Eiffel são irrelevantes amontoados de alvenaria e ferro perto daquela belíssima pista de quase cinco quilômetros de extensão que rodeia o lago Pergusa. O formato é o mais genial possível: um oval no sentido horário cortado por chicanes das mais traiçoeiras. Por fim, os fiscais de pista eram os mais despreparados, os boxes eram sempre invadidos por cobras e sapos, o asfalto se desmanchava com o sol sempre forte e toda esta brincadeira provavelmente era financiada pela máfia siciliana. Mais mítico que isso, impossível.

Nick Heidfeld é o piloto mais legal da Fórmula 1. Meus leitores, ou boa parte deles, não gostam muito dele pelo fato dele ser muito discreto e estar levando uma surra do Petrov nos treinos, o que são razões compreensíveis. Porém, torço para esse tipo de piloto que nem a própria avó coloca fé. Heidfeld reúne todas as características de alguém que entra e sai sem ser percebido, mesmo sendo um bom piloto para ultrapassagens e ótimo em corridas estranhas. De quebra, seu nome é legal de se pronunciar, seu gosto musical, artístico e gastronômico é respeitável e ele chegou a colocar dinheiro em um projeto de dessalinização alguns anos atrás. Não é o melhor piloto de todos os tempos, mas é alguém que chamaria para tomar cerveja na sarjeta.

Os três lados se uniram em 1998. Apesar de, naqueles dias, estar em um gradual processo de aproximação da Fórmula 1, a Fórmula 3000 ainda insistia em realizar corridas em Enna-Pergusa, um dos dois únicos circuitos a sediarem corridas em todas as temporadas da história da categoria até então (o outro era Pau, na França). As más línguas diziam que as corridas na Sicília não passavam de uma maneira simpática dos mafiosos lavarem dinheiro. Pode até ser, mas era uma razão bastante nobre para um crime de colarinho branco.

Nick Heidfeld estreou nesta Fórmula 3000 em 1998. Ele era apoiado pela Mercedes-Benz, que chegou a lhe proporcionar um teste na McLaren no fim de 1997. Na Fórmula 3000, a montadora e a McLaren decidiram fundar uma equipe com o único propósito de preparar o jovem piloto de Mönchengladbach para a Fórmula 1 um dia. Surgia aí a West Competition.

A West Competition, que aproveitava o nome dos cigarros que patrocinavam a McLaren, era uma equipe tão mais rica e bem-estruturada que as outras que o negócio realmente ficou desequilibrado em 1998. O único cara que poderia peitá-lo era o colombiano Juan Pablo Montoya, vice-campeão da categoria no ano anterior e primeiro piloto da Super Nova, talvez a única equipe do grid com estrutura comparável à da West naqueles dias. Um detalhe: a presença de Montoya na Fórmula 3000 suscitava dúvidas em todos. Ele só dispunha de patrocínio da cervejaria Clausen e a F-3000 demandava orçamentos de até um milhão de dólares por piloto. Muita gente dizia que o restante da grana de Montoya vinha dos cartéis colombianos. Maldosos, estes fofoqueiros do automobilismo de base…

Hoje em dia, você pode até nem acreditar nisso, mas Heidfeld era tão agressivo quanto Montoya na Fórmula 3000. Os dois pilotos bateram cabeça em várias ocasiões e chegaram a se desentender após o treino oficial da etapa de Hungaroring. Antes da prova de Enna-Pergusa, Heidfeld tinha 52 pontos e três vitórias (Mônaco, Hockenheim e Hungaroring). Montoya tinha 51 e as mesmas três vitórias (Barcelona, Silverstone e Pau). Enna-Pergusa era a penúltima etapa e vinte pontos ainda estavam em jogo. Muita coisa ainda poderia acontecer, embora o terceiro colocado no campeonato, o dinamarquês Jason Watt, estivesse 27 pontos atrás de Montoya e, portanto, fora da disputa pelo título.

Em Enna, Heidfeld e Montoya ainda estavam nervosos pela briga de Hungaroring. O colombiano chegou a fazer o melhor tempo no treino oficial, mas perdeu sua melhor volta por ter feito ultrapassagem em bandeira amarela e teve de largar em terceiro. O pole-position, com o tempo de 1m32s127, foi Heidfeld. Entre eles, Jason Watt. Os três melhores do campeonato largavam nas três primeiras posições.

Largavam nada menos que 33 pilotos. Vergonhosamente amador, né? Bom mesmo é grid com 15 carros. Ou nove, como o grid da Fórmula Futuro. No meio desse mundo de gente, havia até gentleman driver, o maltês James Taylor, 43. Este ganhará um post qualquer dia desses. Além dele, havia futuros nomes que chegaram a correr na Fórmula 1 (Gastón Mazzacane, Tomas Enge, Stéphane Sarrazin), pilotos brasileiros de calibre (Bruno Junqueira e Max Wilson), futuros chefes de equipe (um tal de Christian Horner, já ouviram falar?), promessas esquecidas (Soheil Ayari, Jamie Davies, Gareth Rees e André Couto) e playboys que não levavam jeito nem para dirigir carrinho de supermercado (Mark Shaw, Grégoire de Galzain, Giorgio Vinella). Você, que fala mal do grid atual da GP2, vê algum significado nestes nomes da Fórmula 3000?

O domingo amanheceu sob aquele solzão típico do sul da Itália e o autódromo estava lotado, algo meio raro de se ver nas corridas de categorias de base. Na largada, Heidfeld manteve-se à frente e Montoya ganhou a segunda posição de Watt. Líder e vice-líder se pegariam em uma das pistas mais velozes e complicadas da temporada. Oba!

Nas primeiras voltas, Montoya manteve-se muito próximo de Heidfeld. Em alguns momentos, o colombiano realmente enfiou o bico de seu carro na caixa de câmbio do bólido cinzento do adversário alemão. De repente, ao entrar errado em uma curva, o Lola-Zytek de Juan Pablo pisou com duas rodas na brita e rodopiou alegremente. Felizmente para ele, o carro se ajeitou sozinho e Montoya perdeu apenas uma posição para o francês Soheil Ayari (estranhou o nome? Ayari é descendente de iranianos).

Enquanto Heidfeld disparava, Montoya tentava recuperar o tempo perdido. Ele não demorou muito para ultrapassar Ayari pouco antes da chicane Schumacher, uma aberração que foi criada em 1995 para reduzir a velocidade e homenagear o piloto alemão.

De repente, é Heidfeld quem comete um erro. E na mesma curva do erro do Montoya! Assim como o colombiano, Nick conseguiu voltar para a pista, mas acabou perdendo a ponta para seu rival sul-americano. Montoya conseguiu alguns segundos de presente, mas Heidfeld acabou se recuperando após algumas voltas e os dois estavam colados novamente. Dessa vez, Juan Pablo estava à frente de Nick.

Não demorou muito e Heidfeld encaixotou na traseira de Montoya. Após a Curvone, curva mais veloz e inclinada de Enna-Pergusa, o alemão começou a pegar o vácuo do carro azul escuro (não, ele não é preto) e amarelo à sua frente.  Então, ele tirou de lado para tentar a ultrapassagem. Montoya fechou a porta, os dois tocaram rodas e Heidfeld saiu rodopiando de maneira artística e poética. Para sua sorte, o carro parou na chicane asfaltada e o motor não morreu. Deu para voltar para a pista, mas o sonho da vitória para o alemão virou pó.

Montoya seguiu em frente até a vitória. Após uma hora e quatro minutos de ação, o colombiano cruzou a linha de chegada com cinco segundos de vantagem para Heidfeld, o segundo. No pódio, enquanto Heidfeld fazia cara de vontade de matar alguém, Montoya celebrava como se tivesse ganhado a Copa do Mundo. Ele assumia a liderança do campeonato, com 61 pontos. Heidfeld acabou ficando três pontos atrás. Faltava apenas uma etapa, a de Nürburgring, que seria realizada 20 dias depois.

Vocês sabem o resto. Montoya ganhou o título e Nick foi o vice, mas acabou indo à farra no ano seguinte. Tudo isso é irrelevante. O que importa é ver Nick Heidfeld pilotando um carro de Fórmula 3000 em Enna-Pergusa.

Teria sido Elio de Angelis o último gentleman da Fórmula 1? Em um esporte no qual se destacam atualmente sujeitos obcecados, intelectualmente inexpressivos e sofisticados como um arame farpado, a existência de um sujeito que se destacava pelo sangue azul que corria por suas veias e pelo talento alternado entre volante, partitura, embreagem e clave de sol chega a ser notável. Há 25 anos, perecia o último homem em um ambiente de símios enlouquecidos.

Elio De Angelis nasceu em Roma no dia 26 de março de 1958. O pai, Giulio, era empreiteiro e piloto de lanchas offshore nas horas vagas. O dinheiro jorrava entre os De Angelis, mas ao contrário do que costuma acontecer nas patéticas famílias abastadas dos novos tempos, ele foi utilizado de modo a conciliar alta cultura e prazer a todos. O primogênito era bom jogando tênis, descendo ladeiras congeladas em duas módicas pranchas de esqui (campeão italiano aos treze anos) ou tocando piano. Dedilhando as teclas brancas e pretas do instrumento, Elio conseguia maravilhar tanto os ouvidos acostumados apenas ao ronco dos motores de seus colegas de profissão como os mais versados no conhecimento musical. Na famosa greve sul-africana de 1982, ele entreteve os demais pilotos no saguão do Hotel Sunnyside com melodias de Bach, Gershwin e… Beatles!

O que mais me impressiona em De Angelis é sua mentalidade carpe diem, típica de alguém que sabia que não devia nada a ninguém e que poderia desfrutar de todo o prazer que o dinheiro poderia comprar. Suas atividades não eram executadas com sangue, suor e lágrimas, mas apenas com todo o amor e desprendimento. Definitivamente, um inimigo dos workaholic e um exemplo para os bon vivant. Tomemos o automobilismo.

Elio ganhou um bocado de corridas no kartismo, na Fórmula 3 e na Fórmula 2. Don Nichols, chefão da Shadow, ficou particularmente impressionado com uma vitória do giovane bambino ricco, que carregava consigo seus amigos em um jatinho próprio, no GP de Mônaco de Fórmula 3 em 1978, embora esta vitória tenha sido obtida após um polêmico choque com o Chevron de Patrick Gaillard. O início na Fórmula 1 foi meteórico: três competentes pontos em seu primeiro ano e um convite do mito Colin Chapman para dirigir seu enfadonho Lotus 81 no ano seguinte.

Logo em sua segunda corrida pela equipe, o Grande Prêmio do Brasil de 1980, Elio surpreendeu a todos ao concluir na segunda posição. Aos 21 anos, 10 meses e um dia, o romano se tornava o piloto mais jovem a ter obtido um pódio na história da categoria – o recorde foi batido por Ralf Schumacher dezessete anos depois. No fim da temporada, um sétimo lugar foi sua posição final. Em 1981, as coisas não melhoraram muito, De Angelis marcou 14 pontos e terminou o ano em oitavo.

De Angelis era visivelmente bom, mas qual era o seu problema? Como dito acima, ao contrário dos demais pilotos, sujeitos completamente desesperados pelo sucesso, o italiano não encarava a Fórmula 1 com o mesmo apetite. Para ele, correr era tão importante quanto apreciar uma sonata de Beethoven, um bom vinho tinto da Calábria ou uma noite com alguns amigos e muitas mulheres. Por isso, não valeria o risco queimar neurônios discutindo acertos com engenheiros ou tentando uma ultrapassagem perigosa em uma curva improvável. Tudo ocorreria naturalmente – se, é claro, ele estivesse extraindo algum prazer disso.

No paddock, il príncipe nero, como era conhecido por todos, conquistou amizades fáceis e sinceras. Nos tempos de Fórmula 3, seus melhores amigos eram Nelson Piquet e Piercarlo Ghinzani, que iriam reencontrá-lo posteriormente na Fórmula 1. Na categoria maior, De Angelis se destacava pelo senso de humor mais britânico do que italiano, pela amabilidade e pelo refino nos modos, e muitos o comparavam a François Cevert nesse sentido.

Muitos poderiam pensar que De Angelis era um típico playboy, mas este definitivamente não era o caso. Ao subir para a Fórmula 1, Elio trocou os confortáveis voos do jatinho particular da família pelos voos comerciais, e raramente na primeira classe. Não era comum, da mesma maneira, vê-lo gastando dinheiro com extravagâncias – Nigel Roebuck, um dos jornalistas mais famosos da Inglaterra, conta que Elio queria muito comprar um Rolex, e certamente tinha dinheiro para isso, mas ponderou muito antes de fazê-lo. Quando finalmente comprou o Rolex, ele deu a Roebuck seu antigo relógio, um valiosíssimo Baume et Mercier de ouro. Ter um monte de relógios valiosos não significava muito para Elio de Angelis. O que significaria o consumismo tapado para alguém que usava o dinheiro para ser feliz?

Termino esta descrição sobre sua personalidade com uma declaração, feita pelo próprio e traduzida livremente por mim: “Sabe o que é que me frustraria mais? Ser considerado apenas um milionário que usurpa o dinheiro do pai, e não um piloto profissional. No automobilismo, o patrimônio da sua família pode até te ajudar muito no começo, mas conforme você avança, é necessário mostrar qualidade. E é por isso que já devolvi ao meu pai tudo o que ele me emprestou no começo da minha carreira”.

15 de agosto de 1982, Österreichring, Estíria, Áustria.

26 pilotos estavam reunidos para largar na 13ª etapa da fatídica temporada de 1982 da Fórmula 1. Os carros turbo, como não poderia deixar de ser, ocupavam as primeiras posições na grelha. Nelson Piquet, com o Brabham-BMW, obteve o inacreditável tempo de 1m27s612 a uma velocidade média de mais de 244 km/h, recorde histórico até então. Ao seu lado, o companheiro Riccardo Patrese. Na segunda fila, o Renault de Alain Prost e o Ferrari de Patrick Tambay. O primeiro carro aspirado era o Williams-Ford de Keke Rosberg, que sairia da sexta posição. Elio de Angelis largaria logo atrás.

Naquele ano, a Brabham introduziu o revolucionário sistema de reabastecimento, o que permitia que seus carros largassem com bem menos combustível que os adversários. No circuito de Österreichring, visando neutralizar essa vantagem da Brabham, Renault e Ferrari decidiram aumentar a pressão do turbo dos seus motores. O calor, naqueles dias, era intenso. Pneus e motores sofreriam durante as quase duas horas de corrida. Residia aí a esperança da turma dos aspirados.

Todos largaram e as duas Brabham mantiveram a ponta. Alguns pilotos estavam sofrendo com problemas com os pneus no início e começaram a perder terreno, como foram os casos de Piquet, que perdeu a ponta para Patrese na segunda volta, e Rosberg, que perdeu uma posição para De Angelis na largada.

Patrese e Piquet, separados por não mais do que três segundos, abriram quase 20 segundos para o Renault de Prost. Na volta 17, Piquet foi para os pits e fez seu reabastecimento, perdendo 23 segundos (outros tempos…) e voltando na quarta posição. Enquanto isso, Patrese voa, abre mais de 34 segundos para Prost e entra nos boxes para reabastecer e trocar os pneus na volta 24. A Brabham fez um trabalho excepcional para a época e devolveu o italiano à ação após 13 segundos, tempo o suficiente para fazer com que ele não perdesse a liderança. Enquanto isso, De Angelis já era o terceiro. Na primeira volta, passou Rosberg na largada e subiu para sexto. Na segunda, ganhou a posição de Tambay, que teve problemas nos pneus e parou nos pits. Na 16ª, subiu para quarto após Arnoux abandonar com o motor quebrado. O pit-stop de Piquet o projetou à terceira posição. Quem imaginaria que um Lotus aspirado chegaria ao pódio? Mas não acabou por aí.

Na volta 28, o motor BMW do Brabham de Patrese estourou e o italiano saiu da pista na primeira chicane, abandonando a corrida. Prost assumiu a liderança, com De Angelis em segundo, Piquet em terceiro e Rosberg em quarto. Quatro voltas depois, foi a vez de Piquet abandonar com problemas elétricos. Prost, De Angelis e Rosberg passaram a dominar a corrida.

Após assumir a liderança, Prost manteve uma enorme vantagem de trinta segundos para De Angelis e nada parecia ameaçá-lo. Os pneus da Lotus estão em estado de miséria, o motor Ford tinha problemas de ignição e Keke Rosberg, cujo Williams estava rendendo muito mais no final da corrida, se aproximava rapidamente. De repente, na volta 48, o motor Renault de Prost quebra e o francês abandona a corrida. E Elio de Angelis, pilotando um carro com motor aspirado, assume a liderança. Só que Rosberg se aproxima rapidamente.

De um lado, De Angelis preocupado com o estado de seu carro. Do outro, Rosberg tendo consciência da precariedade do Lotus e acelerando tudo e mais um pouco. Na última volta, Elio erra uma marcha e perde cerca de um segundo. Keke se aproxima rapidamente, mas sua tática prevê que ele não deverá atacar antes da última curva, uma descida em altíssima velocidade na qual o carro que estiver colado atrás terá todas as chances de pegar o vácuo e ultrapassar antes da linha de chegada. Rosberg contava com isso para vencer.

Na metade do circuito, Rosberg já estava colado na traseira de De Angelis. O italiano começou a dificultar seu trabalho, deixando apenas o lado de fora para o sueco naturalizado finlandês. Na última curva, a Jochen Rindt, Rosberg já está procurando um lugar para passar De Angelis. O piloto da Lotus tira o pé, e Keke é obrigado a mudar de traçado, se posicionando por dentro. E os dois entram na reta dos boxes lado a lado. Quem vencerá?

Milagrosamente, Elio de Angelis sobreviveu aos ataques e cruzou a linha de chegada à frente. A cronometragem manual registrou 125 milésimos de diferença entre o primeiro e o segundo, mas os computadores revelaram que a diferença foi ainda menor: míseros 50 milésimos, cerca de 1/6 do tempo de duração de uma piscadela. Dessa forma, De Angelis conquistou sua primeira vitória na Fórmula 1.

Infelizmente, esta foi uma de suas duas únicas vitórias na categoria, sendo a outra obtida no GP de San Marino de 1985 após a desclassificação de Alain Prost. A tranquilidade de De Angelis, vista por outro prisma, representava uma certa falta de ambição: dizem que ele nunca foi de se esforçar muito na hora de obter um resultado melhor. Tivesse feito isso e De Angelis, talentosíssimo como era, não seria lembrado apenas como o último gentleman, mas talvez como o último campeão da bota.

Que Deus o tenha, Elio.

Pensei em mostrar alguns vídeos sobre acidentes na Subida do Café, local onde Gustavo Sondermann morreu em um acidente no domingo, mas desisti. O assunto já saturou. Chega. A vida segue. Mostro um vídeo que encontrei por acaso sobre o meu piloto preferido lá no pelotão da frente. Sim, eu torço para um dos vencedores! E ele se chama Lewis Hamilton.

Apesar de achar Fernando Alonso o melhor piloto do grid atualmente (não considero Michael Schumacher nos dias de hoje), não vejo mais potencial em nenhum outro piloto do que em Hamilton, o garoto de Tewin. Desde 2007, o inglês enriquece as corridas de Fórmula 1 com momentos de genialidade, erros grosseiros, belas ultrapassagens, poles impressionantes e manobras minimamente polêmicas. Uma fera indomada, em resumo. E são as feras indomadas que costumam fazer história no automobilismo – ou alguém aqui acha que Senna, Schumacher e Clark são sujeitos dóceis e amáveis?

Em quatro temporadas, Hamilton ganhou o título de 2008, venceu em 14 ocasiões, marcou 18 poles-positions e fez um monte de corridas bonitas, muitas delas menos eficientes do que bonitas. Mas sua melhor apresentação na vida não foi feita na Fórmula 1. Ela aconteceu no dia 27 de agosto de 2006, quando foi realizada a segunda corrida da rodada turca da GP2 Series.

Antes daquela corrida, Hamilton já havia marcado 95 pontos e liderava o campeonato com seis de vantagem para Nelsinho Piquet. No entanto, o filho do Nelsão havia vencido de maneira austera a primeira corrida de Istambul e parecia ter as melhores condições para a segunda corrida. Na GP2, como é de conhecimento público, o grid de largada da segunda corrida é formado pelos resultados da primeira prova.  Só que as oito primeiras posições do grid são definidas pelos oito primeiros da Feature Race em posições invertidas. O vencedor Piquet, portanto, sairia em oitavo. E Hamilton, que havia terminado em segundo, largaria da sétima posição. Um do lado do outro. Em uma pista que permite boas ultrapassagens na GP2, a briga seria encarniçada.

Na largada, enquanto o pole Xandinho Negrão perdia a ponta para o desastrado Andreas Zuber, o pessoal do meio do pelotão se perdia todo na complicada primeira curva. Hamilton, que escapou de traseira na tal curva, chegou a perder uma posição para Nelsinho. Algumas curvas depois, o britânico tentou uma ultrapassagem impossível em cima do brasileiro e quase perdeu o bico do carro. Na volta seguinte, Lewis rodou na curva 4. Ansioso, ele não esperou muito e voltou imediatamente à frente do carro de Felix Porteiro. Imediatamente atrás do espanhol, vinham também Franck Perera, Adrian Vallés e Ferdinando Monfardini. Por pouco, não deu merda entre todos eles. Até aqui, Hamilton vinha sendo apenas um porra-louca inconsequente.

Apesar da manobra arriscada, Hamilton não conseguiu se manter à frente desses caras e retornou na 18ª posição. Ele estava a onze segundos de Lucas di Grassi, que ocupava a última posição pontuável na corrida. Composta por 23 voltas, a corrida não seria longa. Se Lewis Hamilton quisesse fazer algo, ele teria de dar um show daqueles. Pois que se dê o show, então!

Hamilton voltou à ação dividindo curva com o sempre perigoso Ernesto Viso. Na saída da curva 7, os dois tocaram roda e Viso quase acertou o carro de Jason Tahinci. Ainda assim, os dois seguem em frente, e Hamilton consegue executar a ultrapassagem sobre o venezuelano e o turco. Na volta seguinte, Hamilton passa Vallés e ganha a posição de Xandinho Negrão, que abandona. Em duas voltas, ele sobe para 14º.

Na volta 4, Hamilton ultrapassa Monfardini na reta dos boxes, e ganha também a posição de Felix Porteiro, que abandonava em um acidente. Na volta 6, ele se envolve em uma belíssima briga com Perera que começa na curva 12 da volta anterior e termina com uma ótima ultrapassagem na curva 4. Metros depois, ele também deixa Hiroki Yoshimoto para trás. A essa altura, ele já é o décimo. Em quatro voltas, nada menos que seis ultrapassagens!

A partir daí, havia à sua frente o argentino José-Maria Lopez. Seis segundos separavam Lopez de Hamilton, mas isso daí não era nada para o inglês da ART. Em quatro voltas, ele pulveriza a diferença, passa Lopez e ainda recebe uma posição de presente do companheiro Alexandre Premat. Sim, também existe ordem de equipe na GP2! A essa altura, Hamilton é o oitavo.

Duas voltas depois, Lewis já havia conseguido sumir com a diferença de dois segundos que o separava de Sergio Hernandez e ultrapassa o espanhol facilmente. Na volta seguinte, em uma tacada só, ele desconta dois segundos de Nicolas Lapierre e ultrapassa o francês na curva 12. Pronto! Entre a volta 2 e a volta 13, Lewis Hamilton já havia subido de 18º para sexto. Faltavam ainda outras onze voltas. Será que daria para vencer?

Menos de uma volta depois, Hamilton engole Lucas di Grassi na curva 2 e pula para quinto. Duas voltas depois, ele também pulveriza os dois segundos que o separavam de Piquet e faz bela ultrapassagem na curva 13. Nas duas voltas seguintes, as 16 e 17, ele teria o adversário mais crítico de todos à sua frente: o alemão Timo Glock, da iSport, que também vinha dando show.

No fim da volta 16, Hamilton tenta ultrapassar Glock na reta dos boxes. O alemão espreme Lewis no muro, mas o melhor rendimento do ART na reta permite que Lewis fizesse a primeira curva da volta 17 à frente. Mas Glock não desiste e os dois andam lado a lado até a curva 4, quando Hamilton toca na roda do iSport azul e vermelho e fica para trás, perdendo também uma posição para Piquet. Será que Timo Glock colocaria ponto final naquela brilhante corrida de recuperação?

Não. No fim da mesma volta 17, Hamilton humilha Piquet com uma ultrapassagem por fora antes da curva 12 e gruda no iSport de Timo Glock na última curva. Há um toque e Lewis precisa tirar o pé, o que permite a aproximação de Nelsinho na reta. O brasileiro pega o vácuo e tenta ultrapassar por fora na curva 1, mas é bloqueado por Hamilton, que segue em frente na caça a Glock.

Hamilton precisa de mais duas voltas para conseguir grudar em Glock na curva 12 e sair a mil na reta dos boxes. Timo tenta fechar a porta, mas era tarde demais: Lewis Hamilton e seu ART branco fazem a ultrapassagem e somem na frente. O pódio já estava garantido, mas faltavam apenas três voltas. Daria para passar Adam Carroll e Andreas Zuber rumo à vitória?

Na última volta, Hamilton ainda consegue ultrapassar Carroll na freada da curva 12, mas o segundo lugar foi o limite. O austríaco Zuber, da Trident, conquista sua primeira vitória na categoria com apenas três segundos de vantagem para Lewis Hamilton. Ainda assim, ninguém estava ligando muito para o vencedor: o astro do dia era o segundo colocado, que desceu de seu Dallara-Renault branco e vermelho socando o ar como se tivesse acabado de ser campeão do mundo. Para se ter uma ideia, sua volta mais rápida foi oito décimos mais baixa do que qualquer outra melhor volta da corrida. Foi, sem dúvida, uma das melhores atuações individuais dos últimos quinze anos no automobilismo mundial.

Os críticos de Hamilton podem encontrar alguns detalhes que eu também percebi. Todos os carros da GP2 são iguais, mas o dele era mais “igual” que os outros. Em algumas ultrapassagens, notadamente as sobre Di Grassi e Carroll, a facilidade nas retas era tamanha que o ART mais parecia ser um carro com motor de Fórmula 1 contra bólidos da GP2. Além disso, Hamilton pôde se dar ao luxo de frear mais tarde, acelerar mais cedo ou contornar as curvas com mais velocidade que os outros. Alguns mais paranoicos tendem a dizer que o carro da ART sempre foi suspeito, já que a equipe tem relações estreitas com a organização da categoria.

Não é bem assim, até porque não era do interesse da organização ter Hamilton campeão. Como se sabe, um dos organizadores era Flavio Briatore, também diretor da equipe Renault de Fórmula 1 naqueles dias. Lewis Hamilton, por outro lado, era piloto protegido da McLaren. Qual seria o interesse de uma categoria apoiada pela Renault em ver campeão um sujeito que estreará diretamente na McLaren? Além disso, havia pilotos apoiados diretamente pela Renault no grid, como Nelsinho e Di Grassi. E ambos foram engolidos com facilidade por Hamilton. Cadê o carro do outro planeta para pilotos da montadora?

A verdade é que a ART Grand Prix preparou um carro muito melhor que o da concorrência. Aparentemente, pela velocidade espantosa alcançada nas retas, a equipe deve ter optado pelo uso de menos asa traseira do que as concorrentes. E outros fatores, como a tração, o consumo de pneus e a capacidade de frenagem, são ajustados pelos engenheiros e mecânicos da própria equipe. Os da ART, como sabemos, são os mais competentes da GP2. Não por acaso, a equipe se dá ao luxo de cobrar o maior preço entre todas as equipes. Em 2011, Jules Bianchi e Esteban Gutierrez precisarão desembolsar quase dois milhões de euros para correr.

E vamos falar a verdade: Lewis Hamilton é um piloto diferenciado e merecia o carro que pilotou. Em 2006, o grid da GP2 tinha vários nomes bons. Alguns deles, como Glock, Nelsinho, Di Grassi e Petrov, chegaram à Fórmula 1. Outros, como Lopez, Premat, Carroll, Ammermüller, Pantano e Filippi, passaram perto. Mas nenhum deles estava no nível do britânico. Espero vê-lo dando trabalho para a Red Bull neste ano. E que mais títulos venham para ele.

Ontem, o mundo do automobilismo tomou um choque ao saber do gravíssimo acidente sofrido pelo polonês Robert Kubica, piloto da Renault na Fórmula 1, no rali Ronde di Andora, realizado nas proximidades de Gênova. Kubica pilotava seu Skoda Fabia com o navegador Jakub Gerber quando escapou e bateu no muro de uma igreja e, em seguida, em um guard-rail. Um pedaço deste guard-rail adentrou o Skoda e deslocou todo o sistema de transmissão e motor para o espaço do piloto, o que acarretou inúmeras fraturas a Kubica, levado de helicóptero ao hospital.

Por lá, os médicos realizaram uma complicada cirurgia de sete horas visando restaurar a mão direita do polonês, seriamente afetada e ainda passível de amputação. Felizmente, as coisas melhoraram significativamente. Nesse exato momento, Kubica está sedado e os médicos estão deliberando sobre o que fazer com as demais fraturas.

Apesar da gravidade do acidente, não temo por sua vida, e talvez nem por sua carreira. As fraturas, em que se pese terem sido graves, são reversíveis com a medicina moderna. A mão direita é a única parte cujo comprometimento ainda é impossível de ser mensurado, mas um pouco de esperança não faz mal a ninguém. Espero ver Robert Kubica, considerado por mim o melhor piloto da Fórmula 1 no ano passado, totalmente recuperado, física e psicologicamente. E quero vê-lo de volta ao automobilismo, mas isso daí é algo totalmente irrelevante.

Alimento minha esperança com a história. Outros pilotos de Fórmula 1 já se envolveram em acidentes gravíssimos ocorridos em outras categorias, sobreviveram e ainda puderam continuar competindo. Conto aqui a história do suíço Marc Surer, caso muitíssimo parecido com o de Kubica. A diferença é que Surer passou bem mais perto da morte.

De carreira irregular, Marc teve como ponto alto o título na Fórmula 2 em 1979. Na Fórmula 1, categoria na qual competiu entre 1979 e 1985, ele só conseguiu fazer dois anos estritamente completos. Seus melhores resultados foram dois quartos lugares, no GP do Brasil de 1981 e no GP da Itália de 1985. E sua carreira foi marcada pelos acidentes violentos: Surer chegou a fraturar as pernas em dois acidentes consecutivos em Kyalami, nas edições de 1980 e 1982. Mas nada se compara ao que aconteceu no Rally Hessen.

O ADAC Hessen-Rallye é um dos ralis mais perigosos do mundo, atravessando trechos velocíssimos rodeados de árvores e morros. Em meados dos anos 80, a moda no mundo dos ralis era botar pra correr aqueles enormes e majestosos carros do Grupo B, verdadeiros foguetes de regulamento livre. A velocidade e exuberância desses carros, no entanto, cobraram seu altíssimo preço: as várias tragédias.

Em 1985, durante o Tour de Corse, o Lancia do italiano Attilio Bettega caiu em um penhasco e atingiu uma árvore, matando o piloto na hora. No ano seguinte, o astro finlandês Henri Toivonen também bateu contra uma árvore no mesmo Tour de Corse e morreu no local. Após o acidente de Toivonen, as pessoas envolvidas no rali começaram a discutir sobre um possível banimento dos carros do Grupo B. Menos de um mês depois, uma nova tragédia sacramentou de vez o fim destes belíssimos porém perigosos veículos.

31 de maio de 1986, 15º estágio especial do Rally Hessen. Este estágio utilizava algumas estradas que formavam o antigo circuito de Schottenring, localizado ao norte de Frankfurt. Anoitecia. Um Ford RS200 cortava as tais estradas a mil. Dentro dele estavam o piloto Marc Surer, piloto regular da Arrows na Fórmula 1, e o co-piloto Michel Wyder. Lá do alto, o helicóptero acompanhava o carrinho branco. As imagens eram bonitas de se ver. Mas a pista não estava tão segura. Havia chovido algum tempo antes e as poças eram inúmeras. Surer acelerou sobre uma delas. O carro escorregou para a esquerda, saiu da pista e sua lateral esquerda acertou uma árvore com tudo.

A partir daí, hades. O RS200 explodiu e se dividiu em duas gigantescas bolas de fogo, que davam cambalhotas até pararem sobre a grama. Wyder, irmão de um famoso jornalista na Suíça, morreu no local. O carro tinha mão inglesa e o co-piloto ficava do lado esquerdo, exatamente o atingido na pancada contra a árvore.

Com a explosão, Surer foi arremessado para fora do carro. O piloto estava consciente, mas completamente dolorido e envolto em chamas. Restou a ele se arrastar até um pequeno córrego que se encontrava a alguns metros para se livrar das chamas. O saldo final dos ferimentos foi impressionante: queimaduras de segundo e terceiro grau pelo corpo e múltiplas fraturas, sendo as mais graves relacionadas aos dois tornozelos.

Surer foi resgatado rapidamente e levado de helicóptero ao hospital em estado gravíssimo. Faltava apenas uma semana para o GP do Canadá e a Arrows teve de se virar pra arranjar um substituto. Acabou tentando trazer Christian Danner, mas o alemão não conseguiu ser liberado de seu contrato com a Osella. No fim, correu apenas com o carro de Thierry Boutsen. Isso, porém, pouco importava. A preocupação de todos era com o estado de Marc Surer. Se ele voltaria a correr ou não, isso era o de menos.

Foram três meses de convalescença dolorosa. O negócio foi tão feio que Marc precisou de nada menos que 41 transfusões de sangue durante todo esse tempo! No fim, ele conseguiu se recuperar por completo de maneira notável. E para felicidade de toda a Fórmula 1, Surer apareceu no paddock durante o GP de Portugal. Ainda cambaleante, o helvético anunciou que não voltaria a correr mais na Fórmula 1. Em janeiro do ano anterior, ele havia dito que estava querendo abandonar a categoria para recomeçar em outro lugar. No entanto, preferiu continuar e tentou levar outros campeonatos concomitantemente. Depois daquele acidente, no entanto, era melhor se dedicar a uma coisa só.

Ainda em Estoril, Surer anunciou que pretendia disputar o campeonato europeu de carros de turismo pela Ford ou pela BMW. No fim, acabou optando por um outro convite feito pela montadora alemã, para ser instrutor de pilotagem, emprego tranquilo e bem-remunerado.  Desde então, Marc Surer é funcionário da BMW e já se envolveu em várias iniciativas da empresa.

Ainda hoje, Marc Surer aparece nos paddocks da Fórmula 1 para dizer um oi ao pessoal. É muito bom ver este sujeito, conhecido pela simpatia e pelos casamentos com coelhinhas da Playboy, perambulando por aí. Espero que Kubica tenha uma recuperação tão rápida quanto. E que consiga voltar a correr. Quanto às coelhinhas da Playboy, ele que se resolva com sua namorada.

Você já viu esse vídeo aqui? É de um acidente que aconteceu em Zandvoort com um piloto de Fórmula Ford há cerca de 20 anos. As imagens são relativamente conhecidas entre aqueles indivíduos mórbidos que, como eu, gostam de um acidente daqueles. Se você nunca viu, dê uma olhada. É meio forte.

Eu já tinha visto esse vídeo há alguns anos, e sempre tive a curiosidade de saber o que havia ocorrido com o piloto. Os boatos eram inúmeros e diziam que o cara havia ficado em coma por um bom tempo ou que ele simplesmente tinha ido dessa para uma melhor. Mas eis que uma informação definitiva surge nos comentários do próprio vídeo: o piloto não sofreu nada de mais grave e competiu em Zolder alguns dias depois. E qual era a fonte da tal informação? O próprio piloto, o belga Marc Delpierre!

Por incrível que pareça, não foi a primeira vez que ouvi falar de Delpierre, hoje com 40 anos e dono de uma empresa monegasca de relações públicas. Há dois anos, dei a tremenda sorte de achar um livro belga que reportava toda a temporada de automobilismo na Europa em 1990. E havia, neste livro, uma foto em alta definição de Marc andando com seu F-Ford patrocinado pela Camel – o carro que, por sinal, aparece no vídeo. Mandei um e-mail a ele pedindo uma entrevista. Solícito, me respondeu em poucas horas e em nada menos que sete mensagens!

COMO FOI O ACIDENTE?

O acidente aconteceu em Zandvoort em abril de 1990. Eu estava correndo com um monoposto fabricado em 1989. Nos treinos, estava muito difícil fazer uma volta rápida com aquele carro, mas consegui me classificar em sexto no grid. Na corrida, tive uma ótima primeira volta! Na primeira vez eu que cheguei lá no retão dos boxes, eu estava colado no carro que ia à minha frente. Então, eu posicionei meu carro para ultrapassá-lo uma fração de segundo além do recomendável.

Acabei tocando na roda traseira do carro que estava na minha frente e a suspensão dianteira do meu carro acabou se quebrando. Perdi o controle e bati a mais de 230km/h! Você viu o acidente. Tive uma EQM (experiência de quase-morte) e voltei à vida alguns minutos depois. Fui transportado ao hospital, mas os médicos não detectaram fratura nenhuma! Duas semanas depois, eu estava pilotando novamente em Zolder! Logo depois, fui para a Inglaterra competir no campeonato britânico de Fórmula Ford.

Quando vi o acidente pela primeira vez, pensei “Marc, você é sortudo!”. Não era minha hora. 

E ESSA EXPERIÊNCIA DE QUASE-MORTE?

Ah, são sempre as mesmas coisas estranhas que costumam dizer a respeito. Logo após a batida, tive uma imensa sensação de serenidade, de completo bem-estar. Depois, senti que estava voltando por um túnel branco… e acordei com meu pai e o diretor da minha equipe conversanado comigo.

VOCÊ CHEGOU A ANDAR NA FÓRMULA 3 OU NA FÓRMULA 3000?

Eu cheguei a competir na Barber SAAB, que é o equivalente a uma Fórmula 3. Eu até cheguei a fazer testes com um carro de Fórmula 3 de uma equipe francesa, mas como eu não tinha dinheiro, não deu para fazer uma temporada com ela.

ENTÃO, SEU PROBLEMA ERA DINHEIRO, CERTO?

Sim, e esta é a razão pela qual deixei a Europa e migrei para os Estados Unidos.

A história da EQM é bizarra. Outra coisa legal é o carinho que ele tem por Ayrton Senna:

Eu encontrei Ayrton em Snetterton uma vez. Ele estava testando seu McLaren por lá. Foram poucos minutos na garagem. Ele me deu alguns bons conselhos sobre o carro, sobre alguns acertos e sobre traçados. Seu interesse por Fórmula Ford era tão grande quanto por Fórmula 1. Foi um momento inesquecível. Quando você conversava com Ayrton, podia sentir sua paixão, sua energia positiva…

Sinto sua falta. Quando vi seu acidente, pensei que ele não morreria, se recuperaria e se tornaria o campeão mundial de 1994. Mas não aconteceu. Aquele era seu momento de ir embora. Que dia triste para o automobilismo!

A quem interessar possa, a carreira de Marc Delpierre não é lá muito longa, mas é bastante razoável. Entre 1983 e 1986, ele competiu no kart local e foi campeão da Classe 3 do campeonato de Benelux (Bélgica, Holanda e Luxemburgo). Entre 1987 e 1989, ele passou a competir também nos kartismos europeu e mundial, e também não foi mal. Entre 1990 e 1992, ele correu em diversos campeonatos de Fórmula Ford, subiu sete vezes no pódio e foi campeão do Loctite Challenge em 1991. Entre 1993 e 1994, fez algumas corridas no campeonato americano Barber SAAB. Mas a esta altura, Delpierre já estava comprometido com seus negócios de relações públicas e marketing esportivo e decidiu abandonar sua carreira como piloto no fim de 1994.

O carro de Delpierre: antes...

... e depois do acidente

Automobilismo é, definitivamente, um negócio cruel. O cara investe sua vida, seu tempo, o dinheiro e a paciência dos pais para realizar o sonho de ser um piloto de Fórmula 1. Se ele dá errado logo no kart, tudo bem, o sonho acaba, a realidade volta à tona e resta fazer uma faculdade ou cuidar da quitanda da mãe. O problema é quando a carreira engrena e o jovem piloto começa a perceber que possui talento o suficiente para brilhar no topo. Ele chega à World Series ou à GP2, anda muito bem e descobre que… a Fórmula 1 continua tão inacessível como sempre. Este é o caso do português Álvaro Parente.

Álvaro Parente é um dos melhores pilotos do mundo fora da Fórmula 1. Exagero meu? Deve ser, sou apegado a hipérboles. Mas o caso é que o cara tem um currículo muito melhor do que o de muito piloto da Fórmula 1 e da Indy. Álvaro já foi campeão da Fórmula 3 inglesa em 2005 e da World Series by Renault em 2007. Além disso, contabiliza vitórias na Fórmula 3 espanhola, na Superleague e na GP2. Na pista, é veloz e muito raramente comete erros. Pela lógica, deveria estar na Fórmula 1 e, no mínimo, em uma equipe média. Mas quem disse que há lógica na Fórmula 1?

Parente é um dos casos mais lamentáveis de pilotos talentosos sem dinheiro. Em seu país, as empresas demonstram pouco interesse em patrocinar seus pilotos. Nem sempre foi assim. No início dos anos 90, empresas como a petroleira Galp patrocinavam maciçamente pilotos como Pedro Chaves, Diogo Castro Santos, Pedro Lamy, Manuel Gião e Pedro Couceiro.  Lamy fez a Fórmula 3000 em 1993 com um batalhão de patrocinadores que incluía até mesmo a gigante japonesa dos videogames Nintendo. Com o passar do tempo , o Grande Prêmio de Portugal saiu do calendário, as categorias portuguesas se enfraqueceram e sobraram apenas iniciativas individuais de gente como o próprio Parente e Antônio Félix da Costa, da Fórmula 3 européia.

Em várias ocasiões, a carreira de Parente quase foi interrompida por falta de fundos. No fim de 2007, mesmo com o título da World Series, ele cogitou abandonar tudo. Sua carreira foi salva pela Unicer, uma grande empresa lusitana que produz vários tipos de bebida. Dizem que a recomendação de Parente saiu do astro do futebol Cristiano Ronaldo, um dos patrocinados pela empresa. Com o apoio, Álvaro encontrou uma vaga na razoável Supernova para correr na GP2 em 2008. E assim ele levou o emblema da Soccerade, um dos produtos da Unicer, em seu carro.

Nesse ano, tudo indicava que a sorte dele mudaria. A Virgin o chamou para ser um dos dois pilotos reserva da equipe, ao lado do baiano Luiz Razia. Por pior que a Virgin fosse e por menos testes que houvesse, a oportunidade de se vincular a uma equipe de Fórmula 1 era um sonho para Álvaro Parente.  Logo, porém, o sonho desmoronou e se transformou em uma desagradável situação. Seu principal patrocinador na empreitada, o Instituto de Turismo de Portugal, o deixou na mão faltando apenas alguns dias para a apresentação oficial da equipe. E olha que foi o Instituto que o obrigou a assinar com a Virgin em detrimento de outras duas equipes. Enfim, Álvaro deu o azar de se envolver com gente que não valia a pena.

Neste último fim de semana, a Coloni o chamou às pressas para correr na etapa de Spa-Francorchamps da GP2 no lugar do dispensável Alberto Valério. Parente entrou no carro vestindo apenas um macacão branco sem qualquer sinal de patrocínio. É visível que Paolo Coloni o convidou apenas por camaradagem e por uma questão de emergência. Mesmo assim, Álvaro fez uma grande apresentação. Apesar de ter feito apenas o 16º tempo na classificação, ele ganhou cinco posições na primeira volta e tentou uma muitíssimo bem sucedida estratégia de permanecer na pista pelo maior tempo possível. No final da corrida, o português se encontrava na liderança com mais de 23 segundos de vantagem sobre o segundo colocado. Fez a parada e voltou com tudo, quase tomando a vitória de Pastor Maldonado. Terminou em segundo. No dia seguinte, Álvaro também fez uma corrida agressiva e se envolveu em uma das melhores manobras de ultrapassagem dos últimos anos, mostrava no vídeo aí embaixo. Terminou em terceiro.

Como um cara desses está fora da Fórmula 1?

Gerson Gouveia? Quem é este?, pergunta alguém não tão informado.

Gerson é um dos melhores pilotos da atual temporada da Stock Car V8. Não é difícil reconhecê-lo. Seu carro, pintado de azul e preto, carrega o número 53 e é patrocinado pela Goodyear e pela Gouveia Metalúrgica, empresa de sua abastada família. Na vida pessoal, ele é casado com a estudante de jornalismo Diana Rodrigues, embora já tenha apresentado alguns claros pendores pedófilos. À primeira vista, a descrição parece indicar a vida de um personagem de novela. E é mesmo. Representado por Marcello Antony, Gerson é um dos principais personagens de Passione, novela da TV Globo.

Como em toda novela global, o enredo é previsível, forçado, superficial e até mesmo errático. Apesar de todo o background de corridas, as atenções estão voltadas para o computador de Gerson. O que será que o aflige tanto quando alguém se aproxima da máquina? As evidências indicam que ele guarda um bom número de fotos de criancinhas para seu deleite sexual. Como em toda novela global, previsível, forçada, superficial e até mesmo errática, deve ser isso mesmo: Gerson é pedófilo. E é isso que importa, no fim das contas. A Stock apenas empresta sua grife e toda sua estrutura para servir como cenário de uma historinha boba.

Já andei falando um tempo atrás sobre a subserviência da Stock Car perante a Globo. A categoria move montanhas para agradar a emissora e recebe, em troca, alguns minutos compartilhados com esportes praianos e reportagens sobre a cor da cueca do Neymar na programação dominical global. Uma das concessões foi exatamente ceder espaço para as gravações da tal novela. Para isso, após uma sessão de treinos da última corrida realizada em Interlagos, alguns pilotos (14, mais precisamente; o restante do grid foi completado com edição computadorizada) foram colocados na pista para fazer algumas voltas simulando uma corrida com Gerson Gouveia. Eles gostaram, é claro. Alguns deles, como Norberto Gresse e Lico Kaesemodel, tiveram seus quinze minutos de fama, que não conseguem obter nas corridas de verdade, e puderam expor seus patrocinadores. No fim das contas, o único que se incomodou um pouco com esse negócio foi Thiago Camilo. O incômodo, aliás, se deu pelo motivo errado: ele estaria incomodado com a possibilidade de Gerson Gouveia ser gay. E, no fim das contas, em Interlagos, ele deixou que alguns artistas entrassem no seu carro. E tudo ficou por isso mesmo, como sempre ocorre na Stock.

Não estou dizendo que a Stock Car deve chutar a bunda da turma de Passione e criar um clima ruim com a Globo. Se Carlos Col e companhia sentem que a novela trará uma atenção maior para a categoria, que venha. O problema é efetuar um enorme esforço por tão pouco espaço, e de baixa qualidade. A Stock teve de adequar um horário de seu cronograma em Interlagos e simular uma corrida completa desde o burburinho anterior à largada. Em troca, a categoria quase não é citada. E quando aparece na telinha, ganha contornos irreais. Para a novela, pouco muda, já que não é intenção dela expor os pormenores da Stock. Mas e para o automobilismo? Qual é o ganho em ter aquilo que foi exibido no capítulo do dia 5 de julho? O capítulo em questão é esse daí do vídeo. Não costumo ver novelas, mas dei a sorte (ou não) de ter assistido a esta pérola na TV.

O vídeo fala por si só, mas sigo com os comentários. Na corrida em questão, Gerson Gouveia larga em segundo. Dou um doce pra quem acertar o pole-position escolhido pelo pessoal da novela. Após a largada, Gouveia ultrapassa o darling global na curva que identifiquei como sendo o Laranjinha e assume a liderança. Um indivíduo reclamão e perfeccionista até o fio de cabelo como eu não deixaria de perceber que a edição de imagens é completamente aleatória, criando uma sequência completamente errada da ação. O piloto sai da Ferradura, entra na Junção, desce no S do Senna, segue pela reta dos boxes, completa o Pinheirinho e segue em diante, confundindo a cabeça deste pobre infeliz.

As imagens misturam a movimentação dos carros com closes de Gerson Gouveia, que faz a corrida pensando no pé na bunda que tomou de Diana alguns momentos antes. Nisso, eu reconheço: apesar de novelístico, acontece do piloto ir pra corrida pensando nessas coisas. Diz a lenda que Ivan Capelli passou vergonha na Ferrari e na Jordan porque havia tomado um belíssimo chifre de sua esposa. E o próprio Senna teria descoberto, alguns dias antes da fatídica corrida de Imola, algumas histórias bem desagradáveis envolvendo Adriane Galisteu. Mas ressalto: são lendas. Não provo nada. Voltando ao Gerson, era visível que ele não tinha condições psicológicas para a corrida. Mais cedo ou mais tarde, o erro aconteceria.

E aconteceu. Gerson e o darling global se tocam na entrada do S do Senna, e o carro de Gouveia segue reto na curva. Contrariando as leis da física promulgadas por Galvão Bueno, o carro rodopiou e deu um belíssimo duplo twist carpado do nada. O que se seguiu foi uma série de capotagens de fazer Gualter Salles corar de inveja. Após algumas piruetas, o carro de Gerson Gouveia parou de cabeça para baixo, e lá estava o piloto inconsciente e com sangramento no nariz. E terminou aí o show. Sylvester Stallone, criador do horrendo Driven, se sentiria orgulhoso do filme que fez. Apenas um post scriptum: Driven é de 2001, época em que os efeitos especiais ainda não eram tão avançados.

Tempestade em copo d’água? Pode até ser. Afinal de contas, não é intenção da novela se aprofundar no tema automobilismo. A dona de casa que mora na Seropédica, com certeza, não está ligando se o carro capotou de maneira bizarra ou se o jogo de câmeras é irreal. O que importa é saber se o tal do Gerson Gouveia é pedófilo ou não. No fim das contas, todos sabemos. Sabemos que Gerson Gouveia é pedófilo. Sabemos que a Stock Car se prestou a algo risível. Sabemos que o pior de tudo é que a categoria gostou.

A Fórmula 3000 era muito foda. Diversão garantida para seus doze espectadores. Você olha esse vídeo, pensa por alguns décimos de segundo e concorda com o escriba. Sim, a “três mil” era foda.

Essa meleca do vídeo ocorreu no antigo, longuíssimo e exuberante autódromo de Hockenheim no ano de 1993. Este trecho aí é o início do primeiro grande retão, que sucede a Nordkurve. O acidente merece uma descrição, bem como seus personagens.

O primeiro a bater é Michael Bartels, em seu Reynard-Cosworth pintado com as cores da equipe Pacific. Bartels fazia seu terceiro ano completo na Fórmula 3000 e era companheiro de David Coulthard em uma equipe que já estava em vias de estrear na Fórmula 1 no ano seguinte. O alemão foi um raro caso de piloto que andou na Fórmula 1 (tentou largar com um Lotus-Judd, sem sucesso, em algumas corridas de 1991) antes de correr na Fórmula 3000. Ele entrou rápido demais na Nordkurve, colocou as rodas do lado esquerdo na brita, perdeu o controle, rodopiou e bateu com força no guard-rail do outro lado. Para sua infelicidade, o Reynard ricocheteou de volta à pista e ficou parado por lá. E aí começa a festa.

Os pilotos que vêm atrás em alta velocidade são obrigados a fazer malabarismo para desviar do carro de Bartels. Alguns conseguem, mas outros não. Conheçamos alguns personagens da história.

Massimiliano Papis, 24, era um piloto italiano com cara de tonto que mostrava muita velocidade misturada com completa falta de bom senso. De razoável passagem pela Fórmula 3 italiana, “Max” estreava na Fórmula 3000 naquele ano correndo com um belo Reynard-Cosworth ciano e azul escuro preparado pela fraca Vortex. Até Hockenheim, ele tinha marcado cinco pontos e estava entre os dez primeiros. Nada mal.

Constantino Junior, 25, era um piloto brasileiro de razoável capacidade. Você já deve ter ouvido falar nele. Você já deve ter até voado na companhia dele. Sim, Constantino é o presidente da Gol Linhas Aéreas. Hoje em dia, ele se arrasta nas últimas posições na Stock Car V8 como hobby. Poucos se lembram, no entanto, que o magnata já chegou muito perto da Fórmula 1. Vice-campeão da Fórmula 3 sul-americana, ele fazia sua temporada de estréia pela PTM, equipe inglesa que tinha mais dinheiro do que capacidade técnica. Patrocinado por uma concessionária da Mercedes sediada em Portugal, Junior corria em um Reynard-Cosworth cujo layout lembra muito o da Jordan em 1995.

Jerôme Policand, 29, era um piloto francês do meio do pelotão que dirigia um Reynard-Cosworth da Omegaland. Não sei quase nada a respeito dele. Se não me engano, corre até hoje. Vou conferir, volto já. É, passei perto. Ele se aposentou em 2009. Já correu muito na LMS. Na Fórmula 3000, fez quatro temporadas completas. Nunca fez nada de relevante.

Pois bem, o acidente começa quando Policand se assusta com os destroços do carro de Bartels e freia violentamente. Constantino, que vinha mais ou menos ao seu lado, também reduz. Logo atrás, Max Papis surge como um doido e faz um strike nos dois carros à sua frente. O carro do francês perdeu a asa traseira, enquanto que o brasileiro rodopiava e acertava o guard-rail.

Com a frente razoavelmente destruída, Papis encosta seu carro na grama e abandona a corrida. Constantino, após bater no guard-rail, ricocheteia de volta à pista, acerta a lateral de Policand e para na grama em seguida. Fim de prova para ele também. Sem asa traseira, Jerôme também não tem muito mais o que fazer e abandona a corrida metros à frente.

Bandeira vermelha. Era um acidente que tinha tudo para ser esquecido, mas alguma boa alma fez o upload do vídeo no Youtube. E agora ele está aqui. Sensacional, essa Fórmula 3000.

Ficou assustado com o acidente de Mike Conway na última volta da Indy 500 deste ano? Pois saiba que, há sete anos, houve um acidente muito, mas muito pior. Kenny Brack, este é o cara do carro que explodiu nas telas de proteção. Ele sobreviveu.

Eu sempre achei Brack um piloto de extremo talento, mas não conseguia gostar dele nos tempos da CART por ser bom demais nos ovais, impedindo qualquer outro piloto de vencer. Apesar dele ter obtido o título da Indy Racing League em 1998 e de ter vencido a Indy 500 no ano seguinte, o sueco ficou famoso mesmo ao dirigir o Lola-Ford amarelo e branco da equipe Rahal nas temporadas 2000 e 2001 da CART.

Em 2003, ele voltou para a Indy Racing League pela mesma Rahal. Correndo contra equipes em melhor situação, Brack não teve um ano fácil. No entanto, o pior momento ocorreu justamente nas últimas voltas da última corrida da temporada, realizada no velocíssimo e perigosíssimo oval do Texas.

Kenny Brack seguia lado a lado com o sul-africano Tomas Scheckter quando ambos tocaram rodas e o Dallara-Honda do sueco levantou vôo e bateu violentamente nas telas de proteção. Enquanto pedaços voavam para todos os lados, o que restava do cockpit desintegrado caía na pista e seguia rodando até parar. O narrador do vídeo perdeu a voz. Quem estava acompanhando não pensou duas vezes antes de exclamar “já era”.

Após sobreviver a uma força de 214 G (recorde mundial) e dar entrada no Parkland Memorial Hospital inconsciente, com fraturas em dois tornozelos, no fêmur direito, no úmero direito e na terceira vértebra cervical, Kenny Brack passou por um longuíssimo período de 18 meses de convalescência e inúmeras cirurgias. Depois disso, ele até voltou às pistas para fazer a Indy 500 de 2005. Mas a pedido de sua mulher, Brack abandonou o automobilismo profissional. Hoje, ele é músico e, de vez em quando, faz shows de abertura de eventos de automobilismo.

Não são muitos os felizardos que podem dizer que morrerão sem deixar de ter visto um carro da Mastercard Lola em movimento. Nesse momento, você será um deles.

É um vídeo de apenas quinze segundos. Nele, Ricardo Rosset perde a traseira de seu Lola T97/30 na curva 4 e dá uma leve rodada em direção ao muro. O contato foi fraco, e provavelmente Rosset voltou aos pits para os devidos reparos, não tenho certeza. Atrás dele, Eddie Irvine e sua Ferrari.

A rodada é uma interessante amostra da total falta de equilíbrio do Lola. Expliquemos o trecho da pista onde tudo aconteceu: a curva 4 é uma curva de progressiva reaceleração feita à esquerda em segunda marcha a pouco menos de 140km/h. Ela sucede a curva 3, uma curva de forte freada feita à direita e em terceira marcha a uma velocidade ligeiramente acima dos 140km/h. Note, portanto, que mesmo que a velocidade entre a curva 3 e a curva 4 não mude muito, o piloto precisará reduzir uma marcha, o que implicará uma força de tração maior sobre os pneus. Lembremos que Melbourne é um circuito que é raramente utilizado e a aderência da pista nos treinos é mínima, o que torna a curva 4 ainda mais desafiadora.

No entanto, um carro equilibrado lidaria com este trecho com desenvoltura. Obviamente, não era o caso do Lola T97/30, um bólido que foi desenvolvido em apenas cinco meses sem a ajuda de túneis de vento e que chegou à Austrália com apenas um shakedown feito na Inglaterra. Ao iniciar a reaceleração em uma marcha menor na curva 4, o carro tracionou mais do que seu aparato aerodinâmico permitiria e o resultado foi a escapada de traseira que levou à rodada.

Erro de Rosset? Pode-se argumentar que ele acelerou muito mais do que o que seu carro aguentaria e que um pouco mais de cautela não seria ruim. Mas o que ele poderia fazer? Acelerar menos e perder ainda mais tempo? A velocidade não era alta, ainda mais em se tratando do Lola, e um carro só rodaria em um trecho como a curva 4 daquele jeito se fosse completamente desequilibrado.

Pobre Rosset. Não que ele fosse lá um grande piloto, mas ele pegou três dos carros mais inguiáveis do final da década de 90: o Footwork FA17, o Tyrrell 026 e o Mastercard Lola.

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