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Você sabe bem qual é a efeméride do dia. Todos nós sabemos. Há exatas duas décadas, o automobilismo perdeu o mais emblemático e enigmático de seus praticantes e o Brasil chorou o passamento de um de seus filhos mais prodigiosos, um verdadeiro oásis de orgulho e autoestima no meio de um deserto de problemas e dissabores em que vivíamos. Ayrton Senna da Silva morreu na Tamburello e sua ausência ainda é sentida por muitos após vinte anos. As homenagens mais caras e as adulações mais baratas são muitas e absolutamente justificáveis. Não dá para achar um Senna em qualquer esquina.

Mas não pretendo falar apenas dele hoje. Todos já estão fazendo isso. O SBT fez um belíssimo documentário sobre a morte do tricampeão mundial há alguns dias. A Rede Globo está, muito à sua maneira, prestando sua reverência a Ayrton através de depoimentos dominicais de humoristas obesos e apresentadores narigudos. A mídia escrita, especialmente a esportiva, só terá olhos para ele hoje. Quer se esbaldar de Donington Park, Mônaco, Suzuka e Interlagos? Procure outro espaço. O teor do post aqui é outro.

Piloto de corrida é um bicho estranho demais, meio antinatural, até. Sua cabeça não funciona da mesma maneira que a minha ou a sua. O cara precisa ter algumas características que não são encontradas em qualquer cromossomo.

Em primeiro lugar, a ausência absoluta de medo. O piloto nato é aquele que, diante de uma situação adversa qualquer, não esmorece de forma alguma. O perigo é seu alimento. Quanto mais próxima estiver a morte, melhor.

Não é difícil identificar uma pessoa que pensa dessa forma. Já viu aquela criança que sobe em uma árvore de três metros de altura, perde o equilíbrio, despenca, se esborracha no chão, quebra o braço, quebra a perna, racha a cabeça, imobiliza os ossos por duas semanas, se recupera por completo, sai do quarto e volta à praça justamente para subir novamente na tal árvore? Por pior que seja a dor, por maior que seja o sofrimento de sua mãe, por mais chato que seja o período de convalescença, o garoto simplesmente precisa subir na árvore e enfrentar os fantasmas da altura e da desgraça iminente.

Seu único medo grande é justamente o de não poder enfrentá-lo. O destemido típico prefere morrer a ter de ficar preso de forma definitiva a uma cama ou a uma cadeira de rodas. Mais ainda: ele prefere morrer a ter de viver uma vida confortável, previsível, rotineira e conservadora. Trabalhar como um Almeidinha na repartição da prefeitura de Belford Roxo? Dirigir a 90km/h na Rodovia dos Bandeirantes? Jamais. É melhor morrer do que perder a vida, já dizia o mexicano. A vida é justamente o desafio do medo.

Em segundo lugar, certa ausência de sensatez e prudência. Pessoas sensatas e prudentes são aquelas que agem de forma a maximizar seu bem-estar e minimizar seus riscos. Parece até papo de economista engravatado ou de psicólogo picareta, mas não é. Nenhuma pessoa normal quer viver uma vida perigosa, incerta e bagunçada. Ocorre que, como eu disse lá em cima, pilotos de corrida não são exatamente normais.

Se um Max Chilton da vida fosse sensato, utilizaria a grana do pai para estudar Negócios na London School of Business e se tornaria um executivo de sucesso. Nessas horas, poderia estar trabalhando em um confortável escritório com ar condicionado, cadeira giratória de couro, frigobar, secretária boazuda, uísque e cocaína. Viajaria de primeira classe para Cingapura e Dubai, daria entrevistas para a Fortune e a Economist, apareceria como um exemplo de bom administrador na Forbes, teria uma esposa bonita e bem-sucedida, seria pai de filhos gorduchos e saudáveis e até pilotaria carros de GT3 de vez em quando. Em resumo, Chilton teria uma vida confortabilíssima e segura.

Só que ele não é sensato. Ao invés de tomar o mais confiável dos caminhos, Max preferiu se aventurar no automobilismo, um negócio perigoso, frustrante e pouco lucrativo para a maioria de seus participantes. Hoje em dia, a vida do britânico se resume a andar nas últimas posições com um carro muito ruim, conviver com pessoas ultracompetitivas e insuportáveis, fazer dietas absurdas, temer a constante ameaça de fracasso e desemprego e ainda ouvir críticas de meia-dúzia de blogueiros bobos por aí.

“Ah, mas ele está na Fórmula 1, um privilégio para poucos. A verdade, Verde, é que sua opinião é absurda e carregada de recalque”. Mais ou menos. O fato é que não tenho inveja de piloto de coisa alguma. Não tenho simplesmente porque nunca quis ser piloto de corrida e nem tenho mentalidade para isso, já que sou cagão e sensato.

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O que, obviamente, não significa que eu seja melhor ou pior do que eles. Apenas somos diferentes, seres vivos feitos de materiais distintos, almas que vagam pela Terra com variados propósitos. O fato é que pilotos de corrida se tornam pilotos de corrida apenas porque nasceram para isso, porque o destino quis assim.

Há outras qualidades que os diferenciam do resto da humanidade. Piloto de corrida é um ser altamente obcecado e perfeccionista, do tipo que não tolera uma tangência malfeita, um pneu mal calibrado, uma asa mal ajustada ou um mecânico que não sabe trocar pneus em dois segundos. Não aproveitar uma oportunidade de ultrapassagem é algo feio. Errar uma volta rápida é inadmissível. Perder uma corrida na primeira curva é um pecado capital.

Todo piloto de corrida é ególatra. Ele se vê como a pessoa mais genial e espetacular de todo o universo, digna de atenções e bajulações por parte dos mortais. O automobilismo só serve para comprovar que, além de tudo, ele é mais corajoso e mais veloz do que qualquer outra pessoa que ouse enfrenta-lo. Qualquer um que entre no seu caminho e desfaça esse mito se torna automaticamente seu inimigo. O nome Fernando Alonso lhe sugere alguma coisa?

Todo piloto de corrida é extremamente ansioso. Não pense que eles utilizam seus dias de folga para ler Dostoievski ou praticar ioga no Himalaia. A adrenalina sempre comanda. Quando não estão devidamente instalados em um cockpit, estão andando de jet-ski, pilotando karts ou descendo montanhas geladas sobre esquis. Só sossegam dormindo, ou nem isso. Em muitos casos, apenas a morte consegue pará-los.

Todo piloto de corrida é monotemático. Pergunte a qualquer um o que ele mais gosta de ler e a grande maioria, a começar pelo próprio Senna, afirma que só folheia revistas de carros e automobilismo. Jogos de videogame? Apenas os de corrida. Conversas com amigos? Nada de política, filosofia ou cultura. Muito mais legal é discorrer sobre bielas, difusores e alternadores. São pessoas intelectualmente superficiais, até mesmo irritantes para as mentes mais eruditas. Mas quem se importa? A natureza não os construiu para as ideias e as palavras.

Viu só? Se você não tem essas características, não adianta insistir. Largue o kart e vá estudar.

O sucesso de um piloto, desconsiderando obviamente as variáveis que não são facilmente controláveis (ou seja, dinheiro e sorte), ocorre na medida em que todas as qualidades acima estão plenamente desenvolvidas. Quanto mais “piloto de corrida” é um piloto de corrida, melhor ele será.

Por isso, os maiores “pilotos de corrida” são Ayrton Senna, Jim Clark, Gilles Villeneuve, Fernando Alonso, Michael Schumacher, Sebastian Vettel, Alain Prost, Juan Manuel Fangio, Giuseppe Farina, Niki Lauda, Nelson Piquet e alguns outros. São aqueles que nasceram e viveram apenas para esse propósito. Se não cumprem exatamente todas, ao menos se identificam com a grande maioria das coisas que falei lá em cima.

Isso não significa, porém, que os pilotos que não são Senna ou Schumacher não mereçam respeito. Muito pelo contrário, aliás.

Para que os gênios do parágrafo aí acima tenham existido, foi necessário que uma multidão de competidores abrisse caminho para suas vitórias e títulos. Michael Schumacher não seria ninguém se não fosse pelos seus concorrentes, alguns tão campeões do mundo como ele. Senna, Prost, Hill, Villeneuve, Häkkinen, Coulthard, Frentzen, Barrichello, Montoya, Ralf, Räikkönen, Alonso, todos pavimentaram a trilha de sucesso do alemão. Ayrton Senna, por sua vez, deve agradecer a caras como Prost, Mansell, Piquet, Berger, Boutsen, Nannini, Schumacher, Hill e demais por tê-los vencido. E o mesmo vale para todos os demais campeões.

Mas a lista de coadjuvantes da genialidade não é tão curta. Atrás de um Gerhard Berger, ainda há um Philippe Alliot ou um Andrea de Cesaris. E esses, por sua vez, trilharam suas próprias carreiras trucidando seus rivais nas categorias de base. Em última instância, os gênios não seriam gênios se não fosse pelos kartistas, os mais humildes praticantes do esporte a motor. Porque a genialidade é uma coisa relativa. Não dá para ser o melhor de todos se não há quem possa ser pior.

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O que une todos os competidores profissionais do mundo é a escolha por uma profissão difícil, ingrata, instável e nem sempre rentável cujo grande argumento a favor é a remota possibilidade de entrar para a história como um monstro do esporte. A cada ano, milhares de jovens ingressam no kartismo pensando já no dia em que celebrarão seu primeiro título mundial na Fórmula 1. A grande maioria deles nunca entrará em um monoposto. Alguns sortudos chegarão à Fórmula 3 ou à GP2. Os mais abençoados pilotarão um carro de Fórmula 1. Um ou outro será campeão do mundo. E apenas um núcleo restritíssimo de nomes excepcionais gozará de alcunhas como “mito” e “gênio”.

Mas vai contar isso para o pequeno garoto que se inspirou no campeão de Fórmula 1 na hora em que decidiu correr de kart. Por menos talentoso que seja, o piloto de corrida nato é aquele que confia cegamente em seu taco e opta por levar sua carreira até o ponto mais alto, nem que para isso precise sacrificar sua própria vida ou o orçamento familiar. Não adianta falar que o automobilismo é uma brincadeira estúpida de ricos, que muito dinheiro está sendo jogado no lixo ou que são pouquíssimos os que conseguem sucesso nesse negócio. A vocação, no fim das contas, é o que fala mais alto.

É um mundo doido, o do esporte a motor. No meio de tantos egos inflamados, de tantas rivalidades, de tanta pressão, de tantas reviravoltas, o sucesso premia apenas alguns pouquíssimos nomes afortunados enquanto empurra para o canto uma multidão de infelizes. Alguns falecem em batalha. É desses aqui que quero falar.

A morte no automobilismo pode ser interpretada de várias formas. As mães e viúvas choram e lamentam que seus amados tenham optado por uma trilha tão desnecessariamente perigosa. Os desafetos do esporte dizem que esse negócio de corrida é a maior idiotice jamais inventada pelo ser humano – é simplesmente doentio se divertir com algo tão arriscado. Pilotos e espectadores, no entanto, têm uma visão um pouco mais épica da desgraça capital.

Nós, que estamos nas arquibancadas e nos sofás mundo afora, agimos de forma ambígua e até meio hipócrita perante o falecimento de um ídolo. Choramos, limpamos as lágrimas, ignoramos que motorsport is dangerous e continuamos acompanhando as competições normalmente. Queremos ver ultrapassagens, manobras arriscadas, pilotos contornando a Eau Rouge o mais rápido possível, duelos sob temporais, superação de limites. Queremos ver acidentes também.

O piloto curiosamente também não liga muito para a morte. Entra no carro e vai para a ação sem imaginar que a próxima curva pode ser a última. De vez em quando, isso realmente acontece. Ele morre. Mas morre em alta velocidade, batalhando contra os fantasmas da derrota, tentando quebrar seus próprios recordes, fazendo aquilo que ama e sabe.

Fazendo aquilo que ama e sabe. Quantos de nós gostaríamos de estar nessa condição? Eu adoraria passar a vida escrevendo, mas as contingências econômicas não me permitem. Outros adorariam ser roqueiros ou praticantes de esportes radicais e, ao invés disso, estão trancafiados em escritórios escuros e mofados. Os pilotos profissionais de corrida, ao contrário, estão ali porque gostam da coisa e foram preparados pelo acaso para isso. Podemos chamá-los de loucos, irresponsáveis, egoístas, doentes, completos imbecis. O que não podemos é negar sua natureza.

Para um piloto de corrida, a morte apenas faz parte do jogo. Choramos nós, ele apenas seguiu o destino que lhe foi traçado ainda antes de vir ao mundo.

O primeiro de maio, para mim, não é apenas um feriado trabalhista ou uma data trágica. É, também, o Dia do Piloto de Corrida. Fica, então, a homenagem a todos aqueles que pereceram nas pistas enquanto buscavam cumprir sua vocação natural, a de obcecado maluco que quer apenas ser o melhor e mais corajoso de todos. Valeu, Alberto, Allan, Bill, Bruce, Dale, Dan, Elio, Gilles, Gonzalo, Gordon, Greg, Gustavo, Helmuth, Henry, Jeff, Jim, Jo, Jochen, Jovy, Laércio, Lorenzo, Luigi, Manfred, Marcel, Marco, María, Michele, Patrick, Paul, Pedro, Peter, Rafael, Riccardo, Roger, Roland, Ronnie, Scott, Stefan, Tom, Tony, Wolfgang.

Valeu, Ayrton.

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