Até aqui, só sorrisos. Depois...

Continuo a falar sobre a viagem que eu e a minha namorada, a Samia, fizemos a Monte Verde ocorrida neste último fim de semana. Como os senhores sabem, devido à ausência absoluta de fatos mais relevantes no automobilismo mundial, não tive escolha a não ser falar sobre o que fiz naquele gélido distrito da cidade mineira de Camanducaia.

Recapitulando um pouco, era domingo de manhã, meu carro tinha acabado de ser reavivado por um mecânico careiro e estávamos andando pela avenida principal de Monte Verde. Passou um quadriciclo em velocidade bem alta do nosso lado e a Sam me perguntou se a gente poderia andar naquilo lá. Gostei da ideia. Ela gosta de acelerar e eu só tenho minhoca na cabeça. Portanto, fomos atrás de alguém que alugasse quadriciclos.

Havia um cara, um sujeito com cara de duende e boné da Red Bull, que alugava um quadriciclo por cem reais. Uma puta fortuna, mas capitulamos, já que “seria só uma vez na vida” e tudo o que é apenas uma vez na vida vale a pena, mesmo que isso custe um milhão ou uma perna. Nós achávamos que andaríamos em um lugar para amadores, um campo aberto, uma trilha curta e não muito íngreme ou algo assim.

Como sempre, estávamos equivocados. O sujeito com cara de duende e boné da Red Bull nos levou a uma serra completamente escondida a uns dez quilômetros de distância de Monte Verde. Chegamos a uma espécie de chácara, onde havia uns seis quadriciclos prontos para serem judiados. Além de nós dois, alguns outros casais também estavam lá. Em comum, todo mundo querendo acelerar o brinquedo.

Eu e Sam ficamos uns dois ou três segundos recebendo instruções de como controlar o quadriciclo e então tivemos de dar uma volta ao redor de um campo para ver se éramos intelectualmente, fisicamente e emocionalmente aptos para acelerar e frear em terreno plano. Passamos com louvor, nós dois. Eu confiava mais na Sam – ela dirige melhor do que eu, dirige mais rápido do que eu e é bem menos desencanada.

Como funcionaria o negócio? Uma moto nos guiaria no meio de uma trilha. Além do nosso quadriciclo (eu e Sam dividiríamos a condução), haveria mais três nos acompanhando.  Eu começaria pilotando e ela tomaria o volante no meio do caminho. Troço difícil da porra. O guidão era duro pra caramba, assim como o freio dianteiro. O freio traseiro, acionado com o pé, era o mais recomendado para diminuir a velocidade. E o acelerador era bastante sensível. Você é praticamente obrigado a dirigir agressivamente para não perder o controle. Em comparação com uma moto, o quadriciclo é bem mais complicado.

Vamos dizer que o ambiente não jogava a nosso favor. O clima estava feio – não estava chovendo, mas o céu estava ameaçador. A trilha era lascada, com subidas e descidas absurdas. Para piorar, nós éramos o último quadriciclo da fila. Os outros casais seguiam na nossa frente, e na velocidade que eles desejavam.

E vou te contar uma coisa, os caras aceleravam muito. Pareciam profissionais. Enquanto isso, eu tentava sincronizar o meu pequeno cérebro para compreender o uso dos dois freios, do acelerador e do câmbio, também acionado no pé. Como pode perceber, não ando de motocicleta. Já tive contato, mas não tenho carta e nem pretendo. Em compensação, ando de bicicleta. E carrego os vícios, como enfiar o pé no chão para reduzir a velocidade.

Tentando não ficar muito para trás do resto do pessoal, eu dava umas aceleradas e frequentemente ficava à beira de perder o controle. Em alguns momentos, o quadriciclo ameaçava sair da trajetória e eu fazia malabarismo para não cair no barranco. Numa subida mais íngreme, eu acelerei demais em primeira marcha e a porra do quadriciclo empinou. Empinou mesmo, no melhor estilo Videocassetadas. Não capotou para trás por pouco. Mais tarde, a coitadinha da Sam me contou que quase começou a chorar quando fiz aquilo.

Depois de cair num buraco, a Sam quis dirigir. Reclamou comigo, dizendo que eu estava muito agressivo no volante e que eu deveria parar de sair da trajetória. O guia do passeio, que conduzia a moto, voltou para ver se nós estávamos bem, pois tínhamos ficado para trás. Respondemos que sim e seguimos em frente, tentando reencontrar o pessoal. Mas era difícil: eles aceleravam e sumiam.

Sam pegou a direção e também sentiu as dificuldades. Em um momento, ela errou uma curva e passou reto, quase batendo em uma cerca. A curva era de 180°, feita em descida e exigia muita força no braço. Descemos do quadriciclo, empurramos de volta e voltamos à trilha. O pessoal que estava conosco deveria estar bem incomodado. O que pensavam? Aquele casal retardatário estava estragando o nosso passeio! Tinha de ser esse povo barbeiro de Campinas!

Chegamos a uma descida. Ambiente de filme de terror, com o céu totalmente cinza e um monte de pinheiros altíssimos e enfileirados ao redor. Ao se aproximar de uma curva, Sam tentou contorná-la e não conseguiu. Então, ela tentou diminuir a velocidade. O pé enroscou no pedal de freio. O quadriciclo se descontrolou. Seguimos ladeira abaixo rumo à tragédia.

Reagindo instintivamente, Sam se jogou do quadriciclo em alta velocidade e caiu no meio das folhas. Desesperado, eu tentei assumir o controle para parar a máquina e socorrer minha namorada. Nisso, eu também agi instintivamente e voltei a enfiar a bendita da perna no chão. Com isso, o quadriciclo trepidou e passou por cima de mim. E parou. A meleca estava feita.

Enquanto todos lá na frente perceberam que algo de errado havia acontecido e voltaram para nos socorrer, eu me levantei e fui correndo até a Sam achando que ela estava inconsciente ou sem um braço, sei lá. Para meu enorme alívio, ela estava viva, consciente e inteira. Mais ou menos. Estava com a roupa toda suja e cheia de dores pelo corpo, principalmente em uma das pernas. Mal conseguia se levantar. Todo mundo ficou preocupado.

Eu JURO pra vocês que caímos em um lugar mais ou menos assim. Sem brincadeira, o ambiente estava bem parecido com o da foto

Enquanto isso, eu percebi que também estava um pouco machucado. A roda do quadriciclo passou por cima da minha perna e deixou uma bela duma marca um pouco abaixo do joelho. Mas não estava preocupado comigo. Estava pensando na Sam, que estava muito dolorida. Voltamos ao quadriciclo e decidimos completar a descida o mais devagar possível, só no freio. Enquanto isso, o guia nos falou que estávamos perto da base e que poderíamos voltar se quiséssemos. Não pensamos duas vezes: jogamos a toalha.

Mesmo sem acelerar, percebi que o quadriciclo era muito difícil de guiar. A qualquer buraco, ele ameaçava escorregar, tombar, virar do avesso, explodir. Terminei a brincadeira com uma tremenda dor nos dois braços e um calo na mão direita. Para nossa sorte, estávamos a poucos metros do estacionamento. Deixamos o quadriciclo assassino por lá e pedimos para que nos levassem de volta para Monte Verde, já que tínhamos de fazer o check-out da pousada até o meio-dia.

Voltando ao distrito, entramos imediatamente no meu Corsa Sedan. A Sam ainda continuava dolorida e eu preocupado com ela e com a possibilidade da carroça não funcionar. Sei lá, as últimas horas haviam sido tão bizarras que qualquer coisa poderia acontecer.

Pois a porra do carro não ligou de novo. Ah, aí é demais. Sou o sujeito mais azarado do planeta.

Não sabia bem o que fazer. Não tinha dinheiro em espécie, o da Sam estava quase no fim, nossos bancos não existiam em Monte Verde e os nossos dois celulares estavam sem crédito. Entrei numa loja e pedi o telefone emprestado para ligar para o tal mecânico que havia reavivado meu carro, mas ele falou que estava ocupado e que só estaria livre em uma hora e olhe lá. Praticamente o mandei à merda, mas precisei ser mais pragmático e tive de começar a pensar no que fazer.

Avistei um Astra estacionando na mesma rua e pedi ajuda ao seu motorista, um AJ Foyt tupiniquim de 2m de altura e 4m de largura. Solícito, o cara decidiu me ajudar e estacionou seu carro do lado do meu para tentarmos a transmissão de carga. Não funcionou. O Corsa continuou em coma profundo. Estávamos desconfiados do cabo de “chupeta”, que parecia não estar mandando carga. Agradeci ao AJ Foyt e fui atrás de outro que pudesse me ajudar.

Não muito longe de onde estávamos, havia um estacionamento onde trabalhava um cara mais velho que o Bernie Ecclestone e infinitamente mais simpático. Ele aceitou emprestar um cabo para transmitir carga e até levou seu Chevette azul para emprestar a energia. Mesmo assim, o Corsa não ressuscitou. Puto da vida, tentamos a última solução: um tranco em segunda marcha. A Sam, com todas as suas dores, tentou fazer o carro ligar na marra. Não conseguiu. O carro ameaçou descer ladeira abaixo. Duas vezes no mesmo dia, não. Ela puxou o freio de mão com tudo e o Corsa, mesmo inconsciente, fez um belo drift. Empurramos o carro para a lateral da calçada e o deixamos lá. Somente um guincho poderia nos ajudar.

Doloridos, empobrecidos, esfomeados e de péssimo humor, tivemos de voltar à pousada a pé para fazer o check-out. Como o caminho até lá incluía uma subida quilométrica, Sam decidiu não subir nem a pau. Sugeri a ela que ficasse sentada na calçada enquanto eu seguia a pé até a pousada – e tome caminhada. Curiosamente, foi o único momento de um fim de semana tipicamente chuvoso em que o sol bateu mais forte.

Cheguei lá e pedi o telefone para ligar para um guincho. Fui abrir a porta do nosso quarto e… cadê a chave? A maldita tinha ficado na bolsa da Sam e eu teria de voltar até ela para pegá-la. Pedi ao dono da Pousada Aconchego, o camarada Zico, para que fôssemos buscar a Sam e voltássemos com a chave para fechar a conta. O período do check-out já havia expirado em mais de uma hora e corríamos o risco de ter de pagar uma nova diária, mas o Zico perdoou, gente boa como só ele.

Buscamos a Sam, fizemos as malas e pedimos um guincho, que viria de Camanducaia e me cobraria inacreditáveis 600 reais para me levar a Campinas. Enquanto isso, fomos almoçar no centro de Monte Verde. Sem dinheiro, pedimos o prato mais barato do restaurante mais barato que tinha. Mesmo assim, quase quarenta reais de conta. Estávamos mais do que falidos.

O guincho chegou uma s duas horas depois. O motorista era um cara da nossa idade que dirigia de chinelo e ignorava esta viadagem conhecida como cinto de segurança. Mesmo assim, gente boa pacas. Durante a viagem, contou sobre suas proezas, como fazer 210km/h em um Peugeot 206 e participar de um racha com caminhões em plena Fernão Dias a 150km/h. Ele contava tudo isso enquanto sentava o pé e andava a 130km/h, velocidade considerada normal.

Chegamos em casa às seis da tarde. Todos salvos, mais ou menos inteiros  e na bancarrota. Levei o carro para consertar ontem cedo e cheguei atrasado ao trabalho por isso. Qual era o problema? Uma mísera bateria problemática. Duro é gastar 600 reais de guincho e 200 de conserto. Estava guardando uma grana suada. Pois bem, não estou mais.

Este foi o meu fim de semana. Entendo a insatisfação de quem queria ter lido alguma coisa automobilística, mas é que realmente não aconteceu nada de útil. Então, tive de improvisar com historinha.

About these ads